Os personagens aqui citados pertencem a Masashi Kishimoto

Essa fanfic é uma adaptação do livro Uma prova de amor,da autora Michelle Reid


Uma prova de amor

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Capítulo II


Deixado a sós na cozinha, Sasuke contemplava fixamente a caneca de café e, implacável, refletia se Sakura realmente o notara afinal de contas, através da fina camada de gelo criada pelo choque que lhe vendava os olhos.

Realmente se importava com isso? — inquiriu então, numa reação imediata, aquilo que estava ressonando em círculos dentro de si. Conhecia Sakura bem demais para querer fazer contato mais uma vez.

Já passou por isso antes, pensou, com a falta de qualquer espécie de humor, depois se arqueou para a frente e cingiu as mãos em torno da caneca de café, rogando ao inferno que não deveria ter vindo até aqui. Do modo pelo qual sempre acreditou que essas coisas acontecessem, a vida já deveria ter desenhado uma história no belo rosto de Sakura a essa altura. Ela deveria parecer distintamente envelhecida mas, ao contrário, estava ainda mais bonita do que nunca.

Mentira, tudo mentira, sustentou com firmeza. Aqueles olhos por demais verdes transformaram a mentira numa arte sofisticada. O mesmo com sua boca viçosa, afeita aos beijos, e o modo como aprumava o queixo tão alto a cada vez em que se permitia olhar para ele.

Provocação e desacato. Percebeu ambos no rosto de Sakura, antes de ficar abalada com a notícia. O que Sakura imaginava que lhe conferia o direito de olhar para ele daquele jeito, se foi ela quem levou outro amante para a sua cama?

Sua cama. Dio.

Soltando a caneca, Sasuke saltou de pé numa explosão de raiva e nojo, em oposição a uma estranha, indesejável luta de embrulhar o estômago contra o remorso.

Sakura fora sua mulher. De cada ângulo do qual invariavelmente considerava, ele fora o seu homem — seu amor, seu para todo o sempre. Isso estava claro nos olhos dela, no sorriso, no jeito como o tomava dentro de si, então por que — por que Sakura jogara tudo aquilo fora?

Um suspiro acre o levou a se postar de pé diante da janela da cozinha. A chuva ainda se derramava sobre o chão como um açoite lá fora, a noite tão tempestuosa que prometia um vôo complicado para além da Inglaterra. A irritação escorreu pela medula. Por que viera até aqui?

Desejou saber. Desejou saber o que o estava guiando. Acreditava realmente que seria homem o bastante para sepultar o passado neste momento trágico, e lidar com esta situação com entendimento e compaixão? Ou seus motivos foram impulsionados por alguma coisa muito mais básica do que isso — como uma necessidade de mitigar este desgosto profundo e cruento, que vigorosamente se agitava dentro dele, testemunhando algum sinal de remorso ou arrependimento pelo que Sakura jogou fora?

Bem, boa parte da questão da compaixão surgiu porque um olhar para ela, lá de pé junto à porta, uma espiada na maneira como se esquivou para trás contra a parede, e sua cabeça estúpida o levaram de volta à última vez em que a vira se esquivar daquele modo. Então, recorreu àquele truque sujo com as portas, e mereceu a mágoa que Sakura lhe atirou de volta por fazer aquilo. E quanto aos sinais de remorso?

— Dio — disse ele, rangendo os dentes.

Era um tolo por vir aqui pessoalmente. Era um tolo por ansiar ver o remorso da mulher que não demonstrara nenhum quando foi surpreendida enquanto o traía. Devia ter permanecido no lugar ao qual pertencia, Florença, com a mãe e as irmãs. Devia ter deixado uma mensagem no celular dela, como Sakura sugeriu:

Houve um acidente de carro, sua irmã está morrendo e meu irmão está morto.

— Diabo — praguejou. — Diabo. — Enquanto as próprias palavras brutais esmerilhavam o seu corpo em agonia. Shikamaru — morto.

O coração começou a retumbar como a chuva na vidraça. Distinguiu o próprio reflexo, duro como ferro, lavado pelas lágrimas as quais ele sabia que não poderia derramar.

Voltou as costas para aquela visão, agarrando o pescoço com dedos tensos conforme a violência no seu íntimo se avolumava como um grande balão, fazendo com que desejasse bater em alguma coisa — qualquer coisa para compensar essa dor negra!

Temari e o bebê — lembrou a si mesmo forçosamente. Pense apenas sobre elas, porque com elas ainda existia vida e, onde quer que exista vida, deve haver esperança.

