Capítulo 2
Ainda era o meio da tarde, mas o sol já estava quase totalmente escondido no horizonte, como era comum naquela época do ano. Os trajes notavelmente sofisticados de Valentin, em contraste aos de Anatoli, bem desgastados, eram bem adequados àquelas temperaturas negativas, uma túnica grossa em tons que pareciam acastanhados com a luz dos derradeiros raios de sol que os alcançavam enquanto deixavam os limites da cidade. Tambem trazia uma bagagem nas costas, coberta por panos, parecia bem pesada. Em breve estariam chegando a casa onde Anatoli morava com seus irmãos, depois de caminharem por alguns minutos do centro da vila, onde estavam.
O garoto não parecia se importar tanto assim com o frio, não aparentava estar tremendo. A dor, talvez, lhe causasse mais incomodo naquele momento, estando evidentes o sangue coagulado em sua cabeça, grudando as mechas de cabelo umas nas outras, o pescoço com lacerações, o sangue ainda escorrendo pelo canto da boca. Mesmo assim, Anatoli sequer gemia ou reclamava de dor,e Valentin respeitava a resiliência do garoto, explicando todas as perguntas que surgiam durante a conversa que vinham tendo desde que deixaram a ourivesaria.
-Manipulação humana do ar frio, sem nenhum instrumento, me parece uma explicação um pouco absurda, Valentin. Apesar de eu mesmo não conseguir uma explicação mais lógica.
- Entendo seu ceticismo. Já presenciou outras situações inexplicáveis, à primeira vista, pelo seu senso comum?
- Senso comum? Bem, eu sei que talvez pareça apenas um jovem sem vivência para você, mas muitas coisas eu aprendi passando as tardes em uma biblioteca. Inclusive li bastante a respeito da mitologia da Grécia Antiga.
- Os escritos gregos eram passados de boca a boca, testemunhos escritos posteriormente de feitos heróicos e fantásticos, mas que aconteceram e continuam acontecendo, pois estes heróis continuaram existindo até os tempos contemporâneos. Por mais que queira negar, e eu entendo que tenha medo do que não consegue explicar, você também foi testemunho.
-Testemunho da sua manipulação do gelo? – Valentin deu uma risada baixa imediatamente após esta frase, que causou uma reação de estranhamento em Anatoli – Por quê está rindo?
- De fato eu tinha a intenção de ajuda-lo na agressão que estava sofrendo de forma covarde – Valentin ergue a palma da mão, fazendo surgir uma pequena esfera de ar frio que girava como um redemoinho e aumentava o tamanho até o tamanho de uma cabeça – mas, felizmente, não sou o único entre nós que consegue manipular o ar frio.
Anatoli arregala os olhos com aquela manifestação esférica incomum que surgiu sobre as mãos de Valentin. Ficou mudo por alguns minutos, apontando o dedo discretamente tentando formular alguma frase, sem saber nem por onde começar ou como se recuperar do choque inicial ao ver uma manifestação ate mais complexa do que as paredes de gelo. Valentin faz com que a esfera suma, fechando seus punhos, para em seguida segurar a mão do garoto que lhe apontava, e a outra, fechando-as com as palmas viradas uma para a outra.
- Anatoli,o que você fez mais cedo foi mérito todo seu. Foi a sua cosmo energia que se manifestou, apesar de tê-lo feito de forma inconsciente. Você tem muito talento.
Após se recompor, o jovem soltou suas mãos e esfregou uma delas no rosto, que suava mesmo com o frio. Continuou caminhando, um pouco mais apressado, olhando para o chão, e Valentin prontamente o acompanhou, num ritmo mais calmo. Em sua mente o jovem russo relembrava as cenas das placas de gelo em suas costas, do muro se erguendo, tentando racionalizar um padrão que o pudesse ter sido capaz de criar aquilo e repeti-lo, um catalizador, um meio.
