Rachel leu mais uma vez a carta de aceitação de Hogwarts em voz alta, para total desgosto de Shelby Corcoran. Santana revirava os olhos e balançava a cabeça ao presenciar o deleite da irmã mais nova. As três estavam no modesto apartamento no Queens, em Nova York. Era um imóvel tipicamente muggle daquela cidade: pequeno, funcional e confortável, e com uma vizinhança razoável. Eram pessoas de cotidiano simples, mais ou menos como as duas moradoras regulares daquela residência. Rachel Corcoran-Berry, que completaria 11 anos (limite para a primeira convocação) em dezembro daquele ano, ia à pé para a escola, que ficava no quarteirão ao lado. Shelby pegava o metrô e ia trabalhar como professora do curso de canto e de teatro de Hunter College. Isso quando não pegava trabalho extra como técnica de vocal de algum artista. Era uma vida ocupada, que obrigou Rachel a aprender a se virar sozinha dentro de casa desde cedo.

"Eu sou uma bruxa!" Rachel dizia com orgulho. "Sabia que a minha voz magnífica era resultado de pura mágica! Viu Santana? Fui convidada para duas escolas! Posso até escolher."

Santana colocou um dedo dentro da boca aberta e simulou que estava a vomitar. Shelby revirou os olhos pela enésima vez. A verdade era que a mãe das garotas estava chateada com a situação. Ela só tinha a companhia da filha mais velha por algumas semanas por ano. Agora, a mais jovem também deixaria o ninho, não importava a escola que escolhesse: tanto Hogwarts quanto Ilvermorny eram internatos. Shelby tinha outros planos para a filha caçula, mas tudo foi mudado assim que Rachel começou a manifestar poderes mágicos aos nove anos de idade. No início, a mãe pensou que era apenas coincidências e impressões. Mas alguns sinais persistiram, como a conexão ruim da internet que técnico algum conseguia solucionar e pequenos efeitos causados por telecinese. Certo dia, Shelby mandou uma mensagem a Juan Lopez perguntando sobre tais sinais. O pai de Santana entrou em contato com o departamento de registros de bruxos dos Estados Unidos, que mandou um representante examinar Rachel. O diagnóstico foi rápido.

Shelby ficou nada feliz com a notícia. Secretamente ela culpava Juan: aquele idiota sedutor bruxo inglês que deve ter passado alguma coisa para ela quando dormiram juntos. Ou talvez fosse consequência da gestação de Santana. O fato é que Shelby não entendia a lógica do mundo bruxo, e isso a assustava imensamente.

"Como pode uma coisa assim?" Shelby voltou-se para a primogênita. "Como ela pode ser como você, se nem eu e nem o pai da sua irmã temos... mágica?"

"Às vezes acontece." Santana fingiu não se importar. "Muitos bruxos importantes nasceram muggles, como Rachel. Hermione Granger nasceu muggle. Minha amiga Brittany Pierce também."

"Sua amiga Brittany é um dos grandes bruxos?" Rachel perguntou inocentemente.

"Ainda não, mas ela poderá ser um dia."

"Eu não entendo." Shelby insistiu em seu conflito particular. "Será que alguma coisa aconteceu enquanto eu tive contato com o seu mundo? Ou quando eu engravidei de você?"

Santana ouviu os questionamentos da mãe e suspirou. Conhecia muito bem a história dos pais. Era uma vez a americana que foi se aventurar em Londres. Um dia, ela esbarrou num jovem charmoso trajado em roupas cafonas, mas tudo bem já que aquela era a Londres moderna cheia de hipsters. Os dois ficam imediatamente atraídos um pelo outro e decidiram sair juntos. Depois da primeira transa, Juan contou a verdade à estudante de teatro: de que ele um estudante de medicina diferente do que Shelby imaginava. Assim, o mundo mágico é revelado a muggle.

A princípio, Shelby se deslumbrou. Mas, depois de algumas semanas, se assustou como aquele lado oculto poderia ser cruel e violento de um jeito que ela não conseguia compreender. Os bruxos eram seres rudes, arcaicos, em que boa parte não parecia ligar muito para a própria higiene pessoal, conviviam com criaturas medonhas aos olhos de um muggle, pensavam de uma forma estranha e se espantavam com coisas que eram banais para Shelby, como o hábito de assistir televisão (havia cinema no mundo bruxo, mas televisão soava como uma ideia diabólica). Sem mencionar que tão logo algum descobrisse que ela era uma muggle, era como se ela se transformasse em um monstro desprezível.

Shelby terminou o relacionamento após dois meses, mesmo ainda amando Juan. Achou que os mundos eram incompatíveis para permanecerem juntos, sem mencionar que os objetivos de vida dos dois eram completamente distintos. Poucas semanas depois do rompimento, dias antes de Shelby retornar aos Estados Unidos, os dois se encontram mais uma vez. Antes que Juan tivesse a chance de lançar um feitiço de esquecimento, Shelby revelou que estava grávida. Ela estava desesperada, pois só tinha 18 anos e uma vida pela frente: uma carreira pela frente. Disse que jamais poderia criar a criança.

Juan propôs, então, ficar e cuidar da criança assim que ela nascesse. Assim, Shelby poderia ficar livre para ter a vida que quisesse, e ainda ter a permissão para visitar a filha sempre que fosse possível. A estudante concordou com os termos e terminou a gestação em Londres, com a estadia inteiramente custeada por Juan. Dias após o nascimento de Santana Marie Lopez (mãe e filha partilhavam o nome do meio), Shelby entregou a filha em definitivo ao pai e voltou aos Estados Unidos com o coração em frangalhos.

O retorno a Nova York não foi fácil. Shelby se recusou voltar para Ohio, onde nasceu, e passou muitas dificuldades, mesmo com o dinheiro que Juan lhe entregou para que ela pudesse se manter pelo menos os primeiros meses. Era a depressão. Um belo dia, um amigo de Ohio chamado Hiram Berry, estudante de cenografia teatral e design na NYU, encontrou Shelby fumando um cigarro com maconha e outros aditivos em meio a pessoas estranhas. Ele decidiu resgatar a única garota popular que lhe tratava bem na época da escola. Arrumou um emprego para ela de entregadora de bicicleta na loja de um amigo. Shelby comemorou o primeiro salário pagando uma bebida ao amigo que a salvou do buraco e da depressão. Uma bebida levou a outra, uma canção levou a outra e os dois terminaram dormindo juntos, apesar do fato de Hiram ser gay. Shelby engravidou novamente.

Dessa vez, Shelby decidiu não abrir mão da criança porque não queria mais sentir a dor de abandonar um filho. Assim, passou a cuidar de Rachel Corcoran-Berry em uma vida repleta de dificuldades, mas recompensadora. Shelby (com algum apoio de Hiram) cumpria tripla jornada entre emprego, estudo na faculdade comunitária, e os cuidados com Rachel. Quatro anos depois, após algumas tentativas mal sucedidas para entrar em contato com Juan, o bruxo, já um curandeiro formado, Shelby recebe um bilhete de Juan. Os dois fazem um acordo: Santana passaria a ir todos os anos a Nova York para passar um mês das férias de verão com a mãe e com a meia-irmã caçula.

Shelby não ficou surpresa no dia em que Santana lhe contou que era uma bruxa. A garota demonstrava ser diferente das outras crianças desde cedo. Aos sete anos, conseguia fazer coisas extraordinárias, como fazer uma florzinha flutuar alguns centímetros acima da palma da mão. Santana era, definitivamente, filha do pai. Mas quando Rachel manifestou ser uma bruxa, foi um baque. Quando a filha caçula recebeu convite para ingressar em escolas de bruxaria, foi pior ainda.

"Rachel, querida, porque você não continua a estudar numa escola normal?" Shelby perguntou a caçula ainda com esperança que ela escolhesse permanecer em Nova York.

"Seria um desastre." Santana disse quase lacônica. "Se Rachel não aprender a usar a mágica que tem dentro dela, podem acontecer acidentes. A energia do bruxo é diferente da energia dos muggles. Ela precisa ser liberada e moldada. Senão, no pior cenário, pode-se criar um obscuro. Todo mundo sabe disso!"

"Obscuro?" Rachel ficou curiosa.

"É como se fosse um ser de energia das trevas que cresce dentro de você. Era comum acontecer antigamente em crianças nascidas muggle. Principalmente quando os pais eram muito religiosos, e essas crianças eram reprimidas brutalmente. Por causa disso, a magia represada dentro delas ia ficando cada vez mais trevosa, até que chegava um ponto em que elas literalmente explodiam e morriam."

"Oh... eu não quero morrer assim!" Rachel fez careta.

"Não se tem notícia de obscuros há um século." Santana deu de ombros.

"Isso é só uma história para te assustar." Shelby resmungou.

