Capítulo 2
Os dias que se seguiram a notícia do falecimento dos meus pais foram os piores da minha vida. Quando eu caía na besteira de relembrá-los Bella era uma figura constante nas minhas memórias. Foi ela quem ficou do meu lado enquanto a mãe dela me dizia o que aconteceu. Eu não consegui entende muito bem o que Renne dizia. Havia um zumbido nos meus ouvidos. O meu coração parara de bater. Eu nem sabia se estava respirando.
Acidente de carro. Motorista bêbado. Nenhum sobrevivente.
Bella chorava muito, mas não soltou a minha mão. Eu fiquei com o celular grudado no ouvido minutos depois de Renee já tê-lo desligado. Ela o pegou de volta e me abraçou chorando descontroladamente. Eu não tinha forças para formar uma gota de lágrima. Ela não disse nada. Só me abraçou. Sabia que nada que dissesse iria me fazer sentir melhor.
Foi exatamente assim durante o funeral. Os dedos dela agarravam a minha mão o tempo todo enquanto os meus pais eram enterrados. Era só isso que eu conseguia sentir. Estava anestesiado. Nem mesmo o abraço do meu irmão era o suficiente para me tirar do torpor. Só Bella e a pele dela. Com toda a certeza eu estaria muito mais fodido se ela não estivesse ali.
Quando os meus pais já estavam a sete palmos do chão ela enrolou os seus braços pelo meu pescoço e encostou a sua bochecha molhada na minha. Por cima do ombro dela eu via a terra que encobria os resquícios das duas pessoas que mais amei em toda a minha vida. Assim que senti o cheiro e o corpo dela sob as minhas mãos, fechei os olhos e me perdi nela. Escondi o meu rosto em seu pescoço para que ninguém visse a porra das lágrimas que caíram pela primeira vez e, de novo, ela não disse nada. Só me abraçou forte por sabe Deus lá quanto tempo. Segundos, horas, dias, séculos.
E quando eu finalmente descarreguei toda aquela merda que amassava o meu peito, eu me recusei a olhar para ela. Ela sabia que eu tinha chorado e jogado nos seus ombros o peso das minhas emoções. Eu nunca me senti tão desconcertado com uma pessoa quanto naquele momento.
Mas ela não deixou que eu me afastasse tão facilmente. Quando desviei o meu rosto úmido para os meus pés, ela o puxou de volta para cima, para os seus olhos castanhos – agora, vermelhos e inchados, mas igualmente belos – e enxugou as minhas lágrimas. Eu me senti confortado. Eu me senti como se eu não estivesse inteiramente sozinho.
Como se lesse a minha mente ela sussurrou: "Eu sempre estarei aqui." E ela nunca, nunca, descumpriu a promessa.
Com um beijo na minha bochecha, ela me deixou sozinho de novo para receber condolecências de pessoas que eu nunca vi e que não fazia a menor questão de que estivessem ali e foi abraçar o meu irmão.
Eu e Emmett nos apoiaríamos um no outro, mas nós dois sabíamos quem verdadeiramente nos daria esperança.
Lidar com a morte dos meus pais foi a coisa mais difícil que já fiz e, provavelmente, nada será mais difícil. Emmett e eu éramos homens tão orgulhosos como meu pai. Nós não nos permitíamos depender de além de nós mesmos. Nosso pai nos ensinou a ser forte o suficiente para ultrapassar qualquer obstáculo sozinhos.
Eu e Emmett conversávamos. Éramos melhores amigos. Ele sempre teve mais facilidade para expor os seus sentimentos. Quando chegamos voltamos para uma casa vazia depois do funeral ele me abraçou, dizendo que tudo ia ficar bem, que nós éramos homens Cullen e que ele iria fazer o impossível para cuidar de mim. Entretanto, quando ele me perguntou como eu estava, se eu precisava de falar alguma coisa, eu me calei. Eu não o confortava e nem me permitia ser confortado.
