Capítulo 2
O som horripilante de alguma coisa cortou o sono de Brenda. Ela abriu os olhos com dificuldade e conseguiu definir seu telefone tocando. Ainda usava as roupas que fora ao trabalho no dia anterior e seu corpo todo doía pela posição em que dormira. Ela olhou ao seu lado vazio na cama e as lembranças da noite passada vieram como o flashback instantâneo de um filme de terror. Meio relutante, ela atendeu o celular. Era o Sargento Gabriel.
_Sim, Sargento? – ela atendeu, a voz mais sonolenta do que ela imaginava.
...
_Sim, eu acabei de acordar.
...
_Não, está tudo bem. Por que me ligou?
...
_É, eu sei onde fica.
...
_Não, não precisa vir me buscar, Sargento. Sei chegar aí sozinha. Eu só... só vou levar mais alguns minutos para sair de casa.
...
_Certo. Obrigada, Sargento.
Ela desligou e olhou em seu relógio de pulso, firmando a visão para conseguir ver as horas na pouca claridade sem os óculos. Ainda era muito cedo, mas Fritz ainda não havia voltado. Ela pensava que ele voltaria assim que amanhecesse, talvez pouco antes de ir para o trabalho. Em todo caso, ela ainda teria alguns minutos, mesmo que não fosse o suficiente para a conversa que precisavam. Tomou um banho rápido e trocou de roupa, depois alimentou Joel e olhou novamente para o relógio. Não podia esperar mais. Então pegou um caderno de anotações e escreveu um bilhete:
"Fritz, eu sinto muito por ontem à noite.
Amor, Brenda"
Simples assim. Ela não era a pessoa mais romântica nesse relacionamento e todos sabiam disso. Mas havia muito mais por trás daquelas simples palavras. Muito mais do que ela gostaria de demonstrar sem saber como. E ela só esperava que ele fosse capaz de entender, que de alguma forma, quando tocasse no papel, fosse capaz de sentir o que ela sentiu ao escrever. Deixou o bilhete sobre a mesa da cozinha e saiu, olhando para ele ainda uma última vez antes de fechar a porta.
Quando chegou à cena do crime, a multidão já estava aglomerada na rua. Os abutres curiosos de sempre, pensou. Ela passou por eles com certa dificuldade, tendo que mostrar seu distintivo para boa parte deles, até que cruzou a faixa amarela e foi recebida por Gabriel, que a acompanhou até um carro preto, onde Buzz estava filmando e Tao e Flynn examinavam a área ao redor do carro enquanto Provenza fazia anotações. O veículo estava intacto. A vítima, uma mulher loira e bonita de cabelos compridos levemente cacheados, estava lá dentro, no banco do motorista. Brenda olhava tudo ao redor, enquanto vestia as luvas pretas. A mulher usava uma saia preta e camisa branca, parecia trabalhar em escritório, ou alguma posição parecida devido às roupas e às unhas bem feitas, estava sem cinto e não havia sangue a não ser por um hematoma no lábio inferior.
_O nome dela é Chelsea Miller, tem 38 anos e é presidente de uma companhia de seguros. Sem marido, sem filhos. Os pais moram em Indianápolis. – Gabriel começou a passar-lhe as informações, como habitualmente fazia.
Ela continuava observando a mulher. Viu alguns hematomas vermelhos no pescoço e tentou vira-lo, constatando que estava quebrado. Viu também que a saia da mulher estava rasgada, então se abaixou no banco procurando por algo que só ela parecia ter notado. De debaixo do banco ela retirou algo com muito cuidado, erguendo-se novamente em seguida e mostrando seu achado aos colegas.
_A calcinha dela estava embaixo do banco. Pode ter sido estuprada.
_Ou ela foi pega no flagra com alguém. – Provenza riu.
