Por alguma regra do site que não cabe a mim entender, alguns capítulos de minha história foram apagados. Estou repondo-os da maneira como foram publicados, sem tirar nem pôr.


Capítulo 2

Sakura sorriu contente. A manhã estava bastante iluminada pelos raios de sol. Colocou seu chapéu mais emplumado e abriu a porta que dava para as ruas de Dunny Coast. Ainda devia ser cedo. Mas tinha que conseguir uma informação no porto.

Respirou fundo ao entrar no meio da multidão. As mulheres da alta sociedade a olhavam, escandalizadas. O que uma prostituta poderia estar fazendo essa hora na rua, portando-se como uma mulher normal? Alguns homens, muitos deles clientes seus, desviavam o rosto ou o escondiam nas abas de seus chapéus. Todos muito bem vestidos e decentes. Alguns até acompanhavam suas esposa nas compras matinais. Nada comparados aos homens que eram quando entravam em seu bordel. Porém, os ignorou. Estava acostumada a tal tipo de tratamento e não culpava a sociedade. Ninguém entendia que a prostituição era a única escolha que cabia a mulheres como ela.

Atravessou a rua e avistou uma loja de roupas femininas, muito elegantes. Aproximou-se da vitrine e ficou a observar as vestes. Pomposas, de lindos babados, com saias rodadas. Para uma dama, essa era certamente a aparência que elas deveriam ter. A de uma boneca frágil. Quando pequena, ao observar tais coisas, se fascinava com as cores, com as formas, e imaginava se um dia poderia ter o privilégio de vestir-se com tanto primor. Mas agora, já bastante vivida, sabia que suas fantasias não se concretizariam. A vendedora, ao notar sua presença, caminhou até o seu lado, com um sorriso irônico no rosto.

"O que deseja, milady?", o tom era sarcástico. Sakura ergueu os olhos verdes e deu um sorriso natural.

"Nada, estou apenas observando. São belas roupas".

"Infelizmente...", a vendedora começou. "Não tenho nada que sirva para sua profissão. Deve procurar vestes escandalosas em outras lojas. Não na minha".

A japonesa tirou da bolsa 250 libras e estendeu a senhora, que a olhou, confusa. Sakura explicou. "Uma amiga minha fará aniversário daqui a alguns dias. Quero um belo vestido rosa".

"Por quem me toma, prostituta? Não tocará em meus vestidos de maneira alguma! E nem sua amiga, que também deve ser uma vagabunda!".

A jovem a olhou por infinitos segundos, sabendo que aquela discussão estava atraindo os demais transeuntes. Delicadamente, abriu a bolsa negra e quando ia colocar o dinheiro de volta, o marido da vendedora chegou. Era um homem que também já fora seu cliente. Ele a olhou, espantado, e Sakura sorriu, maliciosa.

"Sr.Rockman!", ela aproximou-se. "Sua esposa é realmente uma senhora encantadora. Porém, por algum motivo, não aceita meu dinheiro", deixou as libras na mão dele. "Venda-me o vestido, senhor. Talvez assim, da próxima vez, pague suas dívidas com o meu bordel".

Tanto o homem e sua esposa arregalaram os olhos. A mulher encarou o marido, surpresa, e depois, olhou para Sakura, com os olhos fulminantes de ódio. Quando deu menção de se aproximar, com a mão já levantada, seu esposo a segurou, mas a Sra. Rockman ainda pode gritar.

"Sua mulher imprestável! Nojenta! Cortesã dos demônios!".

A ruiva apenas olhou por sobre o ombro, respondendo, com a voz mais inocente que pode. "Pergunte ao seu marido, minha senhora. Garanto que ele não tem a mesma opinião que a sua. Pelo menos, não tinha, até ontem à noite".

Ainda pode escutar a mulher gritando, mas não conseguiu mais segurar o riso. As pessoas a apontavam, a xingavam. Mas não se importou. Seguiu o seu caminho muito calmamente. Na verdade não queria vestido nenhum. Queria apenas que aquela mulher a tratasse mais decentemente. E pelo visto, não conseguira. Mesmo com o dinheiro, ela a desrespeitara.

