Passaram-se seis meses desde que Valentine acordou na enfermaria. Ele estava, podemos dizer um pouco menos pessimista. Claro, ele ainda estava confuso e triste. Ainda tinha vontade de desistir. Mas não demonstrava. Nesse meio-ano, ele conseguiu reconstruir a mascara que sempre usou. Não demonstrava quase nenhum sentimento, e quando demonstrava, era ainda de forma contida.

Passara há agir um pouco diferente. Um sorriso falso e debochado estava sempre em seu rosto e ele passara a falar mais. Não que falasse realmente, ele apenas respondia quando se dirigiam á ele, comportando-se de forma estranha a todos, até para ele mesmo. Mas não ligava. Bastava para ele que ninguém visse. O olhar turvo, vazio, ainda sem esperanças. Que ninguém percebesse. As frases com um duplo sentido, sempre escondido, nas entrelinhas, quase imperceptíveis que ele falava às vezes. Que ninguém notasse. O andar um tanto cauteloso, os olhares furtivos para os lados, o medo de ter alguém o observando, às vezes. Pois podia jurar que alguém o seguia, sentia a presença, mas não conseguia distingui-la.

Tratava o juiz de maneira diferente. Agia como se ainda admirasse-o, quando na verdade tinha nojo dele. Mudara completamente. Por fora. No intimo, ainda tinha medo, ainda tinha muito ódio, amargura e tristeza. Por tudo.

Treinava arduamente, e o corpo antes fraco, agora estava mais forte. Mas ainda assim esguio e ágil. Alimentava-se, pelo menos duas vezes ao dia. Como faria alguém que tivesse algo para o que viver.

Não que tivesse um motivo, algo bom pelo que viver. Mas não queria ser fraco. Nunca mais. Não deixaria ninguém chegar perto demais. Embora tratasse o juiz "respeitosamente", sabia que se ele tentasse algo, dessa vez teria forças para se defender. Não que sua força se igualasse á do juiz, mas seria o suficiente para pelo menos fugir.

Agia de forma covarde e falsa, ele bem sabia. Mas preferia assim, nunca próximo demais, nunca exposto, fraco demais.

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Mais um dia se iniciara, e Valentine estava treinando sozinho, num terreno arenoso perto dos campos de treinamento. Socava uma grande pedra e aperfeiçoava seus golpes. Parou de súbito quando sentiu as mãos doerem, percebeu que estivera tão determinado, que apesar de controlar seu cosmo, socara a pedra com força demais, e seus punhos estavam sangrando. Sabia que não podia ignorar os ferimentos, mas queria continuar treinando mais um pouco. Tirou a regata cinza que usava e rasgou-a em algumas tiras, enfaixando suas mãos. Continuou socando a pedra, tentando se concentrar para dessa vez não se machucar.

Ficou mais algum tempo treinando, e quando estava voltando para casa sentiu a presença de alguém atrás de si. Tinha a impressão de que conhecia aquele cosmo, e por isso ficou apreensivo. Virou-se rapidamente, mas não havia ninguém. Suspirou, cansado e se pôs a caminhar para casa, devia estar apenas imaginando coisas.

Radamanthis deu um risinho baixo de escárnio ao ver Harpy ir embora. Por pouco ele não o vira ali. Estava seguindo o rapaz por diversão. Às vezes não camuflava todo seu cosmo, era o bastante para que o outro percebesse alguém ali, mas era pouco o suficiente para Valentine não poder distinguir quem era. O juiz não sabia dizer por que gostava tanto de atormentá-lo, afinal ele nunca fizera nada de mal para si. Mas não se importava. Radamanthis apenas queria vê-lo chorar, se contorcer, com medo. Adorava aquela sensação, de ter poder sobre as pessoas, de poder fazê-las sofrer. Ver a expressão de tristeza, as lágrimas, a confusão, o desespero, era o melhor de tudo.

