Capítulo Um

Não era difícil perceber que Mathias Perez, apesar das investidas de todas as belas mulheres presentes, caía rapidamente nas graças da bela advogada recém-integrada para seu crescente império. Entre os inúmeros olhares cobiçosos recebidos durante as festas que ele gostava de dar para seu círculo íntimo, eram os violetas hipnotizantes da jovem loira que ele procurava, sempre em busca de maior aproximação.

Ela era inteiramente sedutora. Olhos, lábios, corpo, dotada de um humor ácido, ainda que comedido em respostas educadas e discretas. Não menos de uma vez Perez se pegou pensando que aquela mulher não havia nascido para limpar a sujeira que ele e seus homens acabavam deixando pelo caminho, como vinha fazendo tão dedicadamente durante quase um ano. Oh, não, ela definitivamente não havia nascido para servir.

Vitória Azevedo nascera para ser rainha.

Esse era seu pensamento enquanto, em mais uma de suas reuniões, observava a elegante advogada conversar com a mulher de um de seus sócios. Vez ou outra, seus olhares cruzavam, e Perez sentia-se prazerosamente perdido pela intensidade das palavras não ditas naqueles olhos, ainda que o momento durasse menos que segundos.

Vitória abria discretos sorrisos quando isso acontecia, antes de dirigir sua atenção para quem quer que fosse, ele podia ver. A bela mulher sabia como jogar, e Perez não se sentia acanhado ao assumir que era cativo ao poder que a mesma exercia sobre ele. Ora, e por que teria vergonha? Ela não era uma vadia qualquer, dessas que enchiam suas reuniões para satisfazer seus convidados, não.

Ela era a rainha.

- Johnny comentou sobre um novo carregamento.

Sua atenção foi desviada para o homem que se encontrava ao seu lado, e o encanto sumiu momentaneamente. Apesar de ligeiramente frustrado com o infeliz a quem tinha como um grande aliado, por tê-lo feito tirar os olhos de sua deliciosa advogada, Mathias Perez respondeu educadamente:

- Foi um ótimo preço. Simplesmente não tive como ignorar.

O homem encolheu os ombros, como se realmente não se importasse. Em seguida, afrouxou mais um pouco a gola de sua camisa branca, evidenciando partes de uma tatuagem que começava em seu pescoço, antes de sorver uma longa tragada de seu charuto.

- Imagino que não. – ele respondeu sarcasticamente, com sua voz grossa. Apesar de sinceramente focado na conversa, seus olhos negros e desconfiados não estavam focados em Perez. Perscrutava todo o ambiente, como se procurasse por algo incomum – Vamos deixar os outros trabalhos de lado, então?

- Não. – Perez retrucou displicente – O que estamos fazendo agora é indiscutivelmente mais importante. – erguendo uma sobrancelha para o enorme homem, comentou: - Você deveria relaxar, Antônio. Vai acabar espantando todos os meus convidados se continuar encarando como se fosse matar a todos.

O gigante soltou uma risada alta, relaxando.

- Heh... A natureza do meu trabalho acaba causando isso. – disse com voz bem-humorada, tragando mais uma vez.

- Faz muito tempo que eu não o obrigo a matar ninguém. – Perez ressaltou calmamente, e o gigante deu de ombros – Ora, não faça essa cara. Desde que saiu da prisão, não tirou uma única vida. Temos passado por tempos tranqüilos.

Graças a Deus não fui obrigado a matar ninguém, o homem pensou, mas não expressou sua opinião em voz alta. Noticiar uma opinião completamente contrária a do falecido Antônio Cruz seria suicídio, e praticamente o anúncio de seu disfarce.

Seria pedir para morrer, e isso não era exagero.

- Não importa. – Antônio respondeu humoradamente – Maus hábitos nunca morrem.

- Ah, não discordo. – o mexicano riu sarcástico – De qualquer modo, respondendo sua pergunta, as putas que comprei são apenas para substituir as antigas. Você sabe, manter o mercado funcionando, caso todo o planejamento não saia como combinado.

