xxxHolic pertence à Clamp, e não a mim, por isso que não é BL de verdade nem tem beijos a lot. Essa fic é especialmente para a Hi-chan. E thanks ao Gustavo-Strawberry-chan pela betagem!
Oito Movimentos para o Disparo Perfeito
Dozukuru: Posicionar as costas. Depois de colocar corretamente seus pés, se prepara para disparar, ajustando o centro de gravidade e a postura do corpo.
...
Segundo Movimento –
Dozukuru
...
Watanuki acordou, confuso. Estava sem óculos... e não era seu quarto... fechou os olhos, e sorriu. Era um lugar puro. O templo de Doumeki.
Estendeu a mão para onde costumava deixar seus óculos, por hábito, e eles estavam lá. Colocou, e viu que estava usando uma yukata azul, bordada com pequenas flores nas mangas compridas demais. Então viu Doumeki, deitado do outro lado do quarto, no chão nu, sem futon. Olhava para Watanuki, como se avaliasse cada centímetro do garoto.
– Bom dia. – Watanuki imaginava que agora devia mais uma para Doumeki, e das grandes.
– Hum. – Doumeki não respondeu nada além disso. Watanuki reparou que ele tinha grandes olheiras.
– Você não descansou? Deveria, está em pleno campeonato...
– ...você está bem?
– Uh? Sim... eu acho. Eu... não sei bem o que aconteceu.
– Você viu umas sombras, elas olhavam pra você. Aí você desmaiou, como um estúpido.
– NÃO ME CHAME DE ESTÚPIDO!
– ...porque você desmaiou?
– Não sei... eu senti alguma coisa muito ruim, acho que era tão maligna e poderosa que... – deixou a frase morrer, pensativo. Essas coisas só aconteciam quando Yuuko-san estava fora, não era possível...
– Venha. Vamos comer. – Doumeki disse, se levantando.
– Você preparou...
– Não, comprei pronto. Pães e coisas assim. Não sabia que você iria acordar bem.
– ...ah.
Doumeki andava na frente, ainda vestindo o quimono de kyudou. Pareceu ter olhado de esguelha para Watanuki, com algum tipo de expressão misteriosa. Ou pode ter sido impressão.
Depois que comeram, Doumeki tomou um banho demorado, enquanto Watanuki passava outro dos seus uniformes de treino. Em pouco tempo estavam no ginásio, Watanuki com outra yukata de Doumeki – essa, verde-musgo com detalhes em branco. Tinha ajustado ela rapidamente, e estava bastante apresentável. Evitava pensar que Doumeki tinha trocado sua roupa no dia anterior, mas de quando em quando lembrava, e começava sua estranha dança indignada, silenciosamente.
Doumeki estava treinando já fazia vários minutos, mas não estava indo muito bem. A ansiedade estava consumindo sua alma. Tudo bem. Respirar fundo, se manter centrado.
Watanuki assistia, pensando no que quer que tenha visto no dia anterior. Era assustador... e se assustou também quando um garoto da idade dele se sentou ao lado, puxando conversa animadamente.
– Oi! Aquele ali com quimono bonito, é seu parente?
Watanuki fez que não, avaliando rapidamente o garoto. Era bonito – cabelo louro e ondulado, olhos azuis, quimono vermelho, leque branco, sorriso alegre – e era extravagante, lembrando muito Yuuko-san.
– Seu amigo, então? – o garoto sorria.
– Hum... acho que sim. De alguma forma.
O garoto riu e estendeu a mão.
– Iomonoyama Nokoru.
– Watanuki Kimihiro.
– Como primeiro de abril?
– É!
– E é o dia do seu aniversário?!
– Ah... – hesitou por um momento – Não. Meu aniversário é vinte e quatro de novembro...
– Legal! Mas que pena, ia ser interessante... – Iomonoyama sorria como um raio de sol. – E você, não pratica kyudou?
Watanuki sorriu fracamente, mas aos poucos foi se empolgando. O garoto e seu jeito alegre sem necessariamente zombar de Watanuki, o faziam sorrir mais.
Quando apresentou Iomonoyama a Doumeki ("Me chame de Nokoru, por favor!") o arqueiro apenas cumprimentou de leve com a cabeça, e ergueu uma sobrancelha. Ninguém com quem o Watanuki ficava tão empolgado podia ser boa coisa. E esse Iomonoyama era bonito demais, com seu jeito de rir alto e se abanar com um leque rendado. Cheirava a problemas...