Eu não sei quanto a ele, mas, mais tarde, eu pude compreender esse cárcere das minhas emoções. Como eu poderia ajudá-lo se eu não sabia como me ajudar? Eu não sabia como lidar com a minha própria angústia. Eu tinha apenas quinze anos, semanas antes de fazer dezesseis, e nunca tinha passado por nada parecido com aquilo. Não sabia nada da vida, não sabia nada sobre mim.
Ele nunca mais chorou na minha frente. Sempre que me via abria o sorriso e se mostrava alegre.
Ele não me enganava. Eu via nos olhos dele que ele estava tentando ser forte por mim. Eu queria dizer que ele não precisava fingir. Eu sabia cuidar de mim mesmo.
Mas eu não o fiz. Me calei novamente.
E Bella era a nossa válvula de escape.
Ela praticamente passou a morar conosco. Ela dedicava o máximo do seu tempo para não nos deixar sozinhos. Confesso que, no início, eu achava essa prática dela um tanto quanto irritante. Eu era melhor sozinho. O silêncio me fazia companhia. Mas, à medida que eu ansiava por chegar em casa e encontrá-la assistindo à TV, entendi o que ela estava fazendo.
Ela estava sempre ali, como prometeu. Ela nunca dizia nada sobre os meus pais, nem nos forçava a sessões de choro emocionantes em que abríamos os nossos corações e essa merda toda. Ela só estava lá.
À noite, eu a ouvia conversando com Emmett dentro do quarto dele. Algumas vezes eu até pude ouvi-lo rindo. Ela era boa para ele, e era dele, e eu queria que ela estivesse no meu quarto ao invés do dele.
X...X
Emmett sempre teve o hábito de beber. Socialmente, nada patológico. Foi ele quem me ensinou a beber quando eu tinha quatorze anos escondido dos nossos pais. Não havia nada de mais naquilo.
Porém, no mês seguinte a morte dos meus pais a quantidade de álcool que ele consumia aumentou – e muito. Nós estávamos de férias e ele a aproveitava bebendo todo minuto possível.
Ele bebia de manhã, de tarde e de noite de qualquer dia da semana. Quase todos os dias eu já acordava para vê-lo com uma garrafa de cerveja na mão.
Eu tentava ignorá-lo o máximo que podia. A morte dos meus pais ainda era superficial demais e eu não tinha capacidade psicológica para lidar com um cara que vivia eternamente bêbado. Eu já tinha falado com ele várias vezes sobre isso, para parar com essa merda, mas ele apenas dava de ombros. Se ele queria se foder, que se fodesse. Eu fingiria que não ligava.
Mas Bella não conseguia fingir. Eu não sei por que ela continuava ao lado dele, trazia-o para casa trocando as pernas, segurava os cabelos dele quando ele vomitava e passava noites em claro chorando por ele. Eu sei, eu a ouvi diversas vezes. Ele passava tanto tempo bêbado que nunca estava sóbrio – mas, por incrível que pareça, ela cumpria a porra da sua promessa, e estava sempre lá.
Houve uma época que eu a odiei por isso. Odiava a burrice e ingenuidade dela.
Dois meses tinham se passado desde o dia que mudou para sempre a minha vida. Eram duas da manhã de um domingo, o meu último dia de férias, o último antes do começo do ano letivo. Parecia que eram as minhas últimas horas antes de ser obrigado a voltar à normalidade. Eu teria que retomar a minha vida no dia seguinte, voltar a me dedicar ao colégio e a me formar – o que era o que os meus pais sempre quiseram –, voltar a ver aquelas pessoas que eu não gostava de ver antes e gostaria muito menos agora. Eu deveria dividir a minha mente entre continuar o processo de luto, as minhas tarefas de casa e outros problemas domésticos.
Não era de se surpreender que eu não conseguisse dormir.
Peguei o meu violão que deixava ao lado da cama e toquei alguns acordes aleatórios. Só para passar o tempo até o sol nascer e a minha vida recomeçar do zero.
Música era algo que me acalmava. Eu gostava de tocar violão antes de tudo – antes da minha vida ter sido completamente fodida –, mas nunca dediquei muito do meu tempo a ele. Porém, agora, eu ficava horas no meu quarto debruçado no instrumento. Era algo em que eu podia libertar aos poucos e temporariamente um pedaço da dor que parecia nunca diminuir.