Ora, o que podia fazer? Não iria deprimir-se pelo fato de ser descriminada. Era bastante natural. Virou mais uma viela e logo estava na frente do porto. Era um lugar bastante movimentando, com pessoas de todas as classes sociais, desde de burgueses até vendedores de peixe. Não era muito agradável, mas tinha que ir até onde as pessoas compravam as passagens.

Caminhando com dificuldade entre tantos corpos masculinos, ela foi ficando próxima de seu destino. Os homens assobiavam, e alguns marinheiros até arriscavam de lhe passar a mão. Não repeliu nenhum, e nem se quisesse, poderia. Estavam todos tão emaranhados que era impossível evitar um contato físico. Chegou perto do caixa e sorriu com simpatia para o senhor que trabalhava lá. Ele retribuiu o sorriso e perguntou.

"Em que posso ajudá-la, minha jovem?".

Nem todos a tratavam tão mal assim. "Por favor, o Sr.Eriol Hiiragizawa comprou passagens para o Japão?".

"Sim, sim", ele respondeu, mas depois fez uma expressão penosa. "Porém, não subiu a bordo".

Ele tirou o chapéu azul e sorriu tristemente. "Ele foi assassinado, minha senhorita".

A tristeza lhe invadiu o coração. Não era muito chegada ao lorde, tivera apenas alguns minutos de conversa com ele. Porém, se ele fora morto, onde estaria a sua prima? Começou a se desesperar de tal maneira que se sentiu um pouco tonta. E se ela tivesse sido morta também?

"Você está bem?", ela escutou uma voz grossa e virou-se.

Um homem alto estava parado a sua frente. Tinha ombros largos, usava um casaco marrom, apesar de o dia estar bastante ensolarado. Era muito bonito. Talvez até mais bonito que Tristan, mas de uma maneira diferente. Ao contrário do conde, ele tinha uma beleza bruta, e não clássica. Não era inglês, ela tinha absoluta certeza, pois não tinha a pele pálida como os mesmos. Na verdade, sua tez era bem bronzeada, combinando com os olhos dourados cativantes. Frios, também. O nariz afilado, as sobrancelhas grossas e os lábios perfeitos. Os cabelos castanhos, com fios levemente loiros, eram desalinhados.

"Srta., eu pergunte se estava bem".

"Hã...", jamais ficara constrangida na frente de homem algum. Mas ele tinha um estranho poder de encabulá-la. "Estou bem sim... Obrigado por seu preocupar".

Ele a olhou e avaliou suas roupas, para depois de breves segundos, dizer, indiferente. "Não parece ser inclinada a desmaios".

"Não, realmente não sou", ela sorriu. "Porém, não recebi boas notícias".

"Pergunto-me o que uma prostituta, que sabe muito bem o seu lugar na sociedade, estará fazendo aqui, a uma hora dessas. É tola ou mais oferecida do que supus ao vê-la".

A voz era extremamente arrogante. Pela primeira vez em muitos anos, conhecia um homem que não a olhava com desejo, e sim com desprezo. Não era uma boa sensação, mas ela sentia como seus olhos perspicazes pudessem lhe ler a alma e descobrir suas maiores tristezas. Tentando não parecer abalada com palavras tão cruéis, ela replicou o comentário.

"Vindo de um homem, eu considerarei suas palavras um elogio. E para seu governo, meus motivos são pessoais e não dizem respeito a você".

"Eu não quero saber de seus motivos", ele virou-se, mas uma irritada japonesa tocou em seu braço, o obrigado a parar.

"Espere aí!", ela gritou. "Chega todo preocupado perguntando se eu estava bem, e agora é grosso comigo! Poderia pelo menos me respeitar!".

"Como pode querer que os outros a respeitem se nem você mesma se respeita?".

"Está dizendo isso por eu ser uma prostituta?".

"Se a carapuça serviu, minha dama, então a use. Tire suas próprias conclusões", ele virou-se novamente e desapareceu na multidão.

