CAPÍTULO 2: CAPÍTULO 2:

Na manhã seguinte, no quarto do motelzinho onde haviam se hospedado, os rapazes preparavam-se para mais uma viagem.

- Pronto pra ir? – Dean questionou o irmão, colocando a mochila sobre o ombro.

Sam respondeu afirmativamente, com um movimento da cabeça.

No momento em que o caçula recolhia o casaco e apanhava a bagagem, seu celular tocou.

Dean ateve-se à porta, ouvindo atentamente a conversa de seu irmão com a pessoa do outro lado da linha.

Alguns minutos mais tarde, ambos embarcados no Impala, tomavam o rumo indicado por Samuel num mapa.

- Mas que idéia, Sam! - Dean exclamou contrariado - Desde quando a gente se envolve com pessoas desaparecidas?

- Desde sempre. – Sam sorriu irônico.

- Você me entendeu, engraçadinho! Estou falando de gente que é assassinada ou seqüestrada por um marginal e não daquele tipo que é tragado para o limbo. Do nosso tipo.

- Olha, Dean, depois da ajuda que a Edna nos deu, como poderíamos dizer não a ela? – Samuel encarou o irmão e continuou – provavelmente, se ela não tivesse parado para nos socorrer naquela estrada, agora estaríamos presos numa cela imunda, por atentado ao pudor, matando ratos.

- Ou pior... A cela poderia estar cheia de barbados querendo conferir se esse seu traseiro empinado é de verdade... – Dean sacudiu a cabeça para afastar a imagem que se formara em sua mente Certo. Você venceu... De novo. – lançou um olhar para o caderninho onde o mais jovem fazia anotações – O que tem aí?

- Bem, o cara é primo da Edna...

- Vai ter primos assim lá na esquina. - comentou o mais velho – E...

- Tem vinte e poucos anos, latino, está ilegalmente no país e ligou há quatro dias de uma plantação no norte do estado, onde trabalhava como cortador de cana.

-Só isso? Por que a Edna não chamou a polícia?

- Dean, a palavra "ilegal" não te sugere nada?

-Tá, mas o que a gente vai fazer? O sujeito pode ter se arrependido e voltado sei lá pra onde.

-A Edna garantiu que o primo estava dando duro pra se manter e conseguir o greencard. Não voltaria sem se despedir e parece, estava bastante nervoso quando conversaram pelo telefone.

-Você sabe que o cara pode estar morto, não é?

- É, eu sei – Sam batia a caneta nervosamente sobre a caderneta – Mas espero, sinceramente que não.

-Então, qual é o plano? – Dean ergueu a sobrancelha.

-Sei lá. Acho que o de sempre. A gente se mistura e tenta conseguir o máximo de informações e depois, improvisa.

Na cidade indicada pela nova amiga, os rapazes estacionaram o Impala na calçada, diante de um bar. Segundo o manual de investigações Winchester, não há local melhor para se ficar por dentro dos acontecimentos do que um bar local.

Depois de alguns minutos de conversa com a atendente, regados a muitos sorrisos e olhares maliciosos, Dean juntou-se ao irmão numa mesa afastada, longe da fumaça dos cigarros e das gargalhadas dos bêbados. Por sinal, muitos para aquela hora do dia. Pelo jeito, o consumo de álcool antes do almoço era um hábito por ali.

- E então, alguma novidade, maninho? – Dean entregou um copo alto de cerveja gelada ao irmão.

- Nada muito específico. - Sam franziu o cenho ao perceber que o irmão apanhava um punhado de sementes torradas numa cestinha de vime sobre a mesa. - Você tem certeza de que vai comer isso aí? Essa coisa não está exatamente... – torceu o nariz, com nojo -...Limpa, não acha?

- Cara, você é uma mocinha! – encheu a boca com as sementes torradas e salgadas.

-Pelo amor de Deus, Dean! Qualquer dia esse seu espírito de avestruz vai te causar uma tremenda intoxicação alimentar.