"Quem dera... A senhora pode perguntar isso para qualquer bruxo. Pode ligar para o meu pai e perguntar, se quiser." Santana continuou lacônica.

Celulares eram inúteis porque a energia mágica atrapalhava o sinal. O que significava que internet era igualmente inútil dentro dos bairros ou das cidades bruxo. Mas havia meios. Sempre que Juan precisava falar com Shelby, e vice-versa, eles usavam telefonia tradicional fixa, que Shelby mantinha exclusivamente por essa razão. Era o telefone ou Juan mandava uma mensagem para um pequeno departamento de comunicação bruxo-muggle vinculado ao Ministério da Magia (mas que funcionava fora dele por razões óbvias). O departamento era administrado por um Squib e mais alguns muggles casados com bruxos. O importante era que os dois conseguiam se comunicar e resolver questões sobre Santana.

"Você deveria decidir por Ilvermorny, Rach. Você é americana e Ilvermorny é uma escola progressista. Acho que é mais o seu jeito." Santana aconselhou.

"Mas Hogwarts é a melhor escola do mundo!" Rachel reclamou. "Você mesma disse."

"Hogwarts é a melhor escola do mundo para se aprender magia, sem dúvidas. Mas você vai acha-la difícil, conservadora e atrasada. Sem falar que Hogwarts dificilmente aceita alunos estrangeiros como regulares."

"Ela me aceitou."

"Porque você é minha irmã."

"Mas eu queria ficar contigo, te conhecer melhor. É a oportunidade que temos."

"Não conte com isso, nanica."

"Está dizendo que você não tomaria conta da sua irmã?" Shelby franziu a testa.

"Hogwarts não é lugar para fracos. Acredite em mim."

...

"Então você é uma Ravenclaw?" Rachel perguntou a Brittany pouco depois do grupo ocupar uma das cabines do trem expresso para Hogwarts.

"Se eu não mudar de casa... acho que sou." Brittany respondeu com certa indiferença a garota tagarela que estava em companhia da melhor amiga.

"É possível mudar de casa?" Rachel perguntou a Santana.

"Não que eu saiba." Ela respondeu sem ao menos olhar para a irmã.

Santana ainda sentia o incômodo da responsabilidade de cuidar de Rachel. Ela ainda não acreditava como Rachel descartou a possibilidade de estudar em uma escola progressista para ir para Hogwarts. Ela visualizava a irmã como os demais bruxos americanos, que tentavam aprender a fazer um iPhone funcionar com magia. Jamais pensou que Rachel iria escolher ir para o norte da Escócia, para uma cidade em regime de internato cuja a cidade que a servia não passava de um vilarejo com opções de entretenimento limitadíssimas. Sem mencionar que os alunos do primeiro ano sequer tinham autorização para ir a Hogsmeade. Rachel era uma garota que cresceu na Nova York muggle. Santana era uma britânica, mas que frequentava essencialmente os espaços bruxos, e pouco passeava na Londres muggle. Isso fazia toda a diferença na adaptação.

Enquanto isso, Quinn observava a interação entre as duas irmãs com certo espanto. Quando recebeu a coruja com a mensagem de Santana dizendo que naquele ano ela levaria um gnomo a tiracolo, não imaginou que a amiga se referia a uma irmã. Quinn nem sabia que Santana tinha uma, para início de conversa. Mas ao ver a garotinha baixinha e magra, entendeu na hora porque Santana a apelidava de gnomo, anã, elfo, e de toda criatura que tivesse menos de meio metro de altura.

"Como vocês duas são amigas? Eu achei que só se fizesse amizade com pessoas da própria casa!" Rachel insistia em tagarelar.

"Quem disse isso?" Quinn perguntou.

"Santana disse que há disputas entre as casas e tudo mais. Então pensei..."

"Como sempre, tampinha, pensou errado. A questão é que os Gryffindors são arrogantes metidos a heróis. Os Hufflepuffs são perdedores moralistas. Por isso que é difícil a gente se relacionar com eles. Os Ravenclaws, como Brittany, são nerds esquisitões, mas pelo menos são mais legais do que os outros. Então, faça a conta."

"Mas ouvi dizer que Slytherin é a casa dos bruxos das trevas." Rachel franziu a testa.

"Não vou negar que muitos bruxos das trevas foram Slytherin... por outro lado, outros grandes bruxos também foram de lá. Merlin foi o maior bruxo da história, e ele era um Slytherin." Quinn respondeu, mostrando ser mais paciente com Rachel do que Santana.

"Merlin existiu de verdade?" Rachel arregalou os olhos e Santana confirmou com um aceno.

"Está vendo esse bruxo estampado na sua barra de chocolate? Severus Snape foi um Slytherin." Santana completou. "E ele foi um dos maiores heróis na segunda guerra bruxo contra Voldemort."

"Não diga o nome dele!" Brittany advertiu e Santana revirou os olhos.

"Isso é frescura. O cara virou picadinhos quando enfrentou o pai da ruiva arrogante na segunda guerra bruxo." Santana resmungou.

"É, mas dizem que tem uma profecia do que você-sabe-quem reencarnaria e tentaria dominar o mundo bruxo de novo!" Brittany especulou.

"Isso não existe! Só se vive uma vez!" Santana esbravejou.

"Como você pode ter certeza?" Brittany questionou. "Você-sabe-quem voltou a vida."

"Por causa das horcruxes." Santana rebateu. "Isso não é o mesmo que reencarnar."

"O que são horcruxes?" Rachel ficou curiosa.

"É complicado... muito complicado." Quinn disse num sorriso fraco.

"A questão é: você conhece alguém que tem certeza que reencarnou e ainda te mostrou provas que isso aconteceu?" Santana cruzou os braços.

"Não..." Brittany admitiu.

"Esse é o meu ponto."

"Há muitas coisas que nem os bruxos e nem os muggles nunca viram e que nunca foram comprovadas, mas isso não quer dizer que não existam."

"Prefiro me preocupar com o que vejo, Britt Britt. Isso já dá trabalho suficiente."

Quinn acompanhou a discussão em silêncio, o que não queria dizer que não estivesse interessada. Na verdade, aquilo a deixava intrigada. Dias atrás, havia escutado uma conversa do pai com Lakatos Black sobre uma profecia a respeito de um novo lorde das trevas e de um guerreiro defensor de muggles que estavam destinados a se enfrentar. Russell Fabray acreditava que a profecia dizia respeito a volta de Voldemort. Quinn tinha arrepios só em pensar. Amava demais a liberdade, porque era algo que não desfrutava dentro da própria casa. Sabia que viver sob a tirania de um lorde das trevas significaria uma vida de opressão dentro e fora de casa. Ela podia até ser uma Slytherin, mas jamais poderia aceitar viver sob tais condições.

...

Os personagens estavam todos presentes no salão principal. Santana e Quinn estavam lado a lado na mesa Slytherin, como sempre, enquanto Brittany conversava animadamente com colegas Ravenclaw. A dupla estava de costas para Brittany e quase de frente com o grupo Gryffindor que mais detestavam: os integrantes das famílias Potter e Weasley. Lily conversava com a melhor amiga e com as primas. Elas especulavam em que casa o mais novo integrante da família, Hugo Weasley, seria colocado. Rose, a irmã, era a única que não apostava em Gryffindor.

"Como não?" Lily questionou a prima, que estava indo para o terceiro ano.

"Tenho uma forte intuição."

"Hugo é um dos nossos, Rose." James Potter cutucou a prima. "Não se preocupe nunca nenhum Weasley ou Potter quebrou a tradição."

Lily olhou para a mesa Slytherin ao mesmo tempo em que Santana olhou em direção a ela. Então resmungou alto.

"Seria melhor que aquela garota tivesse sido expulsa." Lily disse e fez com que os demais olhassem em direção a mesa da casa rival.

"Dizem que Lopez se livrou da punição." Rose soou irritada. Ainda não havia engolido o trote derradeiro assumido por Santana no ano anterior. Ela tinha uma pequena e leve cicatriz na testa para lembra-la. Verdade que era quase imperceptível para outra pessoa, mas ela conseguia visualizá-la muito bem. "Se ela se meter com a gente, vai ter troco. Especialmente se entrar no quadribol neste ano."

"Parece que ela não pode." James disse.

"Por quê?" Lily ficou curiosa.

"Foi parte do trato para ela não ter sido expulsa." James explicou. "Eu ouvi uma conversa do Nell com o meu pai. Foi um acordo que a escola fez com o pai da Santana para ela não ser expulsa."

"A meia-irmã dela entrou em Hogwarts neste ano." Melissa Brown informou ao grupo. "Dizem que ela é uma americana nascida muggle."

"Como?" Lily ficou curiosa.

"Lopez é mestiça, não sabia? A mãe dela é uma muggle americana... as duas são irmãs por parte de mãe."

