Parte 1 – Improvisação
Help me get down, I can make it. Help me get down.
If I only knew the answer, I wouldn't be bothering you.
O frio invadia o pub todas as vezes que a porta se abria para dar lugar a mais um cliente. O vento gelado do mais forte inverno que a Inglaterra via em décadas raspava pelo rosto de Harry a cada minuto, mas ele declinou a sugestão da garçonete loira de mudar-se para uma mesa mais protegida. O respingo de atenção em meio ao ambiente bagunçado lembrou por um segundo o calor aconchegante da casa em Hogsmeade, distante naquele momento. Harry ergueu os olhos para encarar a garçonete, por um segundo esperando encontrar cabelos ruivos e olhos castanhos vivos, mas a jovem já havia se afastado, indiferente, em direção a outra mesa. Harry voltou a se concentrar no copo de cerveja, com uma ligeira gratidão pela distância novamente delimitada. Era exatamente o que ele buscava naquela noite.
Ele nunca havia aprendido a realmente gostar da cerveja trouxa, mas bebia sem hesitação. O gosto amargo descia por sua garganta como uma novidade libertadora. A última vez em que bebera aquela cerveja, em sua despedida de solteiro, ficava para trás, há anos de distância. Naquela noite, a amargura do líquido contrastou com o paladar até então macio de sua boca. Harry agora agradecia pela força com que a cerveja arranhava sua garganta. Já havia algo de amargo nela.
Ignorou o movimento no bar com a tranqüilidade de quem não possui dívidas. As vozes dos aurores subordinados no Escritório de Aurores lhe pedindo aprovação ou conselho em cada ação, os murmúrios admirados dos rostos maravilhados ao identificarem a cicatriz vermelha em sua testa, os pedidos doces e atenciosos de sua mulher, todas as noites. Tudo isso ficava para trás; nada exigia sua atenção. Ali, não devia a mais ninguém. Apenas ao gosto amargo que descia raspando sua garganta, devia sua gratidão por apagar de si o gosto doce da boca suave de Ginny.
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O jovem loiro entrou no pub sem prestar muita atenção no caminho que fazia ou nas palavras que dizia; agia por instinto, sem pensar. Cumprimentou o velho enrugado que se sentava sempre na entrada, como a sombra cômica do que poderia se chamar de segurança, pendurou o casaco no cabideiro ao lado da porta e se sentou no primeiro banco vazio do balcão. Betty, a garçonete loira, sempre o questionava quanto a isso: vinha ao Tucker's End quase todas as noites, mas não possuía um lugar de sua preferência; sentava-se no primeiro espaço livre que encontrasse.
Desta vez ele foi ainda mais rápido em chegar até um lugar. Só o que queria, depois do escândalo de vozes e lágrimas histéricas que presenciara em sua casa, era a dose habitual de whisky barato, puro. Da segunda dose em diante ele costumava permitir que Betty trouxesse a bebida com gelo, mas naquela noite ele achava que somente o faria depois da terceira. Ou a partir do momento em que a moça começasse a alertá-lo para o fato de estar bebendo demais, o que geralmente acontecia perto da quinta dose.
A garçonete loira veio atendê-lo com o mesmo sorriso com que o recepcionava diariamente: estático e belo, cheio de simpatia e obrigação. Uma amostra de seu sorriso verdadeiro ele via quando ela o chamava pelo nome. Depois de anos freqüentando o pub, ela ainda parecia se divertir com o fato de alguém possuir um nome tão estranho.
Mas as curtas empreitadas simpáticas da garçonete não eram o suficiente para arrancar mais do que um olhar reconhecedor do jovem loiro. Afinal, buscava a indiferença do bar todos os dias justamente para não ser lembrado de que era, realmente, Draco Malfoy.
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À primeira vista Harry teve o impulso de levantar-se e sair do pub discretamente. Mas reprimiu a vontade rapidamente, ao perceber que estava tão confortável no bar que nem mesmo aquela presença o abalaria. Draco Malfoy havia mudado bastante desde os anos de Hogwarts. Harry costumava encontrá-lo nos corredores do Ministério da Magia, geralmente em busca de algum memorando para o chefe do Departamento de Transporte Mágico, onde havia conseguido um emprego regular na Central de Testes para Aparatação. Seus olhos cinzas dificilmente demonstravam qualquer coisa além de um tédio letárgico e profundo. Seus cabelos não traziam mais o brilho platinado de antes, mas se perdiam no rosto pálido do rapaz. Harry sempre o cumprimentava com um "bom dia" polido, que ele respondia com um aceno de cabeça sem encarar os olhos verdes do grifinório.
