Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.

Essa fanfic é uma adaptação.

Capitulo 02

O estranho não me soltou naquela escuridão escaldante, apenas massageou minhas costas numa tentativa de relaxar minhas vértebras tensas.

"Meu Deus, eu sinto muito", eu disse por entre os dentes trêmulos. "Eu pensei que você fosse meu namorado."

"Neste momento, eu queria muito ser." Ele soou pesaroso. Sua mão subiu até minha nuca desnuda e apertou com delicadeza, liberando a tensão dos pequenos músculos. "Quer que eu acenda a luz?"

"Não!", eu o segurei.

Ele obedeceu e ficou parado.

"Você poderia me dizer seu nome?", um sorriso coloriu a voz dele ao fazer a pergunta.

"Claro que não, de jeito nenhum! Nada de nomes."

"Tudo bem, chefe."

Ele me ajudou a descer da mesa, segurando-me enquanto eu me equilibrava. Meu coração martelava com violência.

"Eu nunca fiz nada assim antes. E-eu me sinto como se fosse desmaiar ou gritar ou algo..."

"Eu gostaria que você não fizesse nada disso."

"E eu gostaria mesmo que ninguém ficasse sabendo disso. Eu não queria ficar sabendo. Eu queria..."

"Você fala rápido quando está nervosa", ele observou.

"Eu falo rápido o tempo todo. E não estou nervosa. Estou em choque. Eu queria poder desfazer isso. Eu me sinto como uma daquelas páginas de erro que aparecem na internet..."

"Uma 404?"

"Isso mesmo. Isto aqui foi um grande 404."

Ele soltou um grunhido de divertimento.

"Está tudo bem", ele falou, puxando-me para mais perto. A proximidade do corpo dele era tão reconfortante que eu não consegui me obrigar a afastá-lo. E a voz dele era tão tranquilizadora que poderia ter detido um estouro de boiada.

"Está tudo bem. Não aconteceu nada de errado."

"Você não vai contar para ninguém?"

"Claro que não. Se o Sasori souber, ele vai me dar uma surra."

Eu aquiesci, embora a ideia de Sasori dando uma surra naquele cara fosse risível. Mesmo por cima das camadas de roupa, dava para sentir os contornos de um corpo tão rígido e poderoso que parecia invulnerável. No mesmo segundo, eu me lembrei do sujeito na tenda da recepção e arregalei os olhos na escuridão.

"Oh."

"O que foi?", ele baixou a cabeça e sua respiração quente agitou o cabelo na minha testa.

"Eu te vi na tenda, de pé nos fundos. Você é o cara dos olhos pretos, não é?"

Ele ficou absolutamente imóvel.

"Você é a madrinha de vestido verde."

Uma risada baixa e irônica escapou por entre seus lábios, um som tão delicioso que fez todos os pelos do meu corpo ficarem eriçados.

"Cacete! Você é uma Uzumaki, não é?"

"Não vou admitir nada."

Eu lutei para catalogar a vergonha e a agitação que ardiam dentro das minhas veias. A boca dele estava tão perto. Eu queria mais daqueles beijos sufocantes. E me senti péssima por isso. Mas a fragrância quente e ensolarada dele... ele tinha um cheiro mais gostoso do que qualquer ser humano que eu já tinha conhecido.

"Tudo bem", eu disse, vacilante, "esqueça o que eu disse sobre não falarmos nossos nomes. Quem é você?"

"Para você, querida... eu sou problema."

Nós dois ficamos imóveis e em silêncio, presos em um meio abraço como se cada um daqueles segundos proibidos tivesse formado um elo em uma corrente à nossa volta. A parte do meu cérebro que ainda funcionava me pedia para eu me afastar dele sem demora. Mas, ainda assim, eu não conseguia me mexer, paralisada pela sensação de que algo extraordinário estava acontecendo. Mesmo com todo barulho fora da adega, com as centenas de pessoas tão próximas, eu sentia como se estivesse em algum lugar distante.

Ele levou uma das mãos até o meu rosto, e seus dedos exploraram cada curva da minha face. Sem pensar, eu ergui a mão e senti o dorso dos dedos dele, procurando pelo metal frio de um anel.

"Não", ele murmurou. "Não sou casado."

A ponta de seu dedo mínimo encontrou a borda da minha orelha e a delineou com delicadeza. Eu me vi caindo em um estado estranho e agradável de passividade. Eu não posso fazer isto, pensei, enquanto deixava que ele me puxasse para mais perto, e que sua mão colasse meu quadril no dele. Senti minha cabeça pesar, e ela caiu para trás quando ele aninhou o nariz no espaço macio debaixo do maxilar. Eu sempre pensei que era muito boa em resistir às tentações. Mas essa era a primeira vez que eu sentia a atração de um desejo real, e não estava apta a lidar com isso.