Emmett tinha o álcool. Eu tinha a música. E Bella.
Eu não tinha tocado por mais de três minutos quando ouvi pequenas batidas na porta do meu quarto. Eu não precisei perguntar por quem era. Emmett não se importava em bater.
"Entre."
Bella enfiou a cabeça pela porta e me deu um sorriso triste. A minúscula culpa que senti de que talvez tivesse a acordado se foi ao ver o seu rosto. Não parecia sonolenta. Parecia já estar acordada há algum tempo, como eu.
"Posso entrar?" ela pediu e eu assenti. Como se eu fosse negar qualquer coisa a ela. "Eu não estava conseguindo dormir e ouvi o seu violão..." Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Era uma das pequenas manias dela que aqueciam o meu peito. "Também está ansioso por amanhã?"
Eu dei de ombros. Ela se sentou na beirada da minha cama. Usava uma blusa masculina grande que descia até a metade das suas coxas e eu teria achado a coisa mais excitante de todo o universo se a blusa fosse minha.
"Emmett está dormindo?" eu perguntei. Tinha que saber se ele sabia que a sua namorada estava sentada na cama do seu irmão no meio da madrugada.
"Ele conseguiu dormir depois que tomou o remédio," ela respondeu com uma tristeza quase palpável na voz. Era outro recurso para o qual ele corria. Remédios. Isso só mostrava a fraqueza dele. Ele tinha alguém como Bella ao seu lado e mesmo assim tinha que recorrer a merdas como bebidas e drogas – de todos os tipos.
Eu fiquei em silêncio enquanto ela dobrava as pernas, aconchegando-se no meu colchão. Eu me sentia imensamente satisfeito de vê-la tão à vontade comigo no meu quarto. Sempre foi assim. Ela já esteve ali milhares de vezes. Gostava de entrar ali para conversar – tagarelar, melhor dizendo – mexer no meu computador, jogar videogame ou só para me perturbar mesmo. Eu não me lembrava de ela ter se sentido inibida por mim, diferente de todas as outras garotas que eu conhecia.
"Você vai mesmo procurar emprego amanhã?" ela me perguntou, ficando de frente para mim, as pernas cruzadas. A única luz no quarto vinha do meu abajur. Ela ficava ainda mais atraente naquela penumbra, parcialmente iluminada, parcialmente nas sombras.
Eu coloquei o violão no chão ao lado da cama, o seu lugar de origem. "Não tenho outra opção."
Era verdade. Eu não tinha saída. Emmett nunca estava em condições de trabalhar onde quer que fosse, e um dia a herança que os nossos pais nos deixou iria acabar. Ele estava constantemente bêbado, e eu temia que não conseguisse estudar direito, muito menos trabalhar. Pelo menos não agora.
Eu apreciava que ele tivesse adiado a sua ida a faculdade por minha causa. Ele dissera que cuidaria de mim e estava tentando cumprir a sua promessa. Mas eu não podia nem queria depender dele. Eu sabia que era o que ele queria, mas eu não achava certo. Eu tinha as mesmas obrigações que ele de cuidar do meu irmão.
Alguém tinha que trabalhar e eu não me importava de ser esse alguém. Sei que os meus estudos não seriam afetados. Raramente eu precisava pegar um livro fora do colégio e mesmo assim tinha as maiores notas do meu ano. Era fácil demais para mim. Ao invés de ficar em casa jogando videogame ou remoendo a morte dos meus pais, eu trabalharia. Nada excepcional.
"Você não quer ter outra opção," ela retrucou, lançando-me um olhar sério. "Quantas vezes eu já disse que os meus pais podem e querem te ajudar? Eu sou filha única e, eu não quero me gabar, mas eles não têm muito onde gastar o dinheiro que ganham."
Eu acreditei quando ela disse que não falava isso para se gabar. O pai dela era dono de uma rede de restaurantes bastante famosa no estado e tinha muito dinheiro, muito mais do que os meus pais jamais sonharam em ter. A ajuda financeira que eles forneceram a mim e Emmett quando ficamos órfãos não era nada para eles. Todos eles foram muito solícitos. Entretanto, eu tinha o meu orgulho, e eu não me permitiria viver da mesada dos pais de Bella para sempre. Eu preferia trabalhar e pagar com o meu próprio dinheiro as minhas despesas.
