Disclaimer: Harry Potter não me pertence, se pertencesse eu estaria milionária. :v

Sua até o Amanhecer

Capítulo 2

Inglaterra, 1806

Querida senhorita Granger,
Apesar de minha reputação, posso lhe assegurar que não tenho o costume de cercar correspondência clandestina com todas as jovens formosas que eu gosto…


No dia seguinte, enquanto Penélope descia pela escada curva que conduzia ao coração de Black Park, quase sentia como se tivesse ficado cega. Não tinham aberto nenhuma só janela da mansão, como se a casa, igual ao seu amo, sumiu no reino da escuridão eterna.
Ao pé das escadas havia uma vela que dava à luz suficiente para ver que os rastros que tinha deixado, o corrimão estava coberto de pó. Fazendo uma careta, limpou as mãos em sua saia. Com o tom pardo da caxemira duvidava que alguém se desse conta.
Apesar da sufocante penumbra era impossível ocultar por completo a lendária riqueza dos Black, que tinha feito que a nobre família fosse a inveja de todo o mundo. Tentando não se sentir intimidada pelo desdobramento de tantos séculos de privilégio, Penélope desceu das escadas ao vestíbulo. A casa se modernizou dos tempos dos painéis escuros e os arcos Tudor de suas sombrias raízes jacobinas. As sombras dançavam sobre o reluzente mármore italiano de nervura rosada sob seus pés. Todas as molduras e as cornijas, todos os relevos de flores e vasos que adornavam os revestimentos de madeira tinham sido dourados ou bronzeados. Inclusive o modesto quarto que madame Pomfrey tinha atribuído a Penélope tinha uma vidraça sobre a porta e tapeçarias de seda nas paredes.
Slughorn tinha insistido em que seu patrão era "um autêntico príncipe". Contemplando a opulência que lhe rodeava, Penélope suspirou. Possivelmente não fosse tão difícil reclamar esse título se alguém cresceu em um palácio. Resolvida a encontrar seu novo paciente, decidiu empregar uma de suas próprias armas.
Inclinando a cabeça para um lado, ficou quieta e escutou. Não ouviu gritos nem batidas, a não ser o tinido musical de pratos e copos. Um som que acabou sendo menos musical quando houve uma explosão de cristais quebrados seguida de um grunhido selvagem. Embora Penélope fizesse uma careta, em seus lábios se perfilou um sorriso triunfante.
Recolhendo a saia, atravessou o salão onde se realizou sua entrevista e saiu pela porta oposta seguindo o ruído. Enquanto percorria as estadias desertas teve que esquivar vários sinais do passado do conde. Suas sólidas botas de cano longo rangeram sobre a porcelana rota e as lascas de madeira. Ao deter-se para
endireitar uma delicada cadeira Chippendale, o rosto rachado de uma estatueta
chinesa riu dela.
A destruição não era surpreendente dada a inclinação de Sirius a perambular pela casa sem ter em conta sua falta de visão. Logo passou por debaixo de um bonito arco. A ausência de janelas na sala de refeições, negava à cavernosa estadia qualquer fresta de luz. Se não tivesse sido pelas velas que resplandeciam em ambos os extremos da majestosa mesa, Penélope poderia ter pensado que se encontrava no cômodo familiar.
Um par de criados com libré ladeavam o aparador de mogno sob o atento olhar de Slughorn. Nenhum deles pareceu dar-se conta de que Penélope se encontrava na porta. Estavam muito ocupados observando todos os movimentos que fazia seu patrão. Enquanto o conde dava uma cotovelada em uma taça de cristal empurrando-a para o bordo da mesa, Slughorn fez um discreto sinal. Um dos criados correu adiante para agarrar a taça antes que pudesse cair. Ao redor da mesa estava cheio de cacos de cristal e porcelana, evidência de seus anteriores fracassos.
Penélope observou os largos ombros e os musculosos braços de Sirius, surpreendida uma vez mais com a imponência do homem. Pensando que ele certamente poderia lhe quebrar o delicado pescoço, apenas com os dedos polegares e indicadores. Se pudesse encontrá-la, é obvio.
Seu cabelo brilhava com a luz da vela, aparentemente penteado só com os dedos de forma impaciente. Levava a mesma camisa enrugada do dia anterior, mas agora estava manchada de graxa e chocolate. Tinha as mangas recolhidas de qualquer maneira até os cotovelos para não arrastar os punhos pelo prato.