"Você é amigo do noivo", eu consegui perguntar, "ou da noiva?"

Eu senti que ele sorria na minha pele.

"Eu não diria que sou popular com nenhum dos dois lados."

"Meu Deus. Você é um penetra, não é?"

"Querida, metade das pessoas aqui é penetra", ele argumentou percorrendo com o dedo uma das alças que segurava meu vestido, e senti um frio na barriga de excitação.

"Você está no ramo do petróleo? Ou no agropecuário?"

"Petróleo", ele respondeu. "Por que a pergunta?"

"Você tem corpo de peão."

Uma risada ecoou dentro do peito dele.

"Eu já carreguei minha cota de tubos de perfuração", ele admitiu. Sua respiração era suave e quente no meu cabelo. "Então... você costuma sair com operários? Aposto que não. Uma garota rica como você... só deve andar com gente do seu clubinho, não é mesmo?"

"Você está usando um belo smoking, para um operário", eu respondi. "Armani?"

"Até os petroleiros precisam se vestir bem de vez em quando", ele apoiou as mãos dos lados do meu corpo, segurando de leve a borda da mesa. "Para que serve isto aqui?"

Eu recuei para preservar a pequena mas crucial distância entre nossos corpos.

"A mesa de degustação?", perguntei.

"Isso."

"É para abrir as garrafas e decantar. Nós guardamos os acessórios de vinho nas gavetas. Também guardanapos brancos para envolver a garrafa, para que se possa avaliar a cor do vinho."

"Eu nunca estive em uma degustação de vinho antes. Como se faz isso?"

Eu olhei para o contorno da cabeça dele, agora um pouco visível em meio às sombras pesadas.

"Você segura a taça pela haste e enfia o nariz no bojo, para inspirar o aroma."

"No meu caso é uma quantidade considerável de nariz."

Eu não consegui resistir e o toquei. Meus dedos subiram até o rosto dele para investigar a linha assertiva de seu nariz. Eu toquei a curva perto dos olhos.

"Como você quebrou?", perguntei com a voz abafada.

Os lábios quentes dele deslizaram pela palma da minha mão.

"Essa é uma das histórias que eu só conto quando estou bebendo algo bem mais forte do que vinho."

"Oh", puxei minha mão. "Desculpe."

"Não se desculpe. Eu não me importo de te contar algum dia."

Obstinada, eu recoloquei a conversa no rumo.

"Quando você toma um gole do vinho, deve segurá-lo na boca. Existe um lugar no fundo da boca que leva a pequenos receptores na cavidade nasal. Isso se chama retro olfato."

"Interessante." Ele fez uma pausa. "Então, depois que prova e cheira o vinho, você cospe em um balde, certo?"

"Eu prefiro engolir a cuspir."

Quando eu percebi o duplo sentido daquelas palavras, fiquei tão vermelha que tive certeza de que ele percebeu, mesmo no escuro. Felizmente, ele não comentou, embora eu tenha notado um toque de diversão em sua voz.

"Obrigado pela aula."

"De nada. É melhor nós irmos, agora. Você sai primeiro."

"Tudo bem."

Mas nenhum de nós se moveu.

E então as mãos dele encontraram meu quadril, subiram e um calo em seu dedo raspou no tecido delicado do meu vestido. Eu estava atenta a cada gesto dele, aos movimentos sutis dos ossos e dos músculos poderosos. O som de sua respiração era eletrizante.

As mãos grandes e calejadas não pararam até aninharem meu rosto com um carinho que fez minha garganta estreitar. Sua boca procurou a minha, quente e suave como seda. Mas apesar de toda delicadeza do beijo, havia algo de tão primitivo naquela carícia que, quando ele se afastou, meus nervos ardiam de prazer e pulsavam, insuportavelmente vivos. Um ganido emergiu da minha garganta, um som que me envergonhou, mas eu não tinha controle. Sobre nada.

Eu ergui as mãos para segurar aqueles pulsos grossos, principalmente para não cair. Meus joelhos estavam bambos. Eu nunca tinha sentido nada tão explosivo ou insidioso. O mundo tinha diminuído para aquela saleta com aroma de vinho, dois corpos no escuro, o meu doendo de desejo por alguém que nunca poderia ter. Ele moveu a boca até minha orelha, e eu senti o calor úmido de sua respiração e me encostei nele em um tipo de torpor.

