O dia mal raiou e lá estava ela, de pé em frente ao espelho, fitando seu próprio rosto, pálido e cheio de olheiras. Ela não sabia quem era aquela menina no reflexo, não estava com seu bom humor comum, com seu sorriso preguiçoso ao acordar, estava abatida. Claro, depois de uma noite daquelas, quem não ficaria? Passara a noite inteira sem pregar o olho, só pensando no que deveria fazer em relação ao ruivo e lembrando dos bons momentos, lembrando dos banhos de lago nos verões, as brincadeiras de pique que ficavam muito mais interessantes no outonos com tantas pilhas de folhas pra se esconder, as histórias de fantasma que não a deixavam dormir, tanta coisa que fazia com seus irmãos e amigos e com o maldito ruivo que não tirara da cabeça por nem um minuto durante esses 5 anos.
Desistiu de tentar entender a si própria e foi ao banheiro. Tomou um longo banho, escovou os dentes, vestiu um vestidinho azul que favorecia tanto seus olhos e desceu. Seus irmãos ainda não estavam à mesa, esta nem ao menos estava posta, era muito cedo, o Sol mal tinha nascido. Ela foi até os fundos da casa, não gostava dali do mesmo jeito que não gostava da sala de música, mas era lindo e gigante, era um jardim que rodeava toda a residência, a grama era bem cuidada, o belo lago onde costumavam brincar quando eram pequenos ficava nos fundos, muitas árvores, arbustos e flores, na maior das árvores havia um balanço de frente ao lago, todo de ferro, branco e cheio de decalques delicados.
A Yamanaka sentou-se no balanço e começou a balançar-se, estava triste, por vários fatores que ela mesma não compreendia bem.
-Sabia que estaria aqui. – disse o garoto loiro sentando-se ao seu lado.
-Como sabia?
-Sou seu irmão gêmeo. Não tem nada sobre você que eu não saiba.
-Isso me alivia...
- Já faz bastante tempo, né?
-É... – respondeu sem olhá-lo – 5 anos...
-Ayato, Ayato... Onde você anda agora...?
-Com certeza num lugar melhor que aqui. – Ayato era o irmão mais novo de todos, muito apegado a Ino, tinha uma saúde fraca e ficava facilmente de cama, um dia, enquanto todos brincavam juntos, Gaara esbarrou em Ayato e ele caiu dentro do rio, era outono e estava frio, quando tiraram ele da água já estava em convulsão e morreu em menos de uma hora, por esse fato o ruivo se martirizou por muito tempo e até teve de sair um pouco do país e tentar se entender, mas todos já o haviam perdoado, ele não tinha culpa afinal de contas, qualquer um podia ter derrubado Ayato no lago ou até mesmo ter caído, afinal, todos estavam lá correndo e brincando.
-É...
-Ele teria quase 11 anos agora... Me pergunto se sobreviveria até hoje.
-Dificilmente... Acho que foi melhor assim, ele sofreu por menos tempo.
-Olhando assim...
-Vamos, hora do café da manhã. – disse puxando a garota pra dentro.
O desjejum foi tranqüilo, como todos os dias, todos à mesa, conversando animadamente, falando sobre suas noites.
Logo a campainha tocou três pessoas passaram pela porta, dois garotos e uma garota, a garota saiu em disparada acompanhada por um dos garotos e pulou no pescoço da loira sentada no sofá da sala, ela assistia um filme qualquer na TV.
-Ino! O que aconteceu? Você não deu sinal de vida a noite toda! – perguntou a morena, esta era Mitsashi Tenten, uma velha amiga e colega de classe dos gêmeos. Possuidora de uma personalidade forte e não muito feminina, mas de bom coração.
-Estava ocupada demais pensando.
-Pensando no Gaara? – perguntou o moreno. Era Uchiha Sasuke, outro velho amigo e colega dos gêmeos, dono de uma das belezas mais cobiçadas e personalidades mais finas e delicadas, arrasava os corações de todas – Se quer um conselho deveria logo acertar seus assuntos pendentes. Você sabe que ele vai ser transferido pra nossa escola, não sabe? E provavelmente ficará na nossa turma.
