"A minha deusa é ainda mais bela por não saber que é uma deusa. (...) Não sonha o quanto as pessoas gostam e precisam dela. Mas há deusas assim, que passam pela vida sem adivinhar o que são, como se fossem iguais às outras mulheres e que encolhem os ombros perante os seus defeitos, numa discrição congênita, quase tímida, quase infantil, desconhecendo o imenso poder que emanam."

(Margarida Rebelo Pinto)


Capítulo 1 – EM ESTADO DE CHOQUE (A Constatação)

Era assim toda vez que ele a via. E dessa vez não fora diferente.

Quando seus olhos encontravam a figura delicada e graciosa daquela menina, que agora mexia tanto com ele, logo se perguntava se era possível estar no céu, sem nem sequer saber ao menos como havia ido parar lá. Confrontando toda lógica da sua mente, a resposta era sempre a mesma: sim, aquele era o céu. E essa resposta surgia independentemente do lugar em que a figura da garota se encontrava. Ele tinha a mais absoluta convicção de que qualquer lugar onde a ruiva estivesse, aquele lugar seria então o céu. Ao menos o seu céu.

Para ele, Ginny Weasley era a perfeita representação de um anjo. Na sua concepção, não haveria nada no universo que se assemelhasse a doçura e magia envolta na figura daquela jovem. Não poderia haver, e isso ele tinha absoluta certeza, figura que representasse a ternura de forma mais simples e contundente do que a daquela ruiva, que agora encontrava-se absorta em seus pensamentos, aparentemente em uma galáxia muito, muito distante.

Sim, se os anjos realmente existissem, não havia dúvidas de que Ginny era uma das suas mais belas representantes.

Ela, porém, não ciente da presença de um observador tão atento, continuava em seu universo particular, sentada de pernas cruzadas sobre umas das largas poltronas da sala comunal, com um livro sobre o colo. Seu olhar, embora dirigido ao objeto, parecia perpassá-lo, indo muito adiante, talvez de encontro a sua mente e aos seus pensamentos mais profundos. Encontrava-se, por assim dizer, praticamente imóvel, com a face banhada pela luz da lua e das muitas estrelas que já adornavam o céu daquela linda noite de início de primavera. A luz refletia em suas íris cor de âmbar, dando a elas um brilho muito intenso, certamente o brilho dos sonhos que transitavam pela sua mente, naquele momento.

O único movimento observável era o de sua pequena e delicada mão, que segurava no ar uma pena, fazendo movimentos suaves e etéreos, como se pretendesse riscar o ar, escrever ou desenhar algo que não parecia muito claro, nem mesmo para ela. Talvez, ele pensou, fosse essa apenas mais uma forma de divagar, afastar sua mente do seu corpo, para que essa pudesse percorrer caminhos invisíveis, por mundos ainda não descobertos.

Nesse instante, mais um movimento fez-se presente naquela cena, dando vida a aquilo que por vezes mais lhe parecia a gravura de um quadro lindo, porém inanimado. A brisa morna que passava pela janela entreaberta movimentava delicadamente as madeixas rubras do cabelo de Ginny, fazendo-as valsarem uma dança lenta e graciosa, refletindo por vezes a luz do luar, como uma chuva de prata sob a face pálida da garota.

Vez ou outra, a jovem suspirava profundamente, como se pudesse com aquilo, sair da realidade em que seu corpo se encontrava, e ir ao encalço de seus sonhos mais antigos. Por vezes, somados a esses suspiros, ele também surpreendeu-na fechando seus olhos, e assim ficando por alguns poucos segundos, até retornar a abri-los.

O que de certa forma o incomodava, e muito, era o brilho que seus olhos adquiriam após esses breves segundos. Era um brilho triste, distante também, mais uma distância aparentemente mais incômoda que a distância de sua mente, ao vagar pelos seus sonhos.

