Capítulo II — Esse in via — Estar na estrada

"A lenda do licantropo é muito conhecida no folclore, e assim como em todo o mundo, os licantropos são temidos por quem acredita em sua lenda, que originou o famoso lobisomem. Algumas pessoas dizem que além da prata o fogo também mata a besta. Outras acreditam que eles se transformam totalmente em lobos e não metade lobo metade homem. Algumas lendas também dizem que se um ser humano for mordido por um lobisomem, e não encontrar a cura até a 12ª badalada desse mesmo dia, se tornará a besta em toda noite de lua cheia. Se o licantropo que o mordeu for morto, talvez se desfaça a ligação que o unia aos outros. Nada é certo."

Jensen fechou o livro, entediado, esfregando os olhos com o nó dos dedos enquanto bocejava. Era um rapaz bonito, com o cabelo louro, pele alva, olhos verde-esmeralda e lábios obscenos. Fazia o tipo "garanhão", mas a verdade é que passava grande parte de seu tempo enfurnado dentro do quarto no pequeno apartamento, estudando mesmo durante as férias de verão. Essa era uma atitude que irritava seus amigos e enfurecia os familiares. Era como se eles não entendessem que precisava daquilo, daquela solidão. Com o passar do tempo, aprendeu a apreciar o silêncio, e até mesmo desejá-lo. Isso foi algo que gerou muitas discussões, e, aos dezessete anos, acabou fugindo de casa para morar sozinho. Até agora, dois anos depois, seu relacionamento com os pais não era muito bom, mas eles ao menos respeitavam melhor suas decisões. Seus irmãos, em compensação, praticamente o incitavam a continuar seguindo a vida de acordo com o que sonhava. Joshua foi o primeiro a apoiá-lo quando disse que queria ser um advogado, num belo almoço no dia de seu aniversário, quando finalmente criou coragem para dizer que não seguiria o futuro que seus pais planejavam tão cuidadosamente. Depois disso, tornou-se um melhor amigo que o Ackles jamais imaginou que encontraria no próprio irmão. Ao invés de conselhos que deveriam colocar juízo em sua cabeça, o mais velho permanecia ao seu lado mesmo quando a idéia se provava altamente suicida ou perigosa. Como quando ameaçou que iria morar num motel qualquer à beira da estrada se o pai continuasse insistindo que deveria ser médico; foi Joshua quem lhe emprestou o dinheiro para a diária quando Roger disse que não acreditava no que ele estava dizendo e que duvidava que fosse capaz de fazer algo do tipo. Ele sempre estava lá quando precisava; sempre lhe dizia que poderia seguir em frente com o que achava certo.

Mas por que Inferno você também ficou do lado deles quando disseram que eu tinha que sair um pouco mais, Josh? Eu estou bem. Sempre estive. Por que ninguém entende isso? Eu não quero ir à droga do acampamento. Não quero. Mas então por que aceitei? Por que eu acabei concordando em passar o verão todo bem no meio do nada, com pessoas que eu nunca sequer vi?

Isso era algo que não entendia. Talvez fosse o impulso. Impulso de querer mostrar que já era maduro o suficiente para cuidar de si mesmo, que não precisava de ninguém lhe sussurrando ao pé do ouvido o que deveria ou não fazer. Jensen estava cansado. Há algumas noites não conseguia dormir direito, as palavras de sua mãe ecoando em sua cabeça, como que para lembrá-lo do quão irresponsável fora aos olhos dos pais durante todo aquele tempo. Do quanto eles esperavam dele. Do quanto ele os havia decepcionado com a decisão de que se tornaria um advogado.

"Você está se matando! Está se matando e matando a todos nós também!" Donna lhe dissera num rompante em meio a uma habitual discussão entre a família. "Já faz mais de dois anos Jensen! Quando você vai parar de olhar para trás e seguir em frente?! Quando vai entender que só queremos o seu bem, que de maneira alguma lhe daríamos esperanças de algo que nunca vai dar certo?! Vive trancado dentro daquele maldito quarto, só estudando! Não é como se eu não quisesse isso, mas não desperdice seu potencial em algo tão impossível!"