Sakura, triste, o observou sumir e depois tomou o lado oposto do dele, rumando para o bordel. Não era nem o fato dele ter feito tão pouco de sua pessoa. Na verdade, ela estava preocupada com o que sentira quando o vira. Uma espécie de arrepio que nenhum outro homem jamais lhe despertara. Além de ter sido muito grosso, ele deixou bem claro que ela não se respeitava. Ora, onde já se viu? Ela se respeitava sim! Bem, está certo que seu corpo era sua arma de trabalho, mas ela se dava ao valor, apesar de saber que poucas pessoas faziam isso.

Deixando um pouco de lado o homem que tanto a incomodara, voltou a concentrar seu pensamento em sua prima. Que destino ela teria sofrido? Se ela tivesse viva, com certeza, já teria procurado conforto nos braços dela e de seus amigo, lá no prostíbulo. Porém, não aparecera.

A idéia causava-lhe medo, mas não era possível descartar a possibilidade de que Tomoyo houvesse morrido. A jovem era mestiça, assim como ela. Só que a irmã de sua mãe não era prostituta e havia se casado com um rico japonês ainda muito nova. Quando seu marido morreu, ela voltou para a Inglaterra e começou a se prostituir, já que não era bem aceita no Japão por ser inglesa. Adoeceu pela tristeza de sua viuvez e deixou para Kelly a tarefa de educar a pequena Tomoyo, apenas um ano mais nova que a prima. Como a mulher não tinha outros recursos ou condições, ensinou a bela garota a ser uma cortesã também, e uma das mais famosas.

Mas não era esse destino que Sakura para a vida de sua prima. E quando Eriol chegara ao bordel, a japonesa acreditara que o destino de Tomoyo seria bastante diferente do dela. Não sentira inveja e sim uma grande felicidade. Dera total apoio para que ela fugisse e ainda a ajudara com algumas economias que guardava. Cansada, ela chegou a seu lar e subiu as escadarias, entrando em seu quarto.

Deitou na cama, deixando a bolsa cair sobre o chão aveludado. Sentiu as lágrimas mornas escorrerem por seu rosto e as secou, notando as manchas negras e rosas que saíram em sua mão.

"Droga! Saiu à maquilagem", e com um suspiro abafado, enfiou a cabeça nos braços e voltou a chorar.

-o-o-o-

Mulher impertinente! Não saí da minha cabeça!

Enquanto caminhava para o lugar onde Robin falara que Tomoyo, a moça que sofrera a tentativa de homicídio estaria, a bela ruiva que encontrara no porto assombrava-lhe os pensamentos. Cobriu os olhos com a mão até chegar numa pequena clínica, muito mal cuidada. Mas o que podia esperar? Aquilo era o subúrbio de Londres. Poucas coisas lá valiam realmente a pena.

De estatura baixa, expressão atrevida. Aquela mulher chegava a ser vulgar, mas chamava a atenção. Tinha o corpo esguio, perfeito. Os cachos vermelhos que lhe desciam até mais que os ombros eram encantadores, e tinham um perfume delicioso, mesmo não estando muito perto para senti-lo com perfeição. Tinha o rosto bastante delicado. O nariz arrebitado, os lábios cheios em dando forma a uma boca e grandes, grandes olhos verdes. Os olhos mais bonitos que ele já vira na vida. Vestia um vestido de comprimento menor do que o normal, em vermelho e negro. Uma voz de anjo. Uma língua de serpente.

Pare de pensar nessa mulher, idiota!

Entrou na clínica e cumprimentou a enfermeira, que sorriu, simpática. "Posso ajudá-lo em algo?".

"Por favor, Tomoyo Daidouji".

"Ah, sim!", a enfermeira deu um suspiro triste. "Pobre garotinha... Tem os olhos tristes e uma voz tão fina... Depois do que passou, é natural que esteja abalada", a mulher balançou a cabeça e depois lhe olhou esperançosa. "Por favor, a ajude".

"Farei o que puder", Syaoran disse, com calma. A situação não deveria ser tão complicada assim, deveria? Afinal, na Inglaterra, era muito comum que lordes e condes morressem. Tinham bastante dinheiro, eram influentes. Tinham também bastante inimigos, que poderia muito bem ter planejado esse assassinato. Mas o que não entendia era porque aquela prostituta estava com o homem. Tinha muita história nesse caso e ele estava disposto a descobrir.

