Decidida, abri a carta rapidamente, para que o resultado não me amedrontasse tanto. Não era lá muito grande, mas tinha uma grafia clássica ocupando todo o papel.
"O Sr. Charlie Potter a convida para o baile de verão da família Potter. Sendo eu mesmo a escrever esta carta, sei que você continua confusa pelo convite de um desconhecido a um baile, Mademoiselle, mas confesso que fiquei encantado com sua doce e sutil aparência no baile de debutante da família Tulheries. Também posso estar sendo um desastrado por não nunca ter conversado pessoalmente com a Mademoiselle, mas não tive coragem o suficiente de aparecer em sua porta. Permita-me o prazer de vossa companhia, Mademoiselle.
Charlie Potter"
Ok, vamos recapitular. Há um homem querendo minha 'doce e sutil' companhia e esse homem é da histórica família Potter. Porque esse nome não me é tão estranho? Não o Charlie, mas sim o Potter.
Tenho uma certa lembrança de que já escutei alguma coisa de relação à eles. Na dúvida, eu pergunto para minha mãe, ela deve saber pelo menos alguma coisa sobre essa família. Eu não estou interessada, simplesmente devo saber de onde vem esse homem que, do nada, me mandou um bouquet perfeito, de lírios alaranjados. Não posso simplesmente aceitar esse convite, eu nem o conheço!
Nem sei quem é, para falar a verdade. Se passasse por mim, eu não saberia, não o notaria. E por isso esta situação é muito inadequada, prefiro muito mais a coragem de um cavalheiro vir à minha casa e conversar comigo calmamente. E não me convidar para um baile de verão da família Potter. Potter.
Eu conheço esse nome.
Ouvi passos apressados no corredor, fazendo o toc-toc dos saltos no piso de mármore. Minha mãe adentrou a nossa clássica sala de estar, que é estranhamente redonda. Pode parecer estranho, mas é meu cômodo favorito na casa. Exceto meu quarto, é claro. Ela se sentou de frente pra mim, em um sofá vermelho com contornos clássicos e esperou, com a expressão de expectativa no rosto e contorcendo com mãos, um lenço rosado. Seus olhos verdes, os mesmos dos meus, brilhavam de expectativa.
Parecia até que Jesus Cristo tinha se posto em sua frente.
- E então...? – Ela perguntou sorrindo, ainda com a expressão de expectativa – Quem foi que mandou?
Eu olhei o bouquet, cheirei os lírios e coloquei-os de lado, em outra poltrona. Eu reli a carta e avaliei a situação. Eu estava tentando manter a calma, pois se eu não mantivesse, eu assustaria minha mãe.
- Mãe, você conhece a família Potter? – Perguntei calmamente, ainda olhando para a carta. Eu tossi e comentei – Um Charlie Potter está me convidando para o baile de verão dos Potter. Conhece alguma coisa a respeito deles?
Minha mãe pulou na cadeira, não sei se era de ansiedade ou de satisfação. Quem sabe uma satisfação de que suas suspeitas e expectativas queriam. Ela largou de lado o lenço rosado e começou a descrever, rapidamente e com um prazer no tom de voz, sobre o que ela sabia da família Potter.
- Os Potter são famosos por manter um contato cultural na Inglaterra. Sei que são da monarquia e que são donos de grandes propriedades. Posso te garantir que eles são da nata da elite inglesa – Respondeu ela, ainda com o tom de voz alegre que me acordou hoje, mais cedo.
Sorri tranquilamente para ela. Fazia tanto tempo que não a via feliz desse jeito que senti gosto ao saber que fui eu que dei essa felicidade. Ok, não foi exatamente eu, mas é uma situação ligada à mim, então eu sou o alvo de toda essa felicidade. Só queria que a mesma me atingisse.
Não estou triste, muito pelo contrário, até estou satisfeita com essa situação. Pelo menos mostrou que eu consigo sim, arranjar um pretendente com características louváveis, dando um banho de água fria nas minhas irmãs, pois acho que os Potter, pelo que minha mãe passou ao descrevê-los, são importantíssimos na elite social inglesa. Além de serem da monarquia, é claro.
- E esse baile de verão? – Perguntei pensativamente. Bem, se dependesse de mim, eu não iria – Como é?
- Ahh, é um baile comum mas que comemora a chegada do verão – Respondeu minha mãe, pacientemente – Aí tudo é dedicado ao tempo mais quente, as roupas, as comidas, as bebidas. Geralmente, é um tipo de festa bem familiar. Por isso que eu acho ótimo ele ter te convidado!
Não raciocinei como minha mãe. Por isso...
- Se é uma festa familiar, porque ele me convidou para flertar? – Perguntei confusamente. Minha mãe me olhou como se eu fosse do outro mundo. Ok, eu posso não ser um gênio em raciocínios amorosos mas não precisa me encarar desse jeito.