Com aquela sóbria lição, arrancou o celular do bolso do paletó e digitou uma série de números. Descobrir que a tempestade estava arruinando o sinal não melhorou o seu humor. Embolsando o aparelho, voltou para a sala de estar para utilizar o telefone de Sakura, ansiando para que não tivessem de ficar presos ali até que a tempestade abrandasse. O quanto antes chegassem em Florença, o quanto antes poderia se afastar de Sakura. Estava pasmo com a urgência com a qual precisava fazer isso.

Ouviu Sakura se movendo às voltas pelo corredor quando ainda estava ao telefone. Manteve as costas para a porta, ouvindo o que a mãe dizia, e manteve a própria voz submersa num volume baixo para os italianos, fazendo perguntas e recebendo respostas, e sentiu a imobilidade de Sakura na entrada como uma descarga elétrica na espinha.

A ligação terminou, virou-se. Sakura conseguiu tomar uma ducha e trocar de roupa rapidamente, notou. A saia sexy que estava vestindo se fora, substituída por jeans desbotados e um suéter que quase se misturava com a pele cremosa. O cabelo estava aprumado, preso em um nó caprichado que engolfava a maioria das mechas. Mas o que o estilo afetado levou embora fez realçar aqueles incríveis olhos esverdeados e a boquinha macia, que podiam ser semelhantes aos de alguma Madonna, mas que eram, na verdade, armas do pecado.

— Nenhuma alteração. — Foi tudo o que Sasuke disse, em resposta à pergunta que podia notar pairando nos lábios dela.

Nenhuma alteração, repetiu Sakura para si mesma. Isso era bom ou ruim? Nenhuma alteração queria dizer que Temari ainda estava lá. Mas nenhuma alteração também significava que ainda estava em coma, o que não era nenhum consolo tampouco. Queria saber mais... precisava saber mais, e quase abriu a boca para exigir que Sasuke lhe contasse mais. Então, mudou de idéia quando se viu forçada a aceitar que saber, provavelmente, iria despedaçá-la de novo, e tinha que se manter inteira se quisesse suportar as longas horas de viagem que estavam por vir. Por isso, fez com que sua voz soasse composta quando disse:

— Preciso usar o telefone, se você já acabou. Eu tenho que comunicar a algumas pessoas que não estarei aqui por algum tempo.

Sasuke meneou a cabeça e deu um passo lateral. Roupas escuras, olhos escuros, noite escura, ele parecia lançar uma sombra pesada através da sala clara e arejada. Pegando o aparelho, sentiu o calor desprendido pelas mãos dele, que ainda perdurava. Sentir a intimidade que aquele calor evocou fez a sua garganta doer, ainda mais quando digitou o número do sócio na atarefada companhia de design gráfico, a qual Sakura e Sasori Akasuna construíram juntos.

Enquanto murmurava enrouquecida "Alô, Sasori, sou eu...", Sasuke se virou e saiu da sala. A sombra dele permaneceu, entretanto, lançando uma mortalha sobre todas as coisas. Respirando fundo, se preparando para uma demonstração de simpatia e preocupação — Sakura simplesmente não queria ter de lidar com isso naquele exato momento —começou a explicar.

Sasuke reapareceu à medida que ela ainda estava fazendo a segunda ligação, para confirmar se a vizinha ainda possuía uma chave extra do apartamento, de maneira que pudesse vigiá-lo para ela.

— Obrigada, Ino. Lhe devo uma — murmurou agradecida. — Jantar quando eu voltar? Claro, a alegria é minha. Será algo pelo qual esperarei ansiosamente.

O latejar tedioso do silêncio retornou assim que Sakura pôs o fone no lugar. Sasuke encolhia os ombros dentro do sobretudo e seu perfil poderia ser moldado em ferro.

— Mais alguém? — Inquiriu e, à resposta dela, abriu e fechou rapidamente um sorriso ferino. — Apenas os dois homens da sua vida? Você é uma coisinha estável, Sakura, é o que eu lhe digo.

A réplica de Sakura foi se afastar, sem oferecer a Sasuke a satisfação da resposta. As razões para ser amargo — imaginárias ou não — eram uma prerrogativa dele, mas a atitude de se dar ao direito de fazer críticas baratas a seu respeito, agora, quando outras coisas eram tão mais importantes, a preencheu com um novo desgosto. Não iria explicar que Ino era uma mulher e que Sasori era o homem que salvou a sua vida, quando Sasuke fez o melhor que podia para arruinar com ela!

