Capítulo 1: Casualidade/Desejo

"A sincronicidade não é mais enigmática nem mais misteriosa do que as descontinuidades da Física. É apenas nossa convicção arraigada do poder absoluto da casualidade que cria as dificuldades ao nosso entendimento e nos faz parecer que não existem nem podem existir acontecimentos acausais." (Edward Burke)

Casualidade...

Hoje eu resolvi almoçar no Beco Diagonal porque precisava passar na Madame Malkin. Esse final de semana haverá um evento do Ministério. Particularmente, eu não sou muito fã desses eventos realizados pelo Ministério da Magia. Basicamente, eu tenho que ficar lá fingindo que gosto de pessoas que fingem gostar de mim. Tamanha hipocrisia me enoja. Bem, mas o Harry me disse que era importante e que ele tinha uma surpresa para mim. Então eu não tive muita escolha nesse caso. Portanto, cá estou eu saindo da Madame Malkin carregando minhas novas vestes em um pacote. Entrei em um restaurante que foi inaugurado há cerca de um mês, o Amortentia. Eu já havia estado lá uma vez com o Harry. O lugar era conhecido por ser frequentado por casais. Eu estava sozinha, mas não me importava. Gostava da decoração e da comida e isso me bastava. Escolhi uma mesa a um canto, tentando passar despercebida. Haha, eu deveria saber que não conseguiria. Quem é que não conhece a esposa de Harry Potter? Muitos, como Romilda Vane, sonham com a fama...Mas acreditem quando digo que é 10% gratificante e 90% dor de cabeça. Eu mal havia sentado quando um garçom veio todo solícito me perguntar o que a Sra. Potter desejava comer. Odeio quando me rotulam como se eu fosse um apêndice do Harry. Mas que seja, já me acostumei a ser a Sra. Potter e não a Ginevra, ou melhor, Ginny. Assim que pedi, o garçom me garantiu que não demoraria e se retirou.

Resolvi observar o movimento e fiquei estática quando vi quem havia acabado de entrar no recinto. Não demorou nem um segundo para que eu percebesse que aquele homem loiro e alto de vestes elegantes era Draco Malfoy. Surpreendeu-me o fato dele estar sozinho, no entanto, não perdi muito tempo divagando sobre isso. Prendi a respiração enquanto cada fibra minha parecia desejar que o Malfoy não me visse. Não gosto de estar perto dele, eu me sinto estranha e não sei explicar por que. Talvez devido ao nosso distante passado, quem sabe. É, deve ser. Eu deveria ter adivinhado que ele me veria. Convenhamos que meus cabelos não podem ser chamados exatamente de discretos. Ele me encarou por um momento e em seguida começou a cumprimentar pessoas. Eu ri internamente da falsa cordialidade dele. Eu conhecia Draco Malfoy e ele nunca gostava de ser sociável se pudesse evitar. Político. Era isso que ele estava sendo, porque era disso que ele precisava naquele momento. Mal eu havia pensado sobre isso, o Malfoy parou à minha mesa:

- Olá, Ginevra. – cumprimentou-me, como se nem fizesse anos que não conversávamos e sim alguns dias.

Eu revirei os olhos:

- Não precisa ser todo simpático comigo, Malfoy. Eu sei que você está concorrendo ao cargo de Ministro e que essa cordialidade é apenas fachada.

Ele sorriu brevemente antes de falar novamente:

- É aí que você se engana, Ginevra. – e se sentou à mesa, mesmo sem eu o ter convidado – Não seria educado da minha parte deixar uma dama fazer uma refeição sozinha. – acrescentou, olhando profundamente nos meus olhos.

Eu estremeci levemente sob aquele olhar, mas não me deixei intimidar:

- Uma senhora. – lembrei a ele – Sra. Potter, Malfoy.

Foi a vez dele revirar os olhos:

- Tanto faz, para mim você sempre será a Ginevra.

Senti-me confusa, devo confessar. Ele estava tentando uma aproximação ou o quê?

- Malfoy, nós não somos amigos. Faz anos que não conversamos, esqueceu disso?

Ele deixou o rosto inexpressivo antes de responder:

- Eu não esqueci. Mas será que não podemos ao menos ser civilizados?

"Ótimo." Pensei ironicamente, enquanto ponderava quais seriam minhas próximas palavras. Respirei fundo e resolvi. Por que não ignorar que ele fez da minha vida um inferno por alguns anos e que depois nós tivemos um affair por meses em Hogwarts? Sim, eu resolvi ignorar isso ao me dirigir a ele:

- Obrigada por me fazer companhia, Malfoy.

Posso dizer que por um momento ele pareceu surpreso com a minha mudança repentina de comportamento. Sei disso pelo modo com que ele ergueu ligeiramente as sobrancelhas, mas logo o rosto dele estava impassível. E esse é Draco Malfoy, sempre tentando esconder suas reais intenções.

