Capítulo 02 – Primeira vista

Foi pouco menos de três horas viagem. O que foi muito bom. Tinha saído de Carmel as 8 e alguma coisa, e o sol, antes acolhedor, estava infernal. E como essa cidade não era beira-mar, ela estava bem sufocante. Não tinha vento algum, eu me sentia no meio de um deserto. Havia muito branco, e até de óculos escuros eu sentia minhas vistas ofuscadas.

Contornei um pequeno parque, que circundava um lago escuro. Algumas pessoas pareciam almoçar em bancos por ali, a salvo do sol embaixo das copas de grandes árvores. A grama estava tão verde e bem cuidada que poderia ser confundida com um tapete. Não dava para não gostar do lugar. Quando você esquecia o calor, claro. Até que eu não tinha ido para uma cidade ruim, se quer saber.

A essa altura eu já me perguntava onde seria o campus, e depois de uma curva fechada a resposta apareceu na minha frente. Era bem grande, não, era enorme. Quatro prédios de tijolos vermelhos, um gramado impressionante, vários tipos de pessoas passeando, ou simplesmente se deslocando, na maioria carregando livros. Uma placa velha, mas bem cuidada, informava que eu tinha chegado a UnCal.

Procurei o estacionamento, e não tardei a achar. Depois do carro estacionado, eu sai andando na direção que era indicada a reitoria. Poucos passos depois, eu me deparava com um prédio menor e mais moderno, entre 2 prédios grandes de tijolos. Três andares, todo envidraçado e espelhado, com direito a estacionamento privativo e uma pequena fonte. Um anjinho segurava uma flor e dela saia água. Engraçado, mas eu tive a nítida sensação de que aquele anjinho ria da minha cara enquanto levantava sua flor jato d'água.

Entrei na sala e agradeci aos deuses por terem dado inteligência suficiente para os homens inventarem o ar-condicionado.

Lá dentro fui recebido por uma secretária velinha e bastante simpática, que ficou elogiando tanto que quase não me deixou falar quem eu era. Depois de ouvir o nome, ela disse que o reitor, August Granger, estava me esperando na sala.

Com uma agilidade incomum para a idade ela me levou até o elevador.

- Segundo andar a direita, meu rapaz! - a velhinha falou alegremente enquanto voltava para seus afazeres.

Bem. Na verdade ela não precisava dizer que era a direita, porque era a ÚNICA sala no lugar. Não se podia dizer que sr. August não gostava de impressionar.

Antes de bater na porta, um senhor miúdo, de olhos verdes vivazes e com uma cabeça tão branca que parecia que tinha nevado nela, abriu a porta e falou em uma voz rouca e tempestuosa.

- Sr. Slater! Mas que prazer em conhecê-lo! Entre entre! - ele abriu espaço para me permitir a entrada e me apontou as cadeiras. - Estou realmente honrado em encontrá-lo, Padre Dom me teceu ótimos comentários sobre você.

- Bondade dele, sr. Granger. - falei modestamente. Não que eu achasse que Padre D. tivesse inventado nada, é só que ele omitiu algumas das coisas que eu fiz no colégio, aparentemente.

- Oras! Sem modéstia! Aluno brilhante, poderia facilmente ir para Harvand... - o interrompi de seu breve discursos eloqüente;

- Eu fui convidado, mas preferi não me distanciar muito de Carmel. Digamos que me apeguei a cidade. - e, antevendo uma réplica, continuei - Mas não queria continuar exatamente lá, então optei por um outro centro da Universidade da Califórnia. Espero que não seja algum incomodo.

- Nem pense nisso, meu rapaz! Nem pense. - ele falou abanando as mãos, com um sorriso nada sincero no rosto. - Mas me diga, seus papéis já estão todos em ordem, a que devo a visita?

- O dormitório. Recordo-me que lhe falei ao telefone que não iria alugar apartamento na cidade, e o sr. disse que conseguiria facilmente um quarto para mim. - tentei falar naturalmente, como se a estada ali já não estivesse bastante cansativa. Claro, tirando o fato do ar-condicionado.

E ele respondeu, mas infelizmente eu não ouvi. Porque meus olhos correram a sala e pararam na grande janela que havia logo atrás do sr. August. Dava para um vão comprido, entre os dois prédios de tijolos, e estava muito bem gramado e iluminado, como um corredor com tapete verde.

Mas não foi aquilo que me fez ignorar as palavras dele. Foi uma garotinha estava ali no vão, encostada em uma das paredes, com o queixo apoiado nos joelhos que haviam sido flexionados. Ela usava um conjunto verde água muito bonitinho, e um pequeno chapéu combinando. Cachos de um marrom escuro e brilhantes chegavam-lhe o meio das costas.

Mas também não foi a beleza do quadro em si que me chamou atenção. O que realmente me chamou atenção foi o fato dela emitir um fraco brilho. Como se uma pequena estrela tivesse competindo com o sol, e perdendo feio.

O que realmente me chamou atenção foi o fato dela estar morta.

- Sr. Slater! - o tom repreensivo com o qual o reitor havia dito meu nome me trouxe de volta da realidade roubada por aquela pequena figura.

- Desculpe, reitor. Eu realmente acho que todo esse sol acabou me cansando. O que o senhor dizia? - o meu tom de voz não demonstrava minha consternação perante o fato. Eu havia escolhido aquela cidade não só porque ficava próxima. mas também porque tinha o menor índice de criminalidade e mortalidade. O lugar onde menos provavelmente haveriam fantasmas para pentelhar o meu juízo. Mas eis que nas minhas primeiras horas, eu já encontro um. E não satisfeito em ser um fantasmas, ainda deveria ser uma garotinha de uns 12 anos. Deus, eu não mereço isso.

- Eu disse que já havia separado a chave do seu quarto. Está com Morgan, lá na recepção. - ele falou meio desconfiado. Olhou a janela para ver o que eu tinha visto, e como não viu nada, não tardou em encerrar aquela conversa. - Bem, se não se importar, eu tenho bastante trabalho a fazer.

- De forma alguma. - me levantei e apertei a mão estendida dele. Desci o elevador e em pouquíssimo tempo eu já havia pego as chaves e já estava dentro do meu carro seguindo pelo caminho que Morgan, a velhinha, havia me indicado.

Por que eu não conseguia tirar a imagem daquela garotinha de minha cabeça? Porque ela parecia tão insatisfeita? "Oras! Ela está morta, acho que isso já é bastante ruim" pensei para mim mesmo enquanto dirigia lentamente.

Mas enfim, os fantasmas teriam de vir depois. Fossem eles adultos ou crianças. Naquele momento, tudo o que eu precisava era de um bom banho.