Eu estava mais do que agradecido por eles me darem a oportunidade de estar com a filha deles. Já era o bastante para mim.
Eu passei uma mão pelos meus cabelos. "Agradeço, mas a minha resposta sempre será não, Bella. Não insista."
Ela suspirou, parecendo derrotada. "Você não teria essa obsessão por procurar emprego se o seu irmão tivesse o mínimo de juízo. O que ele mais quer é cuidar de você, mas ele só faz as escolhas erradas e todos nós nos ferramos."
Ela tinha razão, em partes. "Não faria diferença para mim." Eu trabalharia mesmo se Emmett não fosse um alcoólatra. Eu não colocaria toda a responsabilidade da casa sobre os ombros dele.
"Posso pelo menos te ajudar a procurar?" Eu assenti. Você pode fazer o que quiser, Bella. "Você tem uma oposição muito grande em trabalhar em um café?"
Eu quase resfolguei. Eu não tinha frescuras. Trabalharia de gari sem problema algum. Eu só não queria fazer merdas loucas como ser dançarino da Lady Gaga ou outras coisas degradantes.
"Não. Por quê?"
"Conheço a dona de um café relativamente próximo daqui. Talvez eu a convença a te deixar trabalhar como garçom ou algo assim." Ela sorri e aponta para o meu violão. "Ou como artista."
Eu respondi ao sorriso dela com um. Não era grande, mas era maior do que qualquer outra pessoa conseguia arrancar de mim. "Nem fodendo."
Ela pareceu espantada. "Por que não?"
"Eu não sei tocar quase nada. Ainda."
"Do que você está falando? Você toca bem!" A minha perna estava estendida na direção dela, o meu pé, a poucos centímetros dela. Ela aproveitou essa proximidade para me dar um leve tapa.
"Eu sei." O meu sorriso continuou no meu rosto enquanto Bella me lançava um olhar divertido. "Eu só não sei tocar muitas músicas."
Eu comecei a tocar violão há pouco menos de dois anos e eu não era um praticante muito ávido. Tocava quando não tinha nada para fazer. Não existia paixão antes. Agora, música era um dos meus refúgios. O meu repertório ainda era relativamente pequeno, mas eu agora passava horas praticamente para estendê-lo.
"Quais você sabe?" ela quis saber. Estava genuinamente curiosa e interessada.
Eu dei de ombros. "Foo Fighters, Red Hot, Pearl Jam…" Eu citei algumas bandas que achei que ela conhecesse. Bella não era uma das maiores fãs de música.
"Conhece alguma de John Mayer?"
Ele era um dos meus prediletos. "Sim."
"Free Falling?"
Eu assenti e ela me deu um sorriso enorme que iluminou o quarto todo. Eu podia dispensar o abajur se ela ficasse ali com aquele sorriso.
"Pode tocar para mim?"
Eu olhei para o meu violão e depois para ela. O sorriso ainda estava lá, dessa vez um pouco ocultado pelo lábio que ela mordia. Ela estava apreensiva. Queria mesmo que eu tocasse para ela – o que eu nunca fiz. Eu nunca fiz uma performance para mais ninguém. Bella e Emmett provavelmente já me ouviram, mas não foi a minha intenção. As portas do meu quarto sempre estavam fechadas quando pegava o meu violão e eu procurava fazê-lo quando estivesse sozinho em casa.
Olhei novamente para ela. Ela ainda estava esperando a minha resposta com a mesma expressão no rosto. Paciente. Nunca me pressionando.
Eu suspirei e peguei o meu violão, cruzando as minhas pernas de maneira semelhante à ela. "Só um pouco."