"Escute, querida", ele sussurrou. "Foram poucas as vezes na minha vida em que alguma coisa estava tão boa que não dei a mínima para as consequências", ele passeou os lábios pela minha testa, pelo meu nariz, pelas minhas pálpebras trêmulas. "Vá dizer ao Sasori que você não está se sentindo bem e venha embora comigo. Agora. A lua cheia está linda esta noite. Vamos achar algum lugar, algum gramado macio, dividir uma garrafa de champanhe. E então eu te levo até Galveston para ver o sol nascer na baía."

Eu fiquei atônita. Os homens nunca me propunham coisas assim. E eu nunca teria pensado que ficaria assim, tão tentada.

"Não posso. É loucura."

Os lábios dele pegaram os meus em um beijo que terminou com uma mordida delicada.

"Talvez seja loucura não irmos", ele sussurrou.

Eu me contorci e me afastei até conseguir estabelecer alguma distância entre nós.

"Eu tenho namorado", eu disse, trêmula. "Eu não sei por que eu não... eu não sei por que deixei isso acontecer. Sinto muito."

"Não sinta. Pelo menos, não por isso", ele se aproximou e eu fiquei tensa.

"Você deveria sentir muito", ele continuou, "porque, pelo resto da minha vida, vou ter que evitar adegas de vinho para não pensar em você."

"Por quê?", eu perguntei, aflita e envergonhada. "Me beijar foi assim tão ruim?"

"Não, meu amor. Foi assim tão bom", ele respondeu num sussurro diabólico de tão delicado.

E ele saiu primeiro, enquanto eu me encostava na mesa de degustação com o equilíbrio seriamente comprometido.

Eu voltei para o meio da algazarra e me esgueirei até a escadaria que levava aos quartos no segundo andar. Hinata estava à minha espera no quarto que Naruto ocupou durante a infância. Eu tinha irrompido ali milhares de vezes em busca de atenção da única pessoa que parecia sempre ter tempo para mim. Eu devo ter sido muito chata, tagarelando enquanto ele tentava fazer a lição de casa, levando meus brinquedos quebrados para ele consertar. Mas Naruto aguentou tudo aquilo com o que agora parecia uma paciência notável.

Eu lembrei de uma vez quando tinha a mesma idade de Hanabi, talvez um pouco mais nova, e Deidara e Gaara jogaram minha boneca favorita pela janela e Naruto foi ao resgate dela. Eu tinha entrado no quarto do Deidara, um caos de brinquedos, livros e roupas jogadas, e o vi com Gaara, os dois ajoelhados junto à janela aberta.

"O que vocês estão fazendo?", eu perguntei, arriscando me aproximar. As duas cabeças loira e ruiva se viraram ao mesmo tempo.

"Sai daqui, Sakura", Deidara mandou.

"O papai disse que vocês têm que me deixar brincar."

"Depois. Agora cai fora."

"O que você está segurando?", eu me aproximei, e meu coração quase parou quando vi algo nas mãos deles, amarrado com barbante. "É a... é a Emmy?"

"Nós só apegamos emprestada", Gaara falou com as mãos ocupadas com barbante e um tipo de tecido plástico.

"Vocês não podem fazer isso!", eu senti o pânico dos indefesos, a afronta dos despossuídos. "Vocês não me pediram. Devolvam! Devol..."

Minha voz se esfacelou em um grito quando vi Emmy sendo pendurada por sobre o parapeito, seu corpo cor-de-rosa nu preso por uma confusão de barbantes, fitas adesivas e clipes de papel. Minha boneca tinha sido recrutada para uma missão de paraquedista.

"Nãããããão!"

"Pelo amor de Deus!", Deidara reclamou com um tom de indignação. "Ela é só um monte de plástico."

E, para piorar a situação toda, ele olhou feio para mim e a deixou cair.

Emmy caiu como uma pedra. Eu não teria ficado mais arrasada se os meninos tivessem jogado um bebê de verdade pela janela. Uivos rasgaram minha garganta enquanto eu saía correndo do quarto e descia a escadaria. Eu continuei uivando enquanto saí afobada para a lateral da casa, sem prestar atenção às vozes dos meus pais, da governanta, do jardineiro.

Emmy tinha caído no meio de um arbusto imenso de alfena. A única coisa visível era o paraquedas amassado, que tinha ficado preso em um galho mais alto. Minha boneca permanecia escondida em meio à folhagem verde e às flores brancas. Como eu era baixa e pequena demais para alcançar no meio dos galhos, eu só pude ficar lá chorando, enquanto o calor do sol do Texas pesava sobre mim como um cobertor de lã.

