Capítulo II

10 de Abril de 1912

Início da Viagem

Sentado a escrivaninha desde muito cedo, o jovem musicista se via às voltas com uma partitura inacabada. O violino deixado de lado dentro do estojo, o arco atravessado sobre este. Não queria fazer muito barulho. De onde estava podia ver seu amado pela porta aberta do quarto, bastava voltar-se como fizera agora. Era muito cedo para acordá-lo. O grego dormia o sono dos justos envolto pelos lençóis. O peito nu, a cintura coberta. Os cabelos espalhados pelo travesseiro. Uma visão do paraíso. Sua inspiração, quem sabe? Suspirou. Voltou os olhos para a partitura. Não conseguia se lembrar quantos anos trabalhava em sua primeira música mais complexa. Já havia composto algumas coisas, mas nada muito significativo, aquela música sim... era diferente de todas as outras. Sempre que sentava para tentar terminá-la, era em Kardia que pensava.

Novo suspiro. Deixou o lápis cair sobre o papel e voltou os olhos para o relógio de parede. Precisava tomar um bom banho, começar a se trocar e acordar o chefe de polícia. Não poderiam perder o trem. Guardou suas coisas e colocou a pasta com as muitas partituras em uma das malas, assim como seu pequeno estojo de lápis. Espreguiçou esticando os braços acima da cabeça e dirigiu-se para o banheiro.

Pouco tempo depois voltava para o quarto. O amado continuava dormindo profundamente. Aproximou-se da cama e sentou-se do seu lado. As roupas para a viagem separadas a um canto. Suspirou. Melhor seria trocar de roupa primeiro para não correr riscos desnecessários. Kardia por vezes conseguia ser muito convincente e sedutor. Vestiu-se com esmero e tocou o grego no ombro.

- Kardia, já é hora de levantar. – Chamou-o. Sorriu ao ver as pálpebras tremerem para logo a seguir ser mirado por olhos tão azuis quantos os seus. – Bonjour, mon amour! (Bom dia, meu amor!) Apresse-se, ou vamos perder a hora.

- Bom dia, Dégel! – Voltou os olhos procurando pelo relógio de bolso. Encontrou-o onde o havia deixado e checou as horas. – Hmm... Por que não me chamou mais cedo? – Perguntou ao notar que se demorasse muito, acabariam por se atrasarem por demais, ou quem sabe nem seguiriam para Nova Iorque.

- Non o fiz por que ainda temos tempo. Só falta você se aprontar e creio que non irá demorar tanto, non é? – Sorriu de lado.

- Ah! Que pena! Sem você para me lavar as costa não demorarei nada mesmo. – Mirou-o chateado. Jogou a coberta para o lado e levantou-se não se importando em estar nu. Sorriu matreiro ao reparar em com o amado o olhava. Com uma gargalhada seguiu para o banheiro. – Dégel, você é mesmo muito especial. Único. – Falou só para si.

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- Se você não se apressar perderemos o trem para Cherbourg, Dégel. – A voz máscula do grego quebrou o silêncio em que a sala se encontrava. Com olhar arguto, observava a movimentação do amado.

- Kardia, estou checando tudo. Quero certificar-me de que a casa está toda fechada. Non estaremos de volta daqui a duas horas. – Estreitou os olhos e mirou-o com seriedade.

- Eu sei, ágape, mas você já fez isso, não há necessidade de nova 'vistoria'. – Levantou-se da poltrona em que estava sentado e aproximou-se do musicista.

- Kar... eu non quero que nada dê errado. – Comentou ao deixar-se abraçar. Deixou que um pequeno sorriso lhe iluminasse o rosto.

- Vai dar tudo certo. – Kardia murmurou. Os lábios roçando o lóbulo do ouvido do outro. Mordiscou-lhe a orelha e em seguida sustentou-lhe o olhar. – Temos de ir.

- Eu sei, mas é estranho. – Soltou-se devagar do chefe de polícia e correu novamente os olhos pela sala.

- Não se preocupe, Dégel. Teremos um lar em Nova Iorque também. – Aproximou seu rosto ao do amado e o beijou. Um beijo carinhoso, que foi correspondido à altura.