- Entendo e, aliás, não tiro sua razão. É um homem razoável. – o cumprimentou casualmente, apesar do nojo que sentia de suas próprias palavras.

Razoável, o meu rabo. Mark não via à hora de acabar com aquele monstro.


Um ano e oito meses após a morte de Nikki Rostova, nove de junho de 2008

Richard Cooper suspirou, desviando a atenção do cadáver para encarar parte de seus subordinados debatendo furiosamente opções a sua frente. Assim como ele, os homens evitavam encarar aquela cena, pois muitos sabiam que suas reações seriam envergonhosas frente a tantos outros Aurores.

Não era uma visão agradável para se ter logo pela manhã. Richard não se surpreenderia se alguns deles até mesmo acabassem vomitando seu café e rosquinhas por causa do sangue, das tripas expostas ou do cheiro fétido, pois até mesmo ele, que já possuía certa experiência com aquelas desordens, sentia-se levemente enjoado.

A menina estava sentada, as costas descansando contra a parede, seu corpo ligeiramente tombado para o lado. Seu intestino delgado estava espalhado em seu colo e o chão, junto com outros órgãos, e as moscas faziam a festa. Os olhos abertos estavam esbranquiçados, e davam uma sensação péssima de que encaravam quem quer que a estudasse; um filete de sangue completava a cena, escorrendo por entre os lábios ressecados e machucados.

Dando as costas ao corpo – e sentindo-se horrível por tomar tal atitude – , o homem saiu do quarto completamente sujo de água da chuva e sangue, e caminhou em direção aos quatro homens que conversavam à sala do minúsculo apartamento.

- Onde está o dono do estabelecimento? – Richard perguntou, dirigindo-se a ninguém em particular daquele grupo.

- Luís Henrique Silva. – respondeu um dos Aurores, o novato do grupo. Possuía cabelos cacheados e castanhos, olhos escuros e ar de alguém que mal saíra do colégio – Conseguimos contatá-lo, estava trabalho em seu estabelecimento -.

- Uma lanchonete da cidade. – continuou outro Auror, de cabelos rapados em estilo militar. Tinha postura completamente séria e endurecida enquanto reportava ao seu chefe – Andrade e Gouveia estão com ele, interrogando-o.

- Certo. – Richard murmurou, desgostoso com a escolha para interrogar o homem. Imaginou Andrade, com a delicadeza de um elefante em uma loja de cristais e Gouveia, um homem que não escondia seu desgosto para trouxas, e aquilo o irritou – E a perícia, onde está? Já deveria estar aqui mesmo antes de -.

- Eduardo Correia teve alguns problemas em contatá-los, por isso estão atrasados. Mas já estão a caminho. – o militar, o Auror Rubens Costa respondeu, dando de ombros, referindo-se ao secretário do Departamento de Investigação Contra as Artes das Trevas – Mas já está bem óbvio o motivo de estarmos aqui, não é? A garota não foi morta do modo tradicional.

- E o que você quer dizer por modo tradicional? – o novato, Rafael Sanchez perguntou inconformado. Costa girou os olhos.

- Modo trouxa. Se a garota tivesse recebido tiros, ou qualquer brutalidade que os trouxas costumam fazer, a polícia deles estaria aqui. Não nós.

Richard achou curioso o fato de Costa falar sobre brutalidade, como se aquilo fosse algo exclusivo dos trouxas. Afinal, existia um cadáver dentro de um quarto que deixava claro ter sido vítima de um bruxo, e como diabos aquilo não era brutal?

Camila estava certa. Os bruxos estavam se tornando cada vez mais preconceituosos em relação às espécies diferentes.

- Mas veja, essa incisão feita na garota não parece ter sido por um varinha, e sim algo manual. Além disso, nós ainda não temos certeza se tudo aquilo foi causado por um brux -. – o novato começou, mas Richard o cortou antes que Costa fosse extremamente estúpido com ele.

- Dá para saber, Sanchez. Dá para sentir a magia. Por isso que a polícia não está aqui e sim nós.