O sorriso magnífico dela se alargou e ela sentou mais perto de mim. Eu queria ter talento suficiente para poder tocar e cantar sem olhar para os meus dedos só para checar se o sorriso continuou lá pelo próximo minuto em que eu toquei exclusivamente para ela. Pelo menos ele estava lá quando eu terminei, mas não sozinho. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Que porra é essa, Bella? Você me pede para tocar só para te fazer chorar? Talvez fosse a minha voz. Eu nunca me ouvi cantando em uma gravação para saber se ela era boa ou ruim. Fiz o meu máximo para não desafinar, mas não tinha certeza como tinha me saído. Deve ter sido uma merda.
"O que foi?" eu perguntei, quase preocupado.
Ela desviou os seus olhos de mim para o seu colo e limpou o olho. "Nada."
"Por que está chorando?"
Ela voltou a me encarar daquele jeito que fazia os meus pulmões parecerem excessivamente pequenos. Sem qualquer aviso prévio ela atravessou a distância que nos separava – segundos em que eu achei que o meu coração fosse explodir – e me abraçou.
Eu franzi o cenho. Que porra estava acontecendo ali? Eu não estava entendendo nada.
Eu coloquei uma mão na sua cintura. Que se foda o violão entre nós. "Bella?"
"Me perdoe," ela sussurrou contra o meu ouvido.
Eu não poderia estar mais confuso. "O quê?"
Ela se afastou e voltou a se sentar de frente para mim, fungando. Eu não gostava de vê-la chorando, mas, para a minha estranheza, eu a achei deslumbrante.
"Me perdoe," ela repetiu, chorosa. "E-Eu não sei se a minha amizade te ajuda ou não, mas eu sinto como se tivesse falhado com você." Bella estava louca. Emmett tinha dado alguma droga para ela antes de dormir? "Eu não sei, Edward. Eu só acho que eu tenho me dedicado tanto ao seu irmão nos últimos meses e pouco a você. Pouco, definitivamente muito menos do que você merece." Ela fez uma pausa para limpar o rosto. "Eu não sei se você precisou de mim porque você é tão forte, Edward, tão maduro. Mas eu não estive aqui para você caso você precisasse, e por isso eu sinto muito."
Eu não sabia o que dizer. Eu também não sabia se precisei dela mais do que ela ofereceu. Eu perdi a vergonha de admitir que Bella era importante para mim anos atrás, e talvez eu estivesse me sentindo melhor se ela tivesse dividido igualmente a sua atenção entre os irmãos. Talvez. Eu não dependia emocionalmente dela, nem de ninguém.
Eu nunca tinha parado para pensar se Bella estava sendo negligente comigo porque o que ela me deu até agora foi mais do que suficiente. É claro, ela esteve mais com o meu irmão do que comigo e eu desejava que fosse o contrário, mas eu suspeitava que eu não precisava mais do que isso.
"Pare com isso, Bella," eu tentei. Eu não era exatamente muito bom em consolar pessoas, especialmente por um motivo tão tolo quanto aquele. "Emmett precisa de você mais do que eu."
"Eu não sei se estou sendo de grande ajuda para ele também," ela murmurou, olhando para os seus dedos sobre o seu colo. "Na maior parte do tempo eu sinto que estou atrapalhando mais do que ajudando vocês dois."
"Pare com essa besteira. É óbvio que você está ajudando ele." Disso eu tinha certeza. Eu não sei o que seria de Emmett sem Bella agora.
"Eu não sei... Ele fala pouco comigo. Parece... parece que ele gosta de me ter por perto, mas ele não me disse nada de importante até agora. Nem você. E eu acho que vocês não estão se ajudando." Ela esperou que eu dissesse alguma coisa, mas eu fiquei calado. "Você está sendo tão forte, Edward. Muito mais forte do que o seu irmão. Eu acho que ele se sente preocupado demais em tentar ser para você parte do que os seus pais foram."
Ele não conseguiria. Emmett era vital para mim, mas não podia substituir os meus pais. "Eu posso cuidar de mim mesmo."
"Sei que pode. Nunca duvidei de você." Ela limpou mais uma lágrima. "Eu não queria te preocupar com isso, mas eu acho que o seu irmão precisa de você, Edward. Acho que ele se sente muito pressionado."
Eu não sabia disso. Emmett nunca estava em condições de conversar, mas eu desconfiava que ele estar por perto não ia mudar as coisas. Nós não conversávamos sobre isso nem nada relacionado aos meus pais.