Levou uma fatia de bacon à boca, rasgou uma parte da carne tenra com os dentes e logo procurou provas o prato que tinha diante. Penélope franziu o cenho ao ver a mesa. Não havia nenhum talher à vista. O qual podia explicar por que Sirius estava agarrando os ovos cozidos de uma vasilha de porcelana com a mão. Depois de comer os ovos, meteu um pãozinho à boca.
Logo passou a língua pelos lábios, mas não conseguiu tirar o mel que tinha no canto da boca. Embora se sentisse como uma espécie de espiã, Penélope não podia apartar a vista dessa gota dourada de mel. Apesar de sua terrível falta de maneiras na mesa, havia algo muito sensual em sua forma de comer, em sua determinação para aplacar seu apetite, amaldiçoando todo tipo de convenções. Enquanto agarrava uma costeleta e começava a morder a carne diretamente do osso, o suco lhe caía pelo queixo. Parecia um antigo guerreiro que acabou de derrotar seus inimigos e raptar suas mulheres. Penélope não ficaria surpresa se lhe agitasse o osso e gritasse: " Mais cerveja, moça!"
De repente ficou paralisado e farejou o ar com uma expressão feroz. Penélope também abriu suas narinas, mas o único que pôde cheirar foi o apetitoso aroma do bacon. Deixando a costeleta no prato, disse com uma calma inquietante:
— Horácio, deveria ter me informado que trouxe uns limões frescos para meu chá.
Ao ver Penélope o mordomo abriu bem os olhos.
— Temo que não, senhor. Mas se quiser, irei buscá-los imediatamente.
Sirius se lançou sobre a mesa tentando agarrar ao mordomo, mas Slughorn já tinha desaparecido pela outra porta com a cauda de seu paletó atrás dele.
— Bom dia, senhor — disse Penélope sentando-se em uma cadeira em frente dele, mas longe de seu alcance — Terá que perdoar ao senhor Slughorn. É evidente que tinha algo urgente que fazer. Franzindo o cenho, Sirius voltou a sentar-se em sua cadeira.
— Esperemos que inclua falsificar algumas cartas de referência e fazer suas
malas. Logo poderão retornar juntos a Londres.
Ignorando o sarcasmo, Penélope sorriu amavelmente aos imóveis criados. Com suas bochechas tintas, seus narizes sardentos e seu cabelo castanho encaracolado, nenhum dos dois parecia ter mais de dezesseis anos. Ao olhá-los melhor, se deu conta de que além de ser irmãos eram gêmeos.
— Morro de fome — disse — Poderia tomar o café da manhã também?
Inclusive sem ver, Sirius deveu percebeu a indecisão de seus serventes. Depois de tudo, não era normal que uma empregada comesse na mesa de seu patrão.
— Sirvam à dama, estúpidos! — vociferou — Não seria muito hospitaleiro permitir que a senhorita Clearwater se fosse com o estômago vazio.
Os criados se apressaram a lhe obedecer, e quase se chocaram enquanto punham um prato de porcelana e uns talheres de prata diante de Penélope e enchiam uma bandeja do aparador. Lançando a eles um sorriso reconfortante por cima do ombro, aceitou uma travessa com ovos, várias fatias de bacon e um pãozinho. Tinha a sensação de que ia necessitar de todas as suas forças. Enquanto o outro criado lhe servia uma taça de chá fumegante, falou a Sirius:
— Ontem passei a noite me instalando em minha habitação. Suponho que não
se importará que tenha esperado até hoje para começar com minhas obrigações.
— Não tem nenhuma obrigação — respondeu ele, voltando a comer a costeleta.
— Está demitida.
Ela alisou um guardanapo de linho sobre seu colo e tomou um pequeno gole de chá.
— Temo que não tem autoridade para me demitir. Não trabalho para você.