Alertado pela gritaria, Naruto apareceu e vasculhou o alfeneiro até encontrar Emmy. Ele tirou a poeira das folhas de alfena que tinha caído na boneca e me segurou contra ele até minhas lágrimas serem absorvidas por sua camiseta.

"Eu te amo mais que todo mundo", eu sussurrei para ele.

"Eu também te amo", Naruto sussurrou em resposta, e eu pude senti-lo sorrindo contra meu cabelo. "Mais do que todo mundo."

Quando eu entrei no quarto de Naruto, na noite do casamento, vi Hinata sentada na cama em meio a uma pilha de organza cintilante, os sapatos dela no chão e o véu flutuando como uma espuma sobre o colchão. Parecia impossível que ela pudesse ficar mais deslumbrante do que estava antes, na igreja. Mas sua aparência era ainda melhor naquele momento, com a maquiagem borrada. Ela era parcialmente japonesa, com uma pele lisa e macia e grandes olhos num azul quais perolado, além de um corpo que fazia a gente pensar na palavra bombástica. Ela também era tímida. Cautelosa. Dava para perceber que as coisas não tinham sido fáceis para ela, que ela conhecia de perto o que era dificuldade. Hinata fez uma careta cômica quando me viu.

"Minha salvadora. Você precisa me ajudar a sair desse vestido. Ele tem mil botões, e todos ficam nas costas."

"Tudo bem." Eu me sentei na cama ao lado dela, e Hinata virou as costas para mim, para facilitar meu trabalho. Eu me senti constrangida, lutando com tensões mudas que nenhuma quantidade de gentileza da parte dela ajudaria a desfazer. Eu tentei pensar em alguma coisa gentil para dizer.

"Eu acho que hoje foi o melhor dia da vida de Naruto. Você sabe fazer dele um homem feliz de verdade."

"Ele também me faz feliz", Hinata disse. "Mais do que feliz. Ele é o homem mais incrível, o mais...", ela se interrompeu e ergueu os ombros, como se fosse impossível pôr os sentimentos em palavras.

"Nós não somos a família mais fácil de entrar. Muitas personalidades fortes."

"Eu amo os Uzumaki", ela disse sem hesitar. "Todos vocês. Eu sempre quis uma família grande. Depois que minha mãe morreu, ficamos só eu e a Hanabi."

Eu nunca tinha pensado no fato de que nós duas perdemos a mãe quando éramos adolescentes. Exceto que deve ter sido mais assustador para Hinata, porque ela não tinha um pai rico, nem família, nem casarão ou vida confortável. E ela criou a irmãzinha completamente só, o que eu tinha que admirar.

"Sua mãe ficou doente?", eu perguntei.

Ela meneou a cabeça.

"Acidente de carro."

Eu fui até o closet e peguei o terninho branco que estava pendurado atrás da porta. Eu o levei até Hinata, que se contorceu para fora do vestido de casamento.

Ela era uma visão de curvas suntuosas contidas em renda branca. O volume de sua gravidez estava mais pronunciado do que eu teria imaginado. Hinata vestiu as calças brancas e o blazer combinando, com scarpins bege de saltos baixos. Foi até a cômoda, aproximou-se do espelho e limpou o delineador borrado com um lenço de papel.

"Bem", ela disse, "isso é o melhor que vai ficar."

"Você está maravilhosa", eu disse.

"Meio caída."

"Mas de um jeito maravilhoso."

Ela olhou para mim por cima do ombro e deu um sorriso deslumbrante.

"Seu batom sumiu, Sakura." Ela apontou para o espelho ao lado dela. "Sasori te pegou em algum canto, não foi?"

Ela me deu um tubo de algo brilhante e claro. Por sorte, antes que eu tivesse que responder, alguém bateu na porta. Hinata foi abrir e Hanabi entrou, acompanhada da minha tia Tsunade.

Tia Tsunade era a única irmã do meu pai, mais velha que ele. Sem dúvida, era minha parente favorita dos dois lados da família. Ela nunca foi elegante como a minha mãe. Tsunade tinha nascido no campo e era valente como as mulheres pioneiras que cruzaram o Rio Vermelho na Trilha Cherokee. Nessa época, as mulheres texanas aprenderam a tomar conta de si mesmas porque os homens estavam sempre viajando quando se precisava deles. As versões contemporâneas continuavam sendo assim, com uma determinação férrea por baixo de cosméticos Mary Kay.

Tia Tsunade devia ter todos os motivos para ser uma figura trágica. Ela tinha ficado noiva três vezes, e perdeu todos os três noivos. O primeiro morreu na Guerra da Coreia, o segundo em acidente de carro e o terceiro de um problema não diagnosticado no coração. Todas as vezes, tia Tsunade enfrentou a perda, ficou de luto e a aceitou. Ela dizia que nunca mais pensou em se casar — era evidente que ela não estava destinada a ter um marido.