Parecia-lhe que ela, ao abrir os olhos, obrigava-se a sair de um mundo irreal, mas possivelmente tranqüilo e apaziguador, e voltar para um mundo sombrio e de caos, que lhe amedrontava e entristecia. E a confirmação do que seria uma breve suposição, vinha-lhe através da face da menina, que lançava a si mesmo um sorriso triste, por um breve instante, até transformá-lo em um nada, uma fisionomia que não perpassa qualquer emoção, qualquer sentimento, como a de uma criança que descobre cedo demais que Papai Noel não existe. Isso lhe corroia a alma.

Por Merlin, como gostaria de saber o que se passava com aquela garota. O que havia naquele reino de conto-de-fadas, que ela visitava com tamanho desprendimento, que lhe trazia à expressão aquela paz e aquela serenidade, de segundos atrás? Se ele soubesse, faria tudo para que ela pudesse visitar aquele lugar tão mágico mais vezes, ou, pretensiosamente pensando, talvez pudesse ele trazer parte daquele mundo encantado para o mundo dela. Para o mundo deles. Para que ela pudesse viver aquela fantasia, e não apenas visitá-la em devaneios.

Porém, havia algo que ele gostaria mais que isso. Ele gostaria de saber porque era tão ruim, tão frustrante para ela despertar daquela viagem ao inconsciente dos seus sonhos. Claro, sonhar é bom, e na maioria das vezes não gostamos de despertar. Porém, o nosso não gostar parecia infinitamente menor que a decepção e a mágoa que vinha no semblante dela, ao despertar para a realidade. Ele queria, desesperadamente, saber porque a realidade era tão amarga para ela, queria saber para buscar um jeito, qualquer que fosse, para tirar de sua fisionomia a dor intensa que agora ele via, estampada na sua figura inexpressiva. Aquela dor que o feria mais que um punhal cravado sobre seu peito.

Passado um breve instante naquela agonia, que parecia atingir tanto a ele (ou até mais, se isso fosse possível) quanto a ela, a garota então voltou seu olhar para o livro depositado sobre suas pernas, na certa tentando afastar todo aquele turbilhão de emoções que seu semblante buscava esconder. E possivelmente conseguiria mesmo enganar qualquer pessoa através daquela figura enigmática em que se transformara. Qualquer um... Menos a ele.

Não, ele não se enganava. Conhecia aquela ruiva bem demais, para cair na falsa percepção que esta buscava transmitir a todos que a rodeavam. Era engraçado pensar isso. Afinal, nem a conhecia tão bem assim, se analisasse racionalmente. Eram amigos, sim, não uma amizade tão definitiva, quanto a que o unia a Rony e a Hermione, mas de alguma forma ele sabia que podia contar com ela e só essa vaga percepção, já trazia paz a sua alma jovem e aflita, a alma de um garoto que está no início da vida, e sabe que não serão poucos os desafios a serem enfrentados num futuro não tão distante.

Entretanto, não era essa amizade que trazia a ele a certeza de conhecê-la tão bem. Nem tampouco o fato de tê-la visto crescer, já que quando a vira pela primeira vez, ela era apenas uma garotinha. Uma linda garotinha...

Não, não era nada tão lógico ou racional quanto qualquer um desses argumentos, que poderiam facilmente justificar qualquer relação estabelecida entre duas pessoas. Mas não entre ele e Ginny...

Nada que ele pensasse ou sentisse com relação aquela menina-mulher era lógico, muito menos racional. E isso o aterrorizava, de certa forma. Um terror bom, se houvesse possibilidade de assim ser.

Terror bom ?? Que absurdo! Qual a maldita lógica nisso? Então, maisuma vez vinha-lhe a mente o seguinte pensamento: "na relação entre Ginny e seus sentimentos, definitivamente, nada chegava sequer perto de uma lógica".

E assim divagando, ele prosseguia observando-a. Cada pequeno gesto, cada sutil mudança de expressão da garota, não passavam despercebidas por ele. Notou sua tentativa frustrada de centrar sua atenção nas palavras escritas naquele velho livro. Seus olhos mantinham-se forçadamente abertos, parecendo-lhe que ela até tentava impedir-se de piscá-los, como se aquilo bastasse para prender sua atenção, e, mais precisamente, sua mente, no que lá encontrava escrito. Franzia o cenho, segurava a pena com força, numa luta invisível contra seus devaneios, que parecia-lhe roubar muita energia. Por fim, ela lançou à escuridão um suspiro cansado, como de um lutador, que após ser mortalmente atingido, cai sobre seus próprios joelhos e se entrega, num ato de... Rendição.

