Chegaram ao navio em que Raphael viera, logo após a condessa ter dispensado o que a trouxera.

Assim que entraram nesse, um dos marinheiros veio ao seu encontro.

- Lord Sorel! Finalmente está de volta! – Então olhou para a mulher que veio junto, ficando meio sem graça, tratou de alertar o homem – Perdoe-me senhor... Não estávamos esperando a vinda dessa senhorita, não há cabine preparada para ela nesse instante.

- Não te incomodes com isso. Ela irá com a carga.

- O que? – ambos o rapaz e Ivy deram um grito.

- É apenas uma escrava. Deverá ir com os ratos, seus semelhantes. – riu sarcasticamente o francês, sendo observado pela bela mulher furiosa.

E assim foi. Abriram espaço no balcão de carga e a deixaram lá. Apenas o rapazinho que os recebera vinha ali de tempos em tempos trazer-lhe alimentação. Raphael só voltou a encontrá-la quando chegaram ao seu destino. Lá havia uma carruagem à espera de ambos.

- Está tão calada, Ma cherie... Parece até que não aproveitou a estadia com seus parentes. – riu ele.

- Tu estás errado. Eu aproveitei muito. Até mesmo encontrei alguns dos seus. Mandaram-te lembranças... – devolveu ela.

- Em algumas horas, chegaremos ao meu castelo. Aí sim a tua escravidão começará. – disse ele assumindo um tom de voz mais sério.

- Humph... Mal posso esperar. – disse ela olhando pela janela do veículo.

Chegando ao enorme castelo de propriedade do lord em meados da noite, ele desceu da carruagem e ela o seguiu novamente. Em seguida, adentraram a residência, sendo logo recebidos por Marjorie e Amy. Ambas estranharam a presença da mulher inglesa.

- Não se preocupem. Essa é ninguém mais ninguém que a condessa Isabella Valentine. E agora, ela vai ser apenas mais uma de minhas empregadas. – ria o nobre

- Mas senhor... Já não temos muitas empregadas? – ressaltou a governanta.

- Não se preocupe... Daqui a um mês, ela irá embora... Preparem um quarto para ela. – disse o homem.

Ivy não se importou com as falas do louro, estando muito mais interessada na pequena figura ruiva que estava escondida atrás da governanta. A pequena tinha um olhar triste estampado. Estava vendo a si mesma ali. Então se aproximou, agachando-se à altura da menina:

-Como se chama, pequena? – perguntou à ela deixando evidenciar seu sotaque britânico.

Depois de alguns instantes pensando, finalmente respondeu à mulher, a única palavra que sabia pronunciar, pelo menos até então:

- Amy.

- Belo nome, querida. – o tom da condessa chegava a ser maternal. E estava deixando a delicada francesa encantada.

- Vejo que já conheceste minha filha. – disse o dono de Flambert se aproximando de ambas.

- Esta criança adorável não pode ter nela uma gota sequer de teu sangue asqueroso. – debochou a mulher de cabelos platinados.

O nobre não querendo deixar que o comentário o atingisse, disse-lhe:

- Cale-se e venha!

- Depois conversaremos mais, minha jovem. – sorriu a mulher e afastou-se. Perguntando em seguida ao francês: - Onde está me levando?

- Ao quarto em que ficarás, nesse mês em que és minha. – disse passando por imensos corredores e finalmente atingindo um cubículo. – É aí, a tua cela.

- Aqui? – disse olhando para o local que não era muito diferente do compartimento de carga em que viera. – De maneira nenhuma! Eu me recuso a continuar com essa aposta infame!

- Ah... Como pensei... Os Valentines são todos uns mentirosos. Faltam com a palavra, você não seria diferente. – Disse o francês num deboche, enquanto sacudia a cabeça em negativo.

- Como se atreve, seu trapo imundo, a falar da minha família? – Nesse instante, Lady Valentine se aproximou do homem, pronta para dar-lhe um tapa sobre a face. Hesitou. Olhou em seus olhos que beiravam entre o castanho claro e o cinza. Tinha algo neles que a estavam impedindo. Então ela abaixou a mão e virou-se. – Meus parentes são nobilíssimos. Não faltarei com minha palavra.