Mas tia Tsunade conseguia extrair da vida toda diversão possível. Ela vestia tons vivos de coral e vermelho, sempre combinava o batom com as roupas e usava joias em todos os lugares possíveis. O cabelo dela estava sempre armado em um bola prateada fofa. Quando eu era pequena, tia Tsunade viajava bastante e sempre trazia presentes para nós.

Quando ela aparecia e passava uma semana e pouco conosco, minha mãe sempre achava inconveniente. Colocar duas mulheres de gênio forte na mesma casa era como colocar dois trens na mesma linha e ficar esperando a colisão.

Mamãe gostaria de ter limitado as visitas da tia Tsunade, mas não teve coragem. Uma das únicas vezes que ouvi meu pai ser ríspido com a minha mãe foi quando ela estava reclamando da irmã intrometida dele.

"Eu não dou a mínima se ela virar a casa toda de cabeça para baixo", papai falou. "Ela salvou a minha vida."

Quando papai ainda estava no ensino fundamental, o pai dele, meu avô, abandonou a família para sempre, e disse para todo mundo que a esposa dele era a mulher mais malvada com quem ele tinha vivido, e a mais maluca também. E embora ele pudesse ter aguentado ficar com uma maluca, não havia nada pior do que ser casado com uma malvada. Ele desapareceu de Conroe, onde os dois moravam, e nunca mais foi visto.

Alguém poderia ter a esperança de que o fato de o vovô ter ido embora faria a vovó parar e repensar, e talvez até a inspiraria a ser uma pessoa melhor. Muito pelo contrário, vovó desandou de vez. Ela descia o braço nos dois filhos, sempre que era provocada. E parecia que tudo a provocava. Ela pegava utensílios de cozinha, ferramentas de jardinagem, qualquer coisa que estivesse ao alcance e quase matava os filhos de pancada.

Naquela época, as pessoas tinham mais tolerância com esse tipo de coisa, então ninguém interferia no que era visto como assunto particular da família. Tsunade sabia que ela e o irmãozinho estariam condenados à morte certa se ela não tirasse os dois dali.

Ela economizou dinheiro lavando e costurando roupa para fora e, logo depois de completar 16 anos, Tsunade pegou Minato no meio da noite, empacotou as roupas dos dois em uma mala improvisada com uma caixa de papelão e foi com ele até o fim da rua, onde seu namorado a esperava de carro. O namorado os levou por mais de 60 quilômetros, de Conroe a Houston, onde os deixou com a promessa que logo voltaria a vê-los. Ele nunca mais apareceu. Tia Tsunade não ficou decepcionada — ela esperava por isso. Ela teve que sustentar a si própria e Minato com um emprego na companhia telefônica. Vovó nunca os encontrou, e ninguém sabe se ela chegou a procurar pelos filhos.

Os últimos anos tinham deixado Tsunade um tanto abalada. Ela andava meio esquecida, um pouco ranzinza. Movimentava-se como se suas articulações não estivessem tão firmes como deveriam. Sua pele fina tinha adquirido um aspecto translúcido, e as veias azuladas eram evidentes como se fossem um diagrama que alguém não conseguiu apagar por completo. Ela foi morar conosco depois que minha mãe morreu, o que alegrou meu pai, porque ele queria ficar de olho na irmã.

A chegada de Hanabi à nossa casa pareceu dar um estímulo muito necessário em Tsunade. Ninguém tinha dúvida de que as duas se adoravam.

Vestida de roxo e cor de rosa, com o cabelo preto preso por um grande laço brilhante em um rabo de cavalo alto, Hanabi parecia uma modelo de alta costura com nove anos de idade. Ela trazia o buquê da noiva, a versão menor feita para Hinata jogar.

"Acho que eu vou jogar esta coisa", Hanabi anunciou. "Hinata não arremessa tão bem quanto eu." Tsunade se aproximou, exultante.

"Você foi a noiva mais linda que eu já vi", ela disse, abraçando Hinata. "O que você vai usar como roupa de despedida?"

"Esta é minha roupa de despedida", Hinata respondeu.

"Você vai usar calças?"

"É um conjunto Escada, tia Tsunade", eu disse. "Tem muito estilo."

"Você precisa de mais joias", Tsunade disse para Hinata. "Essa roupa é muito comum."

"Eu não tenho muitas joias", Hinata disse, sorrindo.

"Você tem um anel de diamante do tamanho de uma maçaneta", eu comentei. "Já é um começo."