Já sei. – engoliu o resto, tomou um pouco da sua cerveja e concluiu – Como sempre, irmãozinho, o corpo-a-corpo, ao contrário da sua internet, nos rendeu boas informações: o primo da Edna, Henrique Santos, trabalhava como cortador numa fazenda de cana de um tal Gusman, a mais ou menos, 3 milhas fora da cidade. Era freqüentador de final de semana, aparentemente um cara legal que pagava suas contas em dia e dava gorjeta à moça simpática atrás do balcão. Ah! E não apareceu no último sábado junto com os outros trabalhadores.

-Isso já é alguma coisa. – Sam bufou, fechando o laptop.

- Vamos. – Dean colocou uma nota de dez dólares sobre a mesa e saiu, no que foi seguido pelo irmão.

Os rapazes saíram da cidade pela rodovia estadual e dirigiram-se ao canavial. Não era distante e, em poucos minutos, alcançaram a estradinha que levava ao portão onde havia uma placa indicando o recrutamento de trabalhadores temporários.

Estacionaram o carro junto ao que parecia um pequeno escritório onde se formava uma fila de candidatos às vagas.

Ao descerem do carro, os irmãos admiraram-se com o tamanho do canavial que se estendia até onde os olhos podiam alcançar, num mar verdejante de folhas e talos que se moviam com a brisa sob um céu extremamente azul. Não perceberam qualquer construção, à exceção de um galpão enorme, a uma distância considerável, à direita do escritório.

- Ainda não gosto dessa idéia. Não entendemos nada desse negócio, Dean. – Sam ponderou.

- Não entendemos de muita coisa, mas quando foi que isso nos deteve? – o mais velho caminhou e colocou-se no final da fila.

-Dean, os caras vão sacar na hora q...

-Escuta aqui, Sammy: A maioria desses sujeitos é de imigrantes ilegais, certo? Você quer se enfiar num terno e sair sacudindo um distintivo por aí? Fala sério! Todos eles sumiriam mais rápido que baratas ao acender das luzes.

- É... Mas continuo achando que isso não vai dar certo.

- Então fica frio e cala a boca. Deixa o resto comigo, ok? – Dean cochichou.

A fila andou rápido. Repararam que a entrevista consistia em duas ou três perguntas e na assinatura de um livro preto.

Quando chegou a vez dos rapazes, o velho capataz ergueu os olhos e observou-os, em silêncio, por alguns segundos. Arrastou o chapéu de abas largas para trás, exibindo os cabelos grisalhos e a testa suada.

Dean encarou-o e sorriu, amistoso.

Sam, por cima do ombro do irmão, sem jeito, sorriu também. O que estaria passando pela cabeça daquele homem?

- Vocês não estão no lugar errado, garotos? – finalmente falou, coçando o farto bigode.

- Não, senhor. – Dean foi categórico.

-Deixe-me ver suas mãos – o capataz ordenou.

- Como? – os irmãos estavam intrigados.

- Vamos logo! Quero ver suas mãos. – o homem gesticulava para que mostrassem as palmas das mãos – Caras, vocês nunca cortaram cana na vida! Dêem o fora daqui – fechou o livro.

-Espere um momento, senhor. – o caçula tentou argumentar – Nós realmente precisamos do trabalho.

- Para ser sincero...- Dean aproximou-se do velho – senhor...

- Ramirez.

-Isso. Senhor Ramirez. Sabe o que acontece? Ultimamente nós temos andado meio sem sorte e tivemos alguns probleminhas legais e estamos um tanto impossibilitados de arranjar um emprego que exija registros e documentos, se é que me entende...

- Se puder quebrar essa, senhor... Aceitaremos qualquer serviço. - Samuel reforçava a investida do mais velho - Qualquer coisa que nos ponha a comida na mesa.

- Bem, se é assim... – o capataz sentou-se e abriu o livro novamente-...A carga horária é pesada, o salário é uma miséria e varia com a produção. Tem uma cama pra cada um no alojamento se não tiverem onde ficar. Não servimos refeições e não nos responsabilizamos por acidentes com facões e foices. - entregou a caneta a Dean - E ao primeiro sinal de encrenca, estão na rua. Estamos entendidos?

-Sim, senhor. Obrigado. – Sam exibia uma expressão um tanto desolada.

-Então ponham seus nomes aí no livro e sumam da minha frente. Estejam no campo amanhã, às cinco horas. Vocês estão no primeiro turno.