A expressão do loiro não estava tão diferente no momento. Draco bebia um copo de whisky puro, a goles longos e constantes. Seus olhos se fechavam sempre que engolia um pouco do líquido, e seu rosto se contorcia em uma careta rápida. Um brilho de satisfação se formava nos orbes azuis cada vez que isso acontecia. Como se o gosto ruim e barato fosse o afrodisíaco ideal para a noite solitária e melancólica que teria.
Harry sabia exatamente o que acontecia, pois sentia a mesma coisa toda vez que entornava um gole da cerveja amarga em sua garganta. Tomou um demorado, fechando os olhos enquanto se deixava sentir apenas o gás arranhando o caminho até seu estômago. Quando voltou a abrir os olhos, soltando um ruído de alívio refrescante, distinguiu duas orbes cinzas a mirá-lo. Primeiro, tomados pela surpresa. Depois de um momento, no entanto, dominados pelo mesmo brilho satisfeito que Draco produzia depois do gole de whisky.
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Harry Potter. O herói que o mundo mágico havia acolhido como salvador preferido. Auror formado com honras, três Ordens de Merlin primeira classe – apenas pela falta de um prêmio melhor -, cotado para ser o próximo chefe dos Aurores, após pouco mais que alguns anos de trabalho. Não havia como negar que se alguém tentasse ilustrar a definição de sucesso, pensaria em Harry Potter. Por isso mesmo era tão difícil compreender a presença dele naquela mesa discreta do pub Tucker's End. Não havia lugar mais distante da definição de sucesso como aquele bar.
Draco imaginou se talvez ele não estivesse em mais alguma missão para o Ministério, como ainda existiam muitas, com o objetivo de prender bruxos das trevas que hoje viviam escondidos no meio de trouxas. Mas dificilmente seria isso; Harry estava completamente sem disfarce, jamais colocaria o rosto à mostra daquela maneira sem ao menos esconder a cicatriz. O moreno, no entanto, bebia a grande caneca de cerveja sem demonstrar maiores preocupações; seus olhos verdes traziam um brilho que mesclava satisfação e tédio, e seu corpo se ajeitava no banco confortavelmente, sem mostrar o mínimo de incômodo por estar ali.
Definitivamente, Harry Potter havia escolhido livremente o mesmo pub de Draco para vir naquela noite de sexta-feira. As razões disso o loiro poderia apenas imaginar. Ou perguntar diretamente – o que, curiosamente, lhe pareceu a saída mais interessante.
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A cerveja escura que descia por usa garganta era como um analgésico barato, que não funciona verdadeiramente, mas faz a mente achar que sim. Harry não considerou deixar o pub ou aparatar (ele duvidou que algum trouxa fosse reparar se o fizesse) quando viu que Draco Malfoy havia levantado de seu lugar e andava calmamente na direção de sua mesa. Mas não achou razões para fazê-lo. Era desgastante demais procurá-las.
"Sabe o que eu pensei na primeira vez que entrei nesse lugar, Potter?"
Draco não demonstrou curiosidade, surpresa ou vontade ao se sentar confortavelmente na cadeira defronte a Harry e fazer a pergunta. O último também não esboçou nenhuma emoção ao balançar a cabeça em negação.
"Finalmente consegui achar o último do mundo em que Harry Potter colocaria o pé."
A boca fina do loiro esboçou, finalmente, um meio sorriso malicioso que fez Harry recordar tempos antigos e esquecidos, quando jogos de Quadribol eram razão para rivalidades. Ele acabou por rir, fracamente.
"Bem, Malfoy. É sempre bom te provar errado."
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Havia algo de delicioso em encontrar Harry Potter no lugar mais decadente que Draco conhecia. Ainda que o herói do mundo mágico não merecesse tal cenário, era bom saber que ele achava que sim.
"Então, Potter, o que o traz para o nosso mundo real?", perguntou Draco, após um gole de whisky.
"Cerveja quente e vento frio", Harry respondeu, sem hesitar.
Draco sorriu, com um ruído seco.
"Definitivamente nossas melhores atrações."
"Costuma vir muito aqui, Malfoy?" Harry tomou um gole comprido da cerveja antes de olhar para os olhos cinzas do outro com mais intensidade. "Um lugar tão…"
"Trouxa?" Draco completou a frase. Por mais que não gostasse de admitir para si mesmo, havia ensaiado aquela conversa inúmeras vezes, com pessoas sem rostos e varinhas na mão, nas longas noites solitárias e imundas no pub.
Harry aquiesceu, parecendo ligeiramente surpreso com o confronto repentino.
"Sabe, Potter. Eu sempre achei que os trouxas fossem inferiores por não saberem o que se passa no mundo mágico", começou Draco, terminando seu copo de whisky e sinalizando para a garçonete loira. "Mas eles têm sorte. Às vezes é melhor viver na ignorância."
"Então é isso que você vem aqui procurar?"