Ele bem sabia que a havia aborrecido quando perguntara o motivo de eles quererem que fosse ao acampamento anual de verão em Blue Earth, mas nada justificaria o fato de que a mulher lhe falara que seus sonhos eram bobagens sem sentido. O que era apenas uma questão inocente acabou se tornando um grande debate sobre o que o louro deveria ou não fazer. Acabou explodindo e concordou em ir para Blue Earth. Agora que parava para pensar, se perguntava se aquela não fora uma decisão muito precipitada. Afinal, estava com a cabeça quente, e, geralmente, quando estava daquele jeito fazia coisas das quais se arrependia amargamente.

‒ Aceite as conseqüências. ‒ murmurou baixinho, e logo em seguida suspirou. ‒ E arrume as malas antes que a Kenzie chegue e perceba que você está atrasado.

Precisava seguir em frente mesmo, afinal. Parar de se importar com o que as pessoas poderiam pensar, e simplesmente se deixar levar pelo vento, como uma folha, sendo guiado por seus sonhos e vontades. Tinha deveres, mas isso não significava que deixaria de lado tudo pelo que havia lutado até aquele momento. E se isso significava que deveria ir ao acampamento, então ele iria. Se isso significava que tinha de arrancar algum tipo de orgulho dos pais, ele o faria.

Cantarolava baixinho consigo mesmo enquanto se encaminhava até o peitoril da janela, bagunçando o cabelo com as mãos. O sol se erguia num nascer delicado e tímido, tingindo o céu num suave nuance de laranja e vermelho, contrastando com as nuvens brancas. Era uma cena maravilhosa, e isso fez Jensen sorrir pela primeira vez em dias, apreciando a brisa que soprava uma carícia sobre sua pele sensível. Não tinha do que reclamar, afinal de contas. Talvez algum tempo fora do apartamento, apenas com a natureza e alguns desconhecidos, pudesse fazer com que se tornasse mais sociável com as pessoas.

Só talvez...

X-x-x-x-x—x-x-x-x-X

Collins resmungou, irritado, quando sentiu um cutucão dolorido entre as costelas, e se revirou no banco desconfortável do passageiro, as costas doloridas e o pescoço num ângulo esquisito enquanto tentava apoiar a cabeça no cinto sem bater a testa no vidro da janela. Estava com sono, depois de mais uma expedição tão longa. Para ser sincero, estava exausto. Era como se não dormisse há dias; o que, aliás, não deixava de ser uma verdade.

‒ Vamos, cara, acorda. Já chegamos. ‒ uma voz disse em tom alto e claro, e ele lutou contra a consciência que ameaçava tomá-lo. ‒ Misha!

Entre uma sacudidela e outra, acabou despertando, sentindo-se incomodamente encafifado. O cabelo escuro estava bagunçado, a pele alva um pouco vermelha pela irritação, os olhos azuis despertos e sonolentos, e os lábios rosados crispados em sinal de que poderia praguejar até se cansar. Porém, logo que notou onde estava toda a zanga se desfez e um sorriso travesso surgiu em seu rosto de aparência angelical. Misha Collins era assim, uma hora irritado, outra de bom humor.

‒ Finalmente a Bela Adormecida acordou! ‒ Jared Padalecki, seu melhor amigo, praticamente um irmão, reclamou num tom que deixava claro que só o estava provocando. Tinha o cabelo num tom chocolate, os olhos claros, ora verdes, ora azuis, era praticamente um gigante, e sempre que sorria era possível ver suas covinhas. ‒ Estou te chamando há um tempão, Misha, e você nem sequer tentou me bater para eu te deixar em paz!

‒ Desculpe Jay. ‒ Collins sentiu-se ligeiramente envergonhado, mas não acrescentou mais nada enquanto ambos saíam do carro. ‒ Obrigado, Jeff!

