Estava sentada na praia, olhando para o horizonte. Na direção do Sul. Na direção de casa. Suspirou e apoiou o queixo no joelho. Era tudo tão mais simples quando vivia no forte da Ordem da Lótus Branca... sem campeonatos, sem bandidos, sem Equalistas, sem...

– Korra.

Ela suspirou e fechou os olhos. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele apareceria. Não estava com vontade ou ânimo para se explicar, para dizer-lhe o motivo pelo qual atacara o inimigo sem usar nenhum tipo de dobra – logo ela que dominava três elementos quase perfeitamente. Não sabia se conseguiria pôr aquilo em palavras. O ódio que sentira ao ver aquele homem atacando uma criança, uma menina inocente, cujo único crime fora nascer com o dom de dominar a água... a vontade de mostrar a ele que dominar os elementos não tornava ninguém melhor ou pior, apenas diferente. E a ânsia de mostrar a ele que não precisava disso para derrotá-lo. Mas como explicar isso para Mako? Justo para ele, que era o insensível, focado, quase uma máquina de produzir vitórias no ringue, e que não parecia se importar com muita coisa além de ganhar a liga principal?

Não é bem assim, disse uma voz em sua cabeça. Ele se preocupou em me proteger. Ele me ajudou e estava preocupado comigo.

Apenas porque sem mim ele teria que procurar outro dobrador de água, argumentou ela em pensamentos. Apenas porque eu sou, por mais que ele não queira, parte do time. Mais nada.

Aquele olhar não era de quem está preocupado com um jogo. E sim de quem está preocupado com uma pessoa.

– Diga – murmurou a jovem, ainda de olhos fechados.

Sentiu a mão dele – quente como a de todos os dobradores de fogo, apesar das luvas – pousar em seu ombro.

– Você está bem?

Ela abriu os olhos, vendo o sol poente tingir o oceano de vermelho. Dava a impressão de que extensas línguas de fogo cruzavam a água, como num encontro entre os dois elementos opostos...

– Estou – respondeu ela secamente – já me curei e tudo o mais, não precisa se preocupar. Temos que ir à sede da liga e...

– Bolin já cuidou disso. Levou a papelada e tudo o mais.

Korra resmungou afirmativamente e continuou encarando o horizonte, ao passo que o rapaz sentou-se a seu lado na areia. O silêncio se instalou entre os dois, pesado e incômodo. Ela sabia que o "capitão" não falaria nada (inclusive desconfiava de que o irmão tinha obrigado o dobrador de fogo a ir falar com ela), e sabia que se não puxasse o assunto, iriam ficar ali até o amanhecer sem se falar. Por isso, pigarreou para limpar a garganta, e começou:

– Mako, eu... eu sei que você não entendeu o que aconteceu no parque, mas...

– Errado.

– Quê?

Ela ergueu os olhos para o rapaz. Ele encarava o mar, as sobrancelhas contraídas na expressão anuviada de sempre, os olhos amarelos de gato predador semicerrados como se estivesse perdido em pensamentos.

– Entendi perfeitamente o que aconteceu. Por algum motivo estúpido e infantil você quis provar que era capaz de derrotar aquele Equalista sem ajuda e sem usar dobra, sabendo que eles têm todo o tipo de truque sujo escondido na manga.

A garota inspirou profundamente, ofendida e magoada. "Motivo estúpido e infantil"? Quem ele pensava que era para falar daquele jeito? Ele pelo menos estava presente para ver o motivo de sua luta com aquele homem? Ele pelo menos vira a forma covarde com que ele atacara uma criança indefesa?

– Escute aqui, senhor capitão-dobrador-de-fogo-todo-poderoso...

Mako virou-se para ela, encarando-a com tanta intensidade que a garota se calou. Seus olhos de topázio lapidado faiscavam de fúria reprimida, e sua voz tremia quando ele falou:

– Escute aqui você, senhorita eu-sou-a-toda-poderosa-avatar-que-não-precisa-de-ninguém! Você tem noção do que eu pensei quando vi aquela faca a dez centímetros do seu peito? – ele a agarrou pelo braço – você pelo menos suspeita do que me passou pela cabeça quando te vi paralisada e sem reação, e achei que você fosse morrer? – o rapaz se inclinou em sua direção, mas ela não recuou, de modo que seus narizes estavam quase se tocando, os olhos amarelos cravados nos azuis, que devolviam o olhar na mesma medida – não, claro que não, porque você estava ocupada demais bancando a heroína pra saber que o imbecil aqui estava preocupado com você!