Estava junto à porta da frente quando Sakura saiu do quarto, vestindo um longo casaco de lã negra e um chapéu, ambos acessórios que se tornaram essenciais durante o inverno que o Reino Unido enfrentava este ano.

— É só isso? — perguntou Sasuke, sem fazer contato com os olhos. Numa das mãos segurava a mala, na outra a bolsa preta acolchoada que continha o laptop dela.

— Sim — retorquiu Sakura. — Você tem um carro lá fora ou teremos que usar o meu?

— Eu tenho um carro alugado.

Voltando-se para o outro lado, abriu a porta e caminhou até o corredor, depois foi chamar o elevador enquanto Sakura trancava a porta. Desceram no elevador como dois perfeitos estranhos, e deixaram o edifício para caminhar sob a pesada chuva. O automóvel alugado estava apenas há alguns metros dali. Usando um controle remoto para destrancá-lo, Sasuke abriu a porta do passageiro com veemência, permitindo que Sakura entrasse e foi até a mala do carro para acomodar as coisas dela, finalmente se postando ao volante completamente encharcado.

Nem pensou em pegar um dos guarda-chuvas que Sakura guardava em frente à porta dianteira. Tampouco parecia se importar. Assim que o motor do carro deu a partida, Sakura virou o rosto para a janela lateral. Sasuke ignorou as gotas de chuva que lhe escorriam pela nuca, havia apenas o desejo implacável de acabar logo com aquilo, tão rápido possível.

Estava aborrecido consigo mesmo por ter feito aquele comentário a respeito da vida pessoal dela. Aquilo o colocara em uma posição que o fez soar rude e asqueroso, e pode ter causado a impressão de que se importava, quando não era isso. Sakura podia ter quantos Inos quisesse perfilados em linha para tomar a vez na sua cama. Sasori Akasuna era um caso à parte. Sasuke sabia tudo a respeito desse amigo íntimo e parceiro de negócios, porque Temari jamais cessou de conversar sobre como a empreitada em design gráfico de ambos decolou como um foguete, a partir do momento em que os dois começaram a negociar juntos. Os dois sócios foram amigos durante todo o período da faculdade, ambos excelentes em design eletrônico. Sasuke ouvia Temari proferir comentários orgulhosos a respeito da irmã, mesmo há tanto tempo. Apenas o seu humor era mais indulgente naquela época — sua mente se recordava de uma adolescente bastante graciosa, se é que ela tinha noção disso, com o rosto sardento e a cabeça ornada por um cabelo glorioso, com um vestido de madrinha de casamento de tafetá azul pálido. Sakura o encantou naquela ocasião. Gostou dela porque, a despeito do jeito adolescente, tinha uma língua que parecia um chicote, com a qual se entreteve durante todo o trajeto até a festa de casamento de Temari e Shikamaru.

Inútil acrescentar que aquela era a imagem de Sakura que Sasuke costumava evocar, sempre que Temari mencionava a irmã caçula. Então, quando quatro anos mais tarde Sakura fez a primeira visita a Florença, e Sasuke se viu confrontado pela versão adulta, ficou completamente embasbacado.

Linda, pensou, e apertou firme a pegada no volante. Estarrecedora, deslumbrantemente linda. As sardas se foram; o corpo se avolumou de modo a assumir uma forma que era verdadeiramente espetacular. E em vez daqueles modos desajeitados de adolescente, estava lidando com uma recém-formada extremamente autoconfiante, com uma fome de viver e um talento letal para flertar. Ela o cobriu de olhares quentes e com planos de fundar a própria empresa de design com Sasori Akasuna, e tomar o mundo de assalto. Mais velho, mais sábio, e tão cínico a respeito de pessoas com ideais tão grandiosos, Sasuke ouviu, respondeu a todas as perguntas sobre administração financeira e percebeu que foi ele quem foi tomado de assalto.

A primeira vez em que se beijaram representou apenas um cumprimento fraternal, para arrematar a noite que acabaram de passar juntos ouvindo Puccini. Sakura estava ansiosa para ir à ópera e Sasuke ficou feliz em levá-la. Compartilharam um jantar à luz de velas no seu restaurante favorito mais tarde e, mesmo a despeito de já ter percebido que estava se envolvendo demais, se agarrou à crença arrogante de que ainda possuía o controle da situação — até aquele beijo.