Foi guiado até um quarto bastante iluminado, até bem arrumado. Deu uma boa olhada no cômodo e ouviu a enfermeira dizer.

"Vou deixá-los em paz".

Foi então que a viu. Encolhida na cama, com os braços sobre os joelhos e a cabeça apoiada neles, Tomoyo lhe parecia uma boneca bastante frágil. Tentou sorrir, mas jamais tivera o tato de lidar com mulheres entristecidas. Isso o fez lembrar de sua mãe... Bem, aquele não era o caso. O fato é que ela estava bastante pálida, o olho muito violetas fixos em algum ponto imaginaria. Tinha as feições bastante delicadas, nariz pequeno, lábios finos. Os cabelos negros como as asas de um corvo, caindo sobre seus ombros e costas como um manto. Aproximou-se e sentou na cama. Estendeu a mão.

"Srta.Daidouji, meu nome é Syaoran Li", sua voz soou tão simpática que até mesmo ele estranhou. "Sou um detetive contratado para ajudar no seu caso... e no do Sr.Hiiragizawa".

Ela ergueu a cabeça e sorriu, fracamente. "Eu fico a imaginar, Sr. Li, o que o fez vir até aqui... Sou apenas mais uma prostituta desiludida no amor...".

Sentiu pena da situação da jovem garota. "Não posso julgar o que sente, Tomoyo. Posso te chamar assim?", ela assentiu, e ele continuou. "Nem a conheço para saber o que se passa dentro de seu coração. Mas quero punir que lhe fez passar pelo o que está passando. Antes de tudo, necessito que confie em mim".

Houve um longo silêncio, e depois de alguns minutos, ela ergueu a cabeça e disse, suavemente.

"Assim que vi Eriol, eu sabia que ele ia ser um cliente diferente. Como era muito rico e poderoso, era ordem natural que Sakura ficasse com o cliente. Porém, ele não a olhou. E minha prima percebeu isso. No mesmo instante, ela olhou para mim e disse que gostaria que servisse o lorde, pois sentia uma leve indisposição. Eu o atendi com muito gosto, afinal, havia gostado bastante dele. Porém, como eu previa, ele era mesmo único. Pois ao me ver, não foi logo 'pulando' em cima de mim. Foi gentil, educado, e ainda pediu que por apenas aquela noite, eu conversasse com ele, e não oferecesse meus serviços", as bochechas coraram. "Falamos sobre muitas coisas. Assim como eu, ele era mestiço, tinha pai inglês e mãe japonesa. Era um homem intrépido e muito inteligente, amante das artes e da música. Tínhamos muitos pontos em comum. Por isso, naquela noite, eu recebi meu dinheiro não por ter me deitado com ele. E sim por ter agradado Eriol. Isso me trouxe uma nova perspectiva da vida, e pela primeira vez em muitos anos, eu acredite que finalmente tivesse algum valor. As noites foram prosseguindo, e todas as vezes que ele vinha nos visitar, pedia apenas para que nós conversássemos. Foi assim que eu me apaixonei, tão simplesmente. Nossa primeira noite foi especial não porque ele me pediu, e sim porque eu ofereci", uma lágrima solitária caiu em seu corpete azul-turquesa. "Combinamos que iríamos fugir na calada da noite. Disse para minha prima e ela me deu total apoio. E foi nessa noite que tudo aconteceu. Por mais que me esforce, não consigo entender porque alguém o mataria. E me deixaria viva. É como se fizesse questão de me fazer sofrer".

"Entendo", na verdade, entendia muito pouco. A história era belíssima, e pela emoção com que ela contava, com toda a certeza, não era mentira. Mas os fatos não se ligavam. Um homicídio estranho. Por que haviam matado somente Eriol Hiiragizawa? Talvez, a garota estivesse certa. Alguém a queria ver sofrer. Mas quem poderia ser tal alma cruel?

"Mas sabe...", ele voltou sua atenção quando ela recomeçou a falar. "Eu não odeio essa pessoa. Antigamente, sim, eu certamente não compreenderia seus motivos. Hoje tenho pena. Ela deve estar mais perdida do que eu me sinto agora".