"Oh." Lily olhou mais uma vez em direção a mesa rival, mas Santana estava olhando de lado conversando alguma coisa com Sugar Motta. "Vai ser difícil tolerar outra Lopez."

"Com certeza a garota não será uma Lopez!" Al Potter disse com o habitual ar blasé. "O sobrenome é outro."

A diretora Minerva começou a fazer o discurso anual de abertura e a apresentar os professores. Disse que a escola faria punições mais severas e até expulsaria alunos que, de alguma forma, colocassem a vida de colegas em risco em decorrência de trotes e brigas. A escola inteira olhou em direção a Santana que, não querendo ficar por baixo, estampou um sorriso falso e cínico nos lábios e mandou tchauzinhos e beijinhos em todas as direções. Mandou um beijo soprado em especial para Rose Weasley, provocando risadinhas entre os Slytherins e resmungos entre os Gryffindors.

Os novatos entraram para a seleção. O chapéu fez o discurso anual e, um a um, os novos alunos foram chamados. Gryffindor recebeu uma garota negra chamada Mercedes Jones e outro com cabelo encaracolado chamado Blaine Anderson. Hufflepuff recebeu um garoto chamado Kurt Hummel. Slytherin recebeu, entre outros, uma garota asiática chamada Tina Chang, prima de segundo grau de Cho Chang, e que tinha nenhuma relação com Mike Chang. Hugo Weasley, para escândalo geral da escola, entrou em Hufflepuff: era o primeiro da família em oito gerações a não ser um Gryffindor.

Quanto a Rachel?

Slytherin.

Santana quase teve um treco. Ela tinha uma intuição de que Rachel, até pela personalidade egocêntrica, tendesse para Slytherin. Por outro lado, não havia na história recente da casa nenhum aluno nascido muggle. Até mesmo os alunos meio-sangue tinham certa dificuldade em se misturar com os puro-sangue. Era como se esses alunos tivessem de se esforçar muito mais para provar o valor. Então como seria a vida de Rachel em Slytherin? Santana ficou preocupada.

...

Rachel ainda estava se habituando com o mundo mágico. Mesmo sabendo a vida inteira que tinha uma irmã bruxa, Shelby nunca permitiu que Rachel tivesse contato próximo com esse mundo. Agora que ela pertencia a ele, não conseguia parar de pensar no quanto ele era assustadoramente diferente da normalidade que estava habituada. Via as garotas do segundo ano, e até a própria irmã, arrumando roupas e sapatos dentro dos minúsculos guarda-roupas apenas com o toque das varinhas.

"Como isso tudo cabe nessas portinholas?" Rachel ficou intrigada.

"Feitiço de extensão, baby." Sugar convidou Rachel a espiar dentro da portinhola e o que ela viu a deixou boquiaberta. Dentro da portinhola tinha um guarda-roupa muito maior do que aparentava do lado de fora.

"Uau!" Rachel arregalou os olhos. "Eu posso ter um desses?"

"Custa 10 galeões." Sugar desdenhou. "Garotas do sétimo ano cobram pelo serviço."

"Dez galeões?"

"São quase 80 dólares, Rachel." Santana explicou.

"Oh... É muito dinheiro. Você não consegue fazer esse feitiço?" Rachel perguntou a Santana.

"É um feitiço avançado. A gente não aprende até o sexto ano."

Rachel olhou para o quarto, se é que aquilo se podia chamar de quarto, em que Santana e Quinn arrumavam suas coisas. As duas estavam organizando o espaço com muita naturalidade, e aquilo feriu Rachel de certa forma. Ela jurava que teria a irmã o tempo inteiro ao seu lado.

"Oh... San? Eu achei que você ficaria comigo."

"Sinto muito tampinha, mas eu divido um quarto com Fabray desde o primeiro dia."

Rachel olhou para as outras duas garotas novatas, entre elas Tina Chang, mas elas lhe deram as costas. Disseram que não iriam se misturar com sangue-ruim. Rachel ficou em choque com a rejeição. O que era uma sangue-ruim? Santana suspirou e se controlou. Queria dar uma lição na garota de descendência asiática, mas era verdade que ela estava sob provação. Brigar no primeiro dia não seria nada bom.

"Rach, por que você não fica no quarto mais próximo do banheiro? É o único que só tem uma cama e você pode arrumar do jeito que desejar. Ou você pode dividir o quarto com Sugar e aguentar o ronco dela." Santana sugeriu.

"Eu tenho um desvio nas minhas vias respiratórias." Sugar se justificou.

"Acho que vou pegar o quarto próximo ao banheiro." Rachel disse tristonha, mas ainda mantendo um orgulho tipicamente slytherin.

Ela suspirou e entrou na cabine mais próxima ao banheiro, a que ninguém queria. Arrumou a própria cama e não conseguiu pregar os olhos a noite inteira.

...

Rachel soube desde o momento em que foi a última pessoa a domar uma vassoura, que não sairia voando por aí, muito menos tinha a disposição de aprender o tal do esporte horroroso que era o mais popular entre os bruxos. Ela não era a melhor a lidar com plantas, muito menos com criaturas mágicas, mas tinha talento nato para porções e transfiguração, a ponto de pensar em ser tornar um animago no futuro. O que ela mais gostou foi em saber que podia pegar a aula opcional de música muggle que acontecia uma vez por semana pela tarde.

Quando entrou na sala, ficou impressionada que aquela era a turma mais diversificada. Tinha 13 alunos das três casas e de todos os anos (ela levou pouco tempo para perceber que era a única Slytherin). O professor era William Schuester, ridicularizado por muitos alunos, em especial os Slytherin, por ser o único squib em toda Hogwarts. A disposição da sala era informal, apenas com cadeiras, sem carteiras, dispostas em três filas lado a lado. Rachel sentou-se na primeira ao lado ao lado de Hugo Weasley. Estavam também nesta classe Mercedes Jones, Blaine Anderson, Finn Hudson, Miranda Larson e Kurt Hummel.

Schuester entrou animado, deu boas-vindas aos alunos antigos e aos novos. Disse que o programa de aula era muito flexível, mas que ele gostava de dividir a aula em duas etapas: a primeira de discussão teórica e apreciação (que era basicamente contar a história do artista ou do gênero musical), e a segunda parte era de expressão artística, em que os alunos eram convidados a praticar alguns instrumentos, desde que tivessem conhecimento prévio, e a cantar.

Cantar!

Essa era a verdadeira palavra mágica para Rachel. Ela abriu um sorriso.

...

Santana terminou a limpeza da sala que abrigava o pequeno museu de objetos mágicos e pertences de grandes mágicos que estudaram em Hogwarts. Estava ajudando os elfos na limpeza como um trabalho voluntário. Essa era a propaganda, porque a realidade foi que Minerva "recomendou" que ela trabalhasse "voluntariamente" para ajudar a limpar a própria imagem. Santana não se importava em limpar poeira de móveis junto com os elfos domésticos. Ela se divertia com as pequenas criaturas e até tinha um favorito: Simon. Mas o fato de ela não poder requerer a uma vaga no time de quadribol a magoava.

Ela limpou o suor do rosto e encostou-se próximo a antiga penseira que pertenceu a Dumbledore.

"Narigudo!" Santana gritou.

"Menina Santana chamou?" Simons apareceu na sala.

"Terminei a minha parte, narigudo."

O elfo passou o dedo nos vidrais, suportes e verificou o chão. Tudo estava impecável. A criatura sorriu e acenou para a aluna.

"Muito bom, menina Santana." O elfo sorriu. Olhou para os lados e tirou um objeto do bolso. "Como você pediu."

Santana pegou o objeto para fazer trotes que foi confiscado das mãos delas. Agradeceu ao elfo e retribuiu o presente: deu a ele uma pulseira, nada além de uma bijuteria que nem usava mais. O elfo ficou radiante e se sentindo honrado. Santana fez um carinho na cabeça do elfo antes de sair do pequeno museu. Não prestou atenção em quem circulava por ali e trombou justamente com Lily e Rose na saída. Elas, todas uniformizadas para o treino de quadribol de Gryffindor. Lily tinha entrado para o time reserva, mas Rose era a apanhadora titular da equipe desde a última temporada. Era uma situação que causava inveja em Santana. Ela queria ter feito os testes para o time de Slytherin, nem que fosse para pegar uma posição entre os reservas. Sabia que era melhor do que alguns dos garotos da equipe, mas o acordo lhe impedia.

"Descul... oh, é você!" Lily fez cara de desgosto.

"Passa reto, Potter."

"Vou mesmo, Lopez. Preciso jogar quadribol, enquanto você precisa lavar mais algum chão."

"Não me provoque."

"Ou o quê? Vai explodir de novo a mesa da minha casa e ferir mais pessoas? Adoraria que você fizesse isso. Adoraria ver você ser expulsa desta escola."