Assim que os lábios se separaram, Kardia checou seu relógio de bolso. Puxou-o pela corrente dourada e abriu o tampo para poder ver os ponteiros e os números em algarismo romano.

- Temos uma hora. Creio que o carro de aluguel que chamei já se encontra ai na porta, ou está chegando. – Ao terminar de falar, ouviram a buzina de um veículo. – Não disse? – Sorriu com rapidez e abriu a porta.

Sem nada dizer, Dégel pegou suas malas e o estojo onde o precioso violino estava. Saiu sem olhar para trás. Deixou que o amado fechasse a casa.

Acomodaram-se no banco de trás e, apesar da movimentação das ruas, em pouco tempo estavam na estação de onde o Train Transatlantic partirá levando os passageiros para Cherbourg, local este onde o Titanic aportará na mesma noite.

Na estação, após uma pequena espera, o apito da Maria Fumaça alertou os que ainda estavam para embarcar que já chegara o momento da partida. O início da jornada se anunciava e por todo o percurso Kardia e Dégel conversaram trivialidades. O chefe de polícia havia conseguido o afastamento de suas obrigações e sentia-se aliviado por tudo no final ter dado certo.

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Perto das quinze para as quatro da tarde o trem parou na estação de Cherbourg e todos desembarcaram, sendo levados pra a gare marítima onde souberam do atraso do Titanic.

- Detesto atrasos. – Kardia murmurou. Sentado ao lado do amado não conseguia entender como ele estava aceitando bem aquela situação. Na realidade, o grego não sabia exercitar sua paciência.

Arqueando as sobrancelhas, Dégel baixou seu livro, um qualquer de renomado autor, e voltou sua atenção para o amado.

- Você sabe muito bem que imprevistos sempre acontecem. – Respondeu-lhe com calma. – Logo estaremos a caminho e poderemos desfrutar dessa viagem inesquecível.

- Espero que tenha razão, Dégel. – Comentou ao acaso. Sem nada dizer levantou-se e pegou um jornal que se encontrava em cima de uma mesa. Ficou absorto à movimentação ao redor. Não podia fazer nada impensado. O preconceito pairava pela sociedade francesa como se fosse um nevoeiro intoxicante.

Não demorou muito e o anúncio de que o Titanic já se encontrava próximo ao cais da gare chegaram até os ouvidos dos passageiros que aguardavam.

- Estou ficando cansado de esperar por aqui. – Kardia dobrou o jornal e o deixou sobre a mesa. Sorriu de lado ao ser fuzilado pelo amado.

- Temos de aguardar. – Dégel remexeu-se na cadeira. – A non ser que queira seguir a nado até o transatlântico e brigar com o capitão por causa da demora. – Fechou o livro e o guardou em uma das malas. Tinha certeza que o amado notara a acidez de seu comentário.

- Não é uma má idéia. – Gracejou não entrando na provocação. Estreitou um pouco os olhos ao ver o francês com o semblante sério. – Tente relaxar, Dégel. – Levantou-se. – Venha, vamos respirar um pouco de ar puro. – Convidou.

- É talvez tenha razão. Talvez o ar puro faça com que eu relaxe um pouco. – Confessou. Não estava nervoso, não sentia medo, mas algo em seu ser, no âmago, dizia para ficarem. Deixou os pensamentos de lado e seguiu ao lado do amado para fora daquela sala de espera.

A brisa marinha os recebeu de braços aberto. Kardia respirou profundamente e voltou seus olhos para o pequeno cais. Voltou-se para o amado com o olhar espantado.

- Onde está o Titanic? – Perguntou perplexo.

- Non faço idéia, Kar. – Respondeu o musicista. Ao ver um homem com o uniforme da companhia interpelou-o. – S'il vous plaît (por favor), o embarque para o Titanic?

- Já vai se iniciar, senhores. Queiram por favor dirigirem-se para as barcaças. Primeira e segunda classes na Nomadic, terceira classe mais as malas postais na Traffic. – Informou com polidez.