"Venho aqui procurar o álcool. Ele se encarrega do resto." Draco sorriu com metade da boca, e balançou o copo para Betty, que sacudiu a cabeça com eficiência e saiu na direção do balcão.
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Harry reparou que, se tivesse se dado ao trabalho de realmente conversar com Draco Malfoy nos corredores do Ministério da Magia, veria que ele não havia mudado tanto assim desde o fim de Hogwarts e da guerra. Harry provavelmente não voltaria a fazê-lo se isso acontecesse, mas lhe ocorreu pela primeira vez que ele não havia ao menos tentado.
"Achei que fosse fatal a um Malfoy beber whisky dessa qualidade", disse Harry, quando a garçonete voltou com um garrafa de whisky barato e serviu uma dose no copo do outro.
"E eu sempre achei que fosse fatal a um Malfoy conversar com Harry Potter por mais de dez minutos", respondeu Draco, imediatamente. "Mas a vida é cheia de surpresas, não é?"
Havia uma nota de rancor na voz de Draco, que Harry achou melhor não explorar. Indicou para a garçonete loira o copo, para que ela lhe trouxesse mais da cerveja amarga.
"Sabe, Potter, não somos todos que podemos decidir freqüentar lugares assim."
"Eu duvido que você não tenha outras opções, Malfoy. Sua família não perdeu nem metade da fortuna depois da gue-"
Draco riu, alta e secamente, como ainda não havia se permitido fazer.
"Justo você, Potter, achando que é tudo sobre dinheiro?"
Harry mirou o rosto pálido do outro; os cabelos já sem o mesmo brilho de anos atrás, os olhos cinzas rodeados por olheiras profundas, rugas precoces cobrindo a testa. Ele sabia sobre o que era. Era justamente por aquilo que havia resolvido entrar no mesmo pub sujo naquela noite fria.
"Pois não ache que seja mais fácil estar do outro lado", disse Harry, continuando a fitar o outro com o olhar inexpressivo. Os olhos de Draco, do outro lado da mesa, indicaram que ele não precisava de mais explicações.
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Quando Harry contorceu o rosto na hora de tomar um gole da cerveja que Betty lhe havia trazido, Draco reparou nas rugas de tensão que se formavam em sua testa. Os olhos verdes pareciam cansados, como quem passa noites seguidas sem dormir.
"Você não devia passar seus dias comemorando a vitória e a destruição de Você-Sabe-Quem?"
Desta vez foi Harry que riu, por trás do copo de cerveja marrom.
"E quem é que iria atrás das pessoas que ainda acham que isso não aconteceu?"
"Quem você mandar. Não é a vantagem de ter ganhado? Poder fazer o que quiser?", disse Draco, com obviedade na voz.
Harry riu, novamente, mas desta vez havia uma ponta de consideração em seu olhar.
"Talvez Voldemort devesse ter vencido, afinal. E acabariam todos desocupados, bebendo num pub todas as noites."
"Pelo visto não seria tão diferente assim", Draco sorriu, levando o copo a boca novamente.
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A cerveja perdia consideravelmente sua amargura com o passar do tempo, e foi só quando Harry percebeu que bebia longos goles consecutivos sem sentir o ardor em sua garganta que ele passou a prestar atenção na quantidade da bebida que tomava. Era mais do que jamais havia conseguido tomar quando se tratava de cerveja trouxa.
Draco Malfoy continuava a sentar em sua mesa, eliminando palavras ásperas com uma voz arrastada. Harry fazia o mesmo, com menos ironia bem angulada, mais colocações calorosas, mais verdade nas afirmações. Não acompanhava o cinismo ainda muito sonserino do outro, e era punido por isso com palavras mais verdadeiras do que a boa educação autorizaria.
"Faz tempo que não tenho uma conversa assim", comentou Harry, após um gole em um copo de cerveja cheio, recém trazido pela garçonete.
"Sem que a outra pessoa lamba seus pés durante todo o tempo?", completou Draco, ciente da verdade em suas palavras, ainda que Harry não fosse admitir.
"Sem que eu precise me desculpar a outra pessoa por não ser quem ela pensa que eu sou", terminou Harry.
"Foi o que eu disse" disse Draco, terminando o que seria provavelmente o quarto copo do whisky barato, que agora era servido com pedras de gelo. "Não se preocupe, Potter. Minha língua não vai passar nem remotamente perto dos seus pés."
"Nunca se sabe como a noite vai acabar", disse Harry, sentindo a cerveja descer suavemente por sua garganta.
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Potter tinha, obviamente, sérios problemas. Como podia escolher um lugar arruinado como aquele, quando qualquer bruxo que fosse questionado - inclusive Draco, ainda que a contragosto - diria que ele possuía o lugar de maior prestígio no mundo mágico?