"Você, sua família... vocês se acham os donos de Hogwarts. Cuidado com a soberba, Potter. Alguém pode lhe dar um sério chute no traseiro."

"Você é essa pessoa?"

"Por Merlin, como eu odeio filhinhos de papai." Santana deu as costas a Lily e Rose, que permaneceu calada.

"Lopez!" Lily disse alto, fazendo a menina parar, suspirar acintosamente, e voltar-se para ele novamente. "Eu não quero ser sua inimiga e estou nem aí com a sua atitude. Mas eu serei, caso você machuque mais alguém que eu goste..."

"Você fala como se eu tivesse ferido gravemente alguém. Não foi minha intensão machucar a sua prima ou qualquer outra pessoa. Então para de se portar como se eu tivesse tirado a vida de alguém! Eu já tive a minha punição, então não enche! Vai fazer alguma de útil pra você mesma! Vai chupar um prego ou sei lá... só para de encher o meu saco!"

Lily Potter ficou surpresa quando percebeu que tinha uma pequena plateia testemunhando o bate-boca. Entre eles, Samuel Evans e Finn Hudson. Lily olhou para os Hufflepuffs que simpatizava e os cumprimentou com um sinal. Finn bateu no ombro da caçula do clã Potter e deu um meio sorriso.

"Não liga para essa garota. Ela é encrenca."

Mas Lily não se confortou. Olhou para trás e viu que Santana já estava no fim do corredor. Havia algo diferente naquela garota que a irritava profundamente, e não era só pelo fato de ser uma Slytherin de língua feroz.

...

Dois meses de aula, e Rachel ainda não tinha feito nenhuma amizade. A única pessoa com quem conversava com um pouco mais de qualidade era com Santana, Quinn e Brittany. Às vezes com Sugar Motta. Isso quando elas estavam com bom-humor para deixa-la se aproximar. Não era suficiente.

Os colegas de classe achavam que ela era esquisita, mandona, terrivelmente chata e irritante, sem falar na origem muggle.

"É por isso que você é uma Slytherin!" Santana gargalhou. "Você tem um ego maior do que toda a nossa casa junta!"

"Com certeza você foi escolhida por ser mesquinha!" Rachel rebateu a irmã, que não se incomodou.

"Posso viver com isso!" Santana deu um leve empurrão em Rachel, que logo em seguida recebeu o carinho de Brittany.

"Não ligue para a sua irmã. Eu até que gosto de você."

"Viu?" Rachel encarou Santana de um jeito provocativo. "Britt gosta de mim."

"Claro, Rachy. Você é tão irritante que me faz rir. Eu gosto de rir!"

Desta vez foi Quinn e Santana que gargalharam. Rachel bufou e decidiu afastar-se do grupo. Refugiou-se em seu lugar favorito: a sala de música. Irritada e com lágrimas nos olhos, sentou-se ao piano. Não sabia tocar, mas sabia onde estavam as notas musicais. Dó, Re, Sol, as notas bemóis (ou sustenidas, dependendo do símbolo na partitura). Começou a bater as notas e a testar a extensão de sua voz, igual como costumava fazer com sua mãe. Como professora de canto e técnica de atores, Shelby costumava treinar com a filha, que correspondia divinamente aos exercícios.

Além dos treinos em casa, Rachel costumava ter aulas de canto e dança duas vezes por semana. Ela participava dos concursos de talento da escola muggle que frequentou até entrar em Hogwarts. Vencia quase todas competições na categoria canto e tinha uma coleção de pequenos troféus e medalhas que se orgulhava. Enquanto se sentia miserável, cantava.

Começou a cantar alto e lindamente afinado, mesmo com a lágrima que escorria em seu rosto.

Parou quando ouviu um esbarrão. Olhou em direção a porta e encontrou Hugo Weasley com o rosto quase tão vermelho quanto seus cabelos.

"Desculpe..." O garoto ficou acanhado. "É que você estava cantando tão bonito que... desculpe se eu te atrapalhei... eu já vou embora."

"Não! Por favor, fique!"

"Posso?"

"Claro."

Hugo, ainda acanhado, aproximou-se do piano.

"Essa música que você cantou... eu a conheço."

"Você conhece música muggle? É claro... você também faz aula de música com o professor Schuester."

"É... mas eu também ouço alguma música muggle. Minha mãe... ela também nasceu muggle, sabe? Ela me ensinou a tocar um pouco de piano."

"Ainda tenho dificuldade em acreditar que a famosa e toda poderosa Hermione Granger é uma sangue-ruim como eu."

"Quem te chama de sangue-ruim?"

"Algumas meninas da minha casa."

"Claro!" Hugo revirou os olhos. "Não deveria ligar para elas."

"Mas dói... e dói ainda mais porque ninguém me defende. Nem mesmo a minha irmã."

"Lopez é um tópico delicado nesta escola." Hugo sorriu sem-jeito.

"Sua irmã e seus primos a odeiam. Eu entendo totalmente... eu a odeio em boa parte do tempo. Ser irmã de Santana Lopez parece ser uma doença que faz as pessoas ficarem longe de mim. É como a lepra, sabe?"

"Não é bem assim. Mas, ei, essa música que você estava cantando... qual é mesmo o nome?"

"Cry me a river."

"É linda! Pode cantá-la de novo?"

Rachel acenou. Fechou os olhos e começou a cantar com suavidade.

Now you say you're lonely

You cried the long night though

Well, you can cry me a river

Cry me a river

I cried a river over you.

Enquanto Rachel cantava, Hugo ia tentando acompanha-la. Levou uma estrofe para ele encontrar as notas corretas da música, o que deixou Rachel espantadíssima. Se ela tinha o dom de cantar, Hugo Weasley certamente tinha o dom de tocar. Ao final, os dois estavam espantados, como se fosse almas-gêmeas que tivessem se encontrado.

"Uau... isso foi bom!" Hugo sorriu timidamente.

"Eu diria que sim." Rachel olhou timidamente para o Hufflepuff. "Sabe... a gente bem que poderia nos encontrar aqui, de vez em quando, para cantar e tocar. Eu poderia te ensinar um monte de músicas e você poderia me ensinar a tocar um pouco de piano."

"Seria legal, mas... será que a sua irmã não vai se importar?"

"E a sua família? Também não vai se importar por você se encontrar com a irmã de satanás?"

"A gente pode fazer disso o nosso segredo. O que acha?"

Rachel sorriu e acenou. Cuspiu na mão e a estendeu para o novo amigo, que estranhou o gesto. Até ficou meio enojado.

"Nos Estados Unidos, quando a gente firma um compromisso, cuspimos nas mãos e cumprimentamos para selar o trato."

"Ok..." Mesmo incerto, Hugo repetiu o gesto, selando a nova e inusitada parceria.

...

Rachel não tinha opções atraentes para passar o natal. Ou ela ia para a casa dos Lopez ou ficava sozinha em Hogwarts. Shelby estava muito ocupada depois que o coral da faculdade em que lecionava foi escolhido para apresentar uma cantada de natal em um evento beneficente tradicional em Nova York. Era uma oportunidade única, pois a nata do empresariado da cidade, sem falar em alguns artistas e produtores de Hollywood e da Broadway, sempre marcavam presença. Rachel não precisava de maiores explicações para entender que aquela era uma oportunidade única na carreira de Shelby.

Como a mãe não poderia lhe dar a atenção, decidiu ficar em Londres com os Lopez. Descobriu que a casa de Santana era grande, mas fria e impessoal. Juan Lopez era uma figura simpática, que a recebeu bem, mas parecia também ser um homem distante. Era medibruxo e trabalhava na equipe chefiada por Draco Malfoy. Juan estava no quarto ano, quando aconteceu a batalha derradeira em Hogwarts. Ele nunca entrou para grupo de resistência e, na ocasião, lutou contra os death eaters mais para salvar a própria pele do que por ideais. A verdade é que ele estava pouco se lixando para Harry Potter àquela época. O pai de Juan, Hernandes Lopez, era um comerciante que chegou a Londres para fazer a vida e manteve-se neutro durante toda crise, instruindo os filhos a fazerem o mesmo.

Juan nunca se envolveu diretamente com política, mas tinha as próprias convicções. Ideias supremacistas, por exemplo, não estava na lista de ideologias dele. Ele até acreditava que um medibruxo precisava aprender o básico da medicina muggle, que considerava mais avançada em tecnologia. Mas as coisas mudaram um pouco de figura há certa de cinco anos, quando ele se casou com Amber Nox, que vinha de uma longa linhagem de puro-sangues que tinham inclinação para a arte das trevas. Amber tinha um filho, Douglas, à época tinha apenas dois anos e, por isso, chamava Juan de pai.