Sirius baixou a costeleta, formando com suas sobrancelhas escuras uma nuvem tormentosa sobre a ponte de seu nariz.

— Desculpe? Devo estar perdendo ouvido também.
— Ao parecer o senhor Slughorn me contratou seguindo as instruções de seu pai.
Portanto meu patrão é Orion Black, marquês de Thornwood. Até que ele me envie uma carta, dizendo que meus serviços como enfermeira já não são necessários, esforçar-me-ei para satisfazer a ele com meu trabalho, não a você.
— Bom, é uma grande sorte, verdade? Porque a única coisa que me satisfaria seria sua partida iminente.
Utilizando uma faca e um garfo, Penélope cortou uma parte de bacon.
— Então temo que está condenado a seguir insatisfeito.
— Dava-me conta no momento em que ouvi sua voz — murmurou.
Negando-se a dignificar o insulto com uma réplica, Penélope meteu o bacon entre os lábios.
Apoiando os dois cotovelos sobre a mesa, ele soltou um bufo irritado.
— Me diga, senhorita Clearwater, como minha nova enfermeira, que tarefa gostaria de assumir primeiro? Gostaria de me dar de comer, por exemplo?
Olhando o branco brilho de seus dentes enquanto mordia outra parte de costeleta, Penélope disse:
— Dado seu… entusiasmo desenfreado pela comida, me preocuparia um pouco aproximar meus dedos a sua boca.
Um dos criados sofreu um ataque de tosse repentino, e seu irmão lhe deu uma cotovelada nas costelas.
Sirius agarrou a última parte de carne da costeleta e atirou o osso ao prato, falhando seu objetivo por completo.
— Devo supor que não aprova minhas maneiras na mesa?
— Não sabia que a cegueira impedisse de usar talheres e guardanapos. Daria o mesmo comer com os pés.
Sirius ficou paralisado. A pele tensa ao redor de sua cicatriz empalideceu, fazendo que a marca do diabo parecesse mais impressionante ainda. Nesse momento Penélope se alegrou de que não tivesse uma faca.
Jogando um comprido braço sobre a cadeira do lado, inclinou todo seu corpo para o som de sua voz. Embora soubesse que não podia vê-la, sua atenção era tão intensa que Penélope precisou conter o impulso de encolher-se.
— Devo confessar que me intriga, senhorita Clearwater. Seu tom é culto, mas não consigo identificar seu acento. Cresceu na cidade?
— Em Chelsea — respondeu duvidando que tivesse tido muitas oportunidades de frequentar o modesto bairro ao norte de Londres. Ao tomar um gole muito generoso de chá, acabou por queimar a língua.
— Tenho curiosidade por saber como uma mulher com seu… caráter veio solicitar este emprego. O que lhe levou a responder a dita chamada? A caridade cristã? Um desejo irresistível de ajudar a seus semelhantes? Ou talvez seu íntima compaixão pelos mais débeis? Agarrando uma colherada de ovo de sua taça de porcelana, Penélope disse com resolução:
— Entreguei ao senhor Slughorn várias cartas de referência. Estou segura de que as encontrará em ordem.
— Se por acaso não se deu conta — repôs Sirius com um tom zombador em sua voz — não posso ler. Possivelmente você possa me informar de seu conteúdo.
Ela deixou a colher de lado.
— Como expliquei ao senhor Slughorn, trabalhei durante quase dois anos como governanta para lorde e lady Weasley.

— Conheço a família. - Penélope ficou tensa. Até que ponto os conheceria?
— Quando se reataram as hostilidades com os franceses, li no Times que muitos de nossos nobres soldados e marinheiros estavam sofrendo por falta de atenção. Assim decidi oferecer meus serviços a um hospital local.
— Sigo sem entender por que deixou de cuidar de meninos para curar feridas sangrentas de homens que perderam a cabeça pela dor. Penélope fez um esforço para eliminar a paixão de sua voz.
— Esses homens estiveram dispostos a sacrificar tudo por seu país. Assim eu também posso fazer um pequeno sacrifício por minha parte. Ele bufou.