Obviamente que Antônio Carlos, um dos muitos Aurores infiltrado na polícia trouxa, percebera que não se tratava de um caso usual quando recebera o comunicado de homicídio. Richard sabia que o homem também sentira o costumeiro arrepio percorrer pela pele enquanto observava os olhos abertos e sem vida da garota encará-lo, sem que pudesse realmente vê-lo.

Ele sentira a magia, assim como todo Auror acostumado com a rotina de seu trabalho sentiria.

A porta de entrada do apartamento se abriu, e dela apareceu um homem mulato e alto, trajando jeans velhos e uma camiseta preta. Diferentemente de muitos, aquele gigante não parecia incomodado com o frio crescente o suficiente para que colocasse uma jaqueta.

- A perícia está aqui, chefe. Subindo as escadas. – disse em sua voz grossa, apontando o polegar esquerdo para trás de si.

- Ótimo.

Não tardou para que Pedro Albuquerque chegasse à porta de entrada do apartamento, munido com sua equipe. De estatura mediana, rosto marcado por rugas de expressão e ligeiramente calvo, o perito chegou de ótimo humor com seu abdome dilatado, evidenciando seu amor pela comida gordurosa, não se importando com o tanto de carne humana que era obrigado a ver diariamente. Ao encontrar Richard, abriu um largo sorriso, mas o Auror não conseguiu se mostrar tão animado.

Na verdade, desanimou-se ao vê-lo ao invés de Helena Oliveira, uma das legistas do Departamento brasileiro. Apesar de seu sucesso com as mulheres – diabos, ele poderia escolher quem quisesse! – a única que não cedia aos seus encantos era Helena, uma das irmãs mais velhas de Camila Oliveira. De postura extremamente profissional, a mulher de cabelos castanhos ondulados e olhos cor de mel parecia desprezá-lo profundamente.

Ou, pelo menos, era o que parecia, até que Helena terminasse em seus lençóis três dias atrás, após boas horas de diversão em um barzinho trouxa qualquer na Vila Madalena. Após isso, sumira das vistas do Auror e sequer dera-lhe chances de se aproximar. Diabos, ela sequer estava em sua cama na manhã seguinte! Richard acordara, e Helena parecia que há muito já havia saído, deixando apenas o vago cheiro de seu corpo e perfume nos lençóis já frios do Auror.

Ela havia evaporado, praticamente. E Richard, ao invés de se sentir satisfeito com o que já havia conseguido – afinal, existiam muitos peixes no mar, ainda, e Helena apenas fora mais uma boa pesca – sentia-se frustrado, quase que rejeitado, como se tivesse levado um fora. Como uma mulherzinha.

Caramba, por que é que ela havia ido embora? E por que é que ele não se sentia satisfeito?

- Que cheiro horrível! – Pedro exclamou, atraindo a atenção do Auror de volta à realidade. Piscando duas vezes, como se buscando orientar-se, virou-se, dizendo:

- O corpo obviamente parece estar aqui há bem mais do que dois dias.

- Bem, vamos determinar isso, não é? – ele murmurou a pergunta, dirigindo-se calmamente até o dormitório onde estava o corpo de Maria Ninguém, sendo seguido por sua equipe. Richard o acompanhou.

A rotina seguiu-se, a partir daí. Pedro informou a sua hipótese sobre o horário de morte da garota, outros membros da perícia tiravam fotos do local e guardavam vestígios do que consideravam importantes. Richard o escutou atentamente, chegado a até mesmo anotar algumas comentários e observações do homem em um bloco de notas.

Por fim, fechando o bloco, disse com desgosto:

- Não consigo imaginar quem faria isso a uma garota. Deve ter quantos anos, doze, treze?

Encolhendo os ombros, Pedro respondeu enquanto se erguia do chão em que estivera de cócoras por quase trinta minutos, dando seu julgamento rápido sobre a situação:

- Os mesmos monstros de sempre, Cooper. Eles apenas mudam de face e nome, mas é a sempre a mesma coisa.