_Muito bem, senhores. – Brenda continuou, ignorando o comentário infeliz do Tenente. – Levem o carro para o departamento. Coletem digitais do volante, do câmbio, de qualquer coisa que nosso assassino possa ter tocado. Quero também um exame toxicológico para saber se estava drogada ou bêbada e um exame padrão de estupro. – ela se aproximou de Gabriel, estendendo-lhe a peça que achara no carro. – Sargento, leve isto para análise, veja se há epiteliais ou DNA nessa peça, por favor. Obrigada.
Meio sem jeito, pego de surpresa, Gabriel abriu um saco de evidências de papel e ela a colocou dentro e saiu, ajeitando a bolsa no ombro.
_ Vou para o escritório, vejo vocês lá. -ela anunciou, enquanto cruzava a fita amarela e atravessava a multidão de volta ao seu carro, deixando os colegas para trás, atônitos.
_Alguém sabe o que deu nela? – Provenza perguntou, enquanto ela se afastava.
Saindo da cena, ela foi para a central e ficou em seu escritório, tentando preencher alguns relatórios de outros casos que precisavam ser finalizados. Mas não estava completamente concentrada no trabalho, hora ou outra ela ouvia a voz de Fritz ecoando em sua mente, dizendo que ela só se importava com seus próprios problemas, que manipulava os fatos a seu favor e que era egoísta demais, até mesmo para dar vida ao alguém.
Uma batida na porta afastou novamente os pensamentos. Ela viu a porta ser aberta e Gabriel apontou a cabeça, trazendo uma pasta de papel nas mãos.
_Chefe, tenho os resultados da autópsia e da toxicologia.
_Ah, entre, Sargento. - ela ajeitou os óculos sobre o nariz e estendeu a mão para pegar os papéis.
Ela leu em silêncio. Gabriel deu uma rápida prévia de seu conteúdo:
_A causa da morte foi asfixia por estrangulamento. O pescoço dela foi quebrado. O teste de estupro deu positivo, mas...
_Sem DNA. – ela concluiu sem retirar os olhos do documento.
_É. O mesmo na roupa íntima dela. Sem drogas ou álcool no sangue. O mesmo para medicamentos.
_Já temos algum suspeito? E as digitais no carro? – ela levantou o olhar para ele, retirando os óculos.
_Ahnn... O Tenente Tao está cuidando delas. Descobri algumas ligações no celular dela. Uma das amigas não a vê há três dias e uma outra disse que falou com ela ontem, antes que ela fosse se encontrar com o namorado. Falamos com ele ao telefone, parecia bem abalado.
_Certo. Obrigada. Veja se consegue falar com mais alguma das amigas e traga o namorado, por favor. Quero falar com ele.
_Ele já está vindo para cá, Chefe.
Ela parecia não entender. Seu pelotão não costumava trazer pessoas para interrogatório sem ordem.
-Como assim está vindo para cá? Quem o chamou?
-Bem, ele... ele soube da morte da namorada e... – Gabriel parecia desconfortável com a informação.
-O que? Quem fez a notificação? – ela estava exaltada, agora. Os óculos caíram de sua mão para a mesa, e ela estava totalmente alerta. Pronta, ele sabia, para gritar com o responsável por fazer tudo da maneira errada. Ou da maneira que ela achava ser errada.
_Ele é promotor, Scott Tyler. – o sargento se apressou em explicar.- Disse que quer vir falar com o encarregado para ter certeza que estamos lidando de forma correta nesse caso.
_Sei. – Brenda disse, fazendo bico. Odiava tipos assim, que achavam que só porque trabalhavam na corte sabiam o suficiente para dar ordens nas investigações. – Bem, quando ele chegar, me avise. Quero falar com ele.
Ele acenou com a cabeça e saiu, deixando-a novamente entregue ao trabalho e aos pensamentos. Exceto que, dessa, vez, seus pensamentos estavam voltados não apenas para seus próprios problemas, mas para como os homens podiam ser assim, controladores em tudo. O promotor Scott Tyler com certeza seria um daqueles que ela teria a infelicidade de aturar durante o curso da investigação.
