Capítulo 2

Fiquei calado apenas encarando-a, esperando que ela corasse ou risse dizendo que estava brincando, mas ela não fez nada disso. Apenas continuou me olhando com os olhos ainda mais brilhantes e eu cheguei a pensar que poderia ter me enganado com a idade dela. Garotas de dezessete anos, até onde eu sabia, não eram tão ousadas assim, eram? Ao menos a minha irmã que tinha essa idade não era.

- Acho que você já consegue ficar em pé aqui. – falei por fim, tentando não soar muito rude, mas a voz rouca que saiu não foi por ter ficado chateado. Muito pelo contrário.

Mas eu deveria tê-la segurado pela cintura e afastado-a do meu corpo, para evitar que ela deslizasse da mesma forma que tinha feito antes, me obrigando a trincar o maxilar para me manter controlado.

Comecei a pensar se não teria sido melhor aceitar a sugestão dos meus colegas e ter saído com algumas acompanhantes. Mas isso nunca foi do meu feitio. Pagar para ter prazer me parecia algo sujo e desleal. Mas agora isso poderia ter me poupado de ficar no estado em que me encontrava agora.

Respirei fundo algumas vezes e comecei a me afastar em direção à praia, sentindo que ela me seguia de perto. Apenas quando já estava na areia novamente, voltei a encará-la, mas preferia não ter feito. Dentro d'água eu sabia que ela estava com as roupas rasgadas apenas pela parte de cima do vestido que tinha um enorme rasgão na altura do ombro esquerdo, quase deixando seu sutiã preto à mostra. Mas agora, ali fora sem nenhuma água para cobri-la, eu podia ver que o estrago tinha sido bem maior.

- Merda! Olha só o meu estado. – ela exclamou olhando para si. Infelizmente eu também estava olhando.

A peça estava em trapos, deixando sua barriga completamente à mostra, caindo pelo seu quadril e me permitindo ver o começo da calcinha também preta.

Me forcei a desviar os olhos do seu corpo, mas foi impossível não ver quando ela começou a remover o que restava do vestido, ficando apenas de lingerie.

- Mas o quê...? O que está fazendo? – me apressei a retirar o casaco que vestia, jogando-o por cima dos seus ombros. Ela era tão pequena que o casaco batia no meio das suas coxas. – Por que você fez isso?

- Dava no mesmo com ou sem vestido – ela respondeu simplesmente, dando de ombros e passou os braços pequenos pelas mangas do casaco, mas deixou a parte da frente aberta, ainda me permitindo ver tudo ali. Ignorei o seu olhar percorrendo meu corpo e sua nítida expressão de apreciação. Ou tentei. – Droga. Eu gostava desse vestido. – ela reclamou com o trapo nas mãos.

- Quem eram eles? – perguntei, me referindo aos fantasmas. Não que isso me importasse realmente. Eu só precisava manter uma conversa que desviasse minha atenção do caminho errado.

- Dois chatos que estavam me incomodando no colégio e não queriam fazer a travessia.

- E eles te arrastaram até aqui?

- Não. Eu vim atrás deles. – ela respondeu como se sair atrás de dois fantasmas no meio da noite fosse a coisa mais normal do mundo.

- Você é louca.

- Talvez. Mas eu tinha tudo planejado. O problema foi que eles se alteraram um pouco e você sabe como são os fantasmas. Qualquer coisinha já começam a fazer as coisas voarem.

- Seus pais sabem que está aqui?

- Claro que não – ela respondeu como se aquela fosse a pergunta mais estúpida que alguém poderia fazer.

- Vou te levar em casa, então. – falei já começando a andar pelo caminho que eu tinha vindo, mas parei quando vi que ela não me seguia – O que foi?

- Você não vai bater na porta da minha casa e me delatar, vai?

- Por que eu faria isso?

- É o que os policiais fazem quando me pegam na rua a essa hora.

- E isso acontece com muita freqüência? – perguntei, cruzando os braços sobre o peito.

- É mais fácil mediar fantasmas quando não tem ninguém por perto. Acho que você entende o que eu estou falando.

