CERCADOS


TANGIERS, UM DOS MAIORES e mais luxuosos cassinos de Las Vegas, palco de grandes acontecimentos, festas, convenções e shows, pilar de encontros e desencontros, de milionários e operários em busca do mesmo sonho americano: bater a banca, dar a grande cartada, tirar a sorte na maquininha. Mas os sonhos se transformavam em depravação numa velocidade avassaladora, tanto pelo dinheiro que por lá circulava quanto pelas mulheres. E havia mulheres de todos os tipos. Assim como havia homens que podiam pagar por elas e outros que apenas precisavam piscar para receberem o melhor dos tratamentos, havia aqueles que se deliciavam em forçar um contato.

O laboratório criminal do departamento da polícia de Las Vegas investigava as mortes de jovens garotas, muitas delas dançarinas, estranguladas com as próprias lingeries e deixadas em posição humilhante. Os crimes vinham acontecendo desde o início do ano. Três meses depois, sem quaisquer pistas, o crime estava se tornando pessoal para toda a equipe policial.

Poderia ser algo aceitável em qualquer estabelecimento, mas no Tangiers não. O gerente estava exaltado e furioso, era inaceitável que num lugar tão protegido por segurança digital e humana, houvesse ocorrido tal desgraça. Não que uma dançarina não pudesse ser substituída, mas que fama aquele tipo de publicidade traria ao estabelecimento? Que tipo de pessoa freqüentaria um lugar sem proteção, sem privacidade?

Apesar de estar fechada, a ala na qual a garota foi morta, no Tangiers, todo resto do estabelecimento mantinha sua rotina. Os CSI estavam na sala do crime, coletando provas, enquanto policiais espiavam o salão principal, onde acontecia um show exótico: uma dançarina do ventre apresentava uma coreografia dificílima e extremamente bela.

— Sabia que odalisca quer dizer mulher morena e bonita? - disse um dos policiais ao capitão Brass, que mantinha os olhos no véu esvoaçante da mulher misteriosa.

— Quer dizer também escrava dançarina - completou Grissom, parando ao lado de Brass, que sorriu com o canto da boca.

Voltaram ao trabalho pouco depois, Brass e seus policiais interrogando as demais dançarinas e Grissom e seus CSI, com as evidências coletadas, tornaram ao laboratório para dilapidá-las. Passava da meia-noite quando o capitão Brass e a detetive Curtis finalmente conseguiram interrogar todos daquele turno. O gerente havia dado aos dois os dados das demais para que pudessem ser contatadas posteriormente, mas não garantiu que tais dados fossem legítimos e afirmou que muitas delas mudavam de moradia com tanta freqüência que não havia como encontrá-las, a não ser no trabalho.

Foram dois longos dias de interrogatório, não havia nada de comprometedor que ligasse qualquer uma das moças ao incidente, nem mesmo uma sombra de algum suspeito. O 

Tangiers era freqüentado por um grande número de pessoas durante a noite, as câmeras de vigilância instaladas em todos os corredores mostravam tudo, mas não mostravam quem exatamente tinha entrado na sala em que Melody Lindner fora encontrada morta.

— Deve haver outra entrada, de serviço talvez - a detetive Curtis arriscava.

— Checamos todas as saídas... as janelas não têm escadas e nem sacadas, não há como subir - disse Brass, remexendo nos relatórios. - Descer é outra história.

— Catherine encontrou apenas fios de cabelo castanhos, curtos, sem DNA, mas eram pintados. Acha que foram plantados.

— Sim, os cabelos sempre têm algum DNA.

Uma gritaria, na recepção, chamou a atenção dos detetives. Um policial tentava apartar uma discussão entre outro oficial e um rapaz.

— Calma, mocinho - Brass interveio, postando-se entre o policial e o rapaz. - O que está acontecendo?

— O que acontece é que ao invés de prender criminosos, a polícia teima em...

— Olha como fala, rapazote! - o policial tinha o dedo em riste, pronto para agarrar o pescoço do moço e torcê-lo.

— Não me interessa se ela passou num sinal vermelho ou se estava andando acima da velocidade! Vocês têm mais o que fazer do que prender uma mulher por uma droga de baseado que nem ao menos é dela!

