Notas: Quem diria que eu chegaria até aqui, heim. Segundo capítulo. Tudo bem, calma, sem hiperventilar agora.

Lembrem-se gente, review é: amor. Espero que gostem, mas se não gostarem vale reclamar também. Até agora a história está bem light mesmo, mas isso vai mudar daqui algum tempo. Novamente não sei quando terei tempo de atualizá-la, mas não pretendo abandonar tão cedo a história, agora que eu tive a coragem de começar. E sim, sempre que for preciso coloco um glossariozinho ao final dos capítulos. Mas se eu esquecer de alguma coisa eu posto no seguinte, enfim.

Quanto às duas criaturinhas lindas que encheram meu coração de alegria com as primeiras reviews (FernandaFas e Nivinnie), muito obrigado mesmo. Eu acho que respondi as duas, mas como não sei usar muito bem isso aqui ainda não tenho certeza se a resposta foi enviada mesmo. Anyway, vocês são umas fofas! 3


You're such a beautiful lie

por CoquilleD'or

Capítulo II

. . .

- Mas, Sango-chan¹, você não pode estar completamente decidida sobre isto! Não lhe parece melho-

- Estou mais do que certa da minha escolha, Kagome. Não vou voltar atrás em sua nomeação.

Os olhos fitaram-se diretamente, acima do silêncio quase palpável em suspensão - como as pequenas gotas d'água de um nevoeiro intenso - antes de se separarem com uma lentidão comedida. As duas mulheres estancaram abruptamente em meio ao jardim de inverno localizado nos fundos do pequeno palacete dos chefes Taijiya². Um local encantador que sempre atraíra a atenção de Kagome desde a mais tenra idade.

Para ser mais exata, desde que se entendia enquanto um ser vivente a garota já se lembrava de frequentar o local. Em suas primeiras memórias ela estava sempre a acompanhar Sango e seu irmão mais novo, Kohaku, quando se encontravam com outras crianças para buscar qualquer espécie de diversão pela Vila, ou mesmo quando cada um deles iniciou seu treinamento – Sango primeiro, Kagome em seguida e Kohaku por último.

A amizade se desenvolveu por mais que o pai de Sango achasse, por algum motivo desconhecido para ambas, que a menina não era exatamente uma boa influência para a filha. Já nesta época Kaede-sama havia deixado Kagome aos cuidados de outros taijiya, e o contato com as crianças do Clã era cotidiano. Não demorava muito até todos os futuros companheiros de combate se conhecerem, e às suas respectivas famílias.

O jardim estava mais florido do que de costume. Pequenos botões amarelos e vermelhos desabrochavam por toda parte graças à entrada do verão, formando um quadro encantador. O sol brilhava alto acima de suas cabeças, mas o calor era amenizado pela brisa leve e morna que soprava sem cessar. Sem duvida seria uma ótima ocasião para realizar uma visita e um passeio, se o assunto a se tratar não fosse tão delicado.

Kagome sentia-se sempre desconfortável no momento em que adentrava as portas do palacete. A casa era bem maior do que a de um taijiya comum deveria ser, e mais luxuosa. Com o tempo e a maturidade ela forçou-se a não mais encarar o local apenas como a moradia de sua amiga, e o palacete começou a delinear-se como uma espécie de centro de operações do Clã.

A movimentação que se dava por dentro das portas era sutil para quem não a conhecesse de dentro, mas ainda assim intensa até mesmo aos olhos dos moradores comuns da Vila. Mensageiros, contadores, mercadores, camponeses, taijiyas, todos passavam por ali em algum momento para resolverem assuntos sisudos, e era exatamente isso que deixava a menina desconfortável.

Apesar da suntuosidade do local, se comparado às outras casas que ela conhecera, este estava sempre inundada com um burburinho inaudível e sério, vindo de assuntos sérios e pessoas igualmente sérias e carrancudas. E desde que a mãe de Sango adoecera gravemente e seu pai reservava seus últimos esforços de velho para cuidar de sua esposa, a menina passara a assumir mais e mais as tarefas de chefiar o Clã.