No entanto, Lord Sorel, que pode perder o amigo, mas não perde a piada, riu dela e completou seu deboche dizendo-lhe:

- Eu sabia que tinhas medo de mim! – Agora sim, o sangue subiu à cabeça da filha de Cervantes e ela direcionou o tapa que havia guardado. Dessa vez, o francês estava preparado e segurou-lhe o pulso, puxando-a para perto de si, num sorriso perverso, como sempre costumava esboçar – Cada vez tenho mais certeza... Vou me divertir demais contigo, milady.

- Solte-me, rato! – esbravejou a britânica.

- O que fará se eu não soltar? Me estapeiará com a mão livre? – riu o homem. – Não se esqueça que uma das minhas está livre também. – Então soltou-a. – Mas é melhor mesmo que eu afaste-me de ti. Afinal, posso acabar me contagiando com tuas tolices...

- Como te atreves? Guarde em tua mente, Raphael Sorel, quando este mês se passar, lutaremos novamente. Mesmo porque, me é de direito a revanche, já que tu trapaceaste!

- Eu trapaceei? – perguntou cinicamente o louro. – Tu é que trapaceias lutando quase nua... Apenas segui meus instintos masculinos.

- Não importa, seu infame! Lutaremos novamente e da próxima vez, até a morte! – Então a revoltada mulher adentrou a pequena cela a qual lhe foi preparada.

Tinha uma pequena cama velha. Uma cadeira com os estofados saindo por buracos no tecido vermelho. E logo teve um pensamento ainda mais irritante. Como poderia dormir, se é que conseguiria em tal toca, com suas roupas de batalha? Nesse mesmo instante, saiu porta a fora, procurando por Raphael. Este, já havia desaparecido.

- Ei! Volte aqui! - gritava ela pelos corredores até se deparar com Marjorie e Amy, observando-a surpresas. - Oh... - suspirou ela se recompondo. - Ahn... Onde está Lord Sorel? - perguntou à governanta num tom mais calmo.

Então esta, procurando acentuar o mínimo possível de seu sotaque francês, respondeu na doce voz que tinha:

- Lord Sorel teve de ir resolver alguns problemas com certos empregados. Mas pediu-me que lhe trouxesse isso. - Então ficou visível aos olhos de Ivy, o que ambas Amy e Marjorie traziam. Eram roupas de cama. E também roupas para que se trocasse. - Também me fora ordenado que lhe desse instruções do meu senhor.

- Claro, claro, prossiga... - disse a mulher parando para ouvir as palavras de Marjorie com atenção. - O que disse aquele porco?

- Se puder me acompanhar, lhe direi enquanto arrumo sua cama, milady. - disse a mulher ainda no mesmo tom.

- Que seja...

E adentraram o local. Ivy sentou-se sobre a cadeira estragada e ficou observando enquanto a francesa arrumava-lhe a cama.

Amy se esgueirava próxima à porta, observando ambas as mulheres. Ainda estava claro em sua mente, a forma como Ivy conversara com ela. Lembrou até mesmo sua falecida mãe. Nesse instante, sentiu saudade desta. E saiu do local, sem mais nem menos.

Marjorie que se entretera com a arrumação, mal percebeu tal coisa. E começou a dizer o que julgava mais difícil, para que Lady Valentine compreendesse.

- Lord Sorel disse-me que ditasse vossas tarefas.

- Minhas tarefas? Como assim, tarefas? - perguntou a mulher surpresa.

- Os serviços que terás que fazer durante sua estadia. Serviços de criada...

A condessa então disparou a rir. Aquela risadinha sarcástica que só ela sabia dar. A governanta olhou para a britânica com uma das sobrancelhas levantadas.

- Milady, falo sério... Lord Sorel disse-me que farás serviços de criada... Disse que começarás limpando o chão do salão de seus treinamentos... Lá em cima...