Valentine entra em sua casa e se deixa cair em uma cadeira, lembrando. A sensação que tivera quando sentiu aquele cosmo... Forçou a memória, e alguns flashes rápidos apareceram. As surras que Radamanthis dera nele. Quando sentia o cosmo do juiz elevado, ou mesmo camuflado, sempre sentia aquilo. Aquela espécie de arrepio, que subia da base da coluna até nuca, uma sensação ruim, de frio. Arregalou os olhos, mas por quê? Por que o juiz estava seguindo-o? Afinal, Wyvern era um dos três grandes juízes do mundo dos mortos, para que seguiria um simples espectro? Não tinha explicação, pensou, mas mais flashes passaram. Cenas de quase um ano atrás, no dia em que se perdera no castelo. Podia ser isso, será que o juiz queria... Queria-o novamente? Sentiu o peito doer e se levantou, as mãos começando a tremer.

Foi até o banheiro e lavou o rosto na pia tentando se acalmar. Depois algum tempo se acalmou, suspirou e olhou a sua volta, vendo sua imagem refletida no espelho. Os cabelos rosa escuro, quase vermelhos meio caindo pelos ombros e meio espetados para cima como sempre. O rosto anguloso e pálido um pouco molhado pela água, os olhos verdes um tanto quanto escurecidos, talvez pelo medo e a adrenalina. E aquilo. Fazia tempo que não reparava naquela pequena cicatriz. Era quase invisível. Quase. Passou levemente os dedos sobre ela, era fina, ao lado da boca. Parecendo um rasgo que foi costurado, pensou. Não deixava de ser. A cicatriz tinha mais ou menos uns nove meses. Apoiou as mãos na pia e abaixou a cabeça, encostando-a no vidro frio do espelho, tentando não pensar em nada.

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A vida não melhorara para ele, continuava não tendo amigos, continuava fingindo como sempre fingira, e, apesar de estar treinando, e, supostamente ficando forte, se sentia fraco. Covarde demais, e isso começava a incomodá-lo. Mas uma coisa o incomodava mais. O fato de o Juiz estar seguindo-o às vezes. Percebia que apesar de camuflado, conseguia sentir o cosmo do outro, e no mínimo, ele queria que Valentine sentisse. Mas Harpy não falava. Não dava a entender que sabia de alguma coisa. Deixava as coisas no ar, queria ver até onde aquilo iria chegar.

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Levantara cedo aquele dia, pois gostaria de, antes do treino, arrumar a pequena casa onde vivia. Mexendo nas gavetas antigas, há muito intocadas, achou um caderno velho, sentindo um reconhecimento familiar. Abriu o caderno, que tinha a capa de um azul um pouco apagado, e começou a virar a folha, vendo os rabiscos que costumava fazer a anos atrás. Olhou o relógio na parede. Ainda havia tempo. Sentou-se no chão, pegando um lápis que estava jogado sem motivo num canto do aposento e começou a rabiscar. Riscos formaram-se, sem assumir forma definida. Depois de alguns minutos descansou o lápis sobre o papel, vendo o que desenhara. As linhas mostravam uma tormenta, uma tempestade, um desenho em preto e branco de uma chuva forte. E um sombra ao fundo da imagem. O rosto de Valentine assumiu uma expressão de surpresa ao reconhecer a única coisa definida na imagem. O vulto desenhado, carregava algo nas mãos. Uma corrente que se lembrava ser prateada, com certeza um pouco escura, e pendendo no fim dela um pequeno pingente de um metal azulado, em forma de lágrima. Largou o caderno no chão e correu para o armário.

Depois de revirar muitas coisas, achou o que procurava. A corrente. A única coisa que sobrara de sua infância. Não fazia idéia de como aquilo havia resistido ao tempo, não se lembrava muito bem por que a tinha guardado. Mas uma estranha sensação de conforto o invadiu, um sentimento que há muito ele não se lembrava. Deu um pequeno sorriso. Talvez o primeiro verdadeiro em muitos anos. Colocou o colar no pescoço olhando-o. Lembrando-se. Colocou uma camisa negra por cima, de gola alta e mangas compridas. Estava frio. Colocou a calça de treinamento e saiu de casa, a mão na base do pescoço sentindo o pequeno relevo formado pelo pingente.