O irmão mais velho do Padalecki sorriu e acenou, sem se importar enquanto os dois rapazes de dezenove anos entravam na pequena casa amarela, com jardim florido e bem aparado. Era uma rotina a qual todos estavam terrivelmente habituados, quase um vício. Jared e Misha sempre pediam para que Jeff os levasse até Duluth, e, como o irmão mais velho superprotetor que era o Padalecki acabava por aceitar os pedidos. Não havia nada demais na pequena cidade em Minnesota, mas sabia que, às vezes, os garotos só queriam trocar um pouco os ares. Blue Earth era um lugar pacato, sem grandes emoções, então era bom sair um pouco, mesmo que as viagens até Duluth durassem aproximadamente quatro horas e cinqüenta minutos. Afinal, só o fazia durante os fins de semanas, e talvez alguns dias a mais durante as férias, como era o caso.

Durante o ano letivo, Padalecki acordava durante a madrugada para dar uma carona até a Universidade de Minnesota, Twin Cities, então passavam duas longas horas no carro, para logo em seguida os garotos assistirem às respectivas aulas, enquanto ele voltava a seu posto de guarda florestal. Jared cursava medicina, enquanto Misha optara por direito. Ainda assim, sendo quase completamente opostos, eles conseguiam manter a amizade sólida que haviam formado quando crianças.

‒ Você é um dorminhoco, Mi, sabia disso? ‒ o maior reclamou enquanto entrava na casa e se dirigia à cozinha, embora também esfregasse os olhos com os nós dos dedos.

‒ Eu não babo enquanto durmo. ‒ o moreno revidou, mostrando a língua num gesto infantil enquanto abria o congelador para logo em seguida colocar um recipiente retirado de lá no micro-ondas, assoviando baixinho consigo mesmo.

Jared não respondeu enquanto se sentava numa das quatro cadeiras em volta da pequena mesinha de centro. A casa de Misha era um ambiente confortável, com cores claras, móveis em harmonia e tudo limpo, arrumado de maneira impecável. Às vezes, Padalecki se perguntava como o garoto conseguia manter o lugar daquela forma, uma vez que estava sempre ocupado com os deveres como universitário e tudo mais. Era algo quase impossível.

‒ Lasanha? ‒ perguntou numa queixa desanimada quando sentiu o cheiro tomando o ar. ‒ Você está viciado nessa... Nessa coisa, Mi. Sério, o que deu em você? Cadê o garotinho saudável que eu conheci quando tinha cinco anos?

Collins virou-se para encará-lo, um pouco desafiador enquanto franzia as sobrancelhas numa linha ligeiramente despreocupada. Cruzou os braços na altura do peito, e o maior já sabia o que iria ouvir antes mesmo de o outro responder. Eles eram tão infantis.

‒ Minha casa. Minha comida. ‒ o moreno revirou os olhos enquanto abria a porta do aparelho que começara a apitar. ‒ Minha droga de saúde.

Jared contentou-se em tamborilar os dedos sobre a toalha de mesa enquanto esperava Misha colocar a comida para si mesmo. O moreno o conhecia o suficiente para saber que não gostava de massas em geral, e por isso não era necessário nem mesmo oferecer. A relação dos rapazes era assim, simples e sincera, onde um olhar poderia significar mais do que diversas palavras e frases que pudessem dizer. À sua maneira, eles se entendiam.

‒ Ouvi dizer que o Jeff vai ter trabalho extra nesse verão. ‒ Misha comentou enquanto começava a comer, apenas para ter sobre o que falar. Não era um assunto que o interessava muito. ‒ Isso é verdade?

‒ Sim. ‒ Padalecki deu de ombros, brincando com os próprios dedos. ‒ Acampamento na floresta, um pouquinho depois de Blue Earth River, sabe?

