A sinfonia dos pássaros ritmava com o som das folhas que eram agitas pela brisa que passava compassada, trazendo um aroma característico daquela época.

Formava-se ali uma bela pintura, onde mulheres de varias idades, num ponto mais distante do templo, penduravam grandes panos brancos, ainda molhados, que fazia um cheiro de lavanda chegar de mansinho aos presentes.

De onde estava, tinha uma visão privilegiada do todo. Sentado nos degraus da lateral do grande templo de Athena via os tecidos estendidos, brincarem com a brisa fria que levantava, trazendo o cheiro bom de lavanda, enquanto as mulheres cantarolavam em conjunto, procedendo a pegar peça por peça para pendurar nas cordas-bambas.

Mais próximo de si, uma fonte sempre activa, de bonita feitura, jorrava uma água cristalina. Gotículas frescas chegavam a encostar em sua pele que era castigada pelo sol quente, refrescando-o, enquanto via, em um lençol branco estendido na grama, uma pequena criança sentada de costas, brincando com algo. Era vigiada pela moça que entrara em seu quarto, naquela mesma manhã.

Na verdade, não poderia estar ali. Seus ferimentos não estavam de todos recuperados e, a insistente dúvida de sua presença naquele lugar não o deixava em paz. Desde que seus planos ruíram juntamente com o templo de Poseidon, Kanon não cogitara ser salvo pela deusa na qual tentara destruir. E no entanto, ali estava ele, em seu templo, sendo tratado como se pertencesse aquele local.

Tudo ali era tão puro…tão limpo…

De facto não fazia parte daquele cenário, apesar de, agora, ser tomado por uma extrema vontade de fazer parte daquele jogo pacífico.

Seus olhos moraram na criança, até que por fim decidira se levantar e se aproximar. A mulher sentada de frente para a menina, que recordava ter sido chamada de Ariadne, logo o percebeu, expondo um pequeno, mas convidativo sorriso.

- Bom dia – Ouvira dizer.

Apenas sorriu em resposta, enquanto parava diante das duas presente. A criança lhe fitara com olhos semicerrados, pelo forte sol que atrapalhava sua visão, voltando ao que estava fazendo com peças coloridas de plástico.

- Não sabia que eram permitidas crianças tão pequenas no santuário – Dissera por fim.

- E não são – A serva dissera de forma calma – Excepto Ariadne.

- É um nome bonito – Fitava a menina com interesse. Algo nela trazia um sentimento familiar. Não se ateve em mais delongas nesta sensação, algo o incomodou no olhar das outras servas sobre si.

A jovem percebera, sorrindo.

- Muitas não acreditam – Chamou a atenção do homem, enquanto recolhia uma das pequenas peças que tinha rolado para a grama.

- Não acreditam no que?

- Que você não é ele – Dissera isso receosa.

Kanon lhe fitou profundamente.

- Ele quem? – Indagou mesmo sabendo a resposta.

- Sr. Saga – Estremecera.

Kanon não deixou de percebe-lo.

- Medo… - murmurou alto suficiente para a mulher lhe ouvir.

- Muito – Foi a resposta simples que dera. Tão simples que Kanon surpreendeu-se – Mas você não é como ele – Completou deixando o homem sem reação.

Não! Era pior! Mas não conseguiu se pronunciar a respeito. Sabia que fosse qual fosse o motivo que levava aquelas mulheres a temerem seu irmão, ele tinha uma parcela de culpa, e o resultado era o que levava, agora, seu espírito a se agitar.

Saga estava morto pelos seus erros. Ele, também, deveria estar. Então porque ainda estava ali?

Droga de pergunta que não queria calar.

Balançou a cabeça negativamente tentando se concentrar. Fazia muito tempo que não estabelecia uma conversa simples com alguém.

Esforçava-se para não se mostrar com seu natural tom hostil.

- Essa criança é sua?- Desconversou.

- Parece minha? – A mulher se surpreendeu, mas deu uma pequena risada.

Os olhos voltaram-se para a criança que continuava empilhando as peças coloridas com muita atenção, para depois de certo tempo ve-la despenharem.

- Não.