- Merci! (Obrigado) – Dégel agradeceu.

- Melhor pegarmos nossas coisas e seguirmos para a barcaça. – O grego segurou discretamente na manga do casaco usado pelo amado e o guiou no caminho de volta, mesmo que esse não precisasse.

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Da barcaça, ao aproximar-se, já podia se notar a suntuosidade do transatlântico. Suas muitas escotilhas iluminadas chamavam a atenção e iluminavam o mar escuro do início daquela noite.

Ao embarcarem no Titanic, são recebidos por um oficial da tripulação e com o auxílio dos tripulantes todos são encaminhados para suas cabines.

Após estarem acomodados, Kardia e Dégel dirigiram-se para o restaurante à La carte.

- Até agora não consigo entender qual é a diferença entre os restaurantes. – Comentou Kardia ao servir-se de uma garfada da boa comida servida a bordo.

- Mon amour... – Começou Dégel em tom baixo e reservado. – Você melhor do que eu sabe que até mesmo para viagens e outras coisas, como restaurantes, há diferenças... classes sociais.

- Ora, somos todos iguais perante as leis. – Retrucou.

- Falou o policial... – Revirou os olhos. – Mas você sabe que non é bem assim. – Voltou os olhos para os lados. – Vamos aproveitar essa viagem, sim? – Pediu. – Faz tempo que non ficamos fora de casa e longe de nossos afazeres.

- Hmm... sabe que isso é tentador, mas você tocará para mim? – Kardia adorava vê-lo tocar. Sentia um prazer imenso, algo que não havia como ser descrito.

- Posso pensar nisso... se prometer esquecer tudo ao seu redor e tentar esquecer que é um homem da lei... – Fez um leve suspense.

- Ora, ora, ágape! Você não era assim. Por acaso está sofrendo de algum mal estar, ou quem sabe seja um impostor? – Perguntou. Nos lábios um sorriso divertido.

- Non... sou eu mesmo. Acontece que alguém muito querido pediu-me dia desses para que eu viva minha vida intensamente. – Fez uma pausa. – Acho que está na hora de começar a fazer isso. – Deu-lhe um meio sorriso e terminou de jantar.

- Hmm... creio que vou gostar muito dessa viagem. – Kardia mordiscou o lábio inferior e mirou o amado com desejo. Por baixo da mesa esticou a perna direita e lentamente deslizou o pé pela perna do amado. – Minha cama é tão grande... – Murmurou em grego para que apenas ele o entendesse.

- Basta que me guie até lá, monsieur (senhor). – Dégel respondeu. Nos lábios um leve sorriso sedutor. Somente Kardia para fazê-lo deixar de lado as reservas e a seriedade.

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Na primeira manhã dentro do Titanic, logo após o desjejum, o casal seguiu para o tombadilho. Muitos passageiros como eles, caminhavam aproveitando o dia de céu límpido e as águas calmas.

A beleza da embarcação era realmente inimaginável. Somente vendo para crer.

Apoiados na balaustrada, os braços sobre o corrimão de madeira, Kardia e Dégel observavam a quilha do transatlântico singrar as calmas águas marítimas. A leve brisa salgada fazendo com que os cabelos de ambos seguissem ao sabor do vento.

- Nem parece que estamos em alto mar. – Dégel comentou. – Lembra-se de quando fomos para a Inglaterra? – Perguntou.

- Claro que lembro. O Canal da Mancha estava com suas águas tão agitadas que eu mal conseguia parar em pé. – Kardia revirou os olhos. Não gostava muito de lembrar-se daquele dia. Passara muito mal, enquanto Dégel apenas sentira um leve desconforto. – Você tem sempre que lembrar desse dia, não é? – Mirou-o de soslaio.

- Como posso esquecer? – Gracejou o musicista. – Foi a única vez que eu o vi se entregar ao que estava sentindo. – Fez troça. – Kardia, non fique bravo... Veja como hoje está sendo diferente.

- É... você tem razão. – Respondeu Kardia. O policial voltou seus olhos para o lado e sorriu. – Será que falta muito para chegarmos a Queenstown? – Perguntou.