Cerca de meia hora depois, ela ainda estava em seu escritório. O resto de sua equipe achara estranho seu comportamento, mas não falaram nada. Flynn ficou encarregado de informá-la que Scott Tayler havia chegado. Ele não era propriamente um suspeito, de modo que ela o recebeu em sua própria sala. Levantou-se e o recebeu na porta, indicando a cadeira em frente à sua mesa para que ele se sentasse.
_Olá, senhor Tyler. Primeiramente, gostaria de dizer que sinto muito por sua perda. – ela começou, a voz baixa e suave.
_Obrigado. Quero saber o que vocês já descobriram sobre a pessoa que matou Chelsea. – seu tom era cortês, ele se mostrava abalado, mas tentando manter o controle.
_Bem, senhor, estamos apenas no início da investigação, ainda não pudemos fazer muita coisa. Eu quero, primeiramente, levantar alguns dados sobre Chelsea, para poder verificar possíveis suspeitos. E já que está aqui, eu quero fazer algumas perguntas.
_Claro. – o homem respondeu, tentando se manter calmo.
Ela sorriu compreensivamente. Sabia que não seria fácil para ele. Não costumava ser fácil para ninguém. Ela já perdera as contas de quantas vezes assistira em silêncio ao sofrimento das pessoas que ouviam de seus lábios a notícia da morte de seus maridos, esposas, mães, pais, filhos, filhas, irmãs e irmãos. Dessa vez não seria diferente.
_Há quanto tempo estão juntos?
_Dois anos. Eu a conheci quando troquei de carro e de seguradora. A convidei para sair e dois meses depois começamos a namorar.
_Conhecia algum dos amigos de sua namorada?
_Bem, Lucy sempre telefonava, ou aparecia com ela. Rachel eu via às vezes. Eram as amigas mais próximas dela. Se conheciam desde a faculdade.
_Ela me parece o tipo de garota que qualquer cara gostaria de ter. – Brenda sorriu, vendo o acenar afirmativamente com a cabeça.
-E era muito competente também. Ela sempre fazia o que se dispunha a fazer.
-Pessoas assim acabam gerando a inveja dos outros. O senhor por acaso não saberia se alguém no trabalho tinha algo contra ela, ou sentia inveja da Chelsea?
_Deus! Não! De jeito nenhum. Chelsea era justa, ótima profissional, e até onde eu sei, todos no trabalho gostavam dela.
_Então, não desconfia de ninguém que pudesse ter feito isso?
_Não. – ele sussurrou, abaixando a cabeça. Ela conhecia aquele gesto. O primeiro momento onde a dor e o sofrimento contidos vinham à tona. O momento em que descobriam que a pessoa que mais amavam nunca mais voltaria para casa. O que lhe fora ensinado para dizer era "Sinto Muito", mas agora ela sabia que não sentia. Nunca sentira. Mesmo que tentasse, nunca haveria sentimentos por trás de suas palavras. Ela lidava com a morte praticamente todos os dias e não conhecia nenhuma daquelas pessoas. Questionava-se até mesmo se suas palavras teriam algum valor para as pessoas que realmente amavam as vítimas, para aqueles que tinham perdido alguém. Depois de ver Fritz indo embora na noite anterior, ela chegou a pensar que não suportaria. Agora, aquelas palavras talvez fizessem algum sentido, pois ela tinha se aproximado ao menos um pouco do que eles sentiam. Do pior jeito, para ela.
Ele levantou a cabeça, enxugando as lágrimas com as costas das mãos.
_Posso vê-la? - ele pediu.
_Senhor Tyler... Eu... Não creio que seja uma boa idéia.
Ele assentiu.
_Chefe Johnson, prometa-me uma coisa. Prometa que vai pegar o desgraçado que fez isso à Chelsea e condená-lo à pena de morte.
_Farei o possível, senhor!
_Senhora Johnson, minha namorada foi estuprada e assassinada. O possível não é o suficiente. Precisam fazer o impossível!
Ela não disse nada. Ele se levantou e saiu pela porta, deixando-a estarrecida em sua cadeira, olhando para o lugar onde ele estivera, perdida em seus pensamentos e medos mais sombrios.
