- Nossa, vocês estão chegando cada vez mais tarde...
- Como assim?
Ela lhe sorriu novamente, enquanto ele se levantava, sendo ajudado pela mão macia da mulher. Shaka alisou sua roupa, que havia ficado amassada com a queda enquanto a mulher acendeu um cigarro.
- Apenas chegam tarde. Mas tudo tão bem, vamos começar...– ela foi para trás de uma escrivaninha, onde havia um computador, um vaso com rosas e alguns papéis – Nossa... você precisa de um bom banho! – ela começou a digitar algo no computador, o que atraiu a atenção de Shaka.
- O que está escrevendo?
- Que você precisa de um bom banho... gosta de água quente?
- Como assim? – ele perguntou, um tanto irritado.
- Ótimo, banho quente...
- O que?! Me diga, o que está acontecendo! Que lugar é esse?
- Gosta de que tipo de roupas?
- Você é surda?
- Vou providenciar um quimono. Depois você pode escolher outra roupa.
- Olha aqui, eu não quero me irritar com você...
- Gosta de rosas? Lavanda? Baunilha? Algum aroma em especial?
Shaka passou a mão na testa. Estava ficando nervoso.
- Estou falando com você – disse a mulher.
- Também estou tentando falar com você!
- Seja educado e deixe uma dama falar na frente – ela disse sorrindo, soltando a fumaça do cigarro pelas narinas e pela boca.
- Mas eu...
- Você tem cara de quem gosta de baunilha... – e voltou a digitar no computador – Gosta de música clássica? Rock? Techno?
- O que isso tem a ver?
- Vou colocar clássica.
- Olha aqui...
Uma porta se abriu no fundo da sala.
- Pode ir para lá. Espero que goste do banho.
- Banho?
Ele ficou parado, pasmo, observando a porta que se abrira.
- O que está esperando? – a mulher se levantou e foi até ele, empurrando-o para dentro da sala – A água vai esfriar.
- Espere um pouco...
- Tire as roupas atrás daquele biombo e pode entrar no ofurô.
- Ofurô?
Ele se virou para frente, vendo a grande banheira de água quente soltando vapores pela sala. Pétalas de flores estavam dentro dela e no canto havia um biombo de vime com um cabide para roupas. Uma fragrância suave de baunilha e o som relaxante da música clássica também preenchiam o lugar.
- Aproveite o banho! – ela deu um sorrisinho e piscou, soltando mais uma baforada de fumaça.
- Ei... – Shaka tentou se virar para falar algo, mas ela se afastou e a porta se fechou rapidamente – Que idéia é essa?! – ele começou a bater contra a porta, mas não houve resposta.
Foi quando uma porta do outro lado da sala abriu e a mulher que havia lhe atendido entrou por ela, acompanhada de uma garota de longos cabelos loiros.
- Você acha que o senhor Mitsumasa pode descobrir algo sobre minha ascendência japonesa?
- June, você não tem ascendência japonesa!
- Tenho sim!
-Você tem cabelos loiros e olhos azuis!
- Meus bisavós podem ter sido japoneses!
- Eles eram da França!
- Eu sou japonesa sim! Eu apenas nasci no lugar errado! Meu coração tem tanto senso de honra e olhos puxados como qualquer samurai!
Shaka observou aquela duas estranhas mulheres discutindo. A estranha que havia lhe atendido agora usava um maiô preto e a sua acompanhante, um de cor vermelha muito forte. Elas discutiam amigavelmente e Shaka ainda não entendia o que fazia ali.
- Ah, June! Não comece com isso de novo!
- Eu compro mangás! – insistiu a loira.
- E quem não compra?
A menina mostrou a língua para a mulher que antes estava fumando e ela apenas sorriu.
- Estou entrando em crise de identidade por causa da minha ascendência não revelada!
- Você quer dizer não existente...
- Não revelada!
- Não existente.
- Ah... senhoritas...- Shaka interferiu enquanto elas caminhavam em direção a ele.
- Hum? Oh, olá! – disse a loira, sorrindo.