Eu ri diante da reação constrangida de Hinata por causa do anel de noivado, que ela julgava grande demais. É claro que meu irmão Deidara ajudou a deixar Hinata pouco à vontade quando apelidou o diamante de "pedra de estimação".

"Você precisa de uma pulseira", Tsunade declarou, decidida, e estendeu alguma coisa dentro de uma bolsinha de veludo. "Pegue isto, Hinata. Algo barulhento, para as pessoas saberem que você está chegando."

Hinata abriu a bolsa com cuidado, e senti meu coração apertar quando vi o que era: a pulseira de ouro que Tsunade usava desde sempre, adornado com os berloques que ela recolheu em todos os lugares exóticos por onde passou ao longo da vida. Ela tinha prometido me dar aquela pulseira quando eu tinha cinco anos de idade.

Eu lembrava do dia exato — ela tinha me comprado um conjunto infantil completo de ferramentas, que vinha com um cinto de couro com bolsos e prendedores. E eram ferramentas de verdade, de trabalho, e incluíam um grampo-sargento, serrote, furador, alicate, nível, martelo, oito chaves-inglesas e um conjunto de chaves Phillips.

Assim que mamãe me viu colocando o cinto de ferramentas, ela fez uma careta. Ela abriu a boca para falar, mas antes de a primeira sílaba sair, eu soube que ela iria dizer para tia Tsunade pegar o presente de volta. Então eu agarrei um punhado de ferramentas e corri para o papai, que naquele instante entrava na sala de estar.

"Olha o que a tia Tsunade trouxe para mim!"

"Veja só que legal!", papai exclamou, sorrindo primeiro para Tsunade, depois para minha mãe. O sorriso ficou duro quando ele viu o rosto da esposa.

"Tsunade", minha mãe disse, ríspida. "Eu gostaria de ser consultada na próxima vez em que você comprar um presente para minha filha. Não estou planejando criar uma operária da construção civil."

Eu parei de saltitar na mesma hora.

"Não vou devolver", eu falei.

"Não responda para sua mãe", papai ralhou.

"Minha nossa", Tsunade exclamou, "são brinquedos, Kushina. Haven gosta de fazer coisas. Não há nada de errado nisso."

A voz da minha mãe soou toda espinhosa.

"Sou eu quem decide o que é melhor para minha filha, Tsunade. Se você entende tanto de crianças, deveria ter tido as suas."

Ela saiu pisando duro, passando por mim e pelo meu pai, deixando um silêncio gelado em seu rastro. Tsunade suspirou, balançando a cabeça enquanto olhava para meu pai.

"Posso ficar com as ferramentas?", perguntei.

Papai me deu um olhar exasperado e foi atrás da minha mãe. Eu me aproximei devagar da tia Tsunade, as mãos apertadas à minha frente. Ela estava em silêncio, mas eu sabia o que tinha que fazer. Eu tirei o cinto de ferramentas e o coloquei com cuidado de volta na caixa.

"Acho que você deveria ter me dado um conjunto de chá", eu disse, carrancuda. "Pode levar, tia Tsunade. Ela não vai me deixar brincar com isso, mesmo."

Tsunade bateu em seu joelho e eu subi no colo dela, envolvendo-me nos aromas de talco, laquê e perfume Rive Gauche. Vendo como eu estava encantada com sua pulseira de berloques, ela a tirou e me deixou segurá-la. Ela comprava um novo berloque toda vez que viajava para um lugar novo. Eu vi uma Torre Eiffel pequenina, um abacaxi do Havaí, um fardo de algodão de Memphis, um toureiro com a capa esvoaçante, esquis de neve cruzados de New Hampshire e muitos outros.

"Algum dia", Tsunade falou então, "eu vou dar esta pulseira para você. E você vai poder pendurar seus próprios berloques."

"Eu vou conhecer tantos lugares quanto você, tia Tsunade?"

"Talvez você não queira. Pessoas como eu só viajam porque não têm motivos para ficar parada num lugar."

"Quando eu for grande", eu disse, "eu nunca vou ficar parada."

Tsunade tinha se esquecido da promessa, eu pensei. Não era culpa dela. Ela vinha esquecendo de muitas coisas ultimamente. Tudo bem, eu pensei. Deixe para lá. Mas eu conhecia a história por trás de cada berloque. E parecia que Tsunade estava tirando de mim aqueles pedaços de memória e dando para Hinata. De algum modo, consegui forçar um sorriso e o mantive.

Minha tia transformou em espetáculo o ato de prender a pulseira no pulso de Hinata. Hanabi dançava em volta das duas, agitada, enquanto pedia para ver os berloques. Meu sorriso não parecia fazer parte do meu rosto. Ele ficou pendurado ali como um quadro na parede, suspenso por fios e tachas.