- Como vai a vida, Ginevra?

- O quê? – eu não hesitei em perguntar, foi algo automático.

Ele sorriu charmosamente, inclinando-se um pouco para frente em sua cadeira e me encarou:

- Eu sei o que a mídia fala. Eu quero ouvir você falando sobre a sua vida, Ginevra.

Eis que eu não tinha a mínima idéia do que ele pretendia, mas o tom da voz dele tinha parecido tão casual que quase me senti de volta à Hogwarts, mais de 20 anos atrás. Um relutante sentimento de nostalgia tomou conta de mim. Não sei se pela escola ou pelo relacionamento que eu tinha com o Malfoy. Quem sabe os dois... O que nós tínhamos era diferente de tudo o que eu experimentara até então. Era intenso, era secreto e era proibido. Quem quer que tenha dito pela primeira vez que o fruto proibido é o mais apetecido estava coberto de razão. Por incrível que pareça havia diálogo e não apenas amassos (muito bons, devo acrescentar). O único tópico tabu era "nós". Não falávamos de sentimentos ou sobre o que estávamos fazendo. Apenas vivíamos um dia de cada vez e por um tempo isso me bastou. Fui tirada de meus devaneios ao sentir a mão do Malfoy pousar sobre a minha. Senti uma espécie de corrente elétrica e automaticamente puxei minha mão para perto de mim. Devo salientar que pelo calor que senti no meu rosto, eu corei. Ah, por que meu rosto tem que ser tão transparente enquanto o dele é tão inexpressivo?!? Definitivamente não é justo!

- Eu apenas quis chamar a sua atenção porque você parecia estar divagando. Não precisa ter medo de mim, Eu não mordo... A não ser que a pessoa queira.

- Muitíssimo engraçado, Malfoy. – retruquei com ironia, mas fiquei mais vermelha ainda ao captar o que estava por trás daquelas palavras - Será que eu fui tão inesquecível assim para você fazer insinuações sobre o nosso passado?

Outra pessoa que eu agradeceria é quem disse que a melhor defesa é o ataque. O Malfoy pareceu todo desconcertado com a minha fala e eu ri.

- Não fale sobre o que você não sabe. – ele retrucou, sério.

A nossa comida chegou e o clima estava tenso. Tentei quebrar o gelo. Afinal, de que vale uma companhia se não se pode conversar?

- Como vão a Astoria e o Scorpius? – foi a minha tentativa.

Ele levantou os olhos cinzentos de seu prato, antes de responder:

- Vão bem. A Astoria tem feito um belo trabalho como futura primeira-dama. O Scorpius entrou para o time de quadribol da Sonserina.

- O Albus também entrou para o time de quadribol da sonserina. É artilheiro, herdou meu talento. – eu sorri, meus filhos eram meus orgulhos e eu me sentia bem ao falar deles.

- O Scorpius é apanhador. – ele sorriu de volta.

- Assim como o pai. Eu acho que você era um bom apanhador, Malfoy. Só perdia para a Grifinória, que era um time muito bom.

- Tsc, tsc. Não tenho culpa se o Potter nasceu com a bunda virada para a lua.

- Talvez. – eu ri – No entanto, o James não parece ter sido feito para jogar quadribol. Mas ele é muito bom com DCAT e Poções. A Lily ainda está em seu primeiro ano. Eu espero que esteja tudo bem com a minha menininha. – e sem prestar muita atenção, suspirei.

- Ela vai se dar bem, Ginevra. Não se esqueça de que criamos os filhos para o mundo e não para nós mesmos. Além do mais, ela tem dois irmãos mais velhos para cuidarem dela. – Malfoy me falou, no que pareceu ser uma tentativa de me fazer sentir melhor, eu simplesmente tive que sorrir e agradecê-lo por isso.

Bom, no geral, até que eu tive um almoço agradável com o Malfoy. Quando nos despedimos ele insinuou que deveríamos conversar mais vezes. Eu fui evasiva. Seria indelicado dizer não e tentador dizer sim. Depois daquele encontro casual no Beco Diagonal eu soube que ainda me sentia atraída pelo Malfoy. No entanto, eu estava longe de cometer algum erro. Ou ao menos era o que eu pensava...

***

"O desejo, acompanhado da idéia de satisfazê-lo, chama-se se esperança; despojado de tal idéia, desespero." (Thomas Hobbes)

Desejo...