— Quão único sacrificaram foi seu bom julgamento e seu sentido comum.
Venderam-se à Marinha Real por uma roupa engomada de pano azul e uns galões
dourados nos ombros.
Ela franziu o cenho horrorizada por seu cinismo.
— Como pode dizer algo tão cruel? Inclusive o rei lhe felicitou por seu valor!
— Isso não deveria lhe surpreender. A Coroa tem uma larga história recompensando os loucos e sonhadores.
Esquecendo que não podia ver, Penélope se levantou pela metade da cadeira.
— Não são loucos! São heróis! Heróis como seu próprio comandante, o almirante lorde Moody!
— Moody está morto — disse ele com tom terminante — Não sei se isso o converte em um herói ou em um louco. - Derrotada no momento, voltou a sentar-se em sua cadeira.
Sirius se levantou, utilizando o respaldo das cadeiras para rodear a mesa. Enquanto suas poderosas mãos se aferravam à madeira esculpida de seu assento,
Penélope ficou quieta olhando para diante com uma respiração agitada e audível
para ambos.
Ele se agachou tanto que seus lábios estiveram a ponto de roçar perigosamente a parte superior de sua cabeça.
— Estou seguro de que suas intenções são sinceras, senhorita Clearwater.
Mas pelo que se refere, até que recupere o julgamento e renuncie a seu emprego só tem uma obrigação. — Suas suaves palavras eram mais contundentes que um
grito — Manter-se afastada de meu caminho.
Com essa advertência a deixou, e ao passar junto ao criado este se adiantou para lhe oferecer seu braço. Embora supunha que não deveria lhe surpreender que decidisse andar às cegas pela escuridão em vez de aceitar uma pequena ajuda, encolheu-se quando em algum lugar da casa ressonou um forte estrondo.
Penélope não tinha nada que fazer, exceto passear pelas estadias escuras de Black Park. O silêncio era quase tão opressivo como a penumbra. Não havia o
rebuliço que se poderia esperar de uma próspera casa de campo do Buckinghamshire. Não tinha criadas espanando prateleiras e corrimões, nem donzelas subindo as escadas com cestas de roupa limpa, nem lacaios conduzindo lenha para alimentar as lareiras. Todos os aposentos pelos quais passou estavam frios e escuros, suas chamas reduzidas a cinzas. Os querubins esculpidos nas molduras de mármore das chaminés a olhavam com tristeza, com suas gordinhas bochechas manchadas de fuligem. O punhado de serventes que encontrou, parecia andar por ali sem nenhuma tarefa especial nas mãos. Ao vê-la, se escondiam entre as sombras sem levantar a voz por cima de um murmúrio. Nenhum deles parecia ter pressa para agarrar uma vassoura e varrer as lascas dos móveis e as partes de porcelana que cobriam o chão.