— Então é seu, moleque? - urrou o policial irônico. - Por que não vai procurar uma namorada da sua idade e que não esteja envolvida com drogas?

O rapaz empurrou Brass para o lado e acertou um soco no rosto do policial e uma briga começou. Gente de todo o lado agarrava os dois, tentando separá-los, e foi fácil para Brass afastar o rapaz da briga porque ele não era tão pesado e gordo quando o policial que atacava.

— Calma, garoto, calma. Mas que diabos! Sam, tire o Mark daqui! - Brass fitou o rapaz a sua frente. Era alto, pouco mais de um metro e oitenta, cabelos claros que chegavam quase até os ombros, todo em camadas e mexas, olhos azuis escuros e grossas sobrancelhas, que agora estavam juntas, preocupadas. - O que acha que está fazendo, brigando dentro de uma delegacia?

O rapaz virou o rosto para o outro lado, na direção de uma mulher alta. Brass olhou naquela direção e encontrou olhos que lhe pareceram conhecidos.

— Espere no carro - a mulher pediu ao rapaz, e então se voltou para a policial que os acudira primeiramente. - Eu sinto muito, ele geralmente não é assim.

O policial ergueu uma das sobrancelhas, mas balançou a cabeça assentindo.

— Os meninos usam o meu carro sempre, poderia ser de qualquer um deles, o papelote. Mas com tanta gente se matando por ai, devo concordar com meu "filho" - ela salientou a palavra olhando para o policial com quem o rapaz tinha discutido -, um cigarro daquele não faria mal a ninguém.

Ela baixou os olhos e deu as costas a ele, mas quando tornou a erguê-los, estava diante do capitão Jim Brass. Os dois se fitaram por instantes até ela sorrir e cumprimentá-lo:

— Bom dia, senhor anjo.

Então Brass a reconheceu, era a mulher que haviam encontrado quase morta no corredor do hotel Cashmere. Ela, no entanto, não esperou por um cumprimento, passou ao lado dele e deixou a delegacia.

— Acorda, Brass. Temos que ir ao Tangiers - disse Curtis cutucando-o. - O gerente ligou dizendo que encontraram uma valise contendo lingeries.

Antes de irem ao Tangiers, porém, passaram no laboratório, as digitais encontradas no Picasso do caso do hotel Cashmere tinham identificado um ladrão chamado Finn Carter, preso diversas vezes por arrombamentos. Brass e mais três policiais encontraram o apartamento de motel em que Carter estava hospedado e bateram à porta.

— Polícia de Las Vegas! Abra a porta, Carter! - disse Brass em alto tom e ouviu-se um estrondo dentro da casa. - ABRA! - Brass gritou. - Você, comigo pelos fundos - e os dois saíram em disparada para trás do motel enquanto outros dois policiais entravam pela frente.

Tiveram sorte porque havia um muro de três metros atrás do estabelecimento e Carter ficou encurralado. Levaram-no preso e um dos detetives ficou encarregado do interrogatório enquanto Brass e Curtis voltavam ao Tangiers, juntamente com Catherine e Greg, para examinarem a valise.

— Aqui está ela - disse o gerente. - Ninguém mexeu depois que a encontramos, antes disso não posso por a mão no fogo por nada. Acham que é do assassino?

— É o que vamos descobrir - disse Brass dando espaço para Catherine Willows passar.

— Bem, se é assim, vou voltar para meu escritório. Tenho que adiantar as folhas de pagamento, já que meus contadores estão de licença. É essa gripe...

Brass acompanhou o gerente até a porta do salão principal e pôde ver novamente que o místico show árabe começava. Ficou observando a movimentação no salão enquanto a música se estendia de lenta para uma velocidade mais rápida, mas não conseguiu desviar sua atenção do palco logo depois de colocar os olhos na mulher lá em cima.

— Não me lembro de ter falado com ela - Curtis se aproximou de Brass para falar, porque a música estava muito alta.

— Eu também não. Vamos esperar terminar isso e falamos com ela.

A apresentação levou pouco mais de sete minutos e outros dez depois, Brass e Curtis, ladeados pelo gerente, entravam no camarim das dançarinas. As moças andavam seminuas de um lado a outro e Brass soltou um risinho. Curtis zombou dele e continuaram caminhando para os fundos do camarim, parando diante de uma porta de cor vermelha, Curtis e Brass se entreolharam.