- June, esse é o senhor Shaka, nosso novo cliente.
- Como sabe meu nome? – a mulher de cabelos esverdeados sorriu e lhe entregou a carteira de identidade – Ei! Onde conseguiu isso?
- Eu tenho mãos leves. A propósito, meu nome é Shina e o senhor pode se trocar ali atrás do biombo.
- Shaka-san, o que acha do meu sotaque japonês? – perguntou June, segurando-o pelo braço e olhando diretamente em seus olhos, deixando Shaka vermelho e assustado.
- Ah June, não encha o saco dele!
- Mas, Shina-san...
- Não me chame de Shina-san!
O loiro deu um suspiro profundo e então, foi para trás do biombo. Não estava entendendo nada, mas desafiar aquelas mulheres para conseguir informações também não pareceria ajudar muito... Vestiu um dos calções que estavam dispostos ali. Apenas desejou que eles estivessem limpos para que ele pudesse usá-los.
E estavam... estavam até mesmo com a etiqueta. Havia também trajes de banho femininos, também com as etiquetas. Talvez, alguém mais fosse esperado.
Quando ele saiu de trás do biombo, viu as duas garotas já dentro da água. June estava arrumando uma espécie de mesa que flutuava dentro da água, colocando alguns xampus e cremes sobre ela. Enquanto isso, Shina passava alguns cremes nas mãos que estavam dispostos sobre uma mesa semelhante.
Shaka se aproximou a passos lentos e então, as duas o convidaram para entrar. Ele começou a entrar lentamente dentro da água. Realmente estava muito gostosa e não havia nada melhor que sentir a água banhando seu corpo que ainda a pouco estava cheio de frio da chuva.
Primeiramente, ele se banhou enquanto as duas mulheres lhe ofereciam sabonetes dos mais variados e deliciosos aromas e buchas macias para que esfregasse seu corpo. Depois disso, Shina pediu que ele sentasse em um banquinho de madeira que havia dentro do ofurô e ele obedeceu. June começou a lavar seus cabelos enquanto Shina lhe fazia uma massagem relaxante nos pés.
- Nossa... isso é muito bom...
- Cada ponto do seu pé que eu toco afeta uma parte em especial do seu corpo – explicou Shina – Agora, estou massageando a região fígado. Isso pode ajudar na digestão...
- Hum... com certeza – e se afundou um pouco na água, sentindo-se muito bem.
- Não mergulhe ainda, Shaka-san! Eu passei um creme que deve ficar ainda mais uns dez minutos no seu cabelo para que funcione bem.
- Oh, puxa... desculpe...
- Não precisa se desculpar. – ela continuou esfregando seus cabelos – Você tem cabelos muito bonitos, mas parece não cuidar muito bem deles.
- É, você tem razão... Faz tempo que não dou um trato nele.
Os três continuaram conversando amigavelmente até o fim do banho. Na verdade, Shaka desejava nunca sair daquela banheira deliciosa e enfrentar a chuva para voltar para casa... Quando terminaram o banho, Shaka vestiu um quimono providenciado pelas mulheres e então, elas o conduziram para outra sala.
A sala tinha aparentava ser um restaurante. Havia uma mesa no centro da sala, com almofadas em volta e um cardápio. Shaka sentou-se lá e abriu o pequeno livro preto para escolher um prato, porém, lá apenas estava escrito: "escolha o que quiser e nós cozinharemos para você".
Estranhou a frase e então, fechou o livro. Shina e June se aproximaram dele enquanto enxugavam os cabelos. June sentou-se ao lado dele, exibindo um grande sorriso.
- Gostou do banho, Shaka-san?
- Foi muito bom, June.
- Pare de ficar forçando o sotaque! – disse Shina dando um cascudo na loira – Nós sairemos agora. Os rapazes cuidarão de você.
- Os rapazes?
As duas apenas sorriram e os deixaram o local. Shaka ainda tentou se levantar e segui-las, mas então ouviu um grande barulho vindo do outro lado da sala!
