2. Tudo o que ele precisava
Após um longo silêncio à mesa, a mulher se levantou, e o que parecia ser um rosto frustrado se transformou em um belo sorriso, radiante.
- Meus pais vão sair essa madrugada, vão passar uns dias em uma convenção.
Ele tentava entender o que ela queria dizer com aquilo, afinal, ele não perguntara nada. Ele logo entendeu o que ela queria dizer com a afirmação, e definitivamente, não gostara.
- Como eles vão sair, não vai ter café da manhã esperando por você aqui na cozinha, então acho melhor já deixar avisado pra você ir comer em outro lugar por que eu é que não vou me levantar cedo pra cozinhar. Entendido?
Logo após engolir o último pedaço do bolo de creme, respondeu algo que mais se parecia com um grunhido; era o seu jeito mais prático de dizer que entendeu,
mas não estava feliz com isso.
- Que bom que entendeu – disse, mais uma vez, com um grande sorriso e um ar vitorioso – Agora acho melhor ir treinar, já perdeu muito tempo aqui.
Ela sorria, e isso deixava Vegeta enfurecido, mas ao mesmo tempo admirado.
- Não me diga o que fazer – apenas murmurou, quase que para si mesmo.
"Como ela me tira do sério! Agora vai me fazer sair de casa só pra tomar café da manhã, maldita mulher!"
Bulma saiu da cozinha, triunfante, imaginando como deveria estar o rosto do príncipe. Ela se divertia com aquilo.
No fundo, gostava de irritá-lo, só pra ver aqueles grandes olhos negros olhando pra ela, enfurecidos, mas ao mesmo tempo brilhantes, quase doces.
Enquanto voltava para seu quarto, tranquilamente, viu seus pais arrumando malas e fazendo os últimos preparativos para a viagem.
- Mas vocês não vão sair só de madrugada?
- Bem – senhor Briefs estava calmo, como quase sempre – O nosso sócio vai chegar mais cedo na convenção, então iremos partir mais cedo também, para que ele não fique nos esperando por muito tempo.
- E outra minha querida – Sra. Briefs estava empolgada, também como quase sempre – quanto antes formos antes podemos voltar, não é querido?
- Ah, nesse caso tudo bem então, boa viagem para vocês – falou de um jeito meigo e sorriu.
Enquanto seguia para seu laboratório, Vegeta se dirigia novamente para seu treinamento.
"Por mais quanto tempo eu terei de ficar aqui?"
Pouco tempo se passou e ele já não estava agüentando ficar naquela Câmara. Estava cansado da rotina daquela casa, estava cansado daquela casa, estava cansado do planeta que abrigava aquela casa.
- Eu poderia sumir daqui... Sim, eu poderia ir embora agora e ainda destruir esse planetazinho insignificante – Dizia em alto e bom som, quase como um desabafo para si mesmo e para o mundo. No fundo, porém, esperava que ninguém o ouvisse. – Eu deveria fazer isso, deveria sair daqui imediatamente e...
- Então por que não vai? – A voz saiu firme, e o dono dela pôde perceber o quão surpreso Vegeta ficou ao notá-lo ali. – Quero dizer... Se está tão convencido disso, por que ainda não foi embora?
Vegeta sentiu o sangue pulsar com mais força e raiva em seu ser. Não esperava ser ouvido, muito menos por aquele ser.
- O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI KAKAROTO?
- Bem, eu só vim fazer uma visita para minha amiga Bulma... Mas você não respondeu minha pergunta...
- Eu não devo satisfações a ninguém, muito menos a você. Suma daqui de uma vez!
- Claro... Só me diga onde a Bulma está e eu saio daqui – Goku escondia um sorriso divertido no canto dos lábios; ele também se divertia ao ver o rival nervoso.
- E eu lá sei onde aquela maluca pode estar? Faça-me o favor, suma daqui o mais rápido possível seu verme.