-Como sabe?
-Andei fazendo umas pesquisas, nossa turma é única do segundo ano que sobra lugar.
-Vou ter que me transferir... – lamentou-se a loira.
-Não senhora. Você vai é resolver seus problemas! Quanto mais você fugir mais eles te perseguirão! – disse a morena – E você vai agora!
-O quê?
-Deidara nos contou que Gaara teve aqui ontem e você o pôs pra correr. – disse Sasuke – Agora você vai atrás dele, vai pedir desculpas e vai dizer tudo que tá entalado aí há 5 anos!
-Não vou não.
-Ah, você vai. É pro seu próprio bem!
-Sou eu que sei o que é pro meu bem!
-Não, nós sabemos mais. – disse a morena puxando-a pra fora junto com Sasuke, eles tocaram a campainha dos Sabaku e deixaram-na na porta – Não esqueça de dizer que o ama muito.
-Hã? – enquanto a loira tentava digerir o que os amigos haviam acabado de fazer a porta se abriu, do lado de dentro estava um ruivo sem camisa, de calça branca e uma toalha branca na cabeça, enxugando os fios rubros molhados.
-Poupou meu trabalho de ir até sua casa hoje. – ela não conseguia falar, estava meio perdida no tórax dele.
-Gostou? Fiz muita academia na Califórnia.
-Idiota! Quem disse que eu estava olhando? – perguntou desviando o olhar, suas bochechas coraram uns três tons.
-Entre, não precisa ficar aí na porta. – disse puxando-a pra dentro.
-Seus pais e sua irmã não estão em casa? – perguntou ainda sem jeito, fazia tempos que não ia lá, mas a casa estava igualzinha.
-Não, a casa está todinha só pra nós.
-Dispenso. Vim aqui resolver nossos problemas.
-Seus, né?
-Nossos!
-Que seja, que seja... – disse com seu tom risonho sentando-se no sofá – Ah,você pode sentar, sabe que não vai crescer mais.
-Você me irrita. – disse sentando em outro sofá.
-Sabia que você fica muito bem de azul claro? Realça tão bem seus olhos.
-Conquistador barato... – murmurou pra si mesma – Olha Gaara, eu entendo que você não teve culpa na morte de Ayato, na verdade a culpa foi minha e dos meus irmãos por tê-lo deixado sair naquele dia frio, mas... Existem coisas dentro de mim que eu ainda não compreendo, mas elas me afastam de você, eu não gosto de ficar perto de você, pra ser sincera eu me sinto bem e ao mesmo tempo me sinto mal ao seu lado. Então por favor, não procure mais, não fale mais comigo e me deixe em paz, tá?
-Olha só quem fala, não foi você que veio me procurar?
-Vim dar um basta nisso tudo, eu perdôo você pela morte do Ayato, mas não me procure mais, tá? – ela levantou-se , mas antes que pudesse abrir a porta algo quente pegou seu pulso, era a mão dele a impedindo de ir embora. Ele estava de pé a toalha que usara pra enxugar os cabelos estava no chão, o mesmo chão que ele fitava.
-Qual é o sentido de me perdoar e não falar mais comigo?
-Estou apenas obedecendo as ordens do meu coração.
-Mentira sua. Seu coração não quer isso. – a medida que falava aproximava-se mais dela a ponto de pressioná-la na parede ao lado da porta.
-Isso não é você quem decide. – falou calmamente sem encará-lo. Por algum motivo não queria olhar nos olhos dele, aquilo a faria fraquejar.
-Não estou decidindo! Está escrito no seu olhar.
-Não seja idiota, Gaara, você não pode ver o que está no meu olhar! Não tem nada além do que eu lhe falei, agora me solta. Preciso voltar pra casa.