Depois de assinarem o pretenso livro de registros, os irmãos voltaram ao carro e seguiram pela estradinha de terra até o alojamento.

- Humpf! Cinco horas! Quem trabalha às cinco horas da manhã?! – Dean reclamou.

- Parece que nós, gênio!

Dean estacionou o Impala sob a copa de uma árvore frondosa que estendia seus galhos ao lado do galpão. Aliás, a única que se encontrava naquele lugar. O resto da vegetação era de uma infinidade de pés de cana-de-açúcar.

Os irmãos foram recebidos no alojamento por um rapaz, ainda bem jovem, muito magro e negro, usando um par de muletas que supriam-lhe a falta de uma das pernas. Ele os guiou até o segundo andar e indicou-lhes duas camas ao fundo, perto de uma das janelas laterais, saindo em seguida. Ao que parecia, o rapazote não era muito dado à falação.

O lugar estava vazio no início da tarde e tinha uma aparência extremamente impessoal: as paredes de madeira, nuas, não traziam qualquer referência a quem as habitava. Calcularam umas vinte e poucas camas dispostas em duas fileiras com um pequeno baú ao pé de cada uma.

Dean sentou-se em sua cama e ergueu a tampa do baú. Estava vazio. Pelo jeito, nem as roupas de cama eram fornecidas aos trabalhadores. Sam colocou-se ao lado do irmão, vasculhando com o olhar aquele lugar. Até as espeluncas nas quais costumavam hospedar-se eram mais simpáticas.

Sem muito a fazer por ali, decidiram voltar à cidade para almoçar e continuar sua pesquisa sobre o possível paradeiro de Henrique, porque Edna havia combinado com Samuel de ligar à noite para saber das novidades.

No final do dia, de volta ao alojamento, encontraram os empregados do primeiro turno já haviam retornado e alguns ocupavam-se de tarefas domésticas, lavando peças de roupa numa fileira de tanques ao fundo do primeiro andar ou preparando suas refeições, visto que o serviço de quarto era inexistente .

- Com licença, eh... – Sam iniciou o diálogo.

-Tony. – completou o rapazola perneta.

- Certo, Tony – o mais jovem dos Winchester estendeu a mão para o outro- Sou Sam e este é Dean. Você nos recebeu hoje cedo, lembra?

- Claro. Não é todo dia que caras como vocês aparecem por aqui.

- Caras como nós? – Samuel estranhou a observação.

- Vocês não são cortadores. Está na cara.

- E o que seríamos, então? – Dean provocou.

- Policiais? – o garoto finalmente os encarou como se tivesse descoberto a pólvora.

- Nós?! Policiais?! – Sam estava nervoso e lançou ao irmão um olhar "Eu não disse que não ia colar?" que falava mais do que mil palavras.

- Pra falar a verdade, Tony... – Dean apoiou a mão sobre o ombro do rapaz e puxou-o para perto de si -... É Tony, certo? Pois é. Nós não temos muita afinidade com a polícia... Na verdade, preferimos manter a distância de qualquer coisa com uniformes ou distintivos, sabe?

-Tanto faz. – deu de ombros - Não me meto nos assuntos dos outros.

- Isso é ótimo, chapa! – Dean bateu nas costas de Tony, sacudindo-o inteiro - Cara esperto! – sorriu.

Os irmãos ganharam as escadas sob os olhares desconfiados dos outros funcionários. Tomaram seus lugares e ali permaneceram, isolados. Os homens do dormitório não se aproximaram nem deram margem a qualquer aproximação.

Não tardou para que a segunda turma de trabalhadores voltasse do campo.

O irmão mais velho percebeu, da janela onde estava, uma certa agitação naquele grupo. Caminhavam rapidamente, falavam alto, gesticulavam e pareciam bastante irritados.

Dean bateu na perna de Sam e acenou para que o mais jovem o seguisse.

Ambos pararam ao pé da escada e puderam ouvir os comentários dos empregados que cercavam o capataz dentro do salão. Mais alguém havia desaparecido.

Às quatro horas da manhã um sino tocou, expulsando os empregados do primeiro turno da cama.