Rachel percebeu que embora Juan fosse carinhoso com a filha, Amber era grossa e impaciente com a enteada. Santana também pouco interagia com Douglas, que era um moleque mimado de sete anos. As irmãs chegaram em casa para a pausa das festas de fim de ano, e Santana logo empurrou Rachel para o quarto dela. Ali era outro ambiente, como se fosse outra casa. O quarto de Santana tinha colagens nas paredes tanto do time que ela torcia, o Pride of Portree, quanto de artistas bruxos e muggles que admirava.

"Eu gosto do time que você torce." Rachel observou os cartazes com figuras em movimentos.

"Você nem conhece quadribol!" Santana franziu a testa.

"O símbolo do seu time é uma estrela. Gosto de estrelas. Elas são uma metáfora importante."

"Bom saber." Santana disse enquanto arrumava o colchão para Rachel.

"Bruxos não enfeitam a casa para o natal? Hogwarts estava enfeitada!"

"Muitos enfeitam, mas tem famílias tradicionais que preferem outros modos."

"A sua é assim?"

"Os Noxes são assim."

Naquele momento, Rachel se arrependeu por não ter ficado em Hogwarts.

...

Era véspera de natal e tudo parecia horrível para Rachel. Santana estava distante, e tudo naquela casa lhe parecia horrível, principalmente Douglas, que fez Rachel reconsiderar todos os conceitos que ela tinha de garotos mimados. Ela tinha vontade de estrangular o moleque que a chamava de sangue-ruim e tentava puxar-lhe o cabelo a cada cinco minutos. Para piorar, Amber Nox decidiu fazer uma pequena reunião com a família dela. Nem em meio a roda de amigas de Lestrange Rachel nunca se sentiu olhada com tanto desprezo. Ouvia comentários de que Hogwarts estava decadente por deixar uma sangue-ruim entrar na grande casa de Slytherin. Isso a machucava de uma maneira inimaginável. Cansada de ouvir tantos insultos de adultos que pareciam ter saído de um filme de terror, ela se refugiou no quintal da casa, debaixo das escadarias externas que davam para o telhado, e chorou. Nem se importou com o tempo frio e a neve. Na verdade, ela até estava torcendo para ficar congelada, pois assim pararia de sentir.

"Ah, finalmente. Você está aí! Estou te procurando feito louca."

Rachel limpou primeiro as lágrimas antes de levantar-se para falar com a irmã. Ficou surpresa ao ver Santana de mochila nas costas e segurando uma vassoura.

"O que você vai fazer?"

"Nós vamos embora."

"Pra onde?"

"Brittany!" Santana subiu na vassoura e jogou a mochila para Rachel carregar. "Vamos!"

"Mas eu não tenho roupas apropriadas para sair nesse tempo. Aliás, acho que não deveríamos nos arriscar nessa nevasca, San."

"Eu coloquei uma muda de roupas suas. Ponha a mochila nas costas. Vamos!"

"Mas Santana..."

Viu a irmã colocar óculos usados em partidas de quadribol e se preparar para partir. Rachel agiu por impulso, subiu na vassoura e segurou Santana pela cintura.

"Só espero que você não nos mate na véspera de natal."

"Eu consigo achar a casa da Britt Britt de olhos fechados... deixa de frescura!"

Rachel fechou os olhos quando sentiu que estava voando. Sem mencionar que ela estava mesmo morrendo de frio, e rezava para que a viagem fosse rápida, ou poderia morrer congelada pelo caminho. Estava escuro. Nevava, mas não muito. O frio era cruel e Rachel podia sentir o vento contando a pele do seu rosto. Não era à toa que Santana tinha colocado os ridículos óculos de quadribol. Felizmente o trecho não era longo e, em cinco minutos (talvez os cinco minutos mais longos da vida de Rachel), as duas pousaram no quintal de um sobrado modesto. As duas bateram um pouco da neve nas roupas antes de bater à porta.

"Só um aviso... não se incomode com o pai da Britt, ok?"

A porta se abriu e apareceu a figura de uma mulher loira e gordinha.

"Meninas, vocês devem estar congelando! Entrem, entrem!"

"Oi tia Whit!" Santana abraçou rapidamente a senhora. "Esta é a minha irmã, Rachel."

"Oh, a americana?" A mulher abraçou a menina que tremia de frio. "Seja bem-vinda... agora vamos, entre!"

Whitney Pierce fechou a porta e Rachel se viu em um ambiente muito mais aconchegante. A casa dos Pierces era simples, porém acolhedora. O espirito natalino estava definitivamente ali, na presença da árvore, de enfeites, de presentes. Brittany desceu as escadas e foi logo abraçar a melhor amiga. O senhor Pierce, que era chinês, veio da cozinha enxugando as mãos no pano de prato.

"Quem chegou?"

"Santana e a irmã dela vieram nos visitar, Pierce!" Whitney disse com suavidade.

"Oh... quem é Santana mesmo?"

Rachel e Santana trocaram olhares. Rachel começava a entender a razão do aviso sobre o pai de Brittany... que obviamente não era o pai biológico dela. Reapresentações feitas, Whitney serviu um delicioso caldo quente. Família conversou amenidades à mesa. Falavam coisas sobre o filme de Star Wars recém-lançado, sobre as luzes de natal e da loucura consumista que estava no mercado. As garotas se ofereceram para lavar as louças, o que deixou Whitney feliz, pois era a atividade doméstica que ela mais detestava. Rachel observava as interações com atenção. Era como se Santana fosse alguém da família, e ela achou isso curioso. Quando só as três estavam no mesmo cômodo, Rachel sentiu-se à vontade para perguntar.

"Há quanto tempo vocês passam o natal juntas?"

"Faz uns quatro anos? Foi depois que meu pai se casou com... aquela." Santana fez cara de desgosto.

"Mas como? Brittany é nascida muggle!"

"Eu morava neste bairro." Santana explicou a irmã caçula e a conduziu até a janela. "Está vendo aquela casa com enfeites vermelhos do outro lado da rua? Eu morava ali junto com meu pai. Tudo era melhor antes de ele se casar e a gente se mudar para aquela mansão."

"Você disse que o seu contato com os muggles era limitado." Rachel ficou confusa.

"Era mesmo." Santana respondeu. "Eu fui alfabetizada numa escolhinha no Beco Diagonal. Meu contato com muggles era basicamente Brittany e as crianças da rua. Eu passeava pela Londres Muggle mais em companhia de Brittany e dos pais dela do que com meu pai."

"Foi Santana que me ensinou a jogar quadribol." Brittany disse entusiasmadae depois sussurrou. "Foi ela que me emprestou um pouco da magia dela para que eu me tornasse uma bruxa também."

Ao ver Rachel confusa, Santana gargalhou e explicou.

"Foi um ritual que fizemos quando crianças. Envolveu um bolo de lama, pétalas de flores, farinha de trigo e duas gotas de sangue." Santana piscou para Rachel. Obviamente se tratava de uma brincadeira de criança que Brittany acreditou ter funcionado.

"Oh!" Rachel ficou pensativa por um minuto. "Eu sou sua irmã, mas parece que sei nada sobre sua vida."

"Teremos tempo para isso, anã." Santana beijou Rachel na cabeça.

As meninas entraram no quarto quentinho e aconchegante. Brittany pegou um saco de dormir e Santana fez um feitiço para deixa-lo mais macio. Quando Rachel dormiu vencida pelo cansaço, as duas amigas decidiram ir para a sala para assistirem a um filme e conversar longe de Rachel. Santana conjurou silencio para que as pessoas da casa não as escutassem. Brittany e Santana gostavam de conversar sobre tudo. A Ravenclaw era a única pessoa que a falsa Slytherin conseguia desabafar. Santana tinha muito que desabafar sobre o particular ano cheio de tensões que estava tendo em Hogwarts como consequência do trote malsucedido que ela e Quinn planejaram no ano anterior.

"Você não deveria ter assumido toda culpa, San." Brittany bronqueou pela enésima vez quando Santana mencionou o desejo de entrar para o time de quadribol.

"Pelo menos eu me tornei quase intocável na escola. Ninguém mexe comigo."

"O clã te provoca." Brittany observou, lembrando-se dos inúmeros pequenos confrontos verbais entre Santana os Potters e os Weasleys pelos corredores de Hogwarts.

"O importante é que eu não deixo barato. Você viu o novo penteado da garota Potter?"

"Foi você?" Brittany arregalou os olhos e gargalhou lembrando-se do dia, antes das férias de inverno, em que Lily saiu correndo pelos corredores com os cabelos armados e o rosto preto de fuligem devido a uma explosão de uma poção. "Como?"

"Uma gotinha de essência de saliva de trasgo foi o suficiente."

"San... e se você for pega?"

"Não serei. Você vai ver."

"Você não deveria provoca-los. Eles são muito influentes... e também não é que eles sempre iniciem as provocações, não é dona Santana!" Brittany bronqueou. "Eles podem fazer você ser expulsa de Hogwarts."