- Sem dúvida. – eu sabia exatamente o quanto era difícil fazer isso sem que ninguém descobrisse – E eu não tenho a mínima intenção de te delatar à sua família. Só vou te acompanhar até lá.

- Obrigada.

Voltei a andar, mas, mais uma vez ela não me seguiu.

- Algum problema? – perguntei, voltando-me para ela.

- Eu moro para lá – ela falou, apontando para o lado oposto da direção que eu tomava.

- Só vou pegar a minha mochila que ficou em algum ponto depois daquelas rochas.

- Ah. Ok. – ela então veio quase correndo até mim e continuamos o caminho, andando lado a lado.

- Onde você mora, Suzannah? – perguntei depois de alguns segundos em silêncio, a curiosidade falando mais alto.

- Na Pine Crest Road.

- Ah, então você deve conhecer os Ackerman. Mora perto deles?

- Moro na casa deles – ela falou e não parecia feliz com isso.

- Sério? Não sabia que Andy tinha uma filha.

- Ele não tem. Sou filha da nova esposa dele.

- Hum – ia dizer que então isso fazia dela filha dele, mas resolvi ficar quieto já que aquele parecia ser um assunto delicado para ela – Há quanto tempo você está na cidade?

- Onze meses, vinte e um dias e contando.

- Não deve ser tão ruim assim – falei sem consegui deixar de rir das suas palavras.

- Imagina o que é sentar numa mesa com quatro homens, sendo dois deles completos porcos, e ter que comer rápido ou você fica sem.

- Acho que você se refere a Brad e Jake.

- Com certeza. – ela então olhou para mim, seu semblante irritado desaparecendo, dando lugar à mesma curiosidade que eu estava sentindo a seu respeito – De onde vocês se conhecem?

- Costumava vir muito aqui antes de me alistar. Às vezes surfava com eles.

- Hum... – seu olhar percorreu meu corpo novamente e eu tentei não pensar no que ela poderia estar pensando naquele momento, como se me imaginasse com menos do que a minha calça de camuflagem e a camiseta verde – Talvez eu passe a freqüentar mais a praia se você resolver voltar aos antigos hábitos.

"Ok. Ela definitivamente estava flertando comigo"

- Eu sinto falta daquela época – comentei, tentando ignorar as suas palavras – Seus irmãos ainda costumam vir aqui?

- Eles não são meus irmãos – ela corrigiu – Mas sim, é de lei os dois estarem na praia todos os dias depois da aula.

- Os dois devem estar enormes agora. Lembro que eles sempre foram viciados em academia. Principalmente Brad.

- Ah, é. Brad está tão grande que parece um gorila.

- Quem é mais velho de vocês dois? Pelas minhas contas, ele deve estar com dezessete anos. – não estava nem um pouco interessado em saber a idade de Brad, mas esse tinha sido o único meio de descobrir a idade dela sem parecer muito óbvio.

- Ele é mais velho por alguns meses.

- Hum... – dezessete anos então. Exatamente como tinha pensado. Mesmo suas atitudes e seu corpo fazerem-na parecer uma mulher, Suzannah era uma garota ainda.

- E você? Quantos anos tem? – ela perguntou sem se preocupar em ser sutil.

- Vinte.

- Três anos de diferença entre nós apenas. – ela comentou enquanto eu a ajudava a subir nas pedras e eu torci para que nada do que saísse da sua boca a seguir pudesse me deixar sem jeito – E você já fez tanta coisa.

Quase suspirei aliviado, mas me limitei a dar de ombros, segurando sua mão para guiá-la pelas rochas desiguais. Me esforçava a olhar apenas para a frente, usando todo o meu controle para não virar meu rosto na sua direção e ver todo o seu corpo que o casaco aberto deixava exposto.

Tinha vontade de pedir que ela fechasse o casaco, mas tinha a leve impressão que ela gostaria de saber que seu corpo me afetava.

- Você também estuda na Missão? – perguntei, tentando desviar meus pensamentos novamente.

- Sim.

- Padre Dom fez um excelente trabalho com os fantasmas de lá.

- Nisso eu tenho que concordar. Pensei que passaria por maus bocados naquela escola velha, mas não havia um fantasma sequer quando cheguei.