Guiando-os tristemente para fora dos limites da cidade, agora num tempo tão obstruído que só um pato acharia abrigo, sentiu os lábios se aquecerem com a lembrança. Não teve a intenção de que aquele fosse um beijo significativo, apenas uma entre as barganhas delicadas que se compartilha com alguém, em cuja companhia você passou uma noite agradável. Mas Sakura mergulhara naquele beijo com o mesmo absoluto entusiasmo com que se atirava à vida. Aquilo o estremeceu, deixou sua libido flutuando nas alturas até um ponto que jamais soubera que existia.

Levando o carro até uma parada num entroncamento, checou as duas direções da estrada e aproveitou a oportunidade para lançar um olhar para Sakura. Estava lá sentada, com a cabeça virada para o outro lado, e com aquele chapeuzinho bobo enterrado abaixo das orelhas. Algo quente disparou a partir do coração até a região lombar, e então permaneceu ali queimando. Apenas Sakura havia feito esta conexão, só ela era capaz de transformá-lo naquela massa de hormônios devastadores, sem se dar sequer ao trabalho de tentar.

Dez anos mais nova, divididos ainda por pelo menos um milênio de diferença em experiência de vida, Sakura o cativou, amarrou e o embalou, numa caixa marcada com "vendido" pela mulher com os cabelos fabulosos, o rosto fascinante e aquele corpo fantástico, e um conjunto de desejos insaciáveis, que o deixavam se equilibrando nos píncaros do medo de que ela fosse buscar satisfação em outro lugar.

Bem, seu desejo foi atendido, se aquilo era mesmo o que estava procurando. E devia ter sentido alívio por haver descoberto tudo, antes de colocar uma aliança de casamento no dedo dela. Mesmo assim, estranhamente. não sentiu — não até que o primeiro refluxo de raiva se desgastasse, isso sim. Tudo o que sentia era arrependimento porque, ao menos, uma aliança de casamento teria lhe dado uma razão para ir atrás dela — puxá-la de volta pelos seus cabelos adoráveis, e fazê-la pagar por ousar traí-lo.

Em lugar disso, Sasuke apreciou dois anos de longa, dura, febril inquietação a respeito do que teria acontecido a Sakura. E naquele tempo, a amargura tornou o seu conceito sobre as mulheres tão azedo que foi incapaz de tocar em qualquer outra desde então.

Um grande legado para Sakura se refestelar, acaso algum dia descobrisse que o convertera num impotente, pensou, fazendo uma cara feia conforme dirigiam pela chuva como por lâminas de gelo.

Se ele me lançar mais uma espiada repulsiva, acho que posso até me virar e lhe dar um tapa, decidiu Sakura, sentada observando o perfil de Sasuke através do reflexo na janela lateral. Até agora havia observado Sasuke incisar nela um olhar de pleno e ofuscante escárnio, vários de animosidade e mais dois de fervilhante pronúncia sexual. As estradas já eram ruins o bastante, sem Sasuke se distraindo na direção com pensamentos lascivos e odiosos.

Um escravo da sua libido eternamente devastadora, concluiu Sakura. Sexo era tudo o que Sasuke conhecia. Não Amor, mas Sexo — me dê, eu preciso, eu quero, eu tenho que ter. Físico, insaciável, inventivo e tão bom naquilo que não era de admirar a reputação que tinha. Variedade — costumava dizer, sorrindo impune quando geralmente o interpelava com tagarelices íntimas — é mesmo, definitivamente, o tempero da vida. Devia ter atinado na ocasião que ela não significava nada além de uma novíssima e excitante variedade, da qual Sasuke simplesmente ainda não provara.

Amor? Não este sujeito. Sasuke não fazia idéia do conceito se não o vinculasse a algum ato físico. A palavra? Oh, sabia como usar as palavras necessárias para obter as reações desejadas. Eu amo você. "Ti amo, sere per sempre il tuo innamorato". Palavras sussurradas em um italiano sensual que poderia aliciar qualquer mulher ao pieguismo.

De repente, Sakura era uma vadia e prostituta, uma mulher aquém da dignidade de conhecê-lo. Um erro — nem mesmo seu erro — e fora jogada no frio tão rapidamente, que ainda lidava com aquele choque dois anos mais tarde. Esqueceu-o? Perguntou-se. Não, não o havia esquecido. Ainda estava muito zangada, amarga e faminta de extrair sangue para estar em qualquer ponto próximo de ter superado o que Sasuke fez com ela.

— Nós nunca decolaremos com este tempo — disse ele.

Lágrimas espetaram os olhos dela à súbita percepção de que se permitira concentrar-se em Sasuke, ao invés de Temari, mais uma vez. Oh, que Deus me perdoe, pensou, e precisou esquadrinhar a bolsa à procura de um lenço.