- Buona sera, bambino! – exclamou um homem de cabelos espetados e cor roxa com um forte sotaque italiano que entrou na sala parecendo estar pronto para cantar.
- Pronto para uma noite de fastio e guloseimas? – perguntou o homem moreno e que mais parecia um segurança de boate de tão alto e forte que trazia consigo um violino.
- Benvenutto! Nosso restaurante irá servi-lo no que há de bom e melhor!
- Faremos tudo o que o senhor pedir sem pestanejar!
Shaka olhou tudo com estranheza enquanto os dois desenvolviam a música num ritmo louco e que ele nunca havia visto antes. Não sabia se ria ou se escondia o rosto de vergonha. Mas vergonha de que? Ninguém estava vendo mesmo. Decidiu aproveitar a música dos dois, que acabou com um uníssono de: "Estamos ao seu dispoooooooor!!!!"
O loiro bateu algumas palmas e os dois agradeceram, fazendo reverências.
- Meu nome é Máscara da Morte. Sou o chef daqui.
- Meu nome é Aldebaran. Sou especialista em bebidas.
- Puxa vida... São nomes bem originais...
- Tenho esse nome estranho porque minha mãe tentou me consagrar ao diabo, mas a polícia chegou e prendeu ela. Já estou entrando com um processo no cartório para poder mudá-lo – se explicou o chef..
- E eu tenho esse porque minha mãe adorava astrologia e como eu nasci sob o signo de Touro, ela me deu o nome de uma das estrelas daquela constelação – também se explicou o barman.
– Ahhh... – disse Shaka, tentando assimilar aquela informação bombardeada sobre ele – Vocês fazem... qualquer tipo de comida mesmo?
- Qualquer tipo!
- Nossa... eu nem pensei no que comer ainda... mas eu gostaria de uma boa macarronada...
– Macarronada! – Máscara da Morte deu um beijo nas pontas dos dedos da mão direito – Uma pasta deliciosa eu farei para você! Com todo meu carinho siciliano! – e deu meia volta, saindo da sala.
- E o que deseja beber, senhor? – perguntou o moreno sorrindo.
- Ah... bom... Eu não sei.. O que me sugere?
- Gosta de vinhos?
- Menos vinho seco.
- Trarei um delicioso vinho doce para você! – e também saiu da sala, exibindo o grande sorriso.
O loiro começou a explorar a sala com os olhos. Reproduzia muito bem um aconchegante restaurante em estilo japonês. Por um instante, arrependeu-se da macarronada e desejou pedir algo como sushi, mas o cozinheiro ficara tão empolgado que ele achou um pecado cancelar o pedido.
Foi então que se deu conta: Onde estava? Simplesmente havia esquecido disso enquanto estava no banho. Quem eram aquelas pessoas e que lugar era aquele? Começou a formular perguntas em sua cabeça para quando seus dois serventes voltassem, o que não tardou a acontecer.
- Aqui está uma macarronada feita à moda da minha Mamma! Está belíssima! Belíssima!
- E eu lhe trouxe o melhor dos nosso vinhos!
Ele comeu um pouco do macarrão e bebeu alguns goles de vinho. Tudo estava realmente delicioso, mas ainda precisava perguntar sobre o que era tudo aquilo.
- Ah, rapazes... Porque estão fazendo isso? Que lugar é esse?
Os dois se entreolharam.
- Logo você saberá disso – disse o italiano.
- Ele já está chegando – emendou o moreno.
- Ele? Ele quem?
Foi então que a porta de abriu novamente e uma mulher ruiva entrou empurrando um cadeira de rodas, onde estava um senhor de barba grisalha exibindo um sorriso no rosto. A mulher parou a cadeira em frente à mesa e o ajudou a sentar-se sobre a almofada.
- Obrigado, Marin.
- O que deseja comer hoje, senhor Mitsumasa? – perguntou Máscara da Morte.
- Carneiro seria bom.
- Ok, então será carneiro!
- E o que gostaria de beber?
- Gostaria daquela caipirinha, Alde!
- O senhor não deveria tomar essas coisas com álcool! – advertiu a ruiva.