"Eles são nada em Slytherin e eu não levo desaforo para casa."

"Ainda assim..."

"Eu vou ficar bem, Britt. Já estamos no meio do ano letivo e nada de mais aconteceu até agora."

"Mas eu morreria se acontecesse alguma coisa contigo."

"Morreria?" Santana franziu a testa com certa incredulidade.

"Claro que sim. Você é a minha melhor amiga, San! Eu te amo!"

"Eu também te amo, Britt Britt."

"Eu sei que você me ama. Só que eu te amo como aquelas meninas amam aqueles garotos nos filmes, não vê?"

"Você diz... como naqueles filmes que as garotas beijam os garotos?" O coração adolescente de 12 anos da jovem Santana Lopez disparou.

"É..." Brittany aproximou-se. "Que nem nos filmes..."

Santana não conseguiria imaginar nem em seus melhores sonhos que o seu primeiro beijo seria dado na madrugada de natal pela pessoa que mais gostava. Há tempos que ela pensava que talvez gostasse de meninas do jeito como ela deveria supostamente gostar de garotos, mas ela nunca se permitiu pensar a fundo sobre o assunto. Naquele instante, sentindo os lábios de Brittany pressionados contra os dela, ela experimentou um mundo novo de sensações. Borboletas voavam em seu estômago, sentiu um arrepio bom se espalhando na pelo como se fosse eletricidade. O coração pulsava acelerado e o cérebro estava congelado. Era uma sensação maravilhosa, o melhor presente de natal.

...

O jogo entre Hufflepuff e Gryffindor pela copa das casas estava de arrepiar. James Potter era o goleiro menos vazado do campeonato logo em sua primeira temporada no time, e Rose Granger-Weasley era a segunda melhor apanhadora de acordo com as estatísticas. Lily estava nervosíssima no banco de reservas. Os Hufflepuffes tinham feito um campeonato melhor e entraram em campo como favoritos. Diziam que esse era o último ano de uma geração diferenciada, já que o time titular praticamente todo, exceto o goleiro, estava no sétimo ano, e o artilheiro Dagoberto Malesevich tinha um pré-contrato com o Ballycastle Bats.

A maior parte de Ravenclaw estava do lado do time de amarelo, porque as probabilidades de eles saírem vencedores eram maiores. Já os Slytherins nunca ficavam do lado de ninguém, mas compareciam para assistir a partida no espaço que lhes eram reservados.

Santana sentou em um canto mais isolado e observou Hufflepuff esmagar Gryffindor em 33 minutos. Achou que sentiria um gostinho especial em ver James Potter ser envolvido pelos artilheiros de amarelo, mas não foi bem assim. Na verdade, ela ficou com pena do garoto, que era ótimo, mas não tinha a menor chance diante de um time experiente que deixou para jogar com a formação titular completa justo no último jogo.

Da arquibancada, viu a diretora Minerva entregar a taça aos Hufflepuffes, que saíram comemorando em direção ao castelo numa festa cheia de cantos e fogos de artifício mágicos. Os Slytherins logo deixaram as arquibancadas, tal como todo o resto que não seguiu a festa. Mas Santana ficou no campo de quadribol. Ela desceu até ao gramado, pegou uma goles e ficou brincando sozinha, fazendo movimentos como se estivesse imaginando uma partida no chão.

"Posso jogar também?"

Santana olhou para trás e viu Brittany se aproximando. Jogou a goles para a namorada, que imediatamente começou a correr em direção a Santana para dribla-la no último instante.

"Os Ravenclaws não eram convidados de honra na festinha dos Hufflepuffes?" Santana perguntou sem parar a brincadeira.

"É... eu sei... prefiro ficar aqui contigo."

Santana sorriu e as duas ficaram em paz, brincado sozinhas de um quadribol imaginário, praticado com os pés no chão. Melissa e Lily se aproximaram do campo, não por estarem espiando as meninas, mas porque Melissa havia esquecido a bolsa na arquibancada. Observaram as meninas brincando e, então, se beijando. Melissa ficou em polvorosa. O problema não era o namoro entre duas meninas. Homossexualidade não era proibida no mundo bruxo britânico (e na maior parte da Europa) há mais de um século, muito embora a sociedade ainda tratasse o tema com certo tabu e silenciamentos. Casais do mesmo sexo eram poucos e não costumavam fazer demonstrações em público. Mas Santana e Brittany eram apenas duas garotas de 12 anos, inocentes, e deslumbradas por estarem descobrindo um novo lado delas mesmas. Além disso, elas pensavam estar sozinhas.

"Olha só quem está namorando!" Melissa arregalou os olhos. "Pensa no que podemos fazer com essa informação!"

"Não vamos fazer absolutamente nada." Lily repreendeu a amiga. "Não sobre isso."

"Não vê que essa é a nossa chance de deixar Santana Lopez mansinha pelo resto dos anos em Hogwarts."

"Elas não estão fazendo nada de errado, Mel."

Lily olhou de longe o casal de namoradas brincando de jogar quadribol imaginário e dando beijos rápidos nos lábios de vem em quando. Pareciam genuinamente felizes e isso deixou Lily com uma certa inveja. Acima de tudo, ela estava curiosa. Como seria? A Potter caçula voou com Melissa na vassoura por fora das arquibancadas para não chamar atenção do jovem casal que brincava no gramado.

"Accio bolsa!" Melissa ordenou assim que chegaram nas arquibancadas reservadas aos Gryffindors. Nada aconteceu.

Lily começou a procurar debaixo dos acentos, seguida da amiga. A bolsa não estava lá.

"Será que alguém pegou?" Lily perguntou.

"Quem ia querer uma bolsa velha?"

"O que tinha dentro para você estar tão preocupada?"

"Meu diário!"

"Oh... OH!" Lily gritou ao ser surpreendida por Santana, que voou até as arquibancadas com uma das velhas vassouras usadas para as aulas de iniciação de voo.

"O que está fazendo aqui?" Santana estava visivelmente irritada, com a varinha apontada para as meninas, o que deixou Lily e Melissa mudas. Sem mencionar que Santana parecia mesmo ameaçadora. Pronta a atacar com tudo que tinha. "Por um acaso vocês estavam nos espiando?"

"NÃO!" Lily apressou-se a responder. "A gente está aqui porque Melissa perdeu a bolsa dela. Eu juro que foi isso, Lopez! Eu jamais te espiaria... nem invadiria a sua intimidade."

"Potter, eu juro que se você..."

"É verdade!" Melissa interviu. "A gente voltou porque eu esqueci minha bolsa. Nem tudo tem a ver contigo, Lopez!"

"SAN!" As meninas ouviram Brittany gritar do gramado. As três olharam para a direção da Ravenclaw. "SAN... NÃO MATE AS GAROTAS! LEMBRE-SE QUE VOCÊ NÃO PODE SER EXPULSA!"

Santana olhou para Lily e Melissa. Recolheu a varinha, mesmo que ainda tivesse dúvidas das boas intenções das adversárias.

"EU NÃO VOU MATÁ-LAS!" Santana gritou de volta para a namorada e depois olhou para as outras mais reservado. "Ainda..."

"Acredite ou não, a gente está aqui procurando uma bolsa. Aliás, se você não quiser ajudar, faria um imenso favor voltando para a sua namo..."

O discurso de Lily foi interrompido por um grito. O coração de Santana acelerou e ela logo olhou em direção ao gramado. Mas Brittany continuava no centro, olhando para cima, acompanhando o desfecho do confronto que ocorria nas arquibancadas mais baixas.

"Você escutou um grito?" Lily perguntou a Melissa que estava olhando para os lados.

O grito agudo se repetiu e parecia que vinha do lado de fora do campo. Lily subiu em cima da própria vassoura ao mesmo tempo em que Santana fez o mesmo. As duas se chocaram e caíram ainda na arquibancada.

"O que pensa que está fazendo?" Santana reclamou.

"Não ouviu que alguém pode estar em perigo? Se não vai ajudar, então fique longe dessa vassoura."

"Nem pensar!" Santana voou para fora do campo de quadribol acompanhada de Lily.

As duas contornaram o campo, com Lily à frente, pois sua Nimbus 2001 era muito mais rápida do que as velhas Comets usadas pelos alunos nas aulas de voo. Santana tinha uma Nimbus 2000, mas ela estava longe do alcance naquele momento. Assim que ganharam a lateral do campo que dava para a floresta, viram o corpo de uma menina Ravenclaw estendido no gramado há alguns metros do campo. Era ninguém menos que Miranda Larson. Não havia sinais de nenhuma pessoa ou criatura por perto. Santana e Lily pousaram ao lado do corpo. Lily imediatamente checou a pulsação de Larson.

"Ela está..." Santana tinha receio até de completar a pergunta.

"Está viva." Lily examinou Larson, pelo menos até onde sua inexperiência permitia.