— Você está bem? — Sasuke ouviu a pequena fungada delatora.

— Estou bem — respondeu.

— Não estamos longe do aeroporto — disse ele.

Sabia que Sakura estava chorando. Mas agora, a conhecia bem demais. Por dentro, por fora, cada detalhe que um homem podia conhecer de uma mulher com a qual viveu e dormiu por um ano e meio, antes de jogá-la fora. Rangendo os dentes bem rentes, Sasuke se retirou para o seu interior, os olhos sombrios ardentes enquanto penetravam a chuva torrencial, procurando alcançar o aeroporto e se manter fora de contato com o ódio da sua vida. Nunca se sentiu mais aliviado do que no momento em que enxergou as luzes do aeroporto particular, onde seu avião aguardava por eles. Necessitava de algum espaço — ar para respirar que não estivesse contaminado pelo perfume dessa mulher.

O estacionamento do carro de aluguel estava coberto. Deixando o veículo, Sasuke conduziu Sakura para o saguão de espera dos vôos em partida, depois se encaminhou na direção oposta para devolver as chaves do carro oficialmente. No instante em que procurou por ela, Sakura havia removido o chapéu e o casaco, e estava de pé diante da janela panorâmica do saguão de espera, vislumbrando a chuva cair com força do céu.

Um metro e setenta e dois era uma altura generosa o suficiente para uma mulher, porém, ao lado de Sasuke, Sakura sentia-se pequena, frágil, delicada. Essa noite, quando fez uma pausa para estudar as pernas esguias no brim e o suéter pálido que ela vestia, Sasuke pôde detectar uma nova fragilidade causada pela vulnerabilidade e pelo temor, e concatenar isso fez com que se sentisse a pior espécie de imbecil, por deixar que os sentimentos por Sakura lhe tomassem o que tinha de melhor dentro dele.

Abrandando a ânsia de soltar um suspiro enraivecido contra si mesmo, decidiu facilitar as coisas para ambos. Caminhando na direção do bar, solicitou uma bebida forte e então permaneceu recostado ali, olhando para o drinque sem beber, alheio ao fato de que Sakura observava seu reflexo na janela, a cada passo soturno da jornada.

Ele odeia estar aqui comigo, tanto quanto odeio que esteja aqui, pensava Sakura arduamente, e desejou compreender por que saber disso lhe causava uma dor tão terrível bem lá no fundo. Não o amava — nem mesmo queria estar perto dele de novo, por isso se alegrou quando Sasuke permaneceu no bar em vez de se aproximar dela — não foi?

Forçando a vista para focar mais adiante noite afora, Sakura se concentrou em observar a chuva golpeando as luzes do aeroporto, com um poder quase suficiente para dilacerar o vidro, ao passo que o vento açoitava a tudo loucamente. E dentro dela, rezou fervorosamente para que o tempo clareasse, a fim de que pudessem seguir a caminho do que realmente importava. Temari, sua amada Temari, o recém-nascido, e o pobre, pobre Shikamaru. Talvez o destino tenha decidido se apiedar deles porque, meia hora mais tarde, Sasuke apareceu por trás do seu ombro.

— Eles acham que existe um vácuo acompanhando a tempestade — informou. — Se conseguíssemos embarcar e ficar prontos, possivelmente teríamos uma chance de sair daqui.

Sair dali soou tão bem para Sakura que ela instantaneamente se virou, e foi recolher os pertences da cadeira próxima onde os depositara. Se encolhendo dentro do casaco, colocou o chapéu enquanto Sasuke colocou o casaco. Cinco minutos depois estavam andando lado a lado, embora a um milhão de quilômetros de distância em todos os outros sentidos.

Magicamente, a meio caminho do jato da família Uchiha, a chuva repentinamente parou, o vento esvaneceu e, olhando para o alto, Sakura viu as estrelas surgirem através de um buraco nas nuvens que passavam apressadas. O intervalo no mau tempo ajudou a suspender alguns dos seus temores em relação a Temari. Ela iria ficar boa, Sakura prometeu a si própria com convicção — desejando que assim fosse.

— Escolha um assento e afivele o cinto — instruiu Sasuke, assim que entraram no avião. — Vou checar o resto com o meu piloto.

Logo que terminou de falar, Sasuke desapareceu porta afora do outro extremo do camarote, e um comissário de bordo surgiu para cuidar da bagagem de Sakura. O sujeito parecia saber que aquela não era uma viagem de lazer porque a sua expressão permaneceu sóbria e, assim que calmamente sugeriu a ela o melhor lugar para se sentar naquele suntuoso ambiente revestido de couro bege, desapareceu, deixando que se acomodasse em paz.