Eu queria ajudar o meu irmão, mas me chateava que fosse Bella quem viesse me cobrar. Teria ela feito esse mesmo pedido a Emmett? Teria ela se preocupado comigo a ponto de tratar disso com ele, assim como faz comigo agora? Ou ela estava ali no meu quarto com o único propósito de auxiliar o meu irmão?
"Você vai conversar com ele, Edward?" ela me pediu, e eu assenti, porque eu não era capaz de negar nada a ela.
Eu estava a caminho do carro de Jasper no estacionamento do colégio quando ouvi Bella me chamando. Parei imediatamente para procurá-la, e vi que ela corria em minha direção. Eu sorri em menos de um segundo.
"Está indo embora com Jasper?" ela me perguntou, e eu assenti. Ela suspirou. "Foi o que imaginei. O seu irmão está com o carro e não vai para casa, não é?"
"Ele quer conversar com o último patrão dele. Vai tentar conseguir o emprego de volta." Ele teria muito sorte se conseguisse. Afinal, uma pessoa não recontrataria um bêbado como Emmett.
"Sei disso. Escute, não quer ir comigo? Podemos passar naquele café que eu te falei ontem, o que talvez tenha uma vaga de emprego para você. O que acha?"
Eu não precisei pensar meia vez antes de aceitar a proposta dela. Iria com ela mesmo se ela tivesse sugerido que fôssemos ao lixão.
"Quem sabe os dois Cullen voltarão para casa com empregos novos hoje?" ela refletiu com um sorriso que, eu imaginava, tinha como objetivo me dar esperança – tanto de que eu conseguisse o trabalho, como Emmett. Nós dois precisávamos trabalhar.
Eu não me surpreendi quando saí do café mencionado por Bella com a garantia de um emprego. Ela sempre cumpria a sua palavra.
"Eu não sabia que você tinha uma namorada."
Eu me virei para Mike, um outro garçom que trabalhava no mesmo café que eu. "Do que você está falando?"
"Tem uma garota na mesa nove exigindo ser atendida por você," ele explicou. "Disse que você saberia quem ela era. É a sua namorada?"
Eu desviei o meu olhar curioso para a bendita mesa nove, e não me surpreendi ao ver Bella nela sentada. Ela sorriu para mim quando os nossos olhares se encontraram.
"Não," eu resmunguei e fui em direção a ela. Não, infelizmente, ela não era a minha namorada.
Não era o meu trabalho atender a mesa nove naquele dia. Era Mike quem cuidava daquela parte do café. Entretanto, eu não podia ignorar Bella. Sue não ficaria com raiva – ou eu esperava que não ficasse. Pelo que eu vi quando Bella me apresentou a ela, elas se conheciam muito bem. Talvez a minha chefe não ficasse chateada por eu atender uma pessoa que ela obviamente gostava, mesmo que não estivesse dentro das minhas tarefas do dia.
"Pois não?" eu perguntei, fingindo cortesia com um minúsculo sorriso.
Ela riu, e a risada dela pareceu preencher todo o local. "Quando é a sua folga?"
Eu olhei para o meu relógio de pulso. "Daqui a duas horas."
"Não pode tirá-la mais cedo?"
"Mais cedo quando?"
"Agora."
Eu averigüei o café com os olhos. Estava praticamente vazio às cinco da tarde de uma quinta-feira. "Darei um jeito."
Eu abordei Mike quando ele passava o pedido de algum cliente para os atendentes do balcão.
"Quer a sua folga agora, hein?" ele perguntou com um tom maroto. "Vai dar uns amassos na garota –"
"Cale a boca. Pode cobrir para mim ou não?"
Ele refletiu por um instante. "Posso. Mas você terá que cobrir as minhas últimas duas horas para que eu saia mais cedo."
"Fechado." Eu não me importava. Duas horas a mais ou a menos não faziam muita diferença para mim. Nada de muito interessante me esperava em casa – a não ser que Bella estivesse lá.