- Ora, Marin! Quer que meu convidado pense que sou um velho doente? – ele disse sorrindo, voltando seu olhar para Shaka.
- E você? O que vai mangiare, Marin?
- Hoje não comerei nada, obrigada – ela disse, sorrindo.
- Ora, está trocando nossa comida pela de outro? – indagou Aldebaran, em tom de piada.
- Claro que não rapazes! Vocês sempre serão meus favoritos.
Os dois deixaram a sala, voltando para a cozinha.
- Então, meu jovem, como se sente?
Shaka não respondeu de imediato. Cada vez entendia menos coisas e aquilo tudo estava ficando realmente bizarro.
- Na verdade... tenho algumas perguntas.
- Isso é bom. O que quer perguntar?
- Onde exatamente estamos?
- Nos subterrâneos de Tokyo. Aqui, eu tenho uma empresa onde conduzo um estudo secreto.
- Um estudo? – perguntou Shaka com estranheza – Que tipo de estudo?
- Eu chamo meu estudo de "O Preço da Felicidade". Ele funciona de forma muito simples: eu escolho três pessoas aleatórias...
- As pessoas que encontram a cabine telefônica...
- Isso mesmo! – ele bateu palmas para Shaka – Você é muito inteligente, rapaz! Quando essas pessoas caem na nossa "armadilha", nós providenciamos para que elas tenham felicidade em sua vida, custe o que custar. Arrumaremos emprego, cuidaremos da aparência, problemas familiares, financeiros... tudo!
O homem mais novo balançou a cabeça sem entender muita coisa. Uma empresa destinada a trazer felicidade total a uma pessoa que eles nunca haviam visto antes... Era uma piada! Só podia ser uma piada...
Sim, havia sido bem tratado ali, porém, não acreditava que tal coisa existisse. Talvez, existisse em algum livro louco de Mu, mas não na vida real...Não ali e não nesse exato momento.
- Atenderemos todos os seus pedidos, senhor Shaka.
O loiro tentou se controlar, mas logo começou a rir. Ele ria com gosto e até chegou cair no chão de tanto que ria. Aquela situação era absurda demais para ser real. Havia encontrado uma empresa que funcionava como o gênio da lâmpada, mas tinha pedidos ilimitados.
- Desculpe-me... desculpe-me mas... isso é muito bizarro para ser real.
- Pode pensar o que quiser. Mas saiba que estaremos aqui quando o senhor precisar.
- Mesmo? – ele perguntou em tom desafiador – Pois bem, eu quero ir pra casa.
Nesse momento, Máscara da Morte e Aldebaran voltavam para a sala, trazendo o jantar de Mitsumasa.
- Alde, o senhor Shaka gostaria de uma carona para casa. Você pode providenciar isso?
- Imediatamente, senhor – respondeu o moreno.
Shaka então ficou pasmo. Mas tudo bem... uma carona não era nada de mais. Se levantou e caminhou até Aldebaran. Foi quando Mitsumasa puxou a barra de seu quimono.
- Lembre-se: sempre que precisar, conte conosco.
Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo quando o velho disse isso e então, seguiu o moreno, que já ia à frente, se dirigindo para a garagem. Na saída, June trouxe suas roupas passadas e limpas.
Estava tudo ficando cada vez mais estranho, mas tentou não entender mais nada: quanto mais tentava fazer isso, mais confuso ficava.
Os dois andaram por duas ou três salas. Shaka observava curioso como aquelas portas surgiam do nada no meio de paredes que pareciam ser de concreto puro. Parecia um sonho, ou talvez as paredes fossem um holograma... Então as tocou e eram realmente de verdade.
- Então, Shaka, você trabalha? – o brasileiro tentou puxar conversa.
- Hum... não, mas estou procurando emprego?
- Entendo... – ele tirou um bloquinho de papel do bolso e começou a anotar – Procura emprego em qual área?
- Ciências humanas...
- Ok – e rabiscou um pouco mais.
- O que está anotando aí?
- Espere e verá – ele disse sorrindo e guardando o bloco no bolso.