Dois minutos depois, o avião deixou o solo e se lançou rumo ao buraco esparso de estrelas entre as nuvens. Uma hora mais tarde e nenhuma aparição de Sasuke. Concluindo que ele se mantinha afastado da sua vista, do mesmo jeito como fizera no saguão de espera do aeroporto, Sakura afinal sentiu-se capaz de relaxar e, quase imediatamente, sentiu as pálpebras começarem a fechar.

Talvez tenha ajudado ter dormido boa parte da viagem. Consolou-se, depois de tentar lutar contra o impulso do sono por um curto espaço de tempo. Sentia como se houvesse abandonado algum tipo de vigília pela irmã, mas o bom senso lhe dizia que, presa lá em cima, não haveria como se tornar mais vulnerável, nem mesmo se tentasse.

Por isso, deixou estar, sonhou com a leve risada familiar de Temari e com bebês docemente perfumados. Manteve a vigília nos sonhos, onde todos eram inteiros e saudáveis, e nenhuma força sinistra poderia se aproximar para perturbar a beleza de tudo aquilo.

Sasuke sentou, observando-a por um momento, sentindo-se estranhamente conturbado por Sakura se quedar tão serena. Costumava dormir assim, recordou-se. Deitada tão quieta e imóvel ao lado dele que, às vezes, precisava lutar contra a ânsia de se inclinar sobre ela para checar se estava respirando. Um capricho tolo de quando a segurava nos braços, e podia sentir o calor da sua pulsação vital contra a dele.

Dio, pare de pensar nisso, ordenou a si próprio, empurrando a cabeça para trás contra a almofada do assento, então fechou os olhos e tentou relaxar. Mas cenas execráveis começaram a se desenrolar no verso das pálpebras, forçando Sasuke a abri-las novamente.

Shikamaru... Shikamaru... Revirando-se. Homens não choram. Sasuke queria chorar. Queria o irmão de volta para que lhe contasse pela última vez o quanto representava para ele.

As lágrimas começaram a arder como ácido. Levantou, correu pela área do camarote, depois virou para marchar agitadamente mais uma vez na volta. Esse foi o pior dia da sua vida, e ainda nem havia acabado. Sentia-se como se houvesse passado o dia viajando pelo mundo, propagando más notícias como o anjo da morte. Deu a notícia à mãe, às irmãs Hinata e Hanabi e, então, carregou consigo a recriminação delas ao voar para Londres para dar a notícia para Sakura. Agora aqui estava Sasuke, voando de volta para casa com aquela passageira que, claramente, encontrou no escape do sono uma opção melhor do que ficar acordada para conversar com ele.

Queria conversar com Sakura sobre alguma coisa? Indagou-se repentinamente.

Não, não queria.

Queria que ela acordasse?

Não, igualmente para essa pergunta.

Marchou compassado outra vez, depois se virou e inexoravelmente traçou o caminho de volta para o lado dela. Ainda não movera um único cílio. A face estava relaxada, porém muito pálida. Os lábios unidos, macios, e rubros com aquele viço usual semelhante ao das rosas, mas respirava pelo nariz, Sasuke não podia notar nenhuma evidência disso, nenhuma pista de que os seios estivessem se movendo.

Não seja tolo, homem! — Aconselhou a si mesmo com rispidez. — Você sabe como ela dorme — você sabe! Apesar disso, ainda se encontrou inclinado sobre Sakura para encostar as pontas leves dos dedos contra a face pálida.

Sakura emergiu do seu refúgio no sono para encontrar Sasuke diante dela. Estava tão perto que podia sentir o hálito dele no seu rosto. Os olhos se entrechocaram, dois anos atirados para longe com a força de um estampido de revólver, e Sakura procurava ver dentro do rosto de Sasuke como ele se parecera minutos depois daquela investida amorosa, que a deixou estilhaçada para sempre. Viu rancor, o tormento e a consternação. Viu os olhos se tornarem negros com a mesma emoção que o impelia, e sentiu o absoluto impacto miserável da mágoa desencadear mais uma vez. Lágrimas inundaram os seus olhos.

— Odeio você. — Engasgou e disparou para ele num impulso, com um trêmulo punho cerrado.

— Odeia? — arremedou Sasuke, e segurou o punho dela antes que aterrissasse, apertando-o com uma garra de ferro. — Você não compreende o significado da palavra — mordeu de volta, grosseiramente. — Isso, cara mia, é ódio...