Do balcão eu acenei para Bella para que ela se levantasse e me acompanhasse. Ela pegou a sua bolsa e juntos passamos pela porta dos fundos do café até um pátio vazio que os funcionários utilizavam para tomar um ar.
Eu escorei em uma parede e ela parou na minha frente.
"Eu não quero tomar muito do seu tempo," ela disse, balançando sobre os seus calcanhares. Era um sinal clássico de nervosismo em Bella. Eu queria dizer que o que mais me agradava ultimamente era ter o meu tempo tomado por ela. Ela esticou o braço e foi só então que eu reparei que ela carregava uma sacola. "Tome."
Eu enruguei a testa. "O que é isso?"
"Terá que abrir para ver."
Eu a olhei com desconfiança, mas ela apenas sorriu e eu pensei como eu queria que todo o meu tempo fosse ocupado com sorrisos como aqueles. Genuínos. Inocentes.
De dentro da sacola eu tirei uma pequena caixa embrulhada em papel azul marinho. Eu a questionei novamente com os olhos e ela me deu a mesma reação de antes. Quando desfiz um laço, uma caixa de couro surgiu na palma da minha mão.
"Eu não estou gostando disso," eu disse, antes mesmo de saber o que lá dentro tinha.
Ela rolou os olhos castanhos. "Apenas abra antes de dizer qualquer coisa."
Eu fiz o que ela pediu. Era um relógio. Armani estava escrito nele. Aquilo não soava barato.
"Que porra é essa?"
"Por favor, não fique bravo," ela pediu, tocando o pulso cuja mão eu mostrava o relógio para ela – como se ela não soubesse do que se tratava. "Eu queria comprar um presente para você para comemorar o seu emprego novo. Só isso."
"Quanto isso custou?"
"O quê?"
"Quanto essa porra te custou?"
Ela suspirou. "Edward, eu não vou te falar o preço. Eu juro que não foi muito caro –"
"Muito caro?" eu indaguei. "Quanto foi, Bella?"
"Eu não vou te dizer!" ela exclamou. Também começava a ficar irritada. "Edward, pare com isso! É só um presente! Eu não vendi o meu rim para comprá-lo! Pelo amor de Deus, é só a porra de um presente. Há quanto tempo eu não te dou um?"
"Pouco importa quando foi a última vez que me deu um presente, Bella. O problema aqui é que você sabe que eu não gosto que gaste dinheiro comigo."
Ela franziu o cenho. "Está achando que estou te dando uma esmola?"
"Não, Bella! Você sabe que não é isso." A minha voz aumentava a cada frase.
"Que é o problema em te dar um presente?"
Eu respirei fundo para me acalmar. Não queria brigar com ela, especialmente no meu local de trabalho – trabalho este de menos de uma semana que eu poderia colocar em risco se me exaltasse com Bella.
"Eu não quero que compre coisas caras para mim."
Foi a vez dela de suspirar profundamente. "Edward, eu juro que isso está dentro da minha faixa de preço. Eu juro. Não foi nada exorbitante. Eu só queria te dar algo para se lembrar do seu primeiro emprego. Só isso. Eu não quero que fique bravo comigo."
Eu fitei aqueles enormes olhos castanhos que imploravam pela minha compreensão. Eles me acuavam, dobravam-me à vontade dela. Sempre foi assim. A pequena mão que segurava o meu pulso continuava lá, massageando a minha pele, colaborando com aqueles olhos enormes para a minha derrota.
Eu não tive chances. Era uma luta injusta.
"Eu não estou bravo com você," eu resmunguei. Eu estive bravo com ela, mas a minha raiva por aquela garota não durava mais do que trinta segundos. "Eu só... não me sinto confortável usando coisas que você teve que gastar dinheiro para que eu as tivesse."
Ela sorriu. Merda. Aquele sorriso. "Eu não quero soar arrogante, Edward, mas eu tinha condições de comprar esse relógio para você. Eu não gastaria mais do que posso, você sabe disso. Eu não quero que pense que estou te dando esse presente para me gabar ou algo assim –"
"Não seja estúpida," eu a interrompi. Bella era rica, milionária, desde que nos conhecemos. Talvez pudesse comprar um milhão desses relógios que me deu e eu não dava a mínima. Ela nunca foi uma garota de ostentar o que tinha. Sempre foi a pessoa mais humilde que já conheci. "Poderia ter gastado esse dinheiro com outras coisas."