Penélope abriu as portas duplas ao final de uma sombria galeria. As escadas de mármore conduziam a um imenso salão de baile. Durante os escuros meses de inverno, não tinha tido muito tempo para fantasiar, mas agora não pôde evitar fechar os olhos um instante. Imaginou o salão envolto em um torvelinho de cores, música e alegres conversações, e imaginou a si mesma deslizando pelo chão reluzente nos fortes braços de um homem. Podia lhe ver sorrir enquanto ela levantava a mão para acariciar os galões dourados que adornavam seus largos ombros.
Penélope abriu rapidamente os olhos, balançando a cabeça por sua loucura, fechou de repente as portas do salão de baile. Era culpa do conde. Se lhe permitisse realizar o trabalho para o que tinha sido contratada, poderia manter sua traiçoeira imaginação sob controle.
Enquanto caminhava por um amplo salão, prestando tão pouca atenção ao seu redor, bateu o pé em um console derrubado. Urrando de dor, saltou sobre um pé massageando os dedos doloridos através do quebrado couro de suas botas. Se estivesse usando sapatilhas de pele, provavelmente teria quebrado os dedos com o golpe.
Olhando as frestas de sol que tentavam atravessar o sufocante peso das cortinas de veludo, Penélope apoiou as mãos nos quadris. Pode ser que Sirius tivesse decidido enterrar-se nesse mausoléu, mas ela não.
Ao captar um brilho branco pela extremidade do olho, deu a volta e viu uma criada com touca saindo nas pontas dos pés pela porta.
— Ei, moça! —chamou-a.
A criada se deteve e se voltou muito devagar com uma reticência evidente.
— Sim, senhorita?
— Vem aqui, por favor. Necessito que me ajude a abrir estas cortinas. —
Grunhindo pelo esforço, Penélope empurrou um pesado banco com brocados para a janela.
Em vez de correr a ajudá-la, a criada começou a retroceder retorcendo suas pálidas e sardentas mãos e movendo a cabeça consternada.
— Não me atrevo, senhorita. O que diria o senhor?
— Poderia dizer que está fazendo seu trabalho — respondeu Penélope subindo em cima do banco.
Cada vez mais impaciente com as desculpas da criada, levantou os braços, agarrou dois punhados de tecido e puxou com todas suas forças. Em vez de abrir-se para os lados, as cortinas se soltaram de seus ganchos e caíram em uma nuvem de veludo e pó, fazendo Penélope espirrar sucessivamente.
A luz do sol entrou pelas portas das janelas, dando às bolinhas de pó um brilho
fascinante.
— Não deveria ter feito isso! — gritou a criada piscando horrorizada — vou procurar imediatamente à senhora Pomfrey!
Limpando as mãos na saia, Penélope saltou do banco e inspecionou seu trabalho com satisfação.
— Acho ótimo. Porque eu gostaria de ter um pequeno bate-papo com ela.
Com outro grito contido, a moça saiu a toda pressa da habitação. Quando madame Pomfrey entrou solenemente no salão pouco depois, encontrou à nova enfermeira do conde se equilibrando precariamente sobre uma delicada cadeira Luis XIV. A governanta só pôde olhar horrorizada enquanto Penélope dava um forte puxão nas cortinas que estava segurando, que caíram sobre sua cabeça enterrando-a em uma nuvem de veludo verde esmeralda.
— Senhorita Clearwater! — exclamou madame Pomfrey levantando uma mão para proteger os olhos do sol deslumbrante que entrava pelas janelas — O que significa isto?

Descendo da cadeira, Penélope sacudiu as grossas dobras de tecido. Logo, seguindo o escandalizado olhar da governanta, assentiu pesarosamente ao montão de cortinas que havia no chão.
— Só ia abri-las, mas ao ver tanto pó pensei que não seria uma má ideia as arejar um pouco.
Com a mão no chaveiro que levava na cintura como se fosse o punho de uma espada, madame Pomfrey se ergueu.
— Eu sou a governanta de Black Park. Você é a enfermeira do senhor. Arejar coisas não entra dentro de suas competências.
Olhando à mulher com cautela, Penélope abriu a janela. Uma suave brisa com aroma de lavanda entrou na habitação.
— Pode ser que não, mas o bem-estar de meu paciente sim. Que seu patrão não possa ver a luz, não significa que tenha que ficar sem ar fresco. Limpando seus pulmões poderia melhorar seu estado… e sua disposição.
Por um momento madame Pomfrey pareceu ficar intrigada. Animada por suas dúvidas, Penélope começou a dar voltas pela habitação encenando seus planos com entusiasmo.
— Pensei que primeiro os criados poderiam varrer os cristais e retirar os móveis quebrados. Logo, depois de guardar tudo o que se possa ser quebrado, poderíamos pôr os móveis grandes contra as paredes para deixar um caminho em cada habitação para que o conde ande sem problemas.
— O conde passa a maior parte do tempo em seu quarto.
— E lhe culpa? — perguntou Penélope piscando com incredulidade — Como se sentiria você se cada vez que saísse de sua habitação se arriscasse a quebrar a tíbia ou a abrir a cabeça?
— Foi o senhor quem ordenou que as cortinas permanecessem fechadas. E quem insistiu que se deixasse tudo como estava antes… — A governanta tragou saliva, incapaz de terminar — O sinto, mas eu não posso ir contra seus desejos. Nem posso ordenar ao pessoal que o faça.
— Então, não me ajudará?
Madame Pomfrey negou com a cabeça com uma expressão de arrependimento em seus olhos cinzas.
— Não posso.
— Muito bem — assentiu Penélope — Respeito sua lealdade a seu patrão e sua dedicação a seu trabalho.
Com essas palavras girou sobre seus talões, foi a seguinte janela e começou a
atirar das pesadas cortinas.
— O que está fazendo? — gritou madame Pomfrey enquanto as cortinas caíam
em cascata.
Penélope jogou a braçada de veludo sobre o montão e depois abriu a janela
para que entrasse o sol e o ar fresco. Logo se voltou para madame Pomfrey
limpando o pó das mãos energicamente.
— Meu trabalho.
— Segue com isso? — sussurrou uma das criadas a um criado de bochechas rosadas enquanto entrava nas amplas cozinhas do porão de Black Park.
— Temo que sim — respondeu ele roubando uma salsicha fumegante de sua
bandeja e metendo na boca — Não está ouvindo?