‒ Acampamento? ‒ imediatamente os olhos do Collins brilharam de empolgação. ‒ Você tá brincando, não é Jay? Igual aos que costumávamos fazer antes, com barracas e mantimentos para, talvez, uma semana ou mais?

‒ Mais ou menos. ‒ Jared sorriu todo cheio de covinhas. ‒ Não venha querer dizer que vai junto, Mi. Eu quase surtei quando Jeff me contou que eu tinha de ir, porque tinha combinado um encontro com a Genevieve. Fui obrigado a desmarcar.

O menor precisou de todo seu autocontrole para não engasgar-se com a comida, e, logo que engoliu, havia um sorriso sapeca em seu rosto; sorriso esse que desapareceu, enquanto se concentrava em terminar de comer o resto de lasanha que havia em seu prato. Padalecki revirou os olhos, resmungando algo como "Você é impossível!" antes de voltar os olhos para o teto, esquecendo-se das brincadeiras.

‒ Você vai? ‒ perguntou num tom ligeiramente irritado.

‒ Por que não? ‒ Misha deu de ombros. ‒ Tem alguma idéia mais interessante?

‒ Não sei... Talvez tentar dizer ao Jeff que é loucura? ‒ o maior suspirou. ‒ A floresta não é mais a mesma, Mi. Há quanto tempo não vamos até lá? Seis ou sete anos? Quem sabe o que pode ter mudado durante esse tempo todo?

Collins suspirou contrariado, sentindo-se um pouco bobo por ter rido do amigo. Ele sabia o quanto o assunto sobre a floresta perto de Blue Earth River era algo delicado que poderia se desmantelar a qualquer momento. Padalecki havia errado na conta. Não eram seis ou sete, eram oito longos anos sem sequer colocar os pés sobre a relva molhada do lugar. Desde que os pais do maior morreram num ataque de urso, mesmo que o laudo tenha sido incerto; nem mesmo um urso seria tão brutal.

‒ Esse é o ponto. ‒ ainda assim, precisava arranjar uma maneira de animar o moreno pelo fato de haver perdido o encontro. Aliás, nunca o deixaria sozinho, fosse para ir a seu local favorito, fosse para ir direto de encontro ao perigo. Eram praticamente irmãos, mesmo que não de sangue. ‒ Muita coisa pode ter mudado Jay. Tanto para pior quanto para melhor. Acha mesmo que eu vou te deixar ir nessa, sozinho?

Jared sorriu, agradecido, um pouco envergonhado, talvez até sentindo-se culpado pela maneira como havia dito aquilo, como se realmente esperasse que Misha o deixasse na mão daquela forma. Como se esperasse que o rapaz simplesmente saísse de seu lado e o abandonasse. Ele sabia que o moreno não era capaz de fazer aquilo, nem mesmo se quisesse. Collins era gentil por natureza, até mesmo amável, quando não estava de mau humor.

‒ Obrigado cara. Mesmo.

Misha deu de ombros, sem se importar, mas também sorria.

‒ É para isso que servem os amigos.

[...]

Collins sentiu o sono chegar assim que deitou sobre a cama, as pálpebras pesando e um bocejo saindo por entre seus lábios, mas não queria dormir. Precisava pensar um pouco. Sobre o quê? Sobre tudo. Gostava de avaliar o dia, toda noite, assim que depositava a cabeça sobre o travesseiro. Era sua maneira de refletir, sua maneira de concluir o que poderia ter feito melhor, sua maneira de separar os pontos positivos e negativos, e saber como poderia agir daquele momento em diante. Pensava sobre a vida.

Será mesmo que havia sido uma boa idéia querer ir ao acampamento, também? Admitia que, depois da morte dos pais de Jared, até mesmo ele, amante assíduo do lugar, havia ficado um tanto quanto amedrontado. Poderia tudo ter mudado? Poderia a natureza estar mais selvagem? Essa era apenas uma pergunta sem resposta, dentre tantas outras.

A inconsciência o tomou aos poucos, contra sua vontade, e adormeceu.

No céu, a lua se erguia sublime.