- É por isso que acho que você não saiu do meu corpo – Comentou enquanto revirava os olhos – Ela quer flertar sério com você, pois já a convidou para conhecer a família dele. É um ótimo indício! Você deveria ficar feliz.
Revirei os olhos e peguei o bouquet enquanto levantava da poltrona clássica.
- Mas eu estou feliz! – Menti impacientemente.
- Independente disso, você vai no baile de verão deles – Mandou ela, chamando a empregada para acender a lareira.
- Mas ele nem me deu uma data – Reclamei, quase saindo da sala de estar, de pé.
- É porque ele vai te mandar um convite – Falou ela, agora em absoluto tédio de me explicar as coisas, de minha lentidão.
Saí da sala de estar, cansada de ficar discutindo esse tipo de assunto com minha mãe. Agora não tem opção, eu realmente tenho que ir nessa absoluta perda de tempo e dinheiro que é esse baile de verão. Mas que idiotice, verão tem todo ano. Deveria ter um baile de primavera, seria mais bonito do que um baile de verão.
Se fosse de primavera, seria melhor. Seduziria qualquer pessoa com as flores novas da estação e o clima gostoso de sentir quando o vento bate no seu rosto. Eu pintaria as flores, igualzinho no meu sonho excêntrico.
Voltei para o meu quarto, tranquei a porta (minha mãe tem o péssimo hábito de chegar sem bater, sem pedir permissão. E depois ela fala que é mestre em etiqueta) e deitei na cama, abraçada com meus ursos de pelúcia. Sim, eu tenho muitos ursos de pelúcia, sempre tenho que abraçá-los, eles ficam muito carentes, como eu. Uma carência de um abraço, ou algo parecido.
Infelizmente, o único homem que me chama para flertar com ele, não me empolga. Tudo ficou muito forçado, ficou estranho. Não senti aquele salto do coração, que todas as garotas que conheço falam que sentem.
Tenho a forte impressão de que esse baile é amanhã. Amanhã é a chegada do verão, então é bem provável que o seja.
Senti uma forte angústia no meu coração. Essa foi a única coisa que eu senti nisso tudo. Como se eu estivesse sendo esperada para... Hum, uma confusão, acho.
Nisso, eu cochilei na minha cama, enrolada com meus edredons e meus ursinhos de pelúcia. Eu sonhei com as flores sendo pintadas por menininhas, mas dessa vez houve um ponto desconhecido no sonho.
Havia um campo de flores amarelas, indo pelo horizonte sem fim. Eu estava correndo por esse campo, com túnicas brancas, mas o eu não era eu. Eu era uma mulher loira, alta e com um porte elegante, mas com uma expressão alegre no rosto. Eu não era eu, embora sentisse que fosse. Olhando pelos olhos do eu-não-eu, um espelho foi colocada em meu caminho, mas não um de corpo inteiro, só dos meus ombros até minha cabeça.
Me aproximei do reflexo no espelho. Seus olhos eram cor de mel quente, mel derretido. Suas bochechas eram escassas e sua mandíbula era pronunciada. Era um rosto bonito, embora muito magro, fazendo a pele se esticar nos ossos da face. Eu fiz o gesto de abrir a boca e a mulher também o imitou. Nisso, eu reparei nos olhos tristes dessa mulher loira. Tudo deixava a entender que ela estava triste.
Ouvi um barulho, dentro do sonho, que me ver olhar pra trás, percebendo que eu não estava sozinha debaixo daquele céu azul com lindas flores amarelas. O ponto escuro estava se movimentando muito rápido, como se fosse um homem correndo. Mas quanto mais ele corria, mais eu me afastava.
Então eu virei para o espelho e fechei com olhos.
Acordei assustada com o barulho que minha mãe estava fazendo do lado de fora. O dia já estava escurecendo e minhas mãe esmurrava a porta com todas as suas forças. Meu quarto estava parcialmente escuro, pois as janelas ainda estavam aberta, como suas cortinas.
- Lily Evans! – Gritou minha mãe, de um jeito escandaloso que virou sua marca em todos os lugares que ela frequenta por, pelo menos, uma semana – Está aí?
Levantei rapidamente e corri para a porta, abrindo-a.
- Mãe! Eu estava cochilando! Não precisa fazer toda essa balbúrdia! – Respondi com raiva. Ela não precisa ficar correndo atrás de mim vinte e quatro horas por dia, ela bem que poderia arranjar um marido novo, pelo menos alguma coisa que deixe que ela fique bem longe das pretensões de minha vida.