Ao chegar ao campo de treinamento respirou fundo, reassumindo a máscara de sempre, com o sorriso sarcástico, "re-incorporando" aquilo que fingia ser. Olhou ao redor, observando os espectros. Treinando sozinhos os em pares. Observando atentamente, viu aliviado que o Juiz não se encontrava ali por enquanto. Viu então uma figura que imaginava conhecer. Sylphid. Soubera que fora ele, por ordens de Radamanthis, que o levara a enfermaria. Andou devagar na direção dele.

"Basilisc, gostaria de treinar comigo?"

O espectro olhou-o com surpresa, afinal, aquele era Harpy, o sozinho, que não queria companhia. Não sabia o que motivara o outro a "pedir" aquilo, mas aceitaria, até por que treinar com outra pessoa era melhor. Sylphid acenou com a cabeça concordando e se pôs em posição de luta.

Valentine sorriu sarcástico, isso será divertido, pensou. Começou a atacar, vendo o outro se esquivar rápido como era de seu feitio. Realmente iria se um bom treinamento.

Os dois tanto atacavam quanto defendiam, um com agilidade e o outro com leveza. Lutavam sem usar os cosmos, pois os treinamentos corpo-a-corpo eram mais seguros. De vez em quando se acertavam alguns golpes, mas não se deixavam abater e continuavam a luta. Mais ou menos uma hora depois, num lastimável estado, os dois deram a luta como empatada. Ambos tinham alguns rasgos na roupa, estavam cansados, e estavam sentados no chão, ofegantes.

Sylphid observou Valentine, reparando que como a camisa negra do outro havia rasgado próxima ao pescoço devido aos ataques, o tecido deixava ver uma corrente fina e resistente. Ficou curioso sobre o que era, mas não perguntou nada. Valentine levantou-se e limpou um pouco da poeira que estava em suas roupas. Estendeu a mão ao outro espectro, o puxando para cima e ajudando a levantar. Sem mais uma palavra deu um breve aceno ao outro e saiu caminhando. Basilisc balançou a cabeça, aquele ali não tinha jeito mesmo, pensou, indo treinar sozinho novamente.

Valentine estava no mesmo lugar dos outros dias, na grande pedra que era próxima aos campos. Depois de guardar seu pingente num bolso da calça, começou a treinar. Enquanto socava a pedra perguntava-se o motivo de ter feito o que fez. Não costumava, mesmo agora, se aproximar muito das pessoas, e quando viu lá estava ele, treinando com outro espectro. Decidiu não fazer mais isso, tinha abaixado a guarda e isso não poderia mais acontecer. Lembrou-se do gesto que fizera ao fim da luta. Ajudando o outro a levantar-se. Por que fizera aquilo? Não tinha idéia. Agira por instinto, se deixando levar pelo clima "descontraído" do treino. Seus pensamentos pararam e os músculos enrijeceram quando Harpy notou uma presença atrás de si. E, dessa vez, a pessoa não fazia nada para esconder que estava ali.

O rosto e o corpo rudes, os olhos frios e cruéis. Estava recoberto por uma armadura negra. Um dos espectros mais fortes de Lord Hades. Radamanthis. Valentine já sabia, antes mesmo de se virar, que era o Juiz. E, claro, o medo se fez presente, como sempre. E, como sempre também, Harpy fingiu. Curvou o corpo numa reverencia a seu superior e depois se endireitou, com um sorrisinho sarcástico na face. Esperando o que Wyvern iria fazer.

De repente se viu prensado a grande pedra pelo corpo do outro que o olhava, malicioso. Tinha seus braços segurados para cima, presos por uma das mãos do juiz, enquanto a outra mão estava apoiada na pedra. Valentine olhou para baixo, vendo o joelho do outro, insinuando algo, no meio de suas pernas. Viu que o juiz planejava aproximara-se mais.

"Pare! Solte-me!"

Radamanthis olhou para ele com uma cara divertida e irônica.

"Ora, ora... resolveu rebelar-se agora? Já faz algum tempo não?"

Valentine aumentou seu cosmo, tentando soltar-se. Como o juiz não esperava que ele fizesse isso, conseguiu se esquivar, com movimentos leves. Acho que havia conseguido fugir. Mas sentiu alguém segurando sua perna e caiu de borco no chão. Conseguiu se virar e saiu rastejando de costas, vendo Radamanthis aproximar-se.

"Me deixe em paz..."