- Já estou indo – disse rindo, como se zombasse do outro, que permanecia parado, vermelho de raiva.
- DO QUE ESTÁ RINDO?
- De nada – respondeu já a distancia, procurando por algum sinal de Bulma.
- Maldito... Eu REALMENTE preciso sair daqui... – disse novamente para si mesmo, e em seguida voou para longe, com pretensões de só voltar na hora do jantar.
- Olá Bulmaa!
- Goku! – Ela saiu correndo do laboratório e abraçou o amigo – Há quanto tempo eu não o vejo. Onde esteve?
- Eu andei treinando, estava longe... Você entende.
- Ah sim... – Sorriu novamente, cansada, porém radiante, e se virou para guardar uma ferramenta que estava em suas mãos.
- Mas e você? O que está fazendo?
- Ah, eu venho trabalhando em alguns projetos do meu pai, o de sempre... Você também entende não é?
- Ah claro – Ele riu, e ela apenas observava como seu sorriso não havia mudado, sempre com aquele divertido ar infantil.
- Mas me diga Goku, o que o traz aqui, tão de repente?
- Nada em especial... Só queria rever uma amiga.
- Mas que bom. Bem, espere um minuto, vou trancar o laboratório e nós podemos conversar direito.
- Ah Bulma, você se importa se eu comer alguma coisa enquanto conversamos?
- Não, está bem. Vamos até à cozinha e você pode comer o que tiver lá.
- Obrigado Bulma.
- É... você não sabe se o Vegeta quer vir também? Já faz tempo que ele tomou café da manhã e não apareceu aqui ainda, gritando, pra dizer que está com fome.
- Ah, eu o vi lá fora. Ele estava meio bravo, acho que foi embora.
- C- Como assim? Foi embora? – Bulma tentava não demonstrar o quanto a notícia a deixara nervosa.
- Ele estava dizendo que queria ir embora quando eu o interrompi. Talvez tenha ido.
- Será que ele vai voltar? – Seu tom saiu mais preocupado do que ela desejava, por isso tentou disfarçar em seguida – Não que seja da minha conta, mas ele geralmente não sai da sala de treinamento.
- Olha, eu aposto que ele vai voltar até a noite, mas não se preocupa não Bulma.
- Eu não estou preocupada!!! – Se pudesse, teria rosnado para Goku aquelas palavras, afinal, por que ELA se preocuparia com o principezinho orgulhoso?
- Está bem Bulma – Goku gargalhava enquanto ela se mostrava muito mais brava do que esperava, e isso divertia muito o amigo.
Em um momento de silêncio, um barulho estranho e alto fez Bulma olhar assustada para Goku.
- Que barulho foi esse Goku?
- Ah... – Goku ficou ligeiramente vermelho e com um sorriso forçado – Eu disse que estava com fome, acho que foi meu estômago.
Os dois riram. Bulma então foi até a cozinha e deixou que Goku comesse tudo o que tivesse vontade enquanto conversavam. Horas se passaram e ambos ainda conversavam. O dia já havia escurecido quando Goku estava indo embora. Vegeta ainda não havia voltado.
- Então, apareça mais vezes está bem?
- Claro Bulma, pode ter certeza que sim. Me desculpe se eu comi demais – Coçava a cabeça um tanto embaraçado, mas ainda sorrindo.
- Ta tudo bem Goku, já estou acostumada mesmo com a fome insaciável dos saiyajins.
- Acho que já vou então.
- Goku espera, você acha que... Acha que o Vegeta vai voltar?
- Humm... É, sim, estou sentindo o ki dele bem próximo, ele já deve estar voltando. Não se preocupe.
- Eu não estou preocupada Goku!- Seus olhos poderiam faiscar naquele momento.
- Está bem Bulma, eu sei que não – Goku gargalhava da forma que Bulma tentava esconder sua preocupação.