Não, aquilo já se tornara demais para ele assistir calado. Ver aquela garota forte e determinada, que ele tanto admirava, render-se daquele jeito, a um inimigo invisível e que habitava certamente as profundezas de sua alma, estava muito além do que ele julgava poder suportar. E, sem pensar, num impulso incontrolável, tirou-lhe de seus pensamentos.

- O que está acontecendo, Ginny...

Não era uma pergunta. Era uma súplica. E como tal, saíra em um tom angustiado de voz, expressando uma genuína preocupação.

xxx

Notou que o corpo da ruiva estremeceu por um breve segundo, como se essa despertasse de um transe profundo. Vagarosamente, ela ergueu as íris amêndoas em direção a figura do jovem rapaz que se encontrava parado, ao pé da escada que levava ao dormitório masculino. Não pareceu surpresa ao reparar sua presença ali, por mais inusitada que a situação parecesse para qualquer um que olhasse de fora. Entretanto, piscou algumas vezes os olhos, como que procurando certificar-se do que via, como se acreditasse que aquela figura a sua frente pudesse ser apenas uma miragem, um delírio de suas vistas já cansadas.

Por fim, aparentando que convencera-se de que seus olhos não a enganavam, sorriu. Um sorriso fraco, quase imperceptível, porém extremamente verdadeiro. Certamente não um sorriso de alegria ou mesmo de euforia, mas apenas um sorriso que demonstrava um profundo alívio por ter sido arrancada da beira do precipício, no qual ela encontrava-se prestes a cair.

Harry não sabia dizer ao certo, mas seu coração havia parado, inexplicavelmente, de bater.

Passados poucos segundos, que para ele pareceram intermináveis minutos, ela finalmente lhe disse, não mais que em um sussurro:

- Oi, Harry...

O sorriso alargou-se um pouco na face pálida da moça. Harry não pode evitar que um suspiro aliviado saísse de seus pulmões. Então, retribuindo o sorriso da garota, encaminhou-se até mais próximo da poltrona que ela ocupava.

Ela, num gesto mudo, indicou que ele se sentasse, o que ele atendeu de pronto. Assim, após sentar-se em uma poltrona que ficava ao lado de onde a jovem se encontrava, virou o rosto e a encarou.

É preciso dizer que para realizar esse pequeno gesto, ele precisou juntar uma porção significativa de coragem. De certo modo, era difícil para ele agir naturalmente estando próximo a garota. Na verdade, sua mente simplesmente travava, quando seus olhos paravam sobre a delicada figura da ruiva. Todo e qualquer pensamento lógico se perdia, em algum lugar do tempo e do espaço, há milhares de anos luz de sua lucidez. E seu coração...

Ah, seu coração... Ele primeiramente parecia falhar alguns batimentos. Logo em seguida vinha aquele aperto no peito, que chegava perto de uma dor física. E, por fim, batia forte e acelerado, desgovernando-se em pura disritmia. E, convenhamos, esse estado não o auxiliava em nada nos momentos em que precisava tomar um atitude, uma decisão. Ele não conseguia entender, por mais que passasse noites e noites em claro pensando, como aquela menina conseguia causar tamanha revolução em seus sentidos.

Mas essa dúvida era apenas uma das que pairavam em sua mente. O que mais o atormentava, em suas noites insones de reflexões, era o fato de ele não entender o que era, de fato, aquilo. O que ele sentia pela amiga, afinal? Não tinha a mínima noção do que seria... Bem, na verdade, uma vaga noção ele tinha, sim. Mas daí até admitir que o que aquela vozinha vinda lá do fundo do seu subconsciente dizia poderia ser verdade, iam quilômetros e quilômetros de distância. A única coisa certa para ele, era a intensidade daquilo tudo. Fosse o que fosse, seja qual for o nome atribuído ao sentimento que lhe invadia a mente e o coração ao pensar na ruiva, ele só tinha uma certeza. Era algo forte, incomum e assustadoramente devastador.

