/ capitulo 01

Tum tum. Tum tum. Tum tum.

As batidas incessantes, constantes, que por apenas alguns minutos atrás seguiam um ritmo acelerado começam a ficar mais lentas. Quase posso sentir que essas batidas estão sincronizadas com o coração que pulsa dentro do meu peito. Fecho os olhos por algum instante e começo a contá-las.

Um, dois, três.

Mas logo sou interrompida com uma mão capturando o meu rosto fazendo com que eu perdesse minha concentração.

'Hei...'

Sua voz rouca ecoa pelo quarto.

Sorrio.

Sorrio de tal forma que me faz parecer boba. Ah, os bobos. Benditos sejamos nós. Esquecemos do mundo, esquecemos de tudo pra desfrutarmos de momentos. Abandonamos nossas defesas, entregamos nossas fraquezas, em busca de atenção.

'Hei...'

Respondo rapidamente. Mas existe uma coisa que nós bobos sabemos bem: reconhecer se existe outro bobo convivendo com a gente. Em sincronia.

:.

Seus cabelos emaranhados, nossos corpos entrelaçados, lá fora a vida corria, aqui dentro tudo estava parado. Quase podia ouvir o tic tac do relógio de cabeceira, que passava seus segundos lentamente, tentando calcular quanto tempo estive fora de órbita essa noite.

Essa noite. A noite anterior. A próxima noite.

Sem me importar com nada toquei seu rosto. Meu corpo ainda queria mais. Minha boca implorava pra sentir novamente o gosto dos seus lábios.

Ah seus lábios. Os quais eu tanto encarava, tanto desejava, tanto queria que fossem somente meus.

E novamente o tempo. O tempo que pode ser nosso amigo mais intimo ou inimigo mais cruel. Aquele que pode roubar e destruir todos seus sonhos, como pode te ofertar as melhores coisas do mundo.

Mas esse tempo. Ah, esse tempo. Ele tem sido gentil comigo. Ele tem sido incrível comigo.

:.

Como nasce uma paixão?

Provavelmente pessoas do mesmo sexo, ou de sexos diferentes, sentem uma atração sexual. Indivíduos que buscam incessantemente pela parte que os completam projetam em determinadas pessoas tudo aquilo que eles possuem de mais carente para ser suprido.

Por exemplo.

Uma morena, pequenininha, com enorme talento. Talvez não seja a mais bonita, tampouco tenha as características que possam compor a mulher dos seus sonhos. Mas mesmo assim pode ser ela.

Moreno alto, desengonçado, atraente. Covinhas no rosto, já falei alto? Apaixonante. Talvez não tenha o corpo mais bonito ou saiba dançar. Talvez seja um bobo para alguns, mas mesmo assim pode ser ele.

E assim foi.

Quando ninguém imaginaria, se o mundo não tivesse conspirado, se eles não tivessem sido 'obrigados' a trabalhar juntos, talvez eles nunca seriam nada pro outro.

Ela gosta de comidas vegetarianas, é apaixonada pelos animais, nasceu pra cantar, desde pequena trilhou uma carreira que nunca saiu dos eixos.

Ele já foi problemático na adolescência, se perdeu nas coisas do mundo, achou o caminho de volta é apaixonado por baterias e sempre quis fazer parte de alguma banda.

Ela que fez o teste e passou. Ele que fez o teste e passou.

E eis que a vida mudou.

:.

"Acorda..."- sinto umas mãos tocando meu braço – "acorda..." – ganho um pequeno beijo no rosto – "acorda..." – abro os meus olhos e sorrio.

Ela sorria e seus pequenos olhos castanhos piscavam de excitação. Todos os dias eram a mesma historia. Ela corria da sua cama e pulava em cima de mim, em cima de nós. Nos abraçava com toda força e dizia que nos amava.

"Bom dia mamãe..."

Emily tinha apenas três anos e já era muito 'madura' pra sua idade. Cantava, dançava, tocava instrumento e até mesmo já arriscava palavras em outras línguas.

Fazia uma linda manha de inverno onde a neve caia lá fora quando ela nasceu. O vi segurá-la pela primeira vez entre seus braços. Parecia um gigante segurando uma bonequinha de porcelana entre seus braços. Parecia tão amedrontado, tinha receio de que pudesse machucá-la ou ate mesmo quebrá-la como um bibelô de vidro.

"Ela é linda..." – ele disse com a voz entrecortada. Somente concordei acenando. Ela era perfeita. Ela era nossa.

As coisas foram acontecendo com o tempo. Foi entre uma primeira troca de olhares na introdução dos nossos personagens, na primeira interação com o elenco, até uma troca de olhares no altar que montamos um dia numa praia distante de tudo e de todos onde trocamos o tão esperado 'Sim'.

Apenas nossos familiares, amigos próximos, alianças de ouro, o vento batendo no nosso rosto e flores espalhadas por todos os lados. Lembro-me de 'subir' em cima dos seus pés para a nossa primeira dança. Ele aspirou de leve o meu cabelo e me apertou forte. Novamente eu podia ouvir o mundo parar e somente escutar as batidas do seu coração.

Tum tum. Tum tum.

:.

"Bom dia papai..."

Eu sempre a puxava pra cima de mim e dava um super abraço de urso. Podia ouvir sua gargalhada ecoando por toda a rua. Gargalhada similar a da sua mãe. Sua mãe. A mulher que eu jamais consegui tirar dos meus pensamentos. Criei uma obsessão por ela que não tinha explicação. E não tinha explicação as inúmeras tentativas de tira-la do meu pensamento, mas bastava eu capturar o sorriso no meio da multidão e voltar a sentir o meu peito acelerar.

"Abraço de urso gigante..." – a abraço forte. Tão pequenininha. Tão minha. Tão nossa. Papai. A palavra que me fazia esse homem de mais de 1.90 se derreter todo por dentro. A palavra que eu não imaginava que daria tanto significado a minha vida. A palavra que eu quero continuar ouvindo até o resto da minha vida. Volto meu rosto e olho pra ela com seus cabelos emaranhamos nos encarando. Estico minha mão e a puxo pra mais perto.

"As duas mulheres mais lindas do mundo.." – beijo levemente as duas – "as mulheres da minha vida."

:. Continua :)