"Acho que deveria estar fazendo alguma coisa com isto", eu disse casualmente, pegando o véu da cama e o pendurando no braço. "Sou uma péssima madrinha, Hinata. Você devia me despedir."

Ela me deu um olhar rápido. Apesar da minha máscara de alegria, Hinata percebeu algo que a fez parecer preocupada.

Quando nós todas saímos do quarto, Hanabi e Tsunade foram na frente e Hinata me deteve com um leve toque no braço.

"Sakura", ela sussurrou, a pulseira tilintando, "isto aqui era para ser seu algum dia?"

"Oh, não, não", eu disse sem hesitar. "Não sou fã de pulseiras com berloques. Eles ficam enroscando nas coisas."

Nós descemos pela escada, enquanto Tsunade e Hanabi ficaram esperando o elevador.

Quando chegamos ao último degrau, alguém se aproximou com passos longos e tranquilos. Eu levantei o rosto e vi um par de extraordinários olhos ônix.

Um arrepio de alerta me percorreu quando ele parou junto ao pilar do corrimão, onde se apoiou, bem à vontade. Meu rosto ficou branco-aspirina. Era ele, o cara da adega. O Sr. Operário-de-smoking, grande, sexy e atrevido como um cachorro de ferro-velho. Ele me deu um olhar breve e impessoal, e logo sua atenção se concentrou em Hinata.

Para minha surpresa, Hinata não olhou para ele com espanto nem curiosidade, apenas com um sorriso resignado. Ela parou e cruzou os braços à frente do peito.

"Um pônei de presente de casamento?"

Um sorriso delineou os grandes lábios.

"Hanabi gostou do animal quando nós fomos cavalgar", o sotaque dele soou um pouco mais pronunciado do que quando estávamos na adega, com aquela característica arrastada que costuma se ouvir em cidades pequenas ou estacionamentos de trailer. "Eu pensei que você já tinha tudo de que precisava, então comprei uma coisinha para sua irmã."

"Você sabe quanto custa para manter essa 'coisinha'?", Hinata perguntou sem se alterar.

"Eu pego de volta, se você quiser."

"Você sabe que Hanabi nunca nos perdoaria. Você deixou meu marido em uma situação difícil, Sasuke."

O sorriso dele tornou-se levemente irônico.

"Você sabe que eu detesto ouvir isso." Sasuke.

Eu virei o rosto para o lado e fechei os olhos bem apertado, só por um segundo. Merda. Que... merda! Eu não só tinha beijado um homem que não era meu namorado, mas acontece que esse homem era um inimigo da família. O pior inimigo do meu irmão, que tinha arruinado de propósito um imenso negócio de biocombustível que significava muito para Naruto — pessoal e profissionalmente.

Pelo que eu sabia, Sasuke Uchiha tinha sido apaixonado por Hinata, em sua adolescência, mas ele sumiu e partiu o coração dela. Que quando retornou Hinata ficou balanca por um tempo, e agora tinha voltado para arrumar mais confusão.

Era o que esse tipo de homem fazia.

Era humilhante perceber que ele não tinha se sentido atraído por mim, que a proposta dele na adega teve o objetivo de ser mais um golpe contra os Uzumaki. Sasuke Uchiha queria constranger a família, e não via nenhum problema em me usar para isso.

"Sakura", Hinata disse, "este é um velho amigo meu. Sasuke Uchiha, esta é minha cunhada, Sakura Uzumaki."

"Srta. Uzumaki", ele cumprimentou.

Eu me obriguei a olhar para ele. Seus olhos eram de um incrível negro-sobre-negro em uma pele curtida pelo sol. Embora ele estivesse impassível, reparei nas minúsculas linhas de riso que partiam dos cantos daqueles olhos. Ele estendeu a mão, mas não consegui apertá-la. Eu senti medo do que poderia acontecer, de como poderia me sentir, se eu o tocasse outra vez.

Sorrindo da minha hesitação, Sasuke falou com Hinata enquanto seu olhar permanecia cravado no meu.

"Sua cunhada parece um pouco indócil, Hinata."

"Se você veio para fazer uma cena...", ela começou, calma.

Sasuke desviou o olhar para ela.

"Não, senhora. Só queria lhe desejar tudo de bom."

A expressão dela se suavizou e Hinata apertou brevemente a mão dele.

"Obrigada."

Uma nova voz entrou na conversa.