- Há milhares de anos, os gregos acreditavam que seus deuses assumiam a forma de pessoas e tinham as mesmas emoções e paixões que os seres humanos. Uma das principais divindades era Atena, a deusa da sabedoria, das artes úteis e da guerra defensiva. Isso voce deve ter lido em seus livros: Atena, símbolo de paz e prosperidade. O que acredito ser uma informação inedita para voce é que Atena e seus ideais eram defendidos por poderosos guerreiros, capazes de rasgar os céus com um movimento das mãos e abrir a terra com um pontapé. Todo esse poder vinha de seus cosmos, ou seja, da energia que emana da ligação de cada um deles com o resto do universo. Chamados de Cavaleiros de Atena, cada um deles correspondia a uma constelação que os protegia e os vestia com uma armadura específica. Ao todo eram 88 esses tempos remotos, Atena volta à Terra a cada 200 anos, para proteger a humanidade contra as forças do mal e da destruição, retornando como diferentes pessoas. Junto com ela, retornam também seus defensores.
- Espere! Espere um pouco! – diz Anatoli, finalmente conseguindo interromper aquele discurso, externando toda a aflição que sentia ao receber tanta informação de uma vez só – do que exatamente você está falando? Você é um cavaleiro de Atena? – colocando uma mão no peito de Valentin, fazendo-o parar a caminhada.
- Minha intenção é que você também o seja. Está vendo aquela constelação? Vê como esta brilhante especialmente hoje?– diz Valentin apontando para o céu.
Anatoli olha Valentin por uns segundos, distraído enquanto refletia ainda sobre o discurso, para em seguida olhar para a direção apontada.
-A constelação de cisne? É a sua constelação protetora? É assim que definem um cavaleiro?
- Um cavaleiro é definido pela sua constelação e pela classe. São 12 armaduras de ouro, 24 armaduras de prata e 48 armaduras de bronze. E não, cisne não é a minha constelação protetora. É a sua.
O garoto franziu a testa dando dois passos para tras.
- Minha constelação? Espere um pouco, eu acabei de ouvir essa historia de cavaleiros gregos da antiguidade. Por que eu tenho que me tornar um deles? Eu sou russo, os russos creem em outro tipo de deus. Voce tambem parece ser russo, nao fala com nenhum sotaque. Ei espere, eu estou falando com voce.
- Anatoli, aquele ali na sua casa.
- Como sabe que é minha casa? Droga...
Ele corre ate sua casa ao perceber também o vulto de um adulto pela janela. Abre a porta com muita violência, assustando seus irmãos, que logo se aliviam.
- Brat!* - gritam eles com enormes sorrisos no rostos.
- Misha, Sasha. Voces estao bem? - Anatoli abraça seus irmãos, em seguida escondendo-os atras de si, enquanto encara o homem estranho que havia invadido sua casa.
- O que voce quer aqui? Quem e voce? - se vira para seus irmaos - ele fez alguma coisa com voces?
- Nao, Tolia. Ele so nos perguntou de voce.
O estranho, era mais alto que Boris, porém com um corpo mais atletico, possuia
barbas e cabelos ruivos bem aparados. Com um rosto serio e sombrancelhas franzidas, ignora Anatoli e olhava firmemente para Valentin que acabava de chegar na porta.
- Anatoli, traga seus irmaos para fora de casa, rápido.
Sem demonstrar nenhuma mudança em seu humor, o estranho se refere a Valentin.
- Voce deve ser Valentin, o cavaleiro de ouro de aquario. Sabe muito bem que nao podera impedir que assassine este garoto e que este assunto nao tem nada a ver com o Santuario, Se nao quer que a ira dos deuses, sugiro que va embora agora, pode levar os dois irmaos menores junto. Nao vou alerta-lo mais uma vez.
Valentin guia o relutante Anatoli, puxando-o pelo braço logo depois de seus irmaos sairem de casa. Ao olhar para aquele que ele recem descobriu ser cavaleiro de aquario que agora estava atras dele, uma luz quase cegante iluminava entre ele e o estranho, parecia uma forma humana, mas em cor dourada, que impedia um ataque iminente. Valentin nao dizia uma palavra. Sera essa uma armadura de ouro?
- Muito bem. Voce fez a sua escolha, cavaleiro de aquario.
Brat e irmao em russo