Neste dia em especial parecia um pouco perturbada. Por detrás de seus cílios grossos, olhos acastanhados e das madeixas escuras e grandiosas que escorriam pelas costas de seu kimono esverdeado, Kagome podia sentir o tremor irregular de sua tempora e seus pesados suspiros.

Kohaku estava na entrada do jardim, sentado na varanda do palacete brincando serenamente com Kirara. A neko youkai³ que Sango criara miava alegremente sob os carinhos recebidos. A princípio havia sido motivo de suspeita e pequenas discussões no grupo o fato de que a gata seguia Sango para todos os lados, desde quando a achara na floresta alta, localizada acima da montanha e da vila.

Apenas depois de muita insistência da criança a guarda fora permitida. Sango criara então, com o tempo, uma forma de treinar o youkai, sem domestica-lo de toda forma. Kirara tornara-se extremamente útil nos treinamentos dos taijiya e nas excursões que levavam o grupo a deixar a Vila e viajar pelos quatro cantos do Japão, à caça de outros youkais. A partir de então youkais como ela, de pequeno porte, e aqueles que se mostrassem pacíficos a convivência com humanos eram permitidos nos limites da Vila, embora a ocorrência não fosse tão comum.

Kagome manteve o olhar longe do escrutínio da colega, e demorou-se a divagar enquanto acompanhava a cena afetuosa. Kohaku era um ótimo menino, e ela o estimava com uma afeição inexplicável. Estava crescendo e se tornando um ótimo taijiya, apesar de ser ainda um adolescente com metade de sua idade, gentil e cheio de inseguranças. Não demoraria muito até assumir plenamente suas responsabilidades como herdeiro do clã, junto de sua irmã.

Ao perceber que a menina o mirava, Kohaku acenou discretamente, abrindo um sorriso que poderia comparar-se ao sol em tamanho.

- Kagome-chan, olhe para mim. – A voz de Sango interrompeu seus devaneios, cortou a tensão no ar fazendo-a estilhaçar-se aos seus pés de maneira ensurdecedora. Ainda assim, sua voz estava suave e ela pousava de forma gentil uma mão em cima do ombro da amiga.

- Você vai se sair bem, acredite. É preciso que seja assim. Não estamos com muitos taijiyas disponíveis para esse tipo de atividade, e precisamos treinar novos exterminadores urgentemente. Você não sabe o que tem chegado aos meus ouvidos... Rumores de que as coisas não estão indo bem para além das fronteiras. Os youkais estão se tornando mais atrevidos, saqueando terras, matando gente. Mais gente do que costumam matar. Estão subindo pelo Sul, hordas de youkais, arrasando o que encontram pelo caminho... E se chegarem até o limite do tratado, não sei o que pode acontecer.

Suspirou, e retirou o peso do ombro da menina.

- Bom, não preciso ficar me alongando muito. Não devo te incomodar com esses assuntos, enquanto eles ainda são problemas exclusivos dos líderes do Clã. Não passam de boatos, sim. Ainda temos que verificar o que realmente está acontecendo. – Com um sorriso letárgico e amarelado de quem escondia o mundo por detrás dos olhos, e nada disposta a continuar com a conversa, Sango abraçou-a e beijou-lhe a testa, pondo um fim a qualquer esperança que Kagome poderia ter de convencê-la.

Como Sango conseguia ser sempre assim? Andava sempre atarefada e ultimamente aparentava estar mais cansada do que o comum, com bolsas arroxeadas formando-se embaixo de seus olhos, e era obrigada a desenvolver uma firmeza e aspereza nas decisões que não eram comuns a ela. Mas nunca demonstrava impaciência com seus companheiros, ou má-vontade. Recebia-os e sentenciava o que melhor deveria ser executado, por mais que isso os contrariasse, com uma delicadeza e maneiras tão gentis que ainda conseguia alquebrá-los.