No andar inferior, a enorme mesa de toras ladeadas por dois compridos bancos de madeira foi sendo ocupada pelos homens que engoliam, apressados, o café com leite e uns pedaços de pão amanhecido.

- Mas que merda é essa?!- esbravejou um dos cortadores, cuspindo o leite.

- Estão nos servindo leite azedo!! - gritou outro, atirando a caneca de alumínio de encontro à parede.

Neste instante, Tony se aproximava, equilibrando-se numa das muletas, enquanto carregava um bule com café quente. Foi agarrado pelos dois mais exaltados e lançado contra a mesa. Sam amparou-o com uma das mãos e, com a outra, segurou o bule fervente.

- Calma aí, amigo! – Dean colocou-se entre o sujeito mal encarado e o rapaz.

- Sai da frente, palhaço, que isso não é da sua conta!

- E não é mesmo – o jovem caçador sorriu de lado – Eu nem gosto de leite. - cheirou a caneca que apanhou na mesa e torceu o nariz – Mas o problema é que não dá pra deixar um cara do seu tamanho bater num moleque aleijado.

- Dean! – Sam queria matar o irmão pela falta de tato.

- Foi mal, garoto. – dirigindo-se a Tony – Vamos combinar assim... - voltou-se para o encrenqueiro -... O Tony aqui vai buscar um leitinho fresco pra vocês, a gente aperta as mãos, troca uns abraços, escuta uma música lenta e fica tudo bem... Hum? O que me dizem?

Samuel sentiu o coração falhar uma batida. Não podia acreditar no que seus olhos e ouvidos lhe mostravam. Seu irmão, definitivamente, havia perdido a noção do perigo.

Quando o cortador enfurecido ia partir pra cima dos irmãos e de Tony, o estrondo do disparo de uma espingarda de cano serrado evitou uma desgraça, fazendo um buraco considerável no teto.

O capataz e meia dúzia de capangas debandaram os trabalhadores, fazendo-os subir na carroceria do caminhão que aguardava do lado de fora e, por motivos óbvios, Sam e Dean foram colocados na cabine.

Um enorme cesto de palha foi atirado no meio do campo, espalhando foices e facões afiados que, rapidamente, foram recolhidos pelos trabalhadores que entravam na plantação com o corpo completamente coberto por trapos e luvas. Alguns vestiam uma espécie de máscara, deixando apenas os olhos à mostra.

- Pra que isso?! – Dean empurrou a mão do irmão – Eu não vou colocar essa droga!

- Deixa de faniquito Dean, e coloca logo o boné na cabeça. Aproveita pra arriar as mangas da camisa.

- O que??

-Cara, quer fazer o favor?! - Samuel atirou o par de luvas para o irmão – e levanta a gola, ta? É isso ou essa sua carinha bonita vai ficar toda retalhada antes do meio-dia. Essas folhas cortam feito navalhas.

- Está certo, está certo... – o mais velho seguiu as orientações, contrariado.

- E, Dean, procure se misturarpra descobrir alguma informação que nos leve ao Henrique, mas, pelo amor de Deus, cuidado! Esses caras têm o pavio curto e estão com essas facas enormes nas mãos.

- Já entendi, mãe. Vou controlar a boca...

Aquela foi uma longa manhã. O calor não facilitou em nada a vida dos rapazes. Não que eles estivessem acostumados à vida boa, mas cavar sepulturas e desenterrar cadáveres não chegava nem perto do esforço exigido por dez horas de trabalho cortando e carregando fardos de cana-de-açúcar.

Também não foi fácil iniciar uma aproximação com os outros trabalhadores, mas Sam tinha que admitir que o ocorrido no alojamento lhes havia rendido alguns pontos com os homens que sofriam a opressão do tal grandalhão. Pontos e respeito.

Às três da tarde o velho Mercedes retornou, trazendo a segunda turma de cortadores e recolhendo os que haviam chegado de madrugada.

De volta ao alojamento, Sam e Dean, pela falta de prática nessa convivência coletiva, só entenderam o motivo da correria quando o caminhão estacionou e deram de cara com o tamanho da fila para o chuveiro.

Depois de trocarem um olhar sugestivo, os irmãos tomaram suas mochilas e desceram, em direção ao Chevy.