Syaoran arregalou os olhos. Ela não odiava o assassino? Santo Deus! O mundo estava perdido. Uma pessoa tão maravilhosa como ela era prostituta e estava fadada a encarar essa realidade novamente. Tomoyo Daidouji deveria ser uma dama, mulher elegante de um lorde. Não uma concubina. Escolhendo as palavras, ele perguntou. "Tomoyo, eu não posso crer que não odeia tal pessoa. Não quer que ela seja punida?".

"Sinceramente, eu quero esquecer. Não quero nada que me faça lembrar do que aconteceu, dias atrás".

O chinês, assentiu, muito de leve, ainda pasmo. A jovem tocou seu braço, e disse. "Por favor, Sr.Li, me leve para o bordel Candy Pleasures. Eu quero ficar com a minha prima".

"Hã... sim, sim, levo", ele levantou-se. "Tenho que fazer mesmo umas perguntas para ela".

Saíram em silêncio do consultório, mas Syaoran sentia-se mais do que obrigado a descobrir quem fora o autor daquele assassinato. Sentia um afeto fraternal por aquela jovem pequenina em seus braços. Mesmo sendo uma prostituta, ela era diferente de todas aquelas que já havia conhecido. Meiga, gentil e carinhosa. Se tivesse uma irmã, gostaria que ela fosse assim.

Num canto mais afastado, um homem observava a prostituta e o chinês caminharem pelas ruas malcheirosas. Praguejou e cobriu o rosto com capa grossa. Logo, sua irmã estaria em casa. Tinha que explicar algo importante a ela.

-o-o-o-

Charity pôs o vestido mais decente que tinha e terminou de retirar o excesso de maquiagem. Seu irmão sempre afirmava que odiava quando ela aparecia de maneira escandalosa. Ora, quem era ele para falar algo?! Ninguém fazia coisas mais chamativas do que seu irmão!

"Maldito seja, Jack Druitt", ela sussurrou. Sua amiga, Mary, aproximou-se, preocupada.

"Algum problema, Charity?", os olhos eram sempre muito gentis. Provavelmente, ela era a única pessoa que gostava dela naquele lugar. "Parece nervosa".

"Oh, nada com que se deva preocupar", pegou a bolsa branca e ajeitou os cachos no chapéu de mesma cor que sua roupa, um creme bem angelical. "Avise a 'chefona' que tive que dar uma saída, mas que estarei aqui para me aprontar quando os clientes começarem a chegar".

"Aviso, sim!", Mary deu um sorriso muito doce e saiu para conversar com as outras garotas.

Charity saiu do quarto e desceu as escadarias. Matt se encontrava lá embaixo, limpando com insistência o piano. Olhou para o jovem com seus olhos castanhos e deu um sorriso irônico. Ele parecia bastante irritado.

"O que foi, pianista?", com certeza, Matt era uma das pessoas que menos gostava dela. Então, ela o tratava da mesma forma venenosa.

"Nada que seja do interesse desse seu nariz intrometido".

"Ah, mas não precisa nem me responder! Sakura deitou-se com Tristan a noite passada, não é?", os dedos que limpavam o piano dobraram-se fortemente e ele a olhou, irritado. "Acertei! Devia saber que aquela mulher ama o conde. Tolinha... o que ele iria querer com ela?".

"Cale-se, Charity!", ele largou o pano e se dirigiu para a porta da cozinha. "Não posso nem ao menos trabalhar em paz!".

Soltou uma divertida gargalhada antes de sair do bordel. Não se importava se aquela ralé gostava dela ou não. Depois que conseguisse a direção daquele maldito lugar, mandaria todos embora e faria um novo Candy Pleasures. Inovado, decorado e que atrairia muito mais clientes. Mas antes de realizar seus sonhos, teria que se livrar de várias pessoas indesejáveis.

O escritório do advogado Montague Jack Druitt ficava a poucos passos do bordel. E mesmo sabendo que seu irmão era um ótimo profissional, ainda duvidava que ele fosse conseguir algo naquele lugar. Havia tantas causas para ele defender em Dunny Coast. Porém, aquele labirinto da perdição não tinha mais salvação. E achava que depois de algumas noites, John já havia aprendido isso.