Goku, antes de sair, abraçou sua amiga bem forte, mas com cuidado para não machucá-la. No momento que Bulma se soltou de Goku, olhou diretamente para frente, em outras palavras, diretamente para dois olhos negros que estavam chegando ao mesmo tempo em que Goku estava saindo.
- Vegetaa! Aí está você... A Bulma já estava preoc... – sentiu o salto alto de Bulma pisando no seu pé direito e logo depois a mão de Bulma segurando sua boca – Aii Bulma... Isso doeu!
- Goku, já está tarde, melhor você ir logo. Diga a ChiChi que estou com saudades. – Suas palavras soavam doces, mas seu olhar repreendia as palavras de Goku.
- Ta bem então Bulma – disse quase assustado, e assim que se despediram mais uma vez, voou para sua casa.
Um tanto sem graça, Bulma evitava olhar diretamente para o homem que estava diante dela. Mas mesmo tentando evitar, ela não podia deixar de perceber como ele estava bonito. Como ele era bonito. O vento batia levemente contra seus cabelos negros em forma de fogo, e antes que ela pudesse fazer mais observações ele a interrompeu.
- Estou com fome, já tem alguma coisa pra eu comer aqui? – Estava um pouco irritado, mas aquilo não era novidade para Bulma.
- Onde você estava? – Ela já esperava uma resposta, mas se sentia na obrigação de perguntar mesmo assim.
- Isso não é da sua conta mulher!
- É claro que é, você está morando aqui e eu quero saber para onde você vai – O tom de sua voz estava subindo, mas era impossível que isso não acontecesse quando conversava com aquele saiyajin mal educado.
- Eu já disse, NÃO É DA SUA CONTA!
- Será que você não podia ser menos mal educado uma vez na vida?- Já estava cansada de ter que agüentar a arrogância daquele homem.
-Será que você poderia cuidar da própria vida apenas uma vez na vida? – Já estava cansado de ver aquela humana se intrometendo em tudo o que ele fazia.
- Tudo bem, eu admito, às vezes eu me intrometo demais na sua vida... – Parecia que ela lera seus pensamentos naquele momento – Mas você poderia ser um pouquinho menos arrogante, não agüento mais você achando que ainda é príncipe de alguma coisa!
- Eu sou um príncipe! O príncipe dos saiyajins! E se você, sua humana idiota, não está feliz comigo aqui, me coloque pra fora!
- É o que eu deveria fazer mesmo, seu cretino! – Seu nervosismo estava quase a levando às lagrimas, mas ela lutaria até o fim contra a vontade de gritar e chorar como uma maluca – E se você estava se perguntando por que ainda não foi embora, está aqui um bom motivo, não é mesmo?
A pergunta tirou Vegeta de sintonia. Ela havia tocado exatamente no assunto que o perturbava. Ele passara o dia voando pela cidade, treinando e pensando no que Goku tinha lhe perguntado.
*Flashback*
"Então por que não vai? Quero dizer... Se está tão convencido disso, por que ainda não foi embora?"
*Flashback*
Ele passara boa parte da tarde pensando sobre isso. Por que ainda não tinha ido embora? Seu único motivo para ficar era se tornar mais forte e derrotar seu rival, mas não haveria nenhum outro motivo que o fizesse permanecer ali?
E agora ela estava ali diante dele, perguntando exatamente o que ele estava demorando tanto para se responder.
- Eu fiz uma pergunta Vegeta... Não vai me responder?
- Me deixa em paz – Saiu dalí e dirigiu-se para seu quarto o mais rápido possível, bufando de raiva do atrevimento daquela humana.
Ao mesmo tempo em que sentia uma vontade quase incontrolável de matar aquela mulherzinha insolente, estava admirado da coragem dela. Enquanto todos os empregados e até mesmo o senhor e a senhora Briefs tremiam de medo dele, aquela humana o enfrentava de igual para igual.
- Tenho que admitir... Você tem coragem humana!