Chegaram em uma grande garagem, onde haviam vários carros. Todos muito bonitos. Era o sonho de qualquer colecionador.
- Em qual nós vamos?
- Naquele que você quiser.
Shaka balançou a cabeça, dando um risinho frouxo. Escolheu uma bela Ferrari preta que havia sido lançada uns dois anos atrás e que ele achara realmente linda.
- Você quer dirigir?
- Eu não sei dirigir...– disse Shaka, timidamente.
- Bom, eu posso lhe ensinar. O que acha?
- Desculpe, mas eu não tenho como pagar e...
- Oh não! É tudo gratuito.
- Mas... como assim?
- O preço é a sua felicidade – ele disse sorrindo e abriu a porta para o loiro entrar no carro.
Shaka entrou no carro e se sentiu confortável. Estava indo na parte de trás, assim como via nos filmes americanos, quando a senhora rica entrava em sua limusine. Só faltava o champanhe.
Faltava não: havia um balde de gelo com uma champanhe ao seu lado no banco.
O carro começou a funcionar e pouco depois, estava deslizando suavemente pelo chão da garagem. Sentiu que agora subiam uma rampa e logo, ganharam a rua pouco movimentada e de muitas luzes. Já eram dez da noite e a chuva não dava trégua.
Começou a pensar em como tudo aquilo havia acontecido de maneira tão rápida. Será que podia mesmo confiar naquelas pessoas? Será que a comida não estava envenenada ou algo assim? Ainda não sentia nenhuma dor ou efeito colateral, mas a insegurança começava a lhe corroer por dentro.
E agora? Estariam mesmo levando-o para sua casa? Ou estariam indo para outro lugar? Por precaução, decidiu que ia parar depois do apartamento. Deu as direções para Aldebaran que estava obedecendo a elas sem nenhuma alteração.
Viu a rua onde morava e a deixou passar... Parou apenas três ruas depois.
- É aqui, obrigado.
- Apareça lá qualquer dia. Eu lhe ensino a dirigir e poderemos fazer outras coisas, que tal?
- Outras coisas?
O moreno balançou a cabeça, um tanto vermelho e com um jeito abobalhado.
- Não pense em coisas pervertidas! Não fui isso que eu quis dizer!
- Oh não! Eu que pensei besteiras! Desculpe! – Shaka respondeu, gesticulando rapidamente e de uma forma muito atrapalhada – Eu vou indo...
- Aqui tem o papel onde você poderá nos encontrar – disse Aldebaran, colocando a mão no bolso e tirando um pequeno pedaço de papel – E por favor, não conte a ninguém sobre a existência da empresa.
- Não contarei – disse o loiro, guardando o papel no bolso de sua calça – Mas...como vocês fazem esse negócio da cabine telefônica? Tipo...de cair naquele colchão e...
- Bom, o senhor Mitsumasa diria que: "é uma combinação de dinheiro, tecnologia, uma pitada de pó de pirilimpimpim, imaginação e loucura".
Shaka o encarou com uma expressão estranha no rosto.
- E o que isso quer dizer?
- O senhor Mitsumasa diria, em outras palavras: "Não é da sua conta".
- Ah...Tá bom.
- Ele sempre tem uma resposta pra tudo...Bom, cuidado ao sair.
- Ok...
Shaka pôs o pé para fora do carro e caiu em uma grande poça de água.
- Você está bem? – perguntou Aldebaran, assustado com a queda dele.
- Oh... sim... – ele se levantou, mas tropeçou novamente no meio-fio.
- Vou lhe ajudar...
- Não, não, não! Não precisa! Já estou em casa e vou me trocar...–ele se levantou rapidamente e foi até a portaria do prédio que havia ali perto– Ah... é...–olhou para o porteiro que o encarava com uma expressão feia no olhar.
- O que quer aqui? – perguntou o porteiro.
- Olá... senhor... senhor... – apertou os olhos para que pudesse enxergar o nome do porteiro no crachá - Hiroshi.
- Meu nome é Hatori! – disse o porteiro gordo, dando mais uma mordida num cheeseburguer gordurento que devia ser a sua janta.