Exatamente como uma mãe bondosa.

Mesmo, e apesar da delicadeza da amiga, Kagome choramingou baixinho e internamente. Definitivamente não estava preparada para aquilo.

A lembrança do aprendiz inundou sua cabeça fazendo com que um nó se formasse em sua garganta com uma velocidade assustadora. Não o havia encontrado pela manhã. Batera suavemente com os punhos cerrados na porta do quarto até que estivessem doloridos. Sem pensar muito no que fazia arriscou-se a entrar, mas o cômodo estava tão vazio e arrumado como ela o deixara a dias atrás.

As roupas dadas em cortesia ao garoto, para o treinamento nos dias que se seguiriam estavam ainda impecavelmente dobradas sobre o colchão e não havia vestígios de seu paradeiro. Era como se ele não houvesse dormido ali. Ou melhor, era como se ele mal houvesse passado pelo local.

Isso fez com que pequenos alfinetes de irritação lhe cutucassem as costelas. Ora, mas que diabos esse garoto pensa que está fazendo? Ela até maquinara uma forma de desenvolver a convivência com o rapaz no tempo que levou a caminhada até a casa de Sango, o que aparentemente iria exigir um pouco de esforço dos dois lados, mas era impossível sequer pensar em um inicio de socialização com alguém que não fazia questão de sua presença.

A ideia original envolvia mostrar-lhe um pouco da Vila, das áreas de treinamento, apresentar-lhe os lideres do Clã e outros taijiya – agora seus companheiros de luta, e quem sabe até levá-lo para além dos limites dos muros exteriores, se a coisa toda corresse bem. Ao que parecia, ela não deveria criar muitas expectativas acerca de seu interesse.

Ela havia estremecido um pouco, ainda ao olhar para as roupas arrumadas na cama, pensando na possível e provável dificuldade que seria treiná-lo.

- Tudo bem. Eu desisto de tentar dissuadi-la, não ficarei insistindo neste assunto. Só lembre-se que está me pedindo para fazer o impossível, e isso não é justo comigo. - Kagome pontuou, rígida. Então abriu seu melhor sorriso esgotado para a amiga, esperando com o gesto mostrar reconciliação, ainda que em meio à insatisfação. Com uma sacudidela de cabelos, afastou a ideia de compartilhar com a menina a preocupação quanto ao treinamento daquele pupilo em específico. Aparentemente ela já tinha muito mais com o que se preocupar.

- Sinto muito Kagome-chan. Não posso te pedir o contrário. – Sango sorriu franca e informalmente, e seu olhar reforçava de forma clara o pedido de desculpas. – Almoça conosco hoje?

- Hai⁴, Sango-chan. Porque não?

O almoço estendeu a estadia da menina no palacete por mais tempo do que ela imaginara. Conversaram amenidades, descansaram sobre as almofadas da sala perfumada com incenso. A tarde saíram com Kohaku para olhar a Pequena Feira e o que poderia ser comprado para os próximos dias. Há muito tempo Kagome não diminuía o ritmo de seu passo como dessa maneira. Ao longo do dia tanto ela quando Sango já haviam adotado uma postura relaxada, e esquecido do assunto.

- Tenho que te agradecer imensamente, Kagome. A muito tempo não tinha uma tarde tão agradável como hoje!

- Kagome, leve isso com você - Kohaku segurou-lhe o pulso com delicadeza e amarrou uma pequena fita vermelha, sorrindo e balançando levemente a cabeça. - É um presente! Promete que não vai esquecer de proteger minha irmã?

Kagome sorriu e bagunçou-lhe os cabelos. - Hai!

Ao sair da feira, Kagome despediu-se dos irmãos com um aceno espirituoso, e tomou o caminho de casa bem-humorada. Estava ladeando uma das ruazinhas da Vila, cercada ou por casas de taijiyas ou por estabelecimentos simples como pequenas mercearias quando escutou uma risada familiar a sua frente, que soava como pequenos sinos retinindo, e levantou os olhos surpresa.