— Com licença, Vickie - estes detetives querem falar com você - e os três entraram numa sala com decoração árabe. - Esta é a detetive Curtis e este é o capitão Brass, da polícia de Las Vegas.

A mulher de cabelos curtos, brilhantes e lisos virou-se para eles sorrindo.

— Eu sei que tem de ir para casa, mas será que poderia dar uma palavrinha com eles sobre... Melody?

— No que eu puder ajudar - disse ela estendendo a mão para Curtis, o sorriso não tinha malícia, apenas simpatia, e depois ela fitou Brass, que tinha os olhos arregalados e o queixo caído. - Capitão?

Brass pigarreou e estendeu a mão para ela. Era Victoria Seeger, a mulher que encontrar caída no corredor do Cashmere.

— Você poderia nos falar sobre Melody Lindner? - iniciou Curtis.

— Bem - Vickie indicou a eles um sofá -, sei apenas o que todas as outras sabem, era uma garota a fim de festas e badalações.

— E qual delas não é? - retrucou Brass.

— Duas ou três, eu diria. As que pagam os estudos com o dinheiro que ganham aqui. Mas Melody era chegada em festas e estava sempre pronta para uma que surgisse inesperadamente.

— E você? - quis saber Curtis. - Ia às festas que ela ia?

— Eu? - Vickie quase soltou uma gargalhada. - Não, detetive. Eu não. Eu chego, me apresento e depois vou para casa. Mal falava com ela. O que sei ouvi das outras meninas, elas gostam de falar sobre a vida umas das outras.

— E a senhora não gosta - Brass foi irônico. O sorriso no rosto de Vickie se fechou e ela o fitou com outros olhos.

— O senhor pode conseguir intimidar as pessoas com esse seu tom, capitão Brass, e pode usá-lo com quem quer que seja, mas não comigo. Eu não sou mulher de viver de picuinhas da vida alheia. Tenho mais o que fazer.

Ele riu com sarcasmo. Brincos e pulseiras tilintaram quando ela se pôs de pé.

— Pode perguntar a qualquer uma das meninas ali fora, capitão, e não poderão lhe dizer nada sobre mim, porque não comento sobre minha vida e não faço comentário sobre a vida dos outros. Eu sei o que ouço, não posso simplesmente apertar um botão e deixar de ouvir o que falam ao meu redor.

— É uma mulher de classe no meio de um... - ele tornou a ser irônico, mas ela o interrompeu impaciente.

— Não - ela foi grossa -, não é uma questão de classe. É uma questão de não se envolver com certo tipo de gente. Eu danço porque gosto e porque paga bem, pelo menos sabendo o que sei fazer. Eu danço, somente isso, e depois eu vou para casa cuidar dos meus interesses e do meu filho. O senhor o viu na delegacia. Então... posso ajudar em mais alguma coisa?

— Não, obrigada - disse Curtis saindo do camarim, Brass a seguiu.

Brass e Curtis voltaram para o distrito, Catherine descobriu uma impressão parcial na valise, mas não havia digital no sistema que combinasse com ela. Brass serviu-se de um café e se sentou em sua escrivaninha por um momento. Ele não estava contente com o que tinha acabado de acontecer. Era certo que sempre agia da mesma forma com todos os suspeitos, mas tratar a mulher daquela forma tinha lhe rendido uma preocupação. Não sabia porque o remorso o minava e o fazia relembrar o interrogatório no camarim exótico. O que sabia era que voltaria a falar com ela, porque na hora da saída tinha encontrado uma das dançarinas conversando com um rapaz sobre Melody, sobre a noite que o crime acontecera, na qual Melody tinha pego emprestado o carro de Vickie. Mas resolveu deixar estar por aquela noite, já tinha se mostrado grosso o suficiente por um dia, especialmente quando ela o tratara tão delicadamente no hospital ao reconhecê-lo como seu salvador.

Finn Carter tinha roubado o Picasso para um homem desconhecido que lhe deixara o pagamento num caixote debaixo de um banco de ônibus. Não havia qualquer digital no caixote ou nos papéis e plásticos que envolviam o dinheiro. Carter foi indiciado por arrombamento, pela quinta vez.