- Ah... sim! Isso! É que eu ainda não decorei seu nome e...
- Claro que não decorou, você não mora aqui!
- Moro sim! Moro no oitavo andar!
- Esse prédio só vai até o sexto andar!
De dentro do carro, Aldebaran estranhava a louca discussão entre Shaka e o porteiro. Talvez, Shaka estivesse um tanto inseguro de que Aldebaran visse onde ele morava, afinal, não era todo dia que um bando de estranhos apareciam e cuidavam de você. Sim, o loiro deveria estar assustado e fingindo que aquele era seu prédio. Nada mais normal. Aquilo já acontecera antes.
- Está tudo bem, Shaka? Posso ir embora? – ele perguntou.
- Tudo bem! O porteiro está meio bêbado, mas...
- Quem está chamando de bêbado? – ralhou o porteiro, atirando o sanduíche na cabeça de Shaka. Aldebaran olhou tudo um tanto perplexo, segurando o riso.
- Pode ir, Aldebaran. Eu ficarei bem... – disse o loiro, dando um sorriso amarelo.
- Ok, tchauzinho – e o moreno manobrou o carro, sumindo pela rua.
E o loiro ficou ali, na chuva. A fumaça branca saia de sua boca evidenciando o frio que sentia, mas tinha que esperar. Era para sua segurança, porém, não havia se sentido tão mal estando sob os cuidados daquela misteriosa organização.
oOo
Na frente de seu prédio, Mu já estava ensopado de ficar na chuva. Sua última notícia sobre Shaka havia sido um telefonema do namorado, dentro de uma cabine de telefone já fazia... algum tempo.
Realmente, nunca se havia se sentido tão bem sozinho em sua casa, escrevendo cada palavra que lhe vinha na cabeça e criando aquele seu mundo especial onde ele sabia sobre tudo e sobre todos. Nem sentiu falta de Shaka. Isso não era novidade. Já fazia certo tempo que não sentia a falta dele...
Mas o alarme de sua consciência o incomodava.
Onde estava aquele maldito filho da puta?!
Sentia-se na obrigação angustiante de esperá-lo. Era como se estivesse obedecendo a uma ordem de seu subconsciente: procure Shaka! Espere por ele!
E foi o que fez. Desceu até a portaria do prédio para aguardá-lo...E nada! Algum instinto dentro dele, talvez o de abandono, fez com que fosse para o meio da chuva aguardá-lo. Não sabia porque, mas estava ali, embaixo da chuva, com frio, muito frio, aguardando aquele maldito.
- Ei! Você aí!
Mu olhou para o lado e viu um homem moreno de cabelos compridos o chamando. Ele estava dentro de uma Ferrari muito bonita e Mu não entendeu muito bem o que ele queria. Talvez pensasse que Mu era garoto de programa...
- Ei! – ele o chamou novamente, mas o companheiro de Shaka o ignorou. Que fosse embora!
Mas isso não aconteceu. O homem continuou ali e até buzinou algumas vezes. Mu pensou em sair dali, mas quando se deu conta, o motorista já estava fora do carro, parado à sua frente. O escritor deu um pequeno grito e se afastou um pouco dele, quase caindo, porém, o moreno segurou sua mão e o ajudou a se equilibrar.
- Tudo bem?
Mu não conseguiu responder. Apenas acenou a cabeça, indicando que sim. O homem então sorriu. Tinha um sorriso muito belo.
- Porque está parado aqui nessa chuva? Pode pegar uma pneumonia, sabia?
- É... eu... estava esperando uma pessoa.
- Olhe só pra você! Está tremendo! – o moreno então retirou o casaco que estava usando e colocou sobre o ombro de Mu. Puxou o capuz que havia na parte superior para cobrir-lhe a cabeça dele das gotas de chuva – Agora sim. Bem melhor, não acha?
- O-o-o-brigado...
O homem apenas continuou a sorrir.
- Como estou? – perguntou Mu, esboçando um sorriso. De alguma forma, sentia-se contagiado pela simplicidade daquele belo homem.