No dia seguinte, eles chegaram um pouco mais tarde ao ginásio. Doumeki faria as provas à noite, e continuaria lá para treinar. Watanuki assistiu às provas noturnas, mas se sentiu cansado demais para ficar para o treino. Despediu-se de Doumeki aos berros, porque ele pediu fugu¹ para o bentou do dia seguinte, e isso era impossível.
Saindo do ginásio, encontrou com Iomonoyama ("Nokoru, Watanuki-kun!"). O garoto desistiu de entrar, e foi acompanhar Watanuki até em casa.
– Você vem assistir alguém, Nokoru-kun?
– Não exatamente... eu sou um entusiasta de kyudou. Praticava, há algum tempo. Mas acabei me machucando, em um acidente, e parei. – levantou a manga do quimono azul, mostrando uma fina cicatriz que ia do ombro até as costas da mão.
– Eu sinto muito...
– Nah, que nada. E sua família, não liga de você ficar até tarde com seu amigo?
– Não, eu moro sozinho.
– Wahhhh, deve ser perfeito! Ter toda a liberdade! Comer o que quiser, sair, namorar!
Watanuki ficou vermelho.
– Na-na-nem, nem tanto...
Os dois ficaram quietos. Watanuki sentiu a alma gelada, e dolorida como se fosse golpeada por ondas malignas. As sombras, novamente... encarando os dois, com olhos vermelhos. Nokoru murmurou:
– Ah, não!
– Você... está vendo? – Watanuki perguntou, se posicionando à frente de Nokoru.
– Uau, você está!?
Os dois deram vários passos para trás, involuntários, quando as sombras se mostraram mais. Pareciam com grandes lobos tecidos de sombras, com arrepiantes olhos vermelhos. Garras enormes, raspando no asfalto, e um sorriso definitivamente maligno. Watanuki precisou de toda sua força de vontade para não desmaiar novamente, afetado pelas ondas de maldade que as duas criaturas emanavam.
– Lobos de sombras! – Nokoru gritou. – Sabe o que fazer?
– Correr?
As criaturas rosnavam, andado à volta dos dois garotos.
– Não! Eles se alimentam de coisas preciosas, só comem gente se não houver nada de valor! Você tem alguma coisa valiosa aí? Jogue pra eles!
Watanuki pensou rapidamente, raciocinando em termos 'Yuuko-san' de coisas preciosas. E o que carregava consigo de mais valioso, era a embalagem com a sua parte do bentou da ceia noturna, que não chegou a comer. Era a embalagem que Yuuko emprestara, e continha inari-sushi, porque Doumeki tinha pedido... E quando era algo que Doumeki gostava muito, no bentou, ele se animava mais a parar o treino para comer.
Jogou o vasilhame para os lobos, que avançaram nele, destroçando o pano que o protegia, a tampa, e Watanuki não viu mais nada – Nokoru segurou seu braço e os dois meninos se puseram a correr.
Pararam apenas na frente da casa de Watanuki. Arfantes, cansados – mas Nokoru sorria, e Watanuki sorria também, contagiado.
– Eles devem estar seguindo você há dias, talvez semanas. Deve haver algo valioso com você, ou que você vai conseguir em breve e eles já estão sentindo o cheiro. Tente andar sempre com alguma coisa...
– Tudo bem. E obrigado! Eu normalmente não sei fazer nada além de correr...
– Normal! Amanhã a gente conversa mais sobre isso!
– Certo! Boa noite, Nokoru-kun. Vai ficar bem, no caminho?
– Com certeza!
– Você me lembra tanto uma pessoa... – Watanuki disse sorrindo.
– Ééé? Queeem?
– Um amigo, que eu tive quando criança. Ele me ensinava coisas assim.
– E eu posso ser seu amigo também?
Watanuki deu um sorriso de verdade, aberto e alegre. Foi tão bonito, que dessa vez Nokoru é que foi contagiado e sorriu junto.
– Claro!
No ginásio, Doumeki estava sentado, arco no colo, analisando o que tinha compartilhado da visão de Watanuki. Lobos de sombras, eh?
Já que tinha parado o treino, resolveu aproveitar e comer. Ainda muito pensativo, abriu o vasilhame do bentou.
Estava vazio.
Continua!
¹Fugu é um tipo de peixe, que por ser venenoso, é muito difícil de preparar.