Já estava tremendo, nem tanto pelo frio, mas mais pelo medo que fosse tudo se repetir. Foi quando sentiu outro cosmo se aproximando. Radamanthis sentiu também e desapareceu dali num piscar de olhos. Valentine, que estivera tentando se levantar, ao ver o outro finalmente ir embora, se deixou cair no chão, de olhos fechados. Ouviu passos rápidos se aproximando e alguém parado de pé ao seu lado. Não ligou. Apenas naquele momento, não importava que outra pessoa o estivesse vendo naquele estado.

Sentiu algo molhado cair eu seu rosto e seu corpo, e percebeu que começara a chover. Ouviu a pessoa que havia se aproximado ajoelhar-se ao seu lado e tocar seu braço. Imediatamente abriu os olhos e se esquivou. A expressão de medo desaparecendo e dando lugar a uma de surpresa, quando reconheceu quem estava ali. Abriu a boca para falar, mas foi à voz do outro que ouviu primeiro.

"O que diabos aconteceu Harpy?"

Valentine, sentado no chão, ainda numa posição defensiva, relaxou e balançou a cabeça. Negando que houvesse acontecido algo. O outro ficou em silêncio. Os dois apenas sentindo a chuva cada vez mais forte caindo sobre eles. Valentine olhou para suas pernas, reparando que o bolso da calça havia rasgado. Sentiu uma angustia grande. Onde estava, onde? Não podia perder aquilo. Pôs-se de joelhos no chão, tateando a procura da corrente. Encontrou-a, havia caído a apenas alguns centímetros. Colocou-a em volta do pescoço e o olhou para cima. Vendo que o outro havia se levantado e estendido à mão para ele, num gesto idêntico ao que ele fizera antes. Valentine sorriu irônico e aceitou a ajuda. Levantou-se e falou, sério.

"O que veio fazer aqui Sylphid?"

Basilisc olhou-o com uma mal-disfarçada expressão de preocupação.

"Senti seu cosmos se elevando, como se você estivesse sendo atacado. Então vir ver o que havia acontecido."

Valentine, ficou sem jeito e corou um pouco, o que não foi percebido, já que a chuva grudara seus cabelos no rosto.

"Não aconteceu nada de preocupante... eu apenas me distrai enquanto treinava... só isso"

Sylphid arqueou uma sobrancelha, descrente, sabia que não era verdade, mas não insistiria.

"Hum... ok..."

'Então o que você estava fazendo atirado ao chão?', Completou em pensamento.

Observou o outro, vendo que seus pulsos estavam vermelhos, como se tivessem sido pressionados com muita força e que o outro apesar de não demonstrar estava prestes a desabar. A roupa de ambos havia colado ao corpo por causa da chuva, mas eles não se importavam. Valentine olhava para o chão e Sylphid para o céu. A chuva parou alguns minutos depois.

Harpy olhou o outro pelo canto do olho, se virou de costas e começou a andar. E Basilisc podia jurar que ouviu um quase imperceptível sussurro.

"Obrigado..."

Ficou ali, parado em meio ao campo deserto, vendo o outro se afastando. Lembrou-se da corrente que o vira usando na luta e do jeito transtornado do outro ao pensar que a perdera. Perguntou-se por que. Mas virou-se e saiu dali também. Afinal, aquilo não era problema seu e Valentine não parecia querer falar nada.

Radamanthis observou tudo de longe. Fugira, sim. Não que tivesse 'medo' do espectro ou algo assim, afinal o outro também era seu subordinado. Saíra de lá por que não queria ser descoberto e também por que estava curioso. Afinal, Harpy, nunca antes se aproximara de outro espectro, e isso fora bom para seus planos. E agora estava conversando com o outro. Apertou os olhos, com raiva. Não que fizesse alguma diferença para ele. Mas se Valentine estivesse completamente sozinho, temeria mais. Se desesperaria mais. Por não ter em quem se apoiar. Mas talvez... Talvez isso não fosse uma desvantagem. Pensou o juiz com um sorriso e um brilho cruéis no rosto.

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Ok, ok... Agora é definitivo, eu vou tentar continuar essa fic, então espero que tenham gostado desse capítulo e que comentem... Afinal, isso sempre ajuda...