- Kanon – A voz doce de Saori chamou sua atenção. Se aproximava lentamente – Deveria estar descansando – Repreendeu.

- Eu estou bem, Athena – Respondeu encabulado. Não conseguia lhe fitar directamente. Sentia-se mal e sua presença. Sua cabeça, rápida, cogitara em dizer que voltaria, então para seu quarto, mas vira a deusa sentar-se sobre o lençol, atrás da criança. Fizera sinal para que este arrumasse um cantinho no pano branco.

Kanon suspirou. Ajoelhara-se na grama diante da deusa que abraçara frouxamente a menina. Esta voltara-se para Kanon, com uma peça vermelha na mão.

-Oia – Disse entregando a peça que continha o símbolo de gémeos, para a surpresa do homem, que com cuida pegou o que lhe era estendido.

Saori sorriu, vendo a criança se soltar com facilidade de seus braços, se reerguendo, se atirando em seguida nos braços do ex-marina, que lhe amparou sem jeito.

- Sabe porque está aqui Kanon? – Saori disparou, fazendo o homem finalmente lhe encarar. Ainda tentava segurar a pequena que fazia esforços para subir em seu colo. – Você ainda tem que lutar.

- Lutar? – Disse entre suspiros desistido de tentar deter Ariadne, que resmungara ao perceber a barreira em seu intento. Mas feliz, conseguira a custo enlaçar o pescoço de Kanon. Este não ligou, fitava ainda a deusa.

Como assim ainda tinha que lutar?

- Você tem que arrumar um bom motivo para isso – Ela dissera – Eu sei que se eu pedir, você lutará por mim – Disse isso resoluta, com um sorriso – Mas mesmo assim você não se sentiria digno, não é!?

- Eu não sou um cavaleiro…

- Não? – Interrompeu – Que eu saiba você substituiria Saga se este faltasse…

- Não sou digno para isso – Interrompeu franzindo o cenho, tentando se libertar a menina que parecia grudada em si. Não queria ser bruto, principalmente na frente de Athena. Nunca tivera muito contacto com crianças, nem sabia como lhe dar com elas. Mas a situação estava lhe incomodando. O que aquela menina queria? Estava tirando a sua concentração na conversa.

Saori achou piada na tentativa falha dele. Claro que ele teria mil e um recursos para se livrar de Ariadne, mas não o queria usar, não importava o motivo.

- Se não é digno de lutar por mim, lute por ela – Disse sorrindo.

- Porque eu lutaria por ela? – Indagou sem entender. Nem conhecia a tal criança.

- Ela é o que sobrou de sua família – Disse simplesmente surpreendendo Kanon.

- O que disse?

- Ela é do Saga – Mais uma vez suas palavras calmas fizeram Kanon gelar.

A brisa gelada que soprara parecia mais intensa, fazendo sua pele arrepiar. Desta vez, talvez, por ter sido mais bruto, conseguira fazer Ariadne se afasta, segurando-a pelos braços. A menina queixara-se baixinho, tentando se libertar. Mas era a vez de Kanon segura-la como para não deixa-la escapar.

De olhos arregalado, fitara cada detalhe do pequeno rosto. Já havia feito isso quando despertara com ela sobre si, mas agora, via com outros olhos. Examinava-a deixando sua mente escorregar para lembranças longínquas, quando ainda se dava bem com seu irmão.

- Os cavaleiros não deveriam…

- Não – Saori cortou com simplicidade – Mas seu irmão não era um Cavaleiro normal, não é!?

A observação caíra como se Kanon tivesse engolido uma grande pedra. Ikki havia lhe exposto as acções de seu irmão, enquanto lutaram no templo submarino. Sabia perfeitamente o que aquelas palavras de Athena significavam.

Seus olhos verdes voltavam a pousar sobre a criança que agora lutava para se libertar de suas mãos fortes, que lhe agarravam pelo braço.

- Se há algo que compense lutar – Athena disse se reerguendo – É pelo futuro dos nossos – Completou seria, sem se importar que o outro não lhe fitava.

Continua…


Lady'Athena Jinguji de-Geminis: Muito obrigada por ler e comentar. Queria pedir desculpas pela demora...mas eu tardo mas não falho ;)