A resposta fora desanimada, quase triste. Richard não se surpreendeu pelo tom,observando distraído dois homens deitarem, com cuidado quase fraternal, a menina sobre um saco preto, onde seria seu descanso temporário até que passasse pelas mãos de um legista – talvez o próprio Pedro -, onde a violaria ainda mais para descobrir seus segredos, em busca de justiça.

A única diferença era que a menina estava morta, então, pelo menos, sua alma não seria mais desgraçada por toda aquela sujeira. Era o que ele gostava de pensar, para que a tristeza e a raiva não o corroessem.


- Você fez o que? – a mulher de cabelos castanho-avermelhados perguntou, o riso preso em seus olhos, enquanto a mulher ao seu lado parecia engasgar com o tomate cereja que havia acabado de comer.

Helena Oliveira, sentada à frente das duas irmãs, suspirou, como se humilhada.

- Não me faça repetir isso novamente, Sofia. – murmurou, tornando sua atenção para seu almoço; a salada mal havia sido tocada e após contar sua novidade, sentia-se com menos fome ainda para comer qualquer coisa.

Droga, por que havia contado às suas duas irmãs sobre isso? Por que simplesmente não havia decidido que iria apenas almoçar, como toda segunda e quarta-feira, e conversado sobre temas amenos, novidades bobas? Será que sua vida estava tão maçante a ponto que ela acabasse contando coisas que jamais desejaria que as pessoas soubessem?

- Não. Eu preciso escutar isso novamente. – Sofia retrucou, balançando a cabeça como se para enfatizar cada palavra sua. Ao seu lado, Karen parecia ter acabado de se recuperar, pois explodira em gargalhadas.

- Richard Cooper? Não é por acaso aquele cara do Departamento que você detesta, é? O cara que era parceiro de Mila? Da nossa Mila? Nossa irmã?

- Será que podemos mudar de assunto? Todo mundo no restaurante está olhando para nós por causa desse escândalo da Ká...

- Não, não vamos mudar de assunto. – Sofia determinou, apontando o garfo com um pedaço de carne em sua direção – Você vai nos contar sobre Richard Cooper, Helena, nem que eu tenha que ameaçá-la e torturá-la para isso.

Helena choramingou.

- Eu estava bêbada...!

- Meu Deus, e ainda por cima estava bêbada. – Karen comentou, recuperada de seu ataque – Você transa com um cara daqueles, e nem para se lembrar de como foi tocar naquela delícia de corpo!

- Ká! – Sofia exclamou, rindo da sinceridade da irmã mais nova.

- O quê? Alguém tem que falar o que todas estão pensando! – Karen se defendeu, o cabelo negro preso em um rabo de cavalo balançando de um lado para o outro em suas costas, enquanto ela balançava a cabeça – Quero dizer, até você tem que admitir que o Rick é maravilhoso, Helena, por mais que eu sempre vá preferir o Douglas acima de todos os outros, é claro. Se bem que eu acho que você acabou de nos provar que fez muito mais do que simplesmente admitir -.

- Ah, parem com isso, vocês duas. – Helena reclamou, envergonhada demais e irritada demais consigo mesma para permitir que as irmãs agora zombassem dela – Eu não devia nem ter comentado isso com vocês.

- Claro que deveria. Somos suas irmãs. Devemos sempre estar juntas, na alegria e na tristeza. – Sofia replicou calmamente, saboreando mais um pedaço de carne – E é muito bom saber que você me arranjou um cunhado decente, pelo menos.

Helena bufou, e Karen tornou a rir.

- Ele não é seu cunhado. – Ela rosnou, mas as irmãs não a escutaram. Agora, pareciam entretidas em sua própria discussão.

- O que você quer dizer com isso? – Karen perguntou, como se ofendida – Douglas é um ótimo cunhado!

- Não estava falando do seu noivo. – Sofia resmungou displicentemente - Adoro o Douglas, ele sabe animar como ninguém uma tarde em família. Estava era desprezando todos os antigos namorados de Helena. Ah, talvez alguns de Mila, também... Ela sabe como ser influenciada pela nossa irmã.