"Não vejo nada aqui. Nenhum objeto mágico... nada. Será que alguém a atacou e depois aparatou?"

"Não há como aparatar em Hogwarts!"

"Não há como aparatar no castelo e a alguns metros do castelo. Talvez aqui seja possível."

"Eu não sei, Santana! O que sei é que nós temos de buscar ajuda."

"Eu vou até o castelo e você fique aqui com ela." Apontou em direção ao campo de quadribol. "Britt e sua amiga estão correndo para cá..."

"Minha vassoura é mais rápida!"

"Mas se eu ficar e ela morrer, vão dizer que a culpa é minha!"

Nesse ponto, Lily sabia que Santana tinha razão. Decidiu então lhe entregar sua Nimbus 2001. Santana alçou voo em direção ao castelo. A vassoura era um foguete, muito mais veloz e estável do que a modelo inferior de Santana. Uma pena que não tinha economias suficiente para fazer uma troca. Apesar de ser proibido pelas normas de conduta, entrou voando dentro do castelo, assustando muitos alunos e provocando muitas reclamações. Muitos dos alunos começaram a pensar que aquele seria mais um plano maldoso de Santana Lopez. Ela foi derrubada por alguém e saiu rolando pelos corredores largos do castelo. Quando parou, deitada de costas e sentindo dores, viu a imagem de um furioso professor Neville Longbotton.

"O que a senhorita pensa que está fazendo?"

"Ajuda... há uma aluna ferida... perto do campo de quadribol."

"Lopez, se você estiver mentindo..."

"Potter..." Sentou-se sentindo ainda a dor da queda. "Lily Potter está com a garota."

Neville pegou a vassoura de Santana (que na verdade era de Lily) e foi a vez dele voar pelos corredores de Hogwarts.

...

Miranda Larson era conhecida por ter comportamento discreto e por ter grande afinidade com astronomia, a ponto de ser uma das alunas mais queridas da professora Aurora Sinistra. Ela tinha uma amiga próxima, a também Ravenclaw Lucy Warren, e estaria supostamente namorando Sonny Beaver. Quando Neville a resgatou, primeiramente a levou direto para a enfermaria aos cuidados de Padma Patil. A aluna tinha pequenas escoriações, mas nada que justificasse o estado de coma. Sem explicações e sem querer despertar a menina antes de se ter certeza das condições clínicas, Patil sugeriu transferi-la para o centro de saúde de Hogsmeade, que era melhor equipado do que a enfermaria de Hogwarts. Em último caso, se eles constatassem que a causa não era mágica, Patil era uma das poucas medibruxos que defendia o uso da tecnologia muggle para diagnósticos precisos de doenças físicas.

"Precisamos acordá-la." Defendia Sinistra.

"Não até ter certeza da natureza do problema dela." Padma disse firme.

"Pad..." Neville chamou atenção da amiga de longa data. "Você viu isso?" Arregaçou a manga da blusa da aluna.

No antebraço, próximo ao cotovelo, havia um sinal, uma espécie de marca negra. O problema era definitivamente mágico.

"Ela não sai daqui." Minerva ordenou. "Vamos reforçar e estender os limites dos feitiços de anti-aparatação e de proteção. Vamos fazer uma varredura no castelo e, Neville, vamos colocar Harry e os outros cientes. Se precisar, quero a presença de aurores ativos aqui. Me parece claro que o lado de lá vai tentar aliciar os candidatos."

"O que fazer com os colegas dela? E quanto as meninas que a encontraram... você sabe, Minerva... Lopez e Lily... Elas vão fazer perguntas."

A diretora de Hogwarts encarou o atual professor com seus pálidos olhos azuis, cheios de compaixão, e ponderou.

"Não sabemos de nada ainda, Neville. Não temos alternativa a não ser deixar que essa questão se desenrole naturalmente, com o tempo. Qualquer intervenção que fizermos agora pode ter efeitos desastrosos."

Neville acenou e aceitou. Pelo menos, por enquanto.

...

"Aposto que foi Lopez." Finn disparou enquanto conversava com Samuel e Kurt pouco antes da aula de música muggle. "Eu ouvi Melissa dizendo que Lopez estava próxima ao local quando o ataque aconteceu. Ela é uma death eater."

"Mesmo?" Kurt estranhou. "Mas como se Lopez e Lily Potter estavam juntas quando encontraram a menina?"

"E se ela planejou tudo para parecer inocente? E se ela na verdade é cumplice de alguém... de outro death eater? Não duvido nada daquela menina! Dizem que ela é a reencarnação do você-sabe-quem."

A turma silenciou-se quando Rachel entrou na sala. Desconfiada com a súbita quietude, Rachel pensou em dizer algumas palavras malcriadas. Mas resolveu fazer melhor. Arrumou-se em uma pose de superior, como sempre, e sentou-se na cadeira do centro na primeira fileira. Hugo entrou logo depois do professor. O menino estava atrasado, como sempre. Sentou-se ao lado da amiga quase secreta e tentou concentrar-se nas explicações do professor sobre o que era disco music. Na segunda parte da aula, Rachel levantou a mão, como sempre, e se voluntariou a cantar. Nem todas as vezes o professor permitia que a única Slytherin da classe dele cantasse, mesmo sendo ela a melhor cantora, ao lado de Mercedes Jones. Desta vez ele permitiu e Rachel apresentou o número.

"Essa é uma música de Two Feed. Eu gostaria de dedica-la a classe."

Sorriu e começou.

"Look inside your tiny mind/ Now look a bit harder/ Cause you're so uninspired so sick, so tired of all the hatred you harbour/ so you say it's not okay to be gay/ well I think you're just evil/ you're just some racist who can't tie my laces/ your point of view is medieval/ fuck you/ fuck very very much…"

"Rachel!" O professor Schuester interrompeu. "Achei que ficou claro que músicas com palavras de baixo calão não seriam aceitas nesta classe! E que raios de música é essa?"

"Fuck you!"

"O quê? Repita isso mais uma vez e você estará de castigo."

"O nome da música é Fuck You, e eu dediquei a todos vocês que estão acusando minha irmã pelas costas. Se estou de castigo por isso, digo que é um bom castigo."

...

Houve um segundo ataque. Desta vez no pátio da torre negra. Logan Mars, um Hufflypuff do sexto ano, foi encontrado em coma com a mesma marca no antebraço. Desta vez ele foi encontrado ao acaso por Galileu Soulback, um Gryffindor do sétimo ano, enquanto ele fazia um voo ao redor do castelo. Mais uma vez, os integrantes da Ordem da Fênix e da Armada de Dumbledore estavam reunidos na enfermaria tentando achar explicações.

"Larson não estava em condições tão ruins quanto Mars. Ela já teve alta da clínica. Não tem memória do que aconteceu, mas fisicamente ela está bem. Mars é outra história: ele foi brutalmente atacado e penso que o fato de ele ter nascido muggle tem relevância." Padma disse na reunião com seis integrantes presentes. "Logan Mars vinha me visitar de vez em quando porque ele tinha vontade de se tornar um medibruxo. Eu o conheço razoavelmente bem para dizer que ele tinha problemas com ninguém na escola. É um aluno tranquilo. A última pessoa que falou com ele antes do acontecido foi a namorada. Ela disse que não viu nada de anormal acontecendo." Padma terminou informando o relatório que havia feito.

"Nossos feitiços de proteção não foram corrompidos." Minerva informou aos demais. "Hangrid disse que as criaturas estão controladas."

"O que sugere, Minerva?" Neville perguntou.

"É possível que tenhamos um infiltrado no castelo, pode ser um aluno mais velho com uma agenda específica. Pelas características, essa pessoa pode ser um animago provavelmente ilegal. Lopez e Lily disseram que ouviram Clearwater gritar, que chegaram rápido, mas não viram sinal de ninguém ou de artefatos mágicos por perto. É bem possível que as meninas não tenham prestado atenção em um animal pequeno. Quem sabe num rato... ou algo... menor."

"Mas como poderemos ter a certeza de que há um invasor? Sobretudo, se esse invasor for um animago?" Padma perguntou.

"Neville. Você sabe se Harry Potter deixou para os filhos um certo mapa?"

"É bem possível que James saiba de algo."

...

"Eu odeio isso!" Rachel falou alto enquanto limpava a prataria do castelo. "Eu odeio isso!"

"Pequena Lopez já falou isso."

Rachel olhou irritada para Simons.

"Pela enésima vez, não me chame de Pequena Lopez. Meu sobrenome nem é Lopez! Sou Corcoran-Berry, por deus."

"Menina Santana reclama menos."

"Minha irmã explodiu a mesa dos Gryffindors. Óbvio que ela não reclamaria sabendo que a alternativa era a expulsão. Eu, por outro lado, estou aqui contigo só porque quis defender a honra dela. Pra quê?"