"Olá!", era meu irmão Deidara, parecendo tranquilo. Mas havia um brilho em seus olhos azuis que avisava, em silêncio, de problemas se aproximando. "Sr. Uchiha, fui avisado que você não está na lista de convidados. Então, tenho de lhe pedir que saia."

Sasuke o mediu com o olhar.

No silêncio que se seguiu, senti cada músculo do meu corpo se enrijecer, enquanto rezava em silêncio para que uma briga não irrompesse no casamento do meu irmão Naruto. Olhei para Hinata e vi que ela tinha ficado pálida. Eu pensei, rancorosa, que Sasuke Uchiha era um maldito egoísta, por aparecer no casamento dela daquele modo.

"Sem problemas", Sasuke disse com uma insolência relaxada. "Já consegui o que eu queria."

"Deixe-me acompanhá-lo até a saída", Deidara falou.

Hinata e eu soltamos a respiração quando eles se foram.

"Espero que ele vá embora antes que o Naruto o veja", disse Liberty.

"Pode deixar que o Deidara vai cuidar disso", então eu entendi por que ela tinha escolhido meu irmão em vez daquele malandro. "Dá para ver que esse Cates é um sujeito ambicioso", eu observei. "Ele provavelmente conseguiria vender manteiga para uma vaca."

"Sasuke é ambicioso", Hinata admitiu. "Mas ele veio do nada. Se você soubesse as coisas que ele teve que superar...", ela suspirou. "Aposto que em menos de um ano ele vai estar casado com alguma debutante de River Oaks, alguém que irá ajudá-lo a chegar ao topo."

"Ele vai precisar de muito dinheiro para isso. Nós, debutantes de River Oaks, somos caras."

"De todas as coisas que ele quer", Hinata concluiu, "dinheiro é a mais fácil de conseguir."

Hanabi correu até nós, tendo finalmente descido com o elevador.

"Vamos", ela chamou, agitada. "Todo mundo está saindo. Os fogos de artifício vão começar!"

Era só o que me faltava, pensei. Mais um espetáculo.

Na manhã seguinte eu estava fazendo minha mala no quarto quando Sasori entrou. Nós ficamos em quartos separados durante a estadia em River Oaks, o que Sasori alegou ser o correto, porque ele disse que de modo nenhum iria tocar em mim enquanto estivéssemos sob o mesmo teto que meu pai.

"Ele é velho", eu brinquei com Sasori, rindo. "O que você acha que ele vai fazer, bater em você ou algo do tipo?"

"É o 'algo do tipo' que me assusta", Sasori respondeu.

Assim que entrou no quarto, percebi que Sasori tinha conversado com meu pai. O nervosismo era evidente em seu rosto. Ele não era o primeiro homem a ficar daquele jeito depois de uma conversa em particular com Minato Uzumaki.

"Eu lhe disse", eu falei. "Meu pai é impossível. Ele não te aceitaria de jeito nenhum, não importa o quão maravilhoso você possa ser."

"Possa ser?", ele me dirigiu um olhar engraçado.

"Seja", eu o envolvi com meus braços e deitei a cabeça em seu peito. "O que ele disse?", sussurrei.

"Basicamente, uma variação do tema 'nem um centavo' ", Sasori afastou minha cabeça para trás e olhou para mim. "Eu disse para ele que você sempre estaria em primeiro lugar, sempre. Que eu iria ganhar o bastante para cuidar de você. Eu disse que só queria a aprovação dele para que não houvesse conflito entre mim e sua família."

"Os Uzumaki adoram um conflito", eu disse.

Um sorriso brilhou em seus olhos cor de mel. No alto das bochechas dele havia um toque de cor, resquícios do confronto com meu pai-buldogue. O sorriso sumiu dos olhos dele enquanto Sasori alisava meu cabelo, sua mão descrevendo com delicadeza a curva da minha nuca. Ele estava atraente, sério e preocupado.

"É isso mesmo que você quer, Sakura? Eu não conseguiria conviver comigo mesmo se fizesse algo que te prejudicasse."

A emoção fez minha voz tremer.

"A única coisa que me faria mal seria você deixar de me amar."

"Isso não é possível. Você é a mulher da minha vida, Sakura. Sempre vai ser", ele baixou a cabeça e sua boca tomou a minha em um beijo longo, lento. Eu respondi com avidez, colando meu corpo ao dele.

"Ei", ele disse em voz baixa. "O que você acha de sairmos daqui e nos casarmos?"

Continua!

Obrigada Daniele Uchiha e minha diva mais gostosa Obsidiana Negra (P.S: Atualiza logo The Deal, Perdida e O Ar Que Ele Respira... ah e Rock N Rol pq aquele capitulo me deixou mais curiosa rsrsrs)...