- Konnichi wa⁵, Kagome-chan! Espere um minuto, voltarei com você!

Saindo de uma das mercearias, acompanhada por outro taijiya, Rin acenava alegremente. Usava um kimono colorido que se assentava bem ao seu corpo, os cabelos longos e da cor de mogno amarrados com fitas igualmente coloridas, que balançavam suavemente na brisa morna do fim de tarde. A menina piscou um dos olhos para Kagome, com ar divertido, enquanto virava-se para seu acompanhante e enlaçava sua cintura, despejando uma chuva de beijos açucarados pelo seu rosto. Em pouco tempo já havia o dispensado, com um sorriso arrasador e promessas de encontra-lo nos dias – ou noites – seguintes.

Juntou-se então a menina, apoiando-se em um de seus braços enquanto continuavam a andar pela ruela, a caminho de casa.

Rin cheirava a lavanda, e estava especialmente irrequieta naquele dia, Kagome podia sentir ao longe. Passara muito tempo com a garota para perceber o que se ambientava em sua cabeça com antecipação. Rin era sua mestra, uma das melhores taijiyas que Kagome já conhecera, veterana na caça de youkais.

Apesar de ser mais velha do que ela, Rin tinha o espírito agudo de uma criança hiperativa, curiosa e bondosa. Não havia ninguém melhor do que Rin no manuseio de armas leves, e ela lhe ensinara tudo que podia. Havia dividido seu treinamento até certo ponto com Kaede, que assumira as aulas de arco-e-flecha de Kagome quando esta demonstrara um talento natural em lidar com longas distancias. Graças a elas Kagome era agora considerada uma das melhores arqueiras da Vila. Melhor até do que Kikyou.

O tagarelar de Rin chamou sua atenção quando já se aproximavam de sua casa. Ela parecia entretida com seus casos amorosos, e Kagome opinava no que achava pertinente. Ela sempre pedia seus conselhos, no final das contas. Não que fosse muito experiente, mas alguém devia colocar um pouco de juízo na cabeça da menina.

- Rin, tenha cuidado para não iludir o rapaz. E o contrário é válido também. Oh, sim, você espera que eu acredite que nunca pretende se apaixonar? E desde quando acha que eu te conheço?

A menina sorriu nervosamente, levantando as sobrancelhas como quem estivesse assombrada com o que foi dito. Kagome riu em retorno, beijando-lhe uma bochecha antes de entrar em casa e deixá-la seguir seu caminho até sua própria cabana.

Acabara de anoitecer, e nas janelas que abriam para oeste ainda se podiam avistar os últimos raios alaranjados desaparecendo no horizonte. Kagome deixou os pacotes que carregava com suprimentos nos pequenos jarros de barro que se encontravam a um canto da sala, e considerou por um momento acender fogo no local. Mas o dia encontrava-se tão agradavelmente quente que ela logo desistiu da ideia. Trocou-se e sentou-se no chão do cômodo principal.

Suicidando-se mentalmente, ela decidiu esperá-lo.

E o tempo parecia escorrer como uma gosma fria pela sua nuca, arrepiando-a mesmo que fizesse calor.


¹ -chan: Sufixo utilizado para o sexo feminino como um indicativo de carinho e informalidade. Quando é para o sexo masculino, utiliza-se -kun. Quando se refere ao tratamento formal de pessoas com uma posição de alta importância, utiliza-se -sama.

² Taijiya: Exterminadores de Youkais. Acho que me esqueci de colocar essa e outras traduções no capítulo anterior.

³ Youkai: Criaturas sobrenaturais do folclore japonês. Neko youkai refere-se a um youkai com aspectos de gato.

Hai: Expressão japonesa que significa "Sim".

Konnichi wa: Boa tarde.