Com tudo isso passando em sua mente, não é de se estranhar que ele precisasse daquela dose cavalar de coragem para encará-la. Essa, por sua vez, desviou seu olhar para baixo e apenas aguardou que o moreno falasse algo.

Percebendo que a menina não se manifestaria, Harry inspirou profundamente, buscando juntar o resto da coragem e o pouco da lucidez que ainda restavam em seu ser, e, quando conseguiu, disse simplesmente:

-Já é tarde, Ginny...

Claro que não era aquilo que ele gostaria de ter dito. Gostaria de ter perguntado o que lhe afligia, a ponto de roubar o seu sono e, aparentemente, sua tranqüilidade. Gostaria de saber para onde seus devaneios haviam levado-a, há alguns instante atrás. Gostaria de indagar se ela estava bem, se ele poderia lhe ajudar de alguma maneira, fosse essa qual fosse. Gostaria de dizer-lhe que se preocupava, e muito, com ela, que ela poderia se abrir com ele...

Mas aquilo foi tudo o que disse, aquelas quatro palavras estúpidas...Bem, não que o apelido daquela menina fosse algo estúpido (muito pelo contrário, ele o achava encantador, por sinal), mas de qualquer forma...

Ela, entretanto, interrompeu seus pensamentos ao inspirar profundamente, e com um sorriso tristes nos lábios, dizer:

- Parece que não fui a única a perder o sono por aqui.

Ele procurou algo por dizer, mas não encontrando, apenas assentiu. Fitou com atenção a garota, que continuava com o olhar baixo, agora com o corpo um pouco retraído, como se estivesse se encolhendo de um forte vento que só ela sentia. Conseguiu vislumbrar seu olhar intenso, um olhar que talvez refletisse uma intempérie em um oceano.

Ela passou a mão pelos seus próprios braços, esfregando-os com força, buscando sair daquele inverno sem fim, em que talvez não seu corpo, mas sim sua alma, estava mergulhada. Por fim, abraçou as pernas e, mais uma vez, suspirou pesadamente, levantando as íris e encarando-o profundamente.

Aquilo o fez estremecer fortemente. O peso daquele olhar caiu com uma força descomunal sobre ele, que sentiu seu corpo fraquejar e o ar abandonar de uma só vez seus pulmões. Ele tinha a vaga impressão que se já não tivesse sentado, certamente teria despencado no chão, visto que seu corpo ficou completamente desprovido de qualquer sentido. O que havia naquele olhar, afinal?

Desviando seu olhar da garota, buscou respirar fundo, absorvendo o máximo de oxigênio de uma só tragada, na esperança que isso o ajudasse, de alguma forma, recuperar seu controle, que já havia escapado completamente de si, como a areia fina que escorre dos dedos da mão. Conseguindo, se não recuperar por completo o controle, pelo menos acalmar-se um pouco, ele voltou a encará-la.

Essa ainda sustentava o mesmo olhar. Parecia que ela buscava ver algo nos olhos do rapaz. Harry não saberia dizer o que...

Após breves instantes, parecendo não encontrar o que buscava, deu de ombros, talvez desistindo da busca misteriosa. Resignada, comentou com um tom inexpressivo:

- Apenas tive um pesadelo... Isso. Um pesadelo.

A segunda parte da sentença veio quase num murmúrio, como se ela dissesse mais para ela mesma, buscando-se convencer de que aquilo condizia com a verdade.

- Um pesadelo – repeti, perfeito idiota que sou.

Estúpido, fazer-me de eco não ajudará tornar essa conversa (?) significativa, pensei, aborrecido comigo mesmo.

A garota então sorriu de canto, não percebendo o embaraço do rapaz, e deu de ombros, como que dizendo que aquilo realmente não era importante. Mal sabia ela o quanto aquilo era importante...