Embora tivesse escurecido fazia quase uma hora, os ruídos misteriosos continuavam no primeiro piso da casa. Desde manhã não tinham cessado as
batidas, os grunhidos e o roce ocasional de um pesado móvel ao ser movido pelo chão.
Os serventes mantiveram a rotina diária como a maioria dos dias, desde que Sirius havia retornado da guerra: apinhados ao redor da velha mesa de carvalho frente à chaminé do salão de serviço, recordando tempos melhores. Essa fresca noite da primavera Slughorn e madame Pomfrey estavam sentados um em frente do outro, tomando uma taça de chá atrás de outra, sem falar nem atrever-se a olhar nos olhos.
Depois de um ruído especialmente estridente que fez todos se encolher, uma das donzelas sussurrou:
— Não creem que deveríamos…?
Madame Pomfrey a olhou como um olhar assassino, paralisando a pobre moça onde
estava.
— Acredito que deveríamos nos dedicar aos nossos assuntos.
Um dos jovens criados deu um passo adiante, atrevendo-se a perguntar o que
todos estavam pensando.
— E se o senhor ouvir?
Tirando um lenço do bolso para limpar a testa suada, Slughorn moveu a cabeça com ar triste.
— Faz muito tempo que nada do que ocorre aqui importa ao senhor. Não há nenhuma razão para pensar que esta noite vá ser diferente. Suas palavras envolveram a todos em uma nuvem de desalento. Antes estavam orgulhosos de sua dedicação a grande casa na qual trabalham. Mas sem ninguém que visse como brilhava a madeira por seus atentos cuidados, sem ninguém que lhes felicitasse por sua eficácia para manter os chãos limpos e as lareiras com lenha fresca, não havia muitos motivos para sair de seu abatimento.
Apenas se deram conta de que uma das criadas mais jovens tinha entrado
sigilosamente nas cozinhas. Depois de ir direita onde madame Pomfrey, fez um
par de reverências sem atrever-se a pedir permissão para falar.
— Não fique aí subindo e baixando como uma cortiça na água, Hanna — disse
madame Pomfrey — O que passa?
Retorcendo o avental com as mãos, a moça fez outra reverência.
— Será melhor que venha e o você veja mesma, senhora.
Intercambiando um olhar de exasperação com Slughorn, madame Pomfrey
se levantou. Slughorn se separou da mesa para segui-la. Enquanto saíam das cozinhas, os dois estavam muito preocupados para dar-se conta de que o resto dos criados foram detrás deles. Madame Pomfrey se deteve de repente no alto das escadas do porão, a ponto de provocar uma desastrosa reação em cadeia.
— Chsss! Escutem! — ordenou.
Todos contiveram o fôlego, mas só ouviram uma coisa.
Silêncio.
Enquanto foram de uma habitação a outra seus sapatos já não rangiam sobre lascas e entulhos. A luz da lua entrava pelas janelas descobertas, revelando que o
piso estava limpo e os móveis quebrados se separaram em dois belos montões: um com as peças que se podiam salvar e o outro para jogar ao fogo.
Embora ainda estivessem ali alguns dos móveis maiores, na maioria das estadias se
limpou um caminho, com todos os objetos frágeis no alto dos suportes e nas prateleiras.
Os tapetes com franjas ou bordas que alguém pudesse tropeçar, também estavam recolhidos contra a parede. Em um pálido claro de lua da biblioteca encontraram à nova enfermeira de seu amo, profundamente adormecida em um sofá. Os criados se amontoaram a seu redor olhando-a desconcertados. As enfermeiras anteriores do conde tinham ocupado esse ambíguo estrato social reservado normalmente para as governantas e os tutores. Não se consideravam iguais ao dono da casa, mas tampouco se dignavam a rebaixar-se relacionando-se com outros serventes. Comiam em suas habitações e lhes teria horrorizado a perspectiva de utilizar suas suaves e brancas mãos para varrer chãos ou tirar pesadas cortinas ao jardim para as arejar.
As mãos da senhorita Clearwater já não eram suaves nem brancas. Suas pálidas unhas estavam rotas e sujas. Na mão direita tinha se formado um calo entre o indicador e o polegar.
Tinha as vestes retorcidas, uma mecha de cabelo que tinha escapado do coque e descansava sobre o nariz, sendo impelida para cima antes de voltar a baixar, por conta de seus roncos suaves.
— Devo despertá-la? — sussurrou Hanna.
— Duvido que possa — disse Slughorn em voz baixa — A pobre está esgotada.