- Non faço idéia, mon amour, mas pelo que ouvi, é nossa última parada. Depois só em terras americanas. – Dégel respondeu. Estava pensativo.

- O que foi? – Estranhou a mudança de humor.

- Non foi nada. Venha, vamos aproveitar e seguir para a piscina térmica no convés 'F'. – Convidou.

- Mas você não gosta de piscinas. – Estranhou.

- Mon amour... quero conhecer o que for possível no Titanic. E se pedir com jeitinho quem sabe eu non entre um pouco na água com você! – Sorriu matreiro.

- Dégel... estou ficando assustado com suas mudanças.

- Ora, então se quiser vou voltar para minha cabine e ler. – Ameaçou sem escrúpulos algum.

- Não... Estamos praticamente de férias, então, sem livros, por favor. – Pediu. – Mas pensando bem, talvez irmos para a sua cabine seja mais prazeroso do que algumas horas na piscina. – Nos lábios um sorriso malicioso.

- Kardia... Pelos céus! Você é insaciável!

- Ah! Dégel... não foi bem isso que você me disse a noite passada. – Mirou-o com ardor.

- Kardia... – Fincou os olhos nos dele.

- Dégel, não tenho culpa por ser insaciável, você é irresistível. Isso é tentador... – Fez uma pausa. – Então... Vamos? – Convidou.

- Vamos para onde? – Perguntou desconfiado.

- Para o seu quarto para que você vista um calção de banho.

- Mas eu non trouxe um calção de banho. – Respondeu ingenuamente.

- Ótimo! – Era isso que ele queria ouvir. – No seu quarto tem banheira? – Nos olhos o brilho do desejo.

- Non, Kardia. Non tem banheira.

- Ah! Tudo bem. Creio que o chuveiro há de servir. – Gargalhou e com um solavanco puxou o amado junto de si na direção das cabines.

Continua...

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Explicações:

Gare - - sf (fr gare) Embarcadouro e desembarcadouro das estações de estrada de ferro. (definição tirada do dicionário Michaelis) - Tipo de uma cobertura onde os trens chegam, podendo estar ligados a portos como na expressão, gare marítima.

Informações a respeito do Titanic e os dias que se seguiram da viagem inaugural retirados do Blog: Titanic Momentos - http: / titanicmomentos . blogspot. com/ 2010 /04 / ha-98-anos-no-dia-10041912. html

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Momento Aquariana no Divã:

*ficwriter feliz da vida por que tudo está indo bem no reino gelado. Sorriso enorme no rosto e ar relaxado deitadinha no divã*

Kardia: *olhar mortal para a loira* Escuta aqui, dona ficwriter... como é que tudo o que faz acaba deixando no ar? E os momentos mais quentes entre eu e meu geladinho?

Mas hein? Kardia, vai amolar outra pessoa. A fic é de presente, faço do jeito que eu quiser. Quer um castigo quer? Eu juro que deixo você sozinho. Ou deixo o Dégel ser resgatado e indo parar nos braços do Defteros.

Dégel: Theka, você por acaso non vai com a minha cara?

Dégel, eu até gosto muito de você e daquele bichinho belicoso, mas ele me irrita.

Kardia: Eu te irrito? E você não faz isso comigo quando termina as cenas mais deliciosas deixando no ar?

E isso não é bom? Dá para o povo imaginar o que pode ter acontecido. Ah! Kardia... deixa de ser chato e insaciável. Poupe-me e deixa-me conversar com o pessoal que por aqui chegou. *espanta o escorpiano que leva o aquariano a reboque*

Quero agradecer a minha amiga Aqua por mais uma vez aguentar minhas loucuras e reclamações. Querida, você é 10. Também a minha irmã que me ajudou encontrando esse blog maravilhoso. Sis, thanx for everything.

Peço a todos que tenham paciência, pois o último capítulo pode demorar um pouco. Vai requerer muito de mim e sinto turbulências pela frente, mas nada que eu não possa dar conta do recado.

E não se esqueçam, façam uma ficwriter feliz, comentem.

Beijos

Theka