Sacudiu levemente a cabeça, como que buscando afastar um pensamento inoportuno e, agora, encarou-o com mais firmeza, parecendo finalmente ter tomado consciência da presença daquele rapaz e da estranheza da situação. Analisou com cuidado a figura do jovem e só passado alguns instantes, dirigiu-lhe a palavra:

- E você? O que faz aqui a essa hora?

Disse aquilo de um modo evasivo, que de alguma forma feriu coração do menino, não sabendo ele explicar ao certo porque.

Buscando algo um pouco menos estúpido para responder, ele demorou alguns segundos. Por fim, percebendo que raciocinar naquele momento estava além do seu alcance, decidiu apenas por falar a verdade. Era mais fácil e seguro.

- Meu sono nunca foi dos melhores, você sabe... Mas estava preocupado com algo... – falou, em tom hesitante.

- Com o que seria? – ela perguntou, simplesmente.

Pronto, 'tô' lascado. E agora,' ser inteligente', como você vai se sair dessa? Às vezes, a verdade não é a coisa mais segura a se dizer, principalmente, quando ela encobre outra verdade, que não está clara, nem para a própria pessoa que a diz. E agora? – pensou aflito – como diria a ela que o que lhe preocupava, o que lhe atormentava, há meses, era ela própria.

Era, na verdade, os sentimentos que ele nutria por ela, que cada dia tornavam-se mais fortes e, proporcionalmente, mais confusos. Não, sob hipótese alguma ele poderia lhe contar isso. Ele não falaria jamais, ou, pelo menos, não até ter uma posição certa sobre o que era aquilo e o que representava, de fato. Nem sob tortura, nem que lhe lançassem um Cruciatus.

Agora, só restava saber o que responderia, afinal. Fácil - pensou, irônico.

Pensa, Harry, pensa rápido.

Não dá, não dá, NÃO DÁ!! - desesperou-se. (N/A: E vocês, caros leitores, quando eu disse que a mente dele simplesmente travava ao ver Ginny, acharam que era exagero de minha parte).

FALAR DE AMOR É FÁCIL,

E AO MESMO TEMPO É TÃO COMPLICADO...

OK, vamos voltar a técnica da verdade. Qual era mesmo a pergunta? Ah, sim, ela queria saber com o que eu estava preocupado, o que estava tirando meu sono.

- Eu estava pensando em uma garota, na garota que eu gosto – disse, de um fôlego só.

- Ah – ela disse, ficando um pouco corada. Adorável.

Depois disse, um silêncio profundo baixou sobre o salão comunal. Nada era ouvido além do crepitar do fogo sobre as brasas, na lareira ainda acesa.

Droga, de onde tiraram que a verdade era sempre o melhor remédio. Quem disse isso, certamente nunca passou por uma situação semelhante à que ele estava passando. Diabos, por que ela se calara? Ele não conseguia entender isso. Pensou que ela perguntaria, que pelo menos mostraria um pouco de curiosidade para saber quem era essa garota. Afinal, é isso que as meninas fazem, não é mesmo? Curiosas como são...

Epa, peraí. Sinal vermelho. Uma idéia chegou-lhe abruptamente a mente, na verdade, mais que uma idéia, uma constatação. Ele tinha pensado, agora a pouco, que diria a verdade, como subterfúgio para sua falta de raciocínio lógico, não é mesmo? E assim, disse a Ginny que estava pensando na garota que ele gosta. E... A GAROTA EM QUE ELE ESTAVA PENSANDO ERA ELA.

Juntando dois mais dois, então... Se ele tinha falado, de fato, a verdade, e se tinha dito que gostava de uma garota, que ele sabia que era Ginny, então a verdade era que ele... GOSTAVA DE GINNY. (Claro que isso ele não disse a ela)

AMAVA GINNY?!

Um soco no estômago. Asfixia. Perda dos sentidos. Tudo isso junto. Foi, foi tudo isso, e mais um pouco, o que ele sentiu, quando o peso dessa idéia inundou-lhe a mente, ocupando todo seus recantos, não deixando espaço para mais nenhum pensamento sequer. Merlin amado...