Fez um sinal a um dos criados maiores

— Por que não leva a senhorita Clearwater a sua habitação, Orias? Que uma das criadas vá contigo.
— Irei eu — disse Hanna ansiosamente esquecendo seu acanhamento.
Enquanto o criado carregava à senhorita Clearwater em seus fortes braços, uma das faxineiras corrigiu brandamente suas saias, que se levantaram.
Quando se foram, madame Pomfrey seguiu olhando o sofá com uma expressão indecifrável. Aproximando-se um pouco mais a ela, Slughorn pigarreou com estupidez.
— Dou permissão ao resto do serviço para retirar-se?
A governanta levantou devagar a cabeça com seus olhos azuis cheios de determinação.
— Eu diria que não. Ainda fica muito por fazer e não vou permitir que sigam
vadiando e deixem seu trabalho a seus superiores. — Estalou os dedos aos dois
criados que ficavam

— Lorcan, você e Lysander agarrem esse sofá e ponham contra a parede. —Intercambiando um sorriso, os gêmeos se apressaram a levantar os
extremos do pesado móvel

— Cuidado! — advertiu-lhes — Se arranharem a madeira, descontarei a reparação de seus salários e suas peles. Voltando-se para as assustadas criadas, deu uma palmada que ressonou na biblioteca como um disparo.
— Lavander, Padma, tragam um par de faxineiras, uns trapos e um balde de água quente. Minha mãe sempre dizia que não tem sentido varrer se não esfregar. E agora que temos as cortinas tiradas será muito mais fácil limpar as janelas.

— Ao ver que as criadas não se moviam, começou enxotá-las para a porta com seu avental. — Não fiquem aí com a boca aberta como um par de trutas. Venham!

Madame Pomfrey se dirigiu a uma das janelas fechadas e a abriu.
— Ah! — exclamou expandindo seu peito enquanto aspirava uma baforada de ar noturno com aroma de lavanda — Pode ser que para amanhã esta casa já não cheire como uma tumba. Slughorn correu detrás dela.

— Perdeu o julgamento, Papoula? O que vamos dizer ao senhor?
— Não vamos dizer nada. — Madame Pomfrey assinalou para a porta por onde tinha desaparecido a senhorita Clearwater com um ardiloso sorriso nos lábios — Ela o fará.


Reviews são sempre bem-vindas, mas não obrigatórias. Desculpem qualquer erro gramatical, estou sem beta. :v - L. Padfoot