Bulma entrou nervosa em sua casa, mas ao mesmo tempo se sentiu vencedora. Havia enfrentado o saiyajin e sentia que aquela batalha era dela.
"Eu o deixei sem resposta. Espero que isso faça com que ele pare de ser tão arrogante".
De repente sentiu seu estômago pedindo por comida.
- É... Essa discussão me deixou com fome. Preciso de algo pra comer e agora – Ela conversava consigo mesma enquanto ia calmamente para a cozinha.
Duas horas se passaram e Vegeta, mesmo contrariando a sua vontade, saiu de seu quarto e foi até a cozinha procurar algo para comer. Bulma não era a única que havia passado o dia sem comer e estava com muita fome.
Ao adentrar a cozinha pôde ver alguns armários abertos, o que era algo atípico.
- Quem fez essa bagunça aqui?
Continuou a remexer os armários e, sem querer, deixou que um vaso de vidro caísse no chão fazendo barulho e estilhaçando os cacos por toda cozinha.
"Mas que m... Agora aquela maluca vai vir aqui me questionar sobre o que estou fazendo. Era só o que faltava mesmo!"
- Vegeta, é você que está aí? – a voz de Bulma veio meio abafada, provavelmente ela estava na sala, pensou ele.
- Não... É o Shen Long, qual o seu terceiro pedido? – Disse com o tom mais sarcástico possível... – É claro que sou eu, quem mais poderia ser?
Ela não respondeu, apenas continuou onde estava, quieta.
- Cadê a comida mulher? – Estava irritado, já estava tarde, ele estava com fome e não encontrava absolutamente nada pronto para comer.
- É... Eu também já procurei.
- Como assim já procurou? Venha aqui agora fazer algo pra eu comer!
- Eu não sou sua empregada entendeu! – Falou de uma forma tão irritada quanto ele, mas logo se acalmou – E mesmo se eu fosse sua empregada, não poderia fazer nada.
Caminhou lentamente até a cozinha, de encontro a Vegeta.
- Se lembra que o Goku esteve aqui essa tarde?
- É... Eu vi aquele imbecil aqui.
- Como eu disse, não posso fazer nada. Ele comeu tudo que minha mãe tinha deixado pra eu comer enquanto estivesse fora.
- Verme maldito...
- Imaginei mesmo que viria aqui de madrugada procurar comida.
- Como você deixou aquele imbecil comer toda a MINHA comida?
- Olha aqui, se quiser pode continuar reclamando, mas eu não vou ficar aqui escutando você descontar em mim tudo o que deixa você perturbado, entendeu! Eu já cansei da sua falta de educação e paciência. – Sua voz soava firme e decidida, não estava a fim de recomeçar uma discussão, e ela também estava com fome.
Vegeta quis retrucar alguma coisa, mas apenas guardava em seus pensamentos... O jeito como ela o enfrentava o deixava na defensiva. Depois da outra discussão, esperava que ela estivesse mais calma e até se desculpasse, como já acontecera algumas outras vezes; mas não foi o que aconteceu dessa vez. Ela o olhava de forma firme, e isso lhe causava uma admiração interna.
Passou os olhos nela e percebeu como estava bonita; notou que seus olhos brilhavam ainda mais intensamente quando ela estava séria.
"O que é que eu estou pensando agora droga! Ela é uma humana, apenas uma droga de humana...!"
Bulma interrompeu seus pensamentos.
- Ou se quiser... Pode ir comigo buscar comida em algum lugar e acabar de uma vez com essa palhaçada toda. Afinal, meu estômago está roncando! – seu sorriso resolveu se mostrar de uma forma simples, mas muito confortante, e ele entendeu que aquele era um sinal de paz.
Ela tinha razão, e ele sabia disso. Já estava na hora de parar com a discussão e declarar paz, pelo menos até que não estivesse mais com fome.
- Está certo, mas vamos logo então, estou com mais fome que você!