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Malfoy não sabia como, às vezes, possuía sorte. Era como os trouxas, afortunados pela ignorância. Draco havia sido afortunado pela indiferença.
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Grifinórios eram tão estúpidos. Insistiam em encarar o perigo e arriscar suas vidas, apenas para depois terem suas próprias vidas destruídas por um sentimento patético de culpa. E nem ao menos conseguiam admitir o arrependimento.
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Harry se achou invejando, ainda que por um ínfimo momento, o desprezo com que o outro encarava os fatos passados. Sem culpa, sem arrependimento, apenas o lamento por não ter feito escolhas corretas, apesar de não saber, ainda hoje, quais estas eram.
Harry percebeu que nem mesmo ele próprio poderia afirmar quais seriam.
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O brilho nos olhos verdes continuava ali, quando ele falava apaixonadamente de um assunto relacionado a todas aquelas glórias e vitórias do passado. Ainda que esta paixão parecesse efêmera, em meio a frases curtas e sem continuidade, Draco se perguntou se Potter sabia que ela ainda existia.
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Harry gostaria de saber, pelo menos por um dia, como seria viver no anonimato. Com a escuridão que tira responsabilidades, legados e necessidades. Malfoy parecia ter aprendido a conviver bem com tudo isso, como alguém que se acostuma com a presença de um parente indesejado e acaba por apreciá-lo.
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Potter tinha, claramente, noções muito distorcidas do que era o anonimato no mundo bruxo. Quando sua família é acusada de se afiliar com o bruxo mais odiado do mundo, seu nome é jogado na lama e qualquer capacidade sua desconsiderada apenas por sua origem, anonimato se torna um eufemismo bem vindo.
Draco imaginou se Potter se lembrava de como era viver em um armário embaixo da escada. E se perguntou se o outro saberia que o anonimato era, na verdade, viver num mundo que era todo tão sufocante como um armário.
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Harry notou que, com apenas um pouco de atenção, era possível distinguir nos fios platinados do cabelo de Draco Malfoy o mesmo brilho dos anos distantes de Hogwarts.
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O mundo seria tão mais simples se todos o encarassem da mesma forma que sonserinos. Se cada um cuidasse de si mesmo, não haveria razão para que ninguém precisasse cuidar dos outros.
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Harry se perguntou se sua vida teria sido mais fácil se tivesse aceitado o conselho do Chapéu Seletor no primeiro ano e ido para a Sonserina. Se seria capaz de encarar tudo com a mesma indiferença de quem não se envolve porque simplesmente não precisa.
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Era lógico que não. Se todos cuidassem de si mesmo, os grifinórios arranjariam alguém para salvar mesmo assim, nem que precisassem destruir alguém para isso.
Eles próprios, no caso.
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"Malfoy", disse Harry, após um momento de silêncio. "Você realmente acha que vir até um pub sujo todas as noites resolve?"
"Resolve o quê?", perguntou Draco, quase num resmungo.
"O que quer que você queira resolver quando decide vir aqui."
"Minha sede. É amplamente satisfeita."
"Mas e o resto?"
"O resto não muda, Potter. Nunca vai mudar. Vir aqui só me faz esquecer isso."
Harry encarou o rosto pálido do outro e seus olhos cinza eram como reflexos. Miravam-no com indiferença, entorpecimento, cansaço, conformidade. Como se tivessem se cansado de lutar contra o destino e apenas aceitassem o que viesse, sem frustração. Como se ele soubesse exatamente que próximo erro aconteceria, mas não tivesse vontade de se esforçar para impedi-lo.
Um segundo fez Harry, envolto na frieza ardente que parecia ser irradiada daqueles olhos, também ter certeza do que aconteceria em seguida.
Sabia muito bem o tamanho do erro que viria. Mas não conseguiu se forçar a evitá-lo. Não como fazia todos os dias no Escritório de Aurores, travando batalhas que já o desgastavam demais e o lembravam de coisas demais que ele gostaria de ter abandonado num passado distante. Não como se forçava a agir perto de Ginny, com a atenção que ele sabia que ela merecia, mas sem a certeza de que ele era a melhor pessoa para dá-la.
Harry sabia que o certo naquele momento seria pedir a conta para a garçonete, sair do pub e voltar para o apartamento que dividia com Ron. No dia seguinte, visitaria Ginny logo pela manhã e voltaria a se perguntar as mesmas coisas sem que se permitisse, ao menos uma única vez, saber como seria se tivesse ido atrás das respostas contrárias.
Harry chamou a garçonete, mas não pediu a conta. Os olhos de Draco não indicaram surpresa alguma quando ele perguntou se havia algum quarto vago na hospedaria acima do pub.
Precisava daquela uma única vez. E, aparentemente, Draco também.
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and if all our days are numbered, then why do I keep counting?