- O quê? – perguntou Helena, inconformada – Como assim você estava -.

- Ah, entendo. – Karen a interrompeu, olhando para Sofia – Bem, nisso você tem razão. Lembra-se daquele babaca de alguns anos atrás... Qual era o nome dele? Ian?

- Qual? Aquele que a trocou por um homem?

- Querem parar com isso? – Helena gemeu. Deus, detestava aquela história até hoje! – Eu não estou falando sobre os seus namoros horríveis -.

- Isso! Ele disse que se sentia mais homem quando estava com seu novo namorado do que com Helena. – Karen respondeu animada.

- Talvez seja por que Lena era o macho da relação? – Sofia perguntou, rindo.

- Pelo amor de Deus, até uma ameba sabia ser mais macho que Ian! – Karen desdenhou.

- Tem razão. Você precisa de um cara como Richard, mesmo, Helena. Ele é homem o suficiente para aplacar seu fogo e é um ótimo cara. Divertido, inteligente...

- Gostoso. – Karen interpôs – E, definitivamente, ele seria o macho da relação.

-... E se dá bem com todo mundo na família. Mamãe adora o Rick, e papai parece gostar dele.

Helena sentiu-se afundar cada vez mais em sua frustração.

- Alguém já parou para se perguntar o que eu acho? – grunhiu.

- Quem precisa? Você dormiu com ele. Ficou mais do que óbvio que você gosta dele, sente uma enorme atração, mas fica com essa frescura por algum motivo que só Deus sabe. – Sofia respondeu simplesmente.

- Frescura? Ah, pelo amor de Deus -.

Antes que ela pudesse continuar sua reclamação, o Espelho de Duas Facesem sua bolsa apitou escandalosamente, e Helena se calou, ocupando-se em resgatá-lo. Ao consegui-lo, atendeu-o, desculpando-se pela demora.

Pedro deu de ombros, o sorriso simpático de sempre em suas feições.

- Preciso de ajuda, Lena. Há mais um aqui.

Helena suspirou.

- Certo, já estou a caminhou.

Guardou o Espelho, não sabendo se ficava aborrecida de não conseguir terminar o almoço com suas irmãs, ou se ficava feliz porque não precisaria mais escutá-las zombarem de sua cara. Ao colocar a bolsa sobre um dos ombros e se levantar, deixando o dinheiro de sua parte sobre a mesa, Sofia perguntou:

- Mas que pressa toda é essa?

- Aonde você vai? – perguntou Karen, preocupada.

- Pedro precisa de mim, acabou de chegar mais um corpo. Vejo-as em casa.

- Jesus! – Karen reclamou, observando a irmã mais velha desaparecer assim que pisara fora do restaurante – Ela deveria ser determinada assim em seus relacionamentos, não ficar empolgada porque vai ver um morto!

Sofia apenas riu da indignação da irmã.


Michael Stuart começava a se arrepender da decisão que havia tomado.

Achara, sinceramente, estar certo quando decidira sua posição, e dera seu voto. Agora, um dia e algumas horas mais tarde, começava a se arrepender de tal resolução – não que tivesse percebido sua opinião como um erro, mas simplesmente não agüentava mais a tensão que sua preferência havia causado entre ele e Camila Oliveira. Desde que erguera seu braço, concordando com a exposição de Denis Brosseau, a Auror parecia até mesmo se recusar a reconhecer sua presença próxima a ela.

Não dera muita importância ao ocorrido, inicialmente – imaginava que era apenas uma frustração boba, passageira, e que mais tarde a mulher acalmar-se-ia e conversaria com ele de maneira racional e paciente.

Deus, como ele estava errado.