– Eu nunca quis bancar a droga de uma heroína! – ela gritou de volta – e nunca precisei de sua ajuda!

– Ah, não? Então me explique por que eu tive que jogar você no lago para que não fosse esfaqueada e morta! – ela abriu a boca para responder, mas o dobrador de fogo foi mais rápido – se você fosse só um pouco menos cabeça-dura e estúpida, perceberia que não pode simplesmente lidar com tudo sozinha!

Korra ergueu o queixo em desafio. Lágrimas de raiva ameaçaram encher seus olhos, e a garota piscou para afastá-las.

– Quem disse que não posso? Afinal eu sou ou não sou a droga do avatar?

Os olhos dele pareciam queimar com a mesma intensidade das chamas amareladas que usava para combater quando a segurou pelos ombros para replicar:

– Você pode ser a droga do avatar, mas isso não te faz ser imortal!

– Eu...

– Pare de agir como se eu não tivesse o direito de ficar preocupado!

Mako se afastou bruscamente e se levantou. A garota fez o mesmo, ainda o encarando. Mas agora, estranhamente, ele já não a olhava nos olhos. Quando Korra falou, foi com a voz mais contida, apesar de ainda irritada:

– Eu nunca disse que você não tinha o direito de ficar preocupado. Só disse que sei muito bem me virar sozinha e não preciso de ajuda, nem de você nem de ninguém!

– Tudo bem. Eu entendi.

Ele se virou de costas e saiu andando na direção da cidade. A avatar ficou olhando-o se afastar. Sentiu uma pontada de culpa enquanto observava o vento chicoteando o cachecol vermelho que era a marca registrada do rapaz. A cena do parque se repetiu em câmera lenta em sua mente. O modo como ele a derrubara no lago, tirando-a do alcance do Equalista e girando o corpo sobre o seu para não machucá-la com seu peso. O braço firme em sua cintura, ajudando-a a se pôr de pé. Os olhos intensos, cheios de ansiedade, com medo de que tivesse se ferido. A forma como ele a pegou no colo e a levou até o banco.

– Mako.

Ele parou de andar, mas não se virou. Estava a alguns metros de distância, mas ela sabia que estava ouvindo.

– Olha, eu... sei que fui meio grossa com você. Foi mal, de verdade.

O rapaz acenou, sem se virar.

– Tudo bem. Esquece isso.

– E...

O dobrador de fogo olhou por cima do ombro, com uma expressão intrigada. Korra desviou o olhar e coçou a nuca, sentindo as maçãs do rosto quentes.

– Eu... ah... obrigada.

Ele deu um meio sorriso torto, mal levantando um canto dos lábios.

– Por nada.

– Bom, eu... vou voltar para o Templo do Ar. Te vejo amanhã no treino.

Sentindo o rosto queimar, a menina virou-lhe as costas e começou a correr na direção da água.

– Ei, Korra!

Foi sua vez de parar e olhar por cima do ombro. Foi a vez dele evitar encará-la.

– Eu estava pensando se você não queria jantar essa noite... quer dizer, comigo e com meu irmão... vamos sair pra refrescar um pouco a cabeça.

– Você realmente precisa esfriar um pouco a cabeça, palito de fósforo – ela riu e fingiu não ver a sobrancelha esquerda dele se arqueando como sempre fazia quando ficava irritado, uma expressão que sempre surgia durante os treinos. Aproximou-se e deu um tapa forte no ombro do capitão do time – anda logo, não vamos deixar Bolin esperando.

E, com a maior naturalidade do mundo, agarrou o antebraço dele, como costumava fazer com o dobrador de terra, puxando-o na direção da cidade. Mako riu, o que a surpreendeu, e agarrou seu braço, puxando-a de volta:

– O capitão do time sou eu, pode ficar pra trás!

Korra chutou areia nele, e o rapaz a soltou. Pararam a pouco mais de dois metros um do outro, ambos com os punhos erguidos diante do rosto, se olhando com sorrisos maldosos.

– Sem dobra? – ela perguntou, assumindo uma postura de luta.

– Parece justo – Mako chamou-a com um gesto – Pode vir com tudo, avatar.

– Vou esfregar sua cara na areia, capitão.

Os dois avançaram um contra o outro, trocando golpes e provocações sob a luz do pôr-do-sol.


Reviews são sempre bem vindas, mesmo se for pra falar como o final ficou sem graça xD