Ela inclinou a cabeça para o lado. "Como o quê?"
Eu dei de ombros. "Sei lá. Algo para Emmett."
Ela abanou uma mão, desprezado a minha resposta. "Eu já dei várias coisas para Emmett." A pior delas era ela mesma. "Além disso, se ele merecer, talvez também ganhe um relógio como esse – e eu aposto que ele não vai fazer toda essa cena que você acabou de fazer."
Eu revirei o relógio da discórdia. Ele era muito bonito. Preto, refinado, másculo.
"Deixe-me colocar para ver como fica," ela sugeriu e tirou o presente da minha mão. Eu mantive os meus olhos no rosto dela o tempo todo que ela gastou para colocar o relógio no meu pulso. Eu poderia ter fechado as minhas pálpebras só para memorizar melhor a sensação dos seus dedos na minha pele. Leves, macios, confiantes, confortáveis, como se o nosso passatempo predileto fosse colocar relógios nos meus pulsos.
"Pronto. Ficou ótimo." Eu desviei os meus olhos do rosto dela para o meu punho. "O que acha?"
Eu voltei a fitá-la. Quase dez segundos se passaram em que eu não consegui dizer nada, apenas encará-la. Queria que ela visse o quão grato eu estava pelo seu gesto – por mais que ela tivesse gastado dinheiro nele – e por tê-la ali.
"Perfeito," eu enfim disse, sem me atrever a quebrar o nosso contato visual.
O sorriso ficou ainda mais bonito, fazendo os seus olhos brilharem, antes de ela me abraçar. Dessa vez eu não consegui resistir. Fechei os olhos para saboreá-la contra mim. Eu conseguia sentir igualmente todos os pontos em que ela me tocava. A sua mão na minha nuca, a outra nas minhas costas, os seus seios contra o meu peito, a sua barriga na minha, as suas pernas roçando as minhas. A respiração, o calor, o cheiro, a maciez da pele, do cabelo.
"Eu estou muito orgulhosa de você," ela sussurrou e eu apertei os meus braços ao redor da sua cintura fina, puxando-a para mais perto.
Era impossível raciocinar com ela tão perto de mim. Eu obviamente não estava pensando direito quando permiti que os meus lábios roçassem a pele do pescoço dela. O arrepio que percorreu a pele dela alcançou a minha boca, mas isso não me fez parar. Eu levei as minhas mãos para a cintura dela e apertei a pouco carne ali, mais do que nunca querendo enfiar os meus dedos por debaixo daquela blusa para saber se a pele ali era tão quente quanto o restante.
Eu percorri o pescoço dela com os lábios, apenas um roçar para chegar mais perto do sabor dela, até a orelha dela. Meu Deus, ela era deliciosa, e eu nem cheguei a beijá-la. Bochecha contra bochecha, eu imaginava que ela fosse capaz de ouvir a minha respiração descompassada tão bem quanto eu ouvia a dela. Talvez ela já sentisse a minha ereção pressionando contra a barriga dela.
"Eu sabia que você tinha vindo aqui para das uns amassos, Cullen."
Bella e eu nos separamos como se um raio tivesse caído no meio de nós dois. Na porta por onde havíamos passado, Mike sorria um sorriso cúmplice. Eu queria quebrar os dentes dele, mas não foi o que acabei fazendo. Mais tarde, quando a minha capacidade de raciocinar retornou, conclui que a interrupção dele tinha sido essencial. Eu não sabia o que poderia ter feito com Bella – ou tentado fazer – caso ele não tivesse chegado.
"Cale a merda dessa boca," eu rosnei e ele riu.
"Só vim até aqui avisar que o seu intervalo acabou. Volte para o trabalho." Ele saiu e nos deixou a sós novamente.
Quando eu voltei os olhos para Bella ela tinha o rosto vermelho. "Hum... Eu preciso ir," ela murmurou, colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha. "Eu te vejo mais tarde." Ela foi embora antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa.