O local era provavelmente o mais decente de todo aquele bairro miserável. Entrou, ignorando o olhar faminto de alguns homens que lá trabalhavam. Acostumada com isso, subiu os andares e chegou em frente a porta da sala de seu irmão. Bateu com força e ouviu uma voz, calma e fria, dizer. "Entre".

Abriu a porta e entrou na sala. Jack levantou-se da cadeira e já bastante irritado, tratou logo de gritar.

"É louca, Charity? Já disse para não vir aqui!".

Apesar de parecer um homem bastante decente honrado, Jack tivera um passado difícil, uma vida tão cheia de traumas quanto a dela. Agora livre, tentava ao máximo mostrar que sua boa aparência era idêntica a sua personalidade. Tinha seus mesmos cabelos loiros, em um corte formal. Bastante alto, nem tão magro e nem tão gordo, com os olhos violetas frios e cortantes. Calma, sentou-se na cadeira e viu-o fazer o mesmo.

"Bom dia para você também, irmãozinho", ela sorriu. "E então, os dois estão mortos ou não?".

"Fale baixo, mulher", ele disse. "Tenho algo a lhe explicar".

"Ah, eu sabia!", Charity gritou. "Algo deu errado, não deu?".

"Não consegui matar Tomoyo".

"Mas ela era a principal vítima, seu imbecil!", ela gritou novamente, levantando-se e batendo a mão com força na mesa. "Consegue matar prostitutas velhas e acabadas, donas de bordéis, mas essa simplória jovem, burra que nem uma porta, conseguiu lhe causar piedade?".

"EU JÁ DISSE PARA FALAR BAIXO!", ele também se levantou. "Não consegui porque não tinha como matá-la da forma como estou acostumado... Não queria que soubessem que fui que cometi o crime... Para todos, é melhor pensarem que minha última vítima foi Catherine Eddowes".

"Ah, sim...", ela aproximou-se dele e sussurrou no seu ouvido. "Aquela quarentona... Fiquei sabendo que foi bastante cruel, maninho...".

"Isso é verdade", ele disse, sem muita emoção na voz.

"Ótimo, ótimo. Por enquanto, deixaremos Tomoyo viver... Depois, quando for à hora, você a mata. Está bem, Jack?".

Ele suspirou, nervoso. "Todos pensam que Jack, O Estripador, mata por prazer... Imagino o que diriam se soubessem que a irmã dele é a verdade mandante de todos esses horrorosos crimes".

"Ninguém vai saber, se você nada contar".

"Bem...", ela beijou a face fria do irmão e sorriu. "Vou indo, querido. Lembre-se: Daqui há alguns dias, voltamos a nos falar".

"É... está bem...".

Saiu com o mesmo sorriso vitorioso com que havia entrado. Caminhou pelas ruas sujas até estar de volta ao Candy Pleasures. Assim que entrou, observou uma pequena comoção. Mary voltou a se aproximar, com lágrimas nos olhos.

"Querida, você nem imagina o que aconteceu!".

"O quê?".

"Eriol Hiiragizawa morreu, Charity", Sakura aproximou-se, com uma expressão muito triste. A loira olhou, com desprezo, e depois disse, com a mesma indiferença de sempre.

"Oh, vocês nem o conheciam!", tirou o chapéu e o atirou no sofá aveludado, sentando-se logo em seguida. "Parem de chorar!".

"Charity", Sakura voltou a falar, um pouco mais alterada. "Não choramos só por ele. Não percebe que Tomoyo pode estar morta?".

"Que diferença faz? É a mesma coisa se ela tivesse partido com o falecido. Uma boca a menos para alimentar. Uma cabeça a menos para se preocupar".

"Não seja cruel!", Kate disse, os olhos azuis indignados.

Bocejou. Todas teriam uma surpresa ao ver que Tomoyo não morrera. Mas aquilo realmente não importava. Logo, ela teria o mesmo destino de seu amado lorde. Assim como Sakura e Kate. Ouviu o som da campainha e observou Sakura ir atender. Logo, um grito contente enchia o salão.

"Tomoyo!".

Continua