- Eu vim te entregar o convite do baile de verão dos Potter – Ela mostrou uma carta branca com alguns detalhes em vermelho-escuro e leu – "Lhe convido, Mademoiselle, ao VI Baile de Verão do Potter. Se for da sua vontade, eu lhe pegarei amanhã, às 9h da manhã. Anseio por vê-la. Boa-noite", eu já respondi ao mordomo que entregou esse convite, que você vai de qualquer jeito nesse baile, mesmo arrastada, acorrentada e amordaçada.
- Mas você deveria ter me perguntado se eu queria ir! – Reclamei inconformada – Mamãe... eu não sei quero ir.
Ela respirou fundo.
- Lily, você sabe como está a nossa situação. Não podemos deixar uma chance como essa escapar. Sei que é injusto, mas é o seu dever – E ela virou as costas, andando pelo corredor até chegar as escadas.
Peguei o convite que ela deixou cair no chão e fechei a porta do meu quarto. Acendi todas as luminárias do meu quarto e me sentei na escrivaninha de maquiagens, com vários espelhos diante mim.
Será que minha vida está destinada a ter essa mesma linhagem fútil igual a das minhas irmãs? Olha, não é fútil a palavra, mas é que a vida de mulheres casadas com homens poderosos é uma inércia.
Fico com medo do que pode estar me aguardando, mas um pressentimento bom é que me falta. Espero que seja proveitoso, pelo menos.
Respirei fundo e abri meu guarda-roupa, procurando um vestido de verão que seja chique o suficiente para o baile de amanhã. Pelo menos, se é pra naufragar, eu vou naufragar direito!
Separei um vestido verde-claro, com um decote quadrado e com o espartilho mais apertado. A última vez que usei esse vestido, eu estava alguns quilos mais magras. Mas mesmo assim, adoro espartilhos. O vestido possui mangas verde-transparente, em um tecido leve. Havia babados brancos com verdes, misturando as duas cores ao longo da cauda.
Separei um chapéu com flores e tecidos em cima, de cor branca. Planejei meu penteado, com um só cacho ruivo descendo por minha nuca e meus ombros à mostra. Logo, depois de separar tudo que usarei amanhã, eu fiquei olhando Londres de uma das janelas de meu quarto. Estava tão quieto, nem parecia a mesma cidade ativamente promíscua, como dizem as revistas monárquicas conservadoras. Lembra Paris, mas prefiro Londres. É mais... hum, intelectualizada.
Fui dormir mais cedo, mesmo tendo dormido o dia inteiro. Acho que esse negócio do baile de verão, com pretendentes e a desgraça financeira da minha família, fez com que minhas energias se esgotassem e eu ficasse à mercê do sono. Nem estava ansiosa para o Charlie Potter vir me buscar em sua elegante carruagem.
O que me preocupava era a minha ida para um baile da monarquia.
Sonhei com a mesma mulher loira do espelho e do ponto longe que se afastava mais quando acelerava o passo. Levantei com uma das empregadas me chamando para o banho e logo depois, para me ajudarem a me vestir, pentear e maquiar. Eram umas 5h ou 6h da manhã quando elas me chamaram, o que me fez contorcer de preguiça.
Às 8h da manhã, eu estava impecavelmente pronta para esse tal baile de verão. Só esperava estar condizente com o que o povo da monarquia estivesse no mesmo estilo de roupa que eu.
Eu peguei uma gargantilha de três fileiras de pérolas e coloquei em meu pescoço. Eu estava pronta para a guerra de casamentos, como falava meu pai, à respeito dos casamentos das minhas, na época, jovens irmãs. Me olhei no espelho e dei um sorriso tímido. Eu tinha certeza que estava bonita, mas a razão dessa minha arrumação impecável me fazia ficar com um pé atrás.
Peguei a sombrinha, que é meio que um mero acessório, e desci as escadas, indo em direção a sala de estar. Eu sabia que minha mãe estava lá, me esperando para avaliar a minha arrumação. Entrei na estranha sala de estar e peguei minha mãe conversando com um rapaz bonito, charmoso e, por ver que minha mãe estava sorrindo, muito carismático. Seus olhos eram um castanho encantador, seu rosto com mandíbulas acentuadas era arrebatador e seu cabelo bagunçado, cor de chocolate claro, o fazia de um homem inteiramente desejoso.
Ele olhou para mim e sorriu levemente. Ele se levantou e se curvou, em referência à minha pessoa. Muito elegante, esse rapaz possuía um certo quê de diferente. Não sei, um perfume, uma atitude, talvez.
Sei que ele era diferente.
- Minha filha, esse é James Potter, primo de Charlie Potter – Minha mãe nos apresentou – Ele veio te buscar para o baile de verão, pois o outro Sr. Potter teve que resolver negócios e já vai encontrar com você no baile.
Ela estava em puro estado de êxtase. Era notável.
Mas eu sei que quando vi James Potter pela primeira vez, senti algo preenchendo meu coração. Parecia... parecia... parecia que já nos conhecíamos.