E eis que no fim eu acho que aquele encontro com Ginevra fez mais mal que bem. Eu obviamente não esperava encontrá-la, mas já que o destino tinha sido tão generoso comigo, eu não pude desperdiçar a chance de me aproximar dela. Queria vê-la novamente, conversar novamente e quem sabe algo mais... Droga, no que é que eu estou pensando? Eu não posso de jeito nenhum ter um caso nesse momento. Se alguém descobrisse arruinaria as minhas chances de chegar a Ministro da Magia. Por que a ruiva tinha que estar no mesmo restaurante? Eu quase troquei o nome da Astoria na cama por pensar demais sobre quem eu não deveria... Foi tentando negar o quanto eu ainda desejava a dona daqueles cabelos acobreados, que me dirigi junto com minha esposa para um evento do Ministério, no qual eu deveria discursar e o outro partido lançaria seu candidato à Ministro. O evento foi realizado no Centro de Convenções Batilda Bagshot. Como bons britânicos que somos, eu e Astoria chegamos pontualmente às 8h da noite. Posamos para algumas fotos e eu respondi a algumas perguntas de jornalistas antes que finalmente entrássemos. O palanque já estava preparado, assim como as cadeiras destinadas à platéia e o coquetel que seria realizado antes da parte realmente política da noite. Era uma noite para a alta sociedade – a nata do mundo bruxo – "fazer um social", para ver e ser vista. Algo muito superficial se querem saber a minha opinião. No entanto, eu já era cobra criada. Desde que me entendo por gente tinha sido inserido no mundo de aparências que a alta sociedade parecia adorar ostentar.

Eu estava conversando com o Chefe do Departamento de Mistérios e mais alguns bruxos ilustres, ao mesmo tempo em que segurava um copo com firewhisky. Até então eu mal havia tocado a bebida. Olhava ocasionalmente para a roda de pessoas com quem minha mulher estava conversando. Sorri internamente, quando queria, Astoria poderia ser incrivelmente agradável e lidar perfeitamente com as pessoas que estivessem a sua volta. Foi quando avistei Ginevra e todos os pensamentos elogiosos sobre a minha esposa esvaeceram. Ela estava linda, ou melhor, mais que o normal. Usava um vestido de gala longo, verde garrafa, frente única. Seus cabelos estavam presos em um penteado elaborado, deixando seu pescoço alvo à vista. No entanto, ela estava ao lado de Potter, como esperado. Eu me policiei para não olhar demais na direção em que ela estava. Nossos olhares se encontraram brevemente por duas vezes e ela parecia querer me desafiar a parar de olhar ou alguma outra mensagem subliminar que eu não consegui captar. Sem que eu percebesse meu copo de bebida foi esvaziando.

Percebi quando ela saiu de perto do Potter e pela direção que havia tomado, estava indo ao banheiro. Algo se apoderou de mim e eu, antes que pudesse me controlar, já estava dizendo:

- Com licença, cavalheiros. Volto em um instante.

Deixei meu copo vazio com o primeiro garçom que encontrei. Segui-a discretamente, permitindo uma boa margem de distância, até que ela entrou em um dos vários corredores semi-iluminados e eu acelerei meus passos. Cheguei por trás dela silenciosamente e tapei sua boca, enquanto a puxava para uma sala lateral. O que me surpreendeu foi que ela nem apresentou resistência. Assim que fechei a porta, perguntei:

- Não sabia que você deixava estranhos te puxarem para lugares ermos. É essa a sua nova fantasia sexual?

A sala estava quase completamente na penumbra. A única fonte de claridade do local era a luz da lua que entrava pela grande janela de vidro. Meus olhos estavam se habituando rapidamente à escassez de luz e eu conseguia ver cada vez mais claramente os contornos da bela mulher que estava a minha frente. Ela pareceu fazer mistério, demorando a responder. Até que após um longo suspiro, confessou:

-Eu sabia que era você, Malfoy. Reconheci pelo perfume.

Eu exibi um sorrisinho convencido, então ela se lembrava do meu perfume...

- Está muito bonita hoje, Ginevra.

Ela pareceu sorrir a contragosto:

- Obrigada, mas creio que não foi apenas para elogiar a minha aparência que você me abordou. – pareceu tomar fôlego - O que você quer, Malfoy? De uma vez por todas eu quero saber! Acha que eu não reparo no olhar insistente que você tem sobre mim?