Desde a decisão do Conselho Geral sobre o caso de Mark Rutherford, Camila não lhe dera atenção. Apesar de estarem dividindo um quarto de hotel e passando praticamente vinte e quatro horas juntos nos últimos oito dias, a Auror não pareceu sentir a necessidade de lhe dirigir algumas palavras além do seco necessário. Apesar de ter sido criado em um ambiente e uma cultura onde a discrição, a educação e a decência deveriam ser privilegiadas acima de tudo, Mike sentia-se frustrado que Camila simplesmente não lhe dissesse qual era seu problema. Chegava ao ponto de nem ao menos se importar caso ela começasse a gritar com ele e fosse completamente estúpida – pelo menos, assim, eles resolveriam o que quer que tenha se rachado entre os dois.

Eles estavam no Ministério da Magia Canadense, no setor de Chaves do Portal, onde esperavam o horário certo para que a Chave de Mike funcionasse. Camila dissera que precisaria resolver algumas coisas ainda antes de poder voltar para casa, então partiria apenas em um ou dois dias.

Estavam em uma sala, sozinhos, com a Chaves a frente dos dois e um relógio de parede pronto para anunciá-los do horário adequado de partida e, nem assim, parecia que sua namorada começaria uma conversa; nem mesmo sabendo que agora eles não se veriam tão cedo, graças as suas vidas corridas.

Camila brincava distraída com um rasgo na calça jeans, à altura do joelho. O furo já estava quatro vezes maior do que o originalmente fabricado, mas ela não parecia se importar. Michael a estudou, em silêncio, com o cenho franzido.

Por que diabos ela simplesmente não dizia? Por que simplesmente não se abria? Nunca, até o presente momento, havia percebido o quanto Camila Oliveira era fechada. Na verdade, sempre achara que ela era bastante temperamental, do tipo que expressava as emoções a qualquer momento.

Contudo, percebera que a mulher poderia estar morrendo, agonizando, transbordando fúria, mas parecia que ela simplesmente guardava todas suas emoções para si. Aliás, o único momento em que a vira revelar qualquer coisa que estivesse pensando foi na hora em que toda a defesa saiu; Robert Swan, antigo chefe do Departamento americano, colocou a mão em seu ombro e lhe deu um breve apertão, dizendo consolos que Mike não conseguiu ouvir. Do outro lado, um Nathan Madison igualmente arrasado tentava lhe animar, obviamente sem sucesso.

Camila parecia não escutá-los. Com o rosto crescentemente vermelho, pediu licença e se retirou, dizendo algo que Mike pensou ouvir como "banheiro". Inicialmente, acreditou que aquela vermelhidão fosse provocada por lágrimas que queriam cair em cascata. Apenas percebeu que aquilo era raiva quando Swan murmurou, observando-a se afastar em passos apressados:

- Ela vai destruir o banheiro.

Não sabia se isso de fato acontecera. Camila já estava com seu rosto inexpressivo quando ele a reencontrou, meia hora mais tarde. Tentou conversar com ela, mas a Auror simplesmente passou ao seu lado, ignorando-o completamente, caminhando em direção aos dois americanos. Nathan apenas ficou próximo ao antigo diretor e a mulher, com sua expressão solene, enquanto Swan abraçava a Auror como um pai consolava um filho.

E, após isso, toda a tensão começara.

Ele não agüentava mais, pensou de repente, observando enraivecido e machucado a mulher abrir ainda mais o rasgo em sua calça. Estava cansado de toda aquela frieza, e diabos, ele vinha de um país conhecido pelo comportamento frígido de seus habitantes!

- E então? Por quanto tempo você vai continuar me ignorando?

Fora estúpido, admitia isso. Apesar de manter a voz calma e baixa, era inegável a nota dolorida e a frustração também emitida. Imediatamente se arrependera, pensando que, se até agora ela não havia se manifestado, realmente após isso não o faria mais. Contudo, antes que pudesse se desculpar surpreendeu-se pela voz de sua namorada responder:

- Enquanto eu lembrar o que aconteceu no Conselho Geral e me sentir irritada com isso, provavelmente.

Não fora voz de alguém machucado, triste pelos acontecimentos, não. Na verdade, a Auror soara seca e resoluta. Mike ergueu o rosto para encarar o dela, e percebeu que ela sequer havia se dado ao trabalho de olhá-lo para responder. Seu queixo estava ligeiramente erguido, em arrogância.