Com um puxão, a atraiu vigorosamente para ele, almejando trazer a boca até a sua de um jeito que os dois colidiram, e Sasuke abafou o esganiçado grito de protesto de Sakura com a estocada exigente da sua língua. Ele a beijou com raiva, a beijou como castigo, mas foi o calor da sua paixão que fez com que a moça se debatesse ferozmente para se libertar. Um braço serpeou em torno da sua cintura, e Sakura se encontrou paralisada, com a frente do corpo pregada na dele. Sasuke soltou o pulso de Sakura, pois assim ele podia amparar a sua nuca e manter a pressão do beijo.

Ele violentou sua boca; proferiu pesadas imprecações fundo na sua garganta. Os cabelos dela se soltaram até tombar em volta dos dedos de Sasuke. Ele a beijou e beijou até que ela parou de lutar e começou a tremer. Dois anos de abstinência e as razões para aquilo não importavam mais, porque estavam de volta ao ponto de partida, em guerra um contra o outro e usando o sexo como arma. Arranhou com as unhas pela frente da camisa, cravou-as no cabelo dele, os lábios de ambos se movendo num festim voraz e sensual — e então, subitamente como havia iniciado, aquilo terminou.

Sasuke a repeliu para longe, tão violentamente que Sakura aterrissou aos trancos de volta no assento. Tonta e desorientada, chocada, além de tentar pensar no que se passara, Sakura o viu dar meia volta e, com uma passada larga, deixar o camarote. Quando atingiu o fim do corredor, pegou o que parecia ser uma garrafa de whisky, derramou um pouco do líquido em um copo, e então derramou tudo garganta abaixo.

Contemplando aqueles ombros rijos, Sakura quis dizer alguma coisa — cuspir insultos nele por ousar agarrar e beijá-la, apenas para provar a sua tese estúpida. Mas sentiu os lábios cálidos e machucados, estava tremendo tão intensamente por dentro que não pensou ser possível tornar as palavras coerentes. Em vez disso, acolheu a face com as mãos, deixou que o cabelo caísse em torno dela como uma cortina e rogou para que Sasuke estivesse muito ocupado, punindo-a, para perceber que o beijava de volta.

O silêncio que se fez depois daquilo se assemelhava a uma lâmina de navalha, incisando cada segundo que lhes restava de viagem. Aterrissaram sob o límpido céu noturno italiano, mas estava frio o suficiente para que Sakura se alegrasse pelo agasalho quente.

Sasuke deixara o carro no estacionamento do aeroporto. Sakura subiu no assento do carona, deixando Sasuke empilhar suas coisas. Guiaram em direção a Florença em total silêncio; a única troca de palavras, desde o beijo na cabine, foi a informação concisa que Sasuke lhe deu a respeito de ter ligado para o hospital e que ainda não houvera nenhuma alteração.

Paisagens familiares começaram a espocar pela janela. Estavam se avizinhando de Florença e quanto mais se aproximavam da cidade, mais ansiosa Sakura ficava. Afinal, o carro diminuiu a marcha e guinou pela entrada em um muro alto recoberto de estuque. Ela avistou o prédio que, a despeito do caprichoso jardim que o cercava, ainda possuía a aparência que todos os hospitais possuíam, mesmo que esse fosse obviamente um lugar para se ficar doente.

Assim que Sasuke levou o automóvel até a vaga, sua pele começou a formigar. Respirando profundamente, no esforço de se revigorar, Sakura desafivelou o cinto de segurança e saiu. As pernas começaram a tremer enquanto caminhava rumo à entrada do hospital. Sasuke veio caminhar ao seu lado, mas sem fazer qualquer tentativa de tocá-la.

Não queria que ele a tocasse, disse a si mesma. Mas no momento em que pisou no taciturno vestíbulo do hospital, já estudava uma segunda opinião a respeito. Sasuke indicou a direção dos elevadores. Ao entrar, Sakura começou a sentir-se esquisita — quase uma alienígena para si mesma. Talvez tenha sentido isso porque quando a porta do elevador fechou os dois lá dentro, Sasuke perguntou:

— Tudo bem?

Meneou a cabeça afirmativamente, engolindo a tensão que começou a se acumular em sua garganta. Seu corpo estava tenso, a carne arrepiada com sentimentos que ninguém mais, a não ser aqueles que já encararam situações similares, poderiam entender. E estava pálida; sabia que estava pálida porque sentia o rosto gelado e abatido.