"Pequena Lopez deve amar muito menina Santana."

"Duvido... como amar alguém que passou o ano praticamente inteiro me ignorando? Tirando alguns momentos aqui e acolá, as vezes tenho a impressão de que Santana só fala comigo aqui na escola porque não tem escolha. Ela passa mais tempo com Brittany e Quinn do que comigo."

"Mas pequena Lopez também passa muito tempo com o menino da Mione."

"Você anda me espionando, Simons?" Rachel colocou as mãos na cintura e franziu a testa.

"Pequena Lopez tem voz tão bonita. É como um anjo! Eu gosto da música."

"Nesse caso..." Rachel abriu um pequeno sorriso. "Até que gosto de saber que tenho um fã. Mesmo que ele seja tão pequeno, orelhudo e narigudo. Mas, ei, fã é fã, certo?"

"Pequena Lopez pode cantar?"

Rachel pensou por um instante e decidiu-se por cantarolar clássicos da Broadway enquanto terminava de polir as peças de prata. Para o elfo, foi como receber um presente. Não tinha instrumento musical algum, mas a voz de Rachel era tão melodiosa que isso o fazia se sentir muito bem. Rachel ficou tão entretida com o canto que não reparou que o tempo do castigo havia passado. Ela deixou o material de limpeza em um canto da sala para que os elfos pegassem posteriormente.

Desceu as escadas em um momento em que a maior parte dos alunos da escola ou estavam no salão para o jantar ou em suas respectivas salas comunais. Pensar que Slytherin ainda estava nas masmorras, portanto, havia muitos lances de escadas a descer, desanimava Rachel. Suja e cansada, ela diminuiu o passo entre os corredores. Foi quando ouviu uma voz vinda por trás dela.

"Você é uma desgraça para a grande casa de Slytherin."

Rachel olhou para trás e viu Dean Crable, um aluno Slytherin do sexto ano, apontando a varinha para ela.

"Bom saber..." Rachel tentou posar de valente, mas a verdade é que a presença do colega a deixou apavorada. Em outras circunstâncias, ela encararia o insulto natural. Mas estava ela em um corredor vazio encarando um jovem homem de 17 anos que era quase o dobro do tamanho dela. Rachel tinha apenas 11 anos.

"Fazia mais de 100 anos que nenhuma sangue-ruim entrava para a grande casa. Até você contaminar tudo com essa sua imundice muggle."

O coração de Rachel disparou. Crable definitivamente não estava ali para fazer companhia. Considerando os recentes ataques em Hogwarts, ela concluiu rapidamente que poderia estar diante do autor por trás deles.

"Expelliarmus" Ela conjurou.

Infelizmente, Rachel não era uma boa aluna em defesa contra arte das trevas e não conseguia executar o feitiço que a irmã lhe ensinou. Crable defendeu-se do ataque. Rachel então usou outra arma: ela gritou com toda força dos pulmões e saiu correndo o mais rápido que podia.

"Kadabrus!" Crable ordenou fazendo Rachel voar e se chocar forte contra a parede de pedras do corredor. O impacto a fez perder os sentidos.

O agressor se aproximou com calma, apontou a varinha.

"Expelliarmus!" Alguém ordenou, e dessa vez ele foi desarmado.

Olhou em direção do autor do desarme e viu Finn Hudson e Samuel Evans se aproximarem com a varinha armada.

"Fipendo!" Samuel gritou, mas Crable foi ágil suficiente para recuperar a varinha.

Em vez de preparar o contragolpe, o que os meninos viram foi perturbador. O corpo de Crable diminuiu rapidamente até tomar dimensões de uma barata. Os meninos estavam tão atônitos que não reagiram quando o animago ilegal escapou por uma fenda. Finn foi até Rachel e viu que a garota estava zonza.

"É melhor sairmos daqui." Samuel alertou.

Finn ajudou Rachel a se levantar e os três foram procurar ajuda o mais rápido que podiam.

...

Neville e Harry Potter estavam em pé diante de Dean Crable, pego ainda em Hogwarts graças ao mapa dos marotos. O jovem parecia estar adorando ser interrogado pelo chefe dos aurores em uma sala em pleno Ministério da Magia. Era como se tivesse atingido o ápice da vida, da atenção. Era como se fosse um rock star por cinco minutos.

"Crable... as pessoas que te deram essa missão não estão aí para o seu bem-estar. Você é só um peão. Por que ser fiel a pessoas que não se importam se você viver ou morrer?" Harry perguntou, mas tudo que fez foi provocar sorrisos do garoto.

"Ele já está entre nós! Ele já está entre nós e você, garoto que sobreviveu, está condenado!"

Harry e Neville tentaram interrogar por uma hora e conseguiram informações significativas. Descobriram que Crable estava marcando os nascidos muggles para que eles fossem mais facilmente identificados e sacrificados quando Voldermort retornasse. Ele também tinha a responsabilidade de abordar os candidatos para o suposto exército do lorde das trevas. Sua primeira tentativa foi com Miranda Larson. Como ela o rejeitou, foi atacada. Isso enojou Neville e Harry, que mandaram o jovem para a cela. Em seguida se encontraram com Draco Malfoy, que observou todo o interrogatório.

"Existe uma seita. Ela é pequena, mas está se fortalecendo." Draco explicou. "Os antigos aliados de você-sabe-quem não dão bola para essas pessoas, mas não deixam de observar porque essa gente pode ser útil mais adiante."

"A questão é que a profecia vai fazer surgir mais desses grupos." Harry lamentou. "Mas ainda temos alguma vantagem porque eles não sabem o que sabemos sobre os garotos."

"Eles sabem que são sete." Draco informou. "Eles desconfiam que vocês fizeram alguma coisa para que nenhum deles entrasse em Gryffindor, mas há olhos em cima desses sete."

"Qual o palpite deles?" Harry perguntou.

"Quinn Fabray, a primeira a ser descartada por nós, é a candidata com mais potencial aos olhos deles, apesar de Santana Lopez não estar muito atrás. Os outros também são observados, mas parece que há certa inclinação para Evans."

"Evans?" Neville ficou confuso.

"Por causa da varinha dele. De olmo." Draco explicou.

"Eles estão analisando as varinhas?" Neville ficou perplexo.

"Vocês não? Eu não gosto muito do papo desses estudiosos de varinhas, mas existe todo sentido em algumas explicações. Todos os sete iniciais têm varinhas com núcleo de dragão. Varinhas com núcleo de unicórnio dificulta a realização de feitiços das trevas. Evans tem uma varinha de olmo, que é tradicional dos puros-sangue. A varinha de Santana é de ébano, o que mostra a pré-disposição dela para duelos e pela luta por uma causa. Fabray tem uma varinha de cedro, o que mostra que é perspicaz e leal a causa que escolher. Chang e Beavers têm varinhas de faia, o que mostra que eles têm mente aberta. Larson tem varinha de macieira, para aventureiros e exploradores. Hudson tem varinha de carvalho, que significa força, coragem e fidelidade. Pelas varinhas, é possível ver que Evans, Lopez e Fabray são mais propensos a arte das trevas do que os demais."

"Praticar arte das trevas não faz de você um bruxo das trevas. Se fosse assim, Mione e eu seríamos death eaters." Harry pontuou.

"Verdade, mas estamos analisando inclinações, Potter." Draco ponderou.

"Acho que temos de pensar melhor nisso!" Neville suspirou.

Draco despediu-se dos colegas, deixando Harry e Neville às sós para comentarem as informações mais recentes.

"Coitada da Fabray." Neville lamentou. "Espero poder fazer algo por ela."

"O pai dela foi um simpatizante de Voldemort que não pudemos prender." Harry cruzou os braços. "Odeio admitir, mas o que Draco disse faz todo sentido."

"O pior é que eu não posso fazer afirmações." Neville lamentou. "Nenhum dos nossos seis apresentou comportamento fora do comum nem no ano passado e nem neste ano."

"Entendo... Você precisa de mais tempo. Mas, Neville, ele está se esgotando rapidamente. Tentamos abraçar os seis, mas se um deles decidir virar as costas, precisamos estar preparados e precisamos do nosso escolhido."

Neville concordou.

Assim que saiu do Ministério da Magia, abriu o molesquine que gostava de carregar consigo para todos os lados. Recitou as palavras mágicas para que suas observações aparecessem nas páginas antes brancas. Em uma das últimas, um pensamento que havia escrito:

"Estou mais e mais inclinado na ideia de que Santana Lopez é o senhor do mal. Seria tão mais simples mata-la agora. Poderia fazer parecer um acidente e assim livraria o mundo de possíveis 100 anos de agonia. Eu poderia me tornar um assassino em prol de um bem maior. Mas eu não consigo fazê-lo. Eu não consigo matar alguém que ainda é inocente, mesmo que já demonstre sinais de que abriga um lado negro."