- Me recorda a Kim Bassinger em "Los Angeles – Cidade Proibida". Lembra? Quando ela colocava aquele capuz preto...
Mu começou a rir. Realmente se achava muito parecido com alguma garota, mas não gostava quando faziam tal comparação. Porém, aquele desconhecido não lhe causou desconforto ao dizer isso.
- Porque... você me ajudou? – perguntou Mu.
- Para ver você feliz – o moreno disse e lhe deu um inesperado beijo na testa, que fez Mu ficar paralisado – Tenho que ir. Se cuida!
- Tá...
Foi a única palavra que Mu conseguiu proferir.
Observou o homem entrando em seu carro novamente e indo embora. Apesar do rápido encontro, aquele moreno de sorriso bonito e maneira altruísta havia mexido com ele.
Abraçou-se, procurando sentir o calor daquele homem no casaco e o delicioso perfume que vinha do tecido. Não sabia bem o porque, mas estava confortável dentro daquela roupa. Não se importava mais com o frio que sentia ou com a chuva que ainda teimava em cair, apenas queria curtir aquele momento tão simples e delicioso.
- Mu!
Ele olhou para trás assustado e então viu Shaka, que se aproximava dele todo molhado e sujo. Tomou um verdadeiro susto ao ver seu estado.
- Meu Deus! O que aconteceu com você?
- Eu fiquei na cabine esperando a chuva passar... – mentiu o loiro. Mesmo se tentasse contar toda a história para Mu, ele não ia acreditar. Era sem pé nem cabeça.
- Tem... alguma coisa na sua cabeça? O que é isso? Jogaram um sanduíche em você?
- É, foi isso sim, mas agora vamos entrar! Chega de tomar chuva – ele segurou Mu pelos ombros e os dois entraram no prédio.
Subiram até o apartamento, calados, apenas trocando olhares. Ambos tremiam de frio e riam um do estado do outro. Se abraçaram no elevador. Shaka estava se sentindo mais relaxado naquele dia e Mu estava feliz por ter encontrado aquele homem estranho com a ferrari.
Shaka havia passado por uma grande surpresa que o havia afetado, enquanto Mu teve um simples encontro que lhe transformou o humor. Abraçaram-se, porém, ambos desejavam abraçar algo diferente.
Entraram no apartamento e logo, começaram a tirar a roupa na sala. Logo estavam se beijando e se tocando...Começaram a fazer sexo na sala e terminaram no banheiro, embaixo da ducha quente. Fizeram sexo como não faziam há muito tempo. Na verdade, como nunca haviam feito antes.
Shaka nunca havia sentido Mu daquela forma antes, tão entregue e tão apaixonado e Mu nunca vira o companheiro tão atencioso e carinhoso... Porém, não se imaginavam um com o outro.
O loiro imaginava-se com uma nova pessoa, mais bonita e atraente...sentia-se capaz de conquistar qualquer pessoa depois de sua experiência na empresa de Mitsumasa. Haviam sido umas poucas horas lá dentro, mas se sentia fantástico e revigorado.
Por sua vez, Mu imaginava aquele homem moreno lhe sorrindo enquanto beijava seu corpo e o possuía com ardor. Imaginava em como seria sua vida ao lado de uma pessoa daquele jeito... tão amável... Ia fazer-lhe comida todo dia, abraçá-lo, sentir seu cheiro e ver seu belo sorriso, não só por uma noite, mas pelo resto de sua vida.
Faziam amor um com o outro, mas não se desejavam...trocavam beijos e carícias, mas as dedicavam à outras pessoas... trocavam belas declarações que não eram para seus ouvidos... Shaka queria a qualquer um que não fosse Mu, e Mu não queria a qualquer um: queria aquele homem misterioso que com apenas um gesto, balançou todo seu coração e destruiu sua vontade medrosa de permanecer com Shaka por conveniência e medo do abandono.
Foi uma noite inesquecível. Talvez, nunca duas pessoas estivessem tão próximas e tão distantes uma da outra ao mesmo tempo.