Ele não sabia exato que cara fez no momento da constatação. Preocupado em ter deixado algo transparecer (o que ele achava bem provável, naquele momento, já que tudo, agora, parecia ser tão cristalino para ele quanto a água da mais pura nascente), voltou, receoso, a atenção para a garota. Essa encontrava-se com um olhar distante, fitando o nada. Ufa – pensou o garoto – essa foi por muito pouco.

Porém, o alívio logo se transformou em confusão, ao atentar o semblante da ruiva. Essa parecia mais desolada ainda do que a virá, logo que ele chegará à sala comunal. Ela tentava, de novo, disfarçar seu real estado, pelo visto fazendo um esforço sem igual. Mas ele pode ver claramente a dor, ainda que seu rosto se encontrasse voltado para o lado, ainda que só visse seu perfil, mal iluminado pela luz fraca da lua.

Naquele minuto, a revolução que se passava em sua mente, devido à constatação feita a pouco, pareceu perder toda a importância, e uma dor chegou devastando seu ser. Uma agonia, um desespero, uma impotência. Mais uma vez a garota que ele AMAVA (sim, agora ele sabia, que era AMOR, o que ele sentia pela ruivinha) encontrava-se imersa naquele mar de angústia e solidão. E ele nem ao menos sabia o porque.

De repente, aquele silêncio pareceu pior que o grito de mil mandrágoras no seu ouvido. Não dava para suportar, ele TINHA que dizer algo, ele TINHA que perguntar o que estava acontecendo com ela, ele TINHA...

Porém, mais uma vez, ele não disse nada. Ele não fez nada.

Antes disso, ela simplesmente levantou-se da poltrona, encarou-o, com um olhar desolado, que refletia uma mágoa (seria isso?) e disse, friamente:

- Preciso ir dormir. Amanhã tenho que acordar cedo. Boa noite.

E saiu, pisando firme. Rapidamente subiu a escada que a levaria ao dormitório feminino. Desapareceu das vistas de Harry, e, pouco depois, o som de seus passos também não pode ser mais ouvido pelo garoto.

Deixou, sentado na poltrona, estático, totalmente confuso, sem saber o que pensar, nem muito como reagir, um moreno de olhos verdes-esmeralda, agora vitrificados.

E ele ali permaneceu, em estado de choque.


N/A:

Para essa fanfic (minha primeira) tracei um esquema e pretendo segui-lo, a fim de não me perder nas idéias e, asssim sendo, não correr o risco de deixá-la incompleta, o que acho muito chato, particularmente.

Trata-se de algo bem simples, sem grandes pretensões. Terá prólogo, cinco capítulos e epílogo. A estória é composta de cenas, que seguem uma linha cronológica, mas são isoladas.

Cada capítulo mostrará uma cena, em um lugar diferente, dentro de Hogwarts. Não definirei o ano em que se passa, propositalmente, pois se assim o fizesse, teria que citar acontecimentos além do romance H/G, o que não é minha intenção para essa fanfic. br

O formato é bem intimista, cantando com apenas dois personagem. Como vocês perceberam, tudo é retratado do ponto de vista do Harry e do narrador, exceto no 5º capítulo. Não mencionarei diretamente nenhum outro personagem pois, visto que a fic é baseada no foco do olhar de Harry (e sendo que o mesmo é centrado totalmente em Ginny), ao citar outras pessoas, ele demonstraria estar vendo-as e minha intenção é mostrar que, quando ela estava presente, ele só a via. Além do mais, pretendo deixar a interferência externa bem reduzida, focando mesmo nos sentimentos e pensamentos da Harry em relação as ações da Ginny.

A fic contará com poucos diálogos, pois pretendo explorar as mensagens e os sentimentos que são transmitidas por um "simples" olhar. Aliás, a fic toda se baseia no poema que encontra-se no prólogo e espalhado ao longo dos capítulos. Infelizmente, desconheço a autoria.

Bem, acho que me estendi demais nessa N/A, mais achei importante esclarecer alguns pontos. Espero que curtam bastante a leitura e mandem críticas, sugestões, comentários.

Obrigada

MaRaiSa OliVeiRa