-Não precisa não. Você disse que hoje ia resolver o que tinha pra resolver comigo, então não resolva pela metade! – numa precisão absurda seus lábios encostaram nos dela, a principio tentou hesitar mas aqueles lábios macios e urgentes a fizeram ceder e naquele momento todos os seus sentimentos se organizaram e de repente ela não estava mais perdida em si, o aperto no peito, as hesitações, o medo de olhá-lo, o frio na espinha, todos os sintomas estavam apontando para uma mesma doença: Amor.
Mas ela jamais admitiria, não podia estar apaixonada por ele! Agora sua mente e seu coração brigavam entre si, ela escolheria ser sensata ou entregar-se-ia totalmente nos braços fortes daquele belo ruivo?
Empurrou com uma força que surgiu do nada e limpou seus lábios.
-Não pode ir beijando os outros assim, sabia? Nunca mais encoste em mim! – disse saindo e batendo a porta, na verdade ela estava totalmente leve e agora já sabia o que queria, só não diria a ninguém, afinal, o que pensariam? Apesar de todos já desconfiarem.
Entrou em casa com uma feição meio boba, seus irmãos e amigos estavam na sala, esperando pela volta dela, ela não escaparia de um bom interrogatório malicioso.
-Olha a cara dela, aposto que se divertiram bastante. – comentou Tenten .
-O que ele fez com você? – perguntou Sasori autoritário, ele protegia as irmãs mais novas como se fossem suas filhas.
-Relaxa, Sasori, ela não é mais uma criança. – disse Itachi malicioso. Uchiha Itachi era o irmão mais velho de Sasuke, amigo de colegial de Sasori.
-Vocês não estão curiosos demais, não? – perguntou a garota encarando um ponto qualquer numa das paredes.
-O que aconteceu? Conta, conta! – pediu Sakura empolgada.
-Não aconteceu nada. Eu só o perdoei e pedi pra ele não me procurar mais.
-Você o quê? – Tenten estava furiosa – Você disse pra ele não te procurar mais? Como vou ser a madrinha do casamento de vocês se vocês não ficarem juntos?
-O que deram pra você beber aqui, hein? – perguntou a loira – Eu não gosto do Gaara, está claro pra vocês? Agora parem de pegar no meu pé. Quando eu achar um cara interessante eu mesma vou atrás dele, não preciso que vocês fiquem fazendo toda essa pressão. E se me dão licença vou tomar banho. – disse indo pro quarto.
-Aposto que rolou alguma coisa... – murmurou Tenten emburrada – Por que ela não conta?
-Deixa a menina em paz, Tenten, você pegou no pé dela esse tempo todo, ela já foi falar com ele, por que não está satisfeita? – perguntou Sasuke.
-Porque tenho certeza que ela tá escondendo algo. Será que eles fizeram?
-O que você está insinuando? – perguntou Sasori entre dentes.
-Não dê muito ouvidos à Tenten não, ela não regula bem das idéias. – disse Deidara.
Enquanto todos conversavam embaixo sobre o assunto a Yamanaka tomava seu banho enquanto lembrava. Não deveria ter batido nele daquele jeito, ele beijava tão bem, tão suave e agressivo ao mesmo tempo... Tinha um toque tão bom, macio e firme... Era um homem e tanto e ela sabia disso. Terminou seu banho, secou rapidamente seus cabelos com o secador, vestiu um short branco e uma blusa verde e desceu, as empregadas estavam pondo a mesa para o almoço e tinha uma cabeleira ruiva a mais naquela sala.
-Pensei ter dito que o azul lhe favorecia mais. Ou será que o verde foi pra te lembrar dos meus olhos?
-Gaara? O que faz aqui? – perguntou assustada – Não te falei pra não me procurar mais?
-Que prepotência, loirinha, vim ver meus velhos amigos, acha que só você tem lugar no meu coração? – o comentário dele a deixou ruborizada, desviou o olhar e sentou-se ao lado de Deidara.
-Tô vendo um clima aqui? – perguntou Itachi referindo-se ao comentário do ruivo e ao rubor no rosto da loira.