Novamente, a raiva o invadiu.

- Qual é o seu problema, Camila? Não acredito que você esteja tão nervosa por causa de um -.

- Michael, você não quer falar sobre isso.

O aviso soara quase como uma ameaça, e ela não pareceu arrependida, como ele estivera outrora pelo tom usado. Mike inspirou profundamente, buscando, sem sucesso, paciência, antes de mandar tudo às favas e responder em tom de afronta:

- Não, eu quero sim. Por que você não fala comigo? Você mal olha na minha cara!

- Michael -.

- Não, Camila. Todo mundo ergueu a mão, mas é comigo que você está furiosa! Será -.

- Todo mundo quem, Michael? – ela inquiriu, finalmente o encarando. O Auror reconheceu a dor de traição naqueles olhos, como se ele fosse culpado por um crime capital – Você se refere ao júri comprado ou a bancada do Conselho Geral, lambe-botas de Brosseau? É com eles a quem você quer que eu o compare? – seu rosto reassumiu uma tonalidade rosada, o rosto contorcendo-se em raiva. Era a primeira reação que via em seu rosto após quase dois dias.

- P-por Deus, Camila! Você está me ofendendo!

- É mesmo? – Camila desdenhou, rindo sarcasticamente em seguida – Então temos algo em comum, afinal. Estava exatamente assim quando você ergueu o braço, concordando com tudo o que Brosseau havia dito!

Michael franziu o cenho.

- Já parou para, pelo menos, considerar as palavras de Brosseau? Já considerou que talvez ele esteja certo? – questionou, procurando ignorar o ultimo comentário da namorada – ele apresentou pontos significativos, e droga, eu tenho o direito de dar a minha opinião, independente de qual seja a sua! Concordei com Brosseau, ele demonstrou pontos que eu nunca tinha analisado antes. Fez sentido tudo o que ele disse.

A mulher agora havia passado do rosado para um vermelho mais expressivo. O punho em seu joelho estava cerrado, e a mandíbula, endurecida.

- Ah, você decidiu que iria entrar na defesa para, no fim, perceber por certa ironia do destino que estava errado, e então votar contra tudo aquilo que tínhamos batalhado por quase dois anos?

Michael surpreendeu-se que a pergunta não saíra aos gritos. Saíra no mesmo tom das perguntas e respostas anteriores. Contudo, a situação fizera-a bem mais ameaçadora. Não se intimidou.

- Esse é o seu problema, então? Está irritada porque tudo pelo o qual você lutou foi por água abaixo?

- Não é esse o problema! – sua voz se elevou, e seu rosto se contorceu em raiva – Você concordou em retirar uma pessoa competente! Você condenou a um inocente!

Ela estava quase gritando quando dissera a ultima frase. Erguera-se, assim como Mike, que estava igualmente furioso.

- Ninguém disse que Rutherford é culpado, Camila! Tanto que o homem nem está mais preso foi inocentado! Só concordo com Brosseau que ele não é mais competente o suficiente para ser um diretor, muito menos possui psicológico para ser um Auror -.

- Nem está mais preso! – ela desdenhou suas palavras, um sorriso furioso presente em suas feições – Será que você consegue escutar sua própria estupidez? Ele sequer deveria ter sido preso, em primeiro lugar! Ele ficou preso por meses, quando sequer existia provas de que ele deveria estar ali. Tudo, tudo porque Brosseau é um canalha mal amado capaz de manipular todo aquele local! Você realmente é tão imbecil quanto demonstra?

- Pare de me ofender!

- Não, eu nem comecei a ofendê-lo, Michael. – ela balançou a cabeça - Se eu quisesse -.

O relógio na sala apitou ruidosamente, anunciando que a Chave do Portal de Mike estava pronta para levá-lo de volta a Inglaterra. Dando às costas a namorada – antes que dissesse mais coisas das quais pudesse se arrepender mais tarde -, recolheu os pedaços de dignidade que ainda lhe restavam e rumou em direção a Chave, procurando ignorar o orgulho ferido e quaisquer outros sentimentos.