Uh, então ela queria respostas, é? Sem dar tempo para que ela reagisse, enlacei-a fortemente pela cintura. Eu acho que o álcool tinha me deixado mais ousado, porque acreditem, eu não teria coragem de abordar dessa forma uma mulher casada. No entanto, naquele instante eu não estava pensando racionalmente. Aliás, eu não me surpreenderia se não estivesse pensando de jeito algum. Eu não pude me segurar, eu queria tanto aquela mulher. E naquele instante eu a queria mais do que poderia me lembrar de algum dia ter querido Astoria ou alguma outra mulher que não aquela que estava na minha frente. Não dei a mínima chance para que ela escapasse e busquei seus lábios com os meus. Eu me senti muito mais jovem, de volta à Hogwarts, com o meu coração batendo desenfreadamente no peito enquanto aquela ruiva se debatia, tentando se soltar. Eu queria acreditar que mais uma vez ela cederia, que ela ainda me desejava. Que ainda ansiava por aqueles toques tanto quanto eu. Prensei-a contra a parede e um ruído de satisfação pareceu escapar dos lábios de Ginevra ao ter o meu corpo tão colado ao dela. Passei então a beijar o pescoço dela, do jeito que eu lembrava que ela gostava. Ela enterrou uma mão no meu cabelo, enquanto me puxava mais contra ela com a outra:

- Não, Draco... Nós não devemos... – ela tentou dizer, mas além das palavras não serem coerentes com os gestos dela, eu podia dizer que ela poderia estar odiando adorar, mas que estava adorando estava.

Ah, aquele decote em v estava me provocando imensamente. Eu levantei uma das pernas dela, segurando ao lado do meu corpo e comecei a beijar os seios dela. Ainda que ela tivesse amamentado três filhos, para mim, aqueles seios levemente salpicados de sardas e aqueles bicos rosados ainda eram perfeitos. Foi imensamente gratificante senti-los enrijecerem contra meus lábios e língua, ainda mais ao escutar os discretos gemidos que saíam pelos lábios dela. Naquele momento eu quis que ela fosse minha para sempre, que eu pudesse acordar todos os dias ao lado dela. Mais uma vez eu era um idiota apaixonado, ou quem sabe, aquele sentimento nunca tivesse ido embora e estivesse apenas esperando para vir à tona. E como num balde de água fria eu me lembrei que Ginevra era Ginevra Potter, que eu estava cometendo adultério e apesar de saber que era errado não conseguia me arrepender. Percebi também que estava mais uma vez cometendo um erro em agir por impulso e me odiei por isso. No entanto, estava farto de esconder o que eu sentia por ela. E no passado tinha sido justamente por isso que eu a tinha perdido. Eu então a soltei e logo avisei:

- Não venha me bater, Ginevra, você também quis.

A ruiva abaixou a cabeça, mortalmente envergonhada:

- Malfoy, por que você fez isso? Eu tenho uma vida. Você tem uma vida.

- Eu sei disso, Ginevra. – e suspirei, não precisava dela para me lembrar disso – Mas você me tentou, me tentou por todos esses anos, se quer saber. Então eu simplesmente não consegui resistir mais.

- Mas você concordou quando eu terminei com você.

- Eu nunca concordei, na verdade. Ao contrário do que você possa pensar, eu não te deixei ir porque você significava apenas alguém com quem eu poderia aliviar meus hormônios. Eu te deixei ir porque achei que seria o melhor para você, mas eu te amava, Ginevra. E ainda amo. Eu tinha que virar um Comensal da Morte, era fato. Não tive escolha sobre isso. O fato de eu não ter tentado te impedir de terminar não significa que eu não me importava, nunca significou.

Ginevra levantou os olhos para mim:

- No começo, você era só um substituto para que eu esquecesse o Harry, principalmente vocês sendo inimigos e tal. Depois de um tempo eu me apaixonei por você, Draco. Só que eu achava que pra você eu só era diversão e por isso, doeu, mas eu resolvi terminar. Eu tenho uma boa vida com o Harry, mas às vezes parece faltar algo. Já me acostumei com isso. Você ainda mexe comigo, Draco. Mas eu não tento nem descobrir o que eu ainda sinto por você, porque eu tenho medo de descobrir. É tarde demais para nós dois.

Eu estiquei uma mão e acariciei o rosto dela:

- O toque do Potter faz você estremecer como o meu faz? O beijo dele tem tanto fogo como o meu? O olhar dele faz com que você se sinta a mulher mais desejada do mundo?

No entanto, antes que eu pudesse continuar, ela colocou um dedo nos meus lábios e exigiu:

- Para, Draco! Para de tentar me confundir. Eu tenho uma família e você também tem. Temos que pensar neles. É um erro como trocamos olhares cada vez que nos vemos, foi um erro eu ter permitido que você almoçasse comigo no Amortentia. E principalmente foi um erro o que acabou de acontecer aqui nessa sala.

Eu olhei dentro dos olhos dela, profundamente:

- Se tudo isso foi uma sucessão de erros, eu não me importo. Eu preciso continuar errando, eu quero errar com você Ginevra.

Ela não respondeu, saiu da sala sem olhar para trás. No entanto, eu creio que por hora dei a ela mais que o suficiente sobre o que pensar. Sei que foi uma loucura o que acabei de fazer, mas ainda assim não consigo deixar de pensar que valeu a pena.