-Você não contou pra eles, Ino? –perguntou o ruivo.
-Contar o que? – perguntou o ruivo mais velho.
-Estamos namorando. – disse Gaara abraçando a loira.
-Estão? – perguntaram Tenten e Sasuke em uníssono.
-Estamos? – perguntou a loira tentando processar – Ficou doido? – perguntou de repente com raiva dando um tapa na cara dele - Eu jamais namoraria com esse idiota! Nem sei de onde ele tirou isso!
-Talvez do beijo que você me deu mais cedo. – respondeu massageando o local do tapa.
-Não lhe dei beijo nenhum! Foi você que me agarrou.
-As coisas estão ficando quentes aqui. – comentou Sakura olhando atentamente a cena. A loira puxou o Sabaku pelo colarinho até outro cômodo, era uma biblioteca, jogou-o numa das cadeiras e o olhou furiosa.
-Vai com calma, doçura, se pularmos pra esse nível tão rápido tenho certeza que seus irmãos vão pedir minha morte.
-Eu que vou lhe dar sua morte! – disse dando outro tapa nele – Quem você pensa que é pra entrar na minha casa e sair espalhando pra todo mundo que estamos namorando? Por um acaso dei a entender isso? Pensei ter dito pra nunca mais me procurar! – os gritos histéricos dela eram tão altos que podiam ser ouvidos da sala – Responda-me, Sabaku! O que lhe fez pensar que tem autoridade pra fazer esse tipo de coisa? Hein?
-Se você ainda não percebeu, tudo isso faz parte do meu amor, por você. – admitiu corando um pouco, podia não parecer, mas aquele ruivo também era um pouco tímido.
-Você ficou maluco... Olha, Gaara, saia da minha casa, por favor.
-Eu posso até sair, mas eu não vou desistir de você. – o ruivo levantou-se e saiu.
-Hey, Gaara, não vai ficar pra almoçar? – perguntou Naruto.
-Ah, não, minha irmã foi às compras hoje e está louca pra cozinhar, eu sou sempre a cobaia. Vejo vocês depois. Até mais.
-Até.
E ele saiu. Estava completamente decidido e a opinião dela não importava.
Ela ficou lá, na biblioteca, ainda digerindo, ela tinha problemas pra digerir fortes acontecimentos.
-Eu entendi direito? – murmurava consigo mesma – Ele está apaixonado por mim? Gaara? Apaixonado por mim? Tá faltando alguma coisa nessa história...
-Tá mesmo. – respondeu uma voz que ela conhecia tão bem, era Deidara – Falta você assumir que também gosta dele.
-Até você? Quem disse que eu gosto dele?
-Esqueceu que eu conheço bem você? Olha, Ino, eu não diria isso, até porque não faz sentido pra mim como seu irmão, mas se ele gosta mesmo de você e você gosta mesmo dele, não há porque não ficarem juntos.
-É estranho você dizer isso. Mas não importa quantas pessoas digam ou o que eu quero, não consigo falar que gosto dele, não consigo beijá-lo sem sentir raiva, não consigo olhá-lo sem sentir um incômodo, antes eu pensava que não entendia nada, mas agora entendo muito menos!
-É porque você está se proibindo, Ino. Você tem que esquecer o que aconteceu no passado, você tem que deixar de ser teimosa. Se entrega a ele.
-Engraçado... Se Sasori ouvir você falando isso...
-Que se dane o que Sasori pensa. Você vai ficar o resto da vida só ficando e se escondendo? Você tem que namorar sério, tem que conhecer a vida.
-Então acho que isso também serve pra você, maninho... – disse acariciando-lhe o rosto. Ela sempre fora muito carinhosa com os irmãos, principalmente com aquele e ele também era com ela.
-Ótimo. Mas não esqueça, quando ele voltar aqui, vocês vão conversar e vão se entender.
-Tá bom...
-Agora vamos almoçar, a mesa já está posta.