— Não fique alarmada pela quantidade de equipamento que vai encontrar em volta dela — Sasuke parecia compelido a prevenir. — É uma prática de rotina, em casos como estes, monitorar simplesmente todas as coisas que eles conseguem...

Estava tentando prepará-la. Tudo o que podia era acenar a cabeça bruscamente em resposta. O elevador parou. Seu coração começou a bombear de um modo tão bizarro que tomar o fôlego se tornou difícil.

A porta deslizou, abrindo em um vestíbulo similar àquele pelo qual caminharam no térreo — e a coragem de Sakura parecia gotejar como pedra em seus pés, impedindo-a de se mover por mais um centímetro.

Fechou os olhos, tentou engolir de novo, sentiu os seios ofegantes à procura de ar, em constantes arfadas curtas conforme uma violenta sensação de desgraça a cercou. Então o elevador emitiu um zunido, avisando que estava prestes a cerrar a porta outra vez. Os olhos chisparam para cima, ao mesmo tempo em que Sasuke estirou um dos braços — não na direção dela, mas para segurar aquela porta impaciente.

Os olhos dele estavam fixos em Sakura, aguçados, sutis e enevoados pela apreensão. A face estava pálida, lábios levemente partidos sobre dentes brancos e tensos, como se travasse uma luta para controlar um impulso de ampará-la.

— Eu estou bem — suspirou numa confirmação sussurrada. — Só me dê um segundo para...

— O tempo que quiser. — redarguiu enrouquecido. —Não há pressa.

Não? Sakura contradisse aquela assertiva impacientemente. Ela talvez tivesse chegado tarde demais!

Tarde demais... Ela rosnou em calada agonia. Tarde demais pertencia aos anos que evitou se aproximar das cercanias de Florença. Tarde demais pertencia ao modo como eliminara Temari diretamente da sua vida por meses, e mesmo depois de fazerem as pazes — com elegância — a mantinha estritamente a um braço de distância, sendo simpática, sendo distante, se amontoando sobre a própria culpa e o...

O elevador deu outro zunido e continuou zunindo, tentando fechar a porta contra o obstáculo criado pelo braço de Sasuke. Arrastando a própria coragem com uma tração de mamute, Sakura conseguiu se mover. A primeira pessoa que avistou foi a mãe de Sasuke. Ela estava horrível, a bela face definida murchara pela ansiedade e pelo desgosto.

As lágrimas sempre a postos afluíram aos olhos de Sakura novamente, a voz insegura acerca das palavras que deviam ser ditas.

— Lamento por Shikamaru, Sra. Uchiha — murmurou em um italiano vacilante, movendo-se por instinto, estendendo os braços para cingir a pobre mulher com um abraço.

Demorou alguns segundos para compreender que aquele abraço não era bem-vindo. Rígida e inflexível, a Sra. Uchiha aceitou o toque apenas por educação — e isso foi tudo. Assim que Sakura se afastou, estremecida pela fria lembrança de como a família de Sasuke reagiu em relação a ela, viu os outros rostos prestando testemunho àquela rejeição.

Então Sasuke estacou atrás dela, erguendo as mãos até se curvarem sobre os seus ombros, no que Sakura apenas podia descrever como um aviso. Não pronunciou uma única palavra, mas todos os olhos se levantaram até o rosto dele, e depois se abaixaram desconfortavelmente.

— Para a sua esquerda — instruiu tranquilamente.

Com a boca seca, intimamente atracada à sua essência interior, Sakura se forçou a voltar a andar de novo. Com a mão de Sasuke ainda curvada na nuca macia, e sob um novo tipo de quietude engrossando o ar, enveredaram por um corredor que deixava a família dele fora de vista — fortuitamente, porque não precisava de nenhuma testemunha indiferente quando encarasse o que estava por vir.

E veio rapidamente — muito rapidamente. Através da primeira porta que encontraram, de fato. Sasuke parou, assim como Sakura, que observava enquanto ele empurrava a porta para abri-la, e depois incitá-la gentilmente a se mover de novo. Sentiu o corpo pesado, aquela sensação de um infortúnio sinistro causando um retardamento nos seus membros. Na medida em que se obrigava a cruzar a abertura até um quarto bem arrumado, com paredes brancas e assistido por uma enfermeira de uniforme branco, parada junto a uma cama forrada com lençóis brancos.

E lá estava a criatura de face lívida deitada sobre o leito.

Continua...


Espero que tenham gostado,fico aguardando os comentarios.

Kissus...