- Pois bem... Diga à vosso Lord que venha até mim, dizer tal coisa. Eu recuso-me a fazer isso! E faça um favor para mim? Prepare-me um banho com urgência, ele tocou em meu pulso e não quero contaminar-me!

A francesa ficou meio perdida. Sabendo que a mulher também era uma nobre, era seu dever atender ao seu pedido, mas era criada de Raphael, será que seria castigada em cumprir tal pedido? Então, seu instinto de mulher falou alto. Nenhuma mulher merece ficar sem um belo banho.

- Lady Valentine, eu prepararei seu banho, com uma condição. E peço-lhe isso com muita humildade. Ainda que seja-lhe irritante, seja razoável? Lord Sorel castigará-me se imaginar que eu é que não passei-lhe as ordens corretamente.

- Está bem. Você me parece uma pessoa confiável. Mas... Ensine-me a fazer tal coisa... Nem em sonhos, fiz uma coisa como essa... - riu a inglesa, já que de alguma forma, também estava se afeiçoando à Marjorie.

- Sim, milady, como quiser. - E correu logo em busca de preparar o banho da condessa.

- É uma boa mulher... Apenas tem o azar de ser a criada desse crápula... Como tal pessoa desprezível tem esse luxo? Uma governanta atenciosa, uma filha adorável? Como pode ser assim, abençoado, se não honra nem as calças que veste? Humph... Mundo cão... - Então observou o local ao qual fora confinada. Parecia mesmo uma toca de rato. Frio, úmido... Escuro. Isso relembrava o tanto que ela odiava Raphael e o quanto continuaria odiando. - "Mas até que ele tem uns belos olhos... E belas coxas..." - riu para si mesma.

Logo uma outra empregada qualquer veio trazer a notícia que o banho da condessa estava pronto.

- Queira acompanhar-me, milady. - sorriu a jovem.

- É claro... - Então prosseguiu ao lado da empregada. Andaram até um longo corredor. A visão da banheira cheia de água quente foi quase divina para Ivy. E a jovem ainda sorridente, saiu do local. - Essa é sem dúvida, uma criada muito feliz... - sacudiu a cabeça num riso e tratou de ir se despindo e entrando devagar na água. sentiu o odor delicioso de rosas advindo da água. Suspirou algumas vezes ali dentro. Estava satisfeita. O que quer que acontecesse dali por diante não importava. A sensação estava tão boa na verdade, que ela começara a ficar sonolenta. Chegando enfim a adormecer.

Em seus sonhos, estava novamente no baile de Elisabeth, mas um baile antigo que ela já vivera e que se lembrava bem. Um par de olhos verdes a observava entre um grupo de guardas. Nem observou muito para poder distinguir. Então lutava com Raphael novamente. Vencia-o. E num sorriso macabro, teria o matado, mas não dessa vez... Que idéia maluca! Estava sob seu corpo... Entre seus braços... Deixando-se envolver num malicioso momento de prazer? Acordou quase que num grito. Impossível saber, se de ódio ou de desejo. Foi voltando a si com dificuldade. Sentia seu corpo balançando. Uma corrente de ar percorreu seu corpo. Arrepiou-lhe completamente. O fato do arrepio não encontrar nenhum empecílio, fez que ela notasse que ainda estava nua, mas que já não estava na banheira.

Em sua frente, estava o nobre francês sentado sobre uma cadeira, com uma taça de vinho em suas mãos com um sarcástico e obsceno sorriso nos lábios:

- Aproveitou o sono, Lady Valentine?

- Ora, maldito! Tire-me daqui! Eu ordeno! - esbravejou ela acorrentada.

- Não está em posição de ordenar nada, escrava. Além do mais... Ver você aí, dominada, está divertido demais para que eu faça alguma coisa... - riu o homem.

- Quando eu sair daqui, eu o matarei! - gritou ela, fazendo sua voz ecoar pelo salão vazio.

- Isto é, se saires daí... - riu o homem novamente, Tomou o último gole de seu vinho. E se levantou apanhando um frasco na mesa. - Agora sim, serás minha...