Camila, contudo, não parecia pronta para uma trégua. Pelo contrário, antes que ele pudesse tocar na velha garrafa que o levaria de volta para casa, Michael a escutou retrucando amargamente, enquanto rumava até a saída:

- Você fala sobre competência, mas você jamais será metade do Auror que Mark é. Afastado ou não, ele sempre será melhor do que você, ou qualquer outro que votou contra ele.

Dando-lhe as costas e não esperando por resposta, Camila fechou a porta da sala atrás de si, deixando um Michael boquiaberto para trás.

Continua


NOTAS: Pois é, eu sei que muitos de vocês ficaram "WTF?" quando, subitamente, todos os capítulos desapareceram, deixando apenas um prólogo totalmente diferente do inicial, sem menores explicações. Agora, com uns vinte minutos de tempo antes de ir dormir e voltar para a luta, quero deixar tudo explicadinho para não confundi-los mais :)

A Trilogia será reescrita. A Ninguém Como Você manterá a mesma trama, a única coisa que farei com ela a partir do ano que vem será reeditá-la - afinal, a ideia inicial era apenas um romance, e terminou com uma trama toda maior do que poderia imaginar, praticamente bolada após a fic ter sido criada. Vou só arrumar aquele lance todo de datas, nomes, lugares, essas coisas, nada muito preocupante e do tipo "ZOMG, E AGORA JOSÉ?", só arrumar a cronologia e alguns detalhes que muita gente percebe, mas que eu sou chata demais para deixar errado e depois vir com alguma desculpinha bem lame no meio da fic, falando motivos totalmente sem-noção.

A Caleidoscópio, obviamente, será completamente reescrita. Praticamente toda a trama está diferente, e grande parte dos acontecimentos aqui são consequência da fic passada E presságios do que vai acontecer na última história, Pequeno Paraíso. Posso afirmar que existirão variados detalhes aqui que, na última história, serão sufocantes. A respeito do prólogo, para quem não se lembra, quando a Sarah é demitida do DICAT, Mark e Camila estavam presentes, por causa do corpo do cara do atentado - e o prólogo passa justamente antes disso. Ou seja, sim, a fic já começa com a Camila sabendo do lado negro da força - er, da vida do Mark. Ou pelo menos, parte dela.

Agora, por que eu mudei a trama? Superficialidade. Reli tudo e pensei "Man, quem escreveu essa porcaria?". Não gostei do desenvolvimento do casal, não gostei da trama, achei-a mal desenvolvida. Vi vários detalhes que poderiam ser melhorados ou até reescritos e pensei "Ok, hora de recomeçar tudo de novo". E desta vez fiz planejamentos e tudo o mais, com direito a planilha e tudo o mais xD. Sobre a lembrança no início do capítulo, é a respeito da Missão Perez - cada capítulo terá um trecho sobre isso, logo no início. Não vai ser para mostrar o desenvolvimento do casal - até porque, os próprios personagens vão admitir que, naquele tempo, não se era possível ter desenvolvimento algum - mas sim para compreender a fic toda num geral. São detalhes bastante importantes, e espero que gostem ;D

Sobre a última fic, nem preciso falar. História totalmente revisada em julho, quando entrei em férias. Aliás, revisei todo o trabalho nas duas únicas semanas que consegui descansar - barely. Esse capítulo e o prólogo, aliás, são frutos desse tempo de descanso em julho. Só postei hoje porque estava REALMENTE com vontade de ficar um pouco no computador, do que simplesmente estudar.

Sobre as outras fanfics (Minha Doce Noiva, Ritmo Quente, etcs), deixei tudo explicado no meu profile. Aos interessados, por favor, chequem!

E, finalmente, arrumei as bagunças. Espero que tenham gostado deste novo início, e desta nova trama :)

Tammie.

Próximo capítulo: Harry, Ginny e Sarah fazem sua aparição ;D.