I

– Não. – Jensen disse com firmeza.

– Como acha que confiaremos outra missão a vocês correndo o risco de Jay surtar de novo? – Josh perguntou. – Aumente o condicionamento dele.

– Não. – Jensen simplesmente não podia fazer isso. Se aumentasse o condicionamento, Jay se tornaria uma simples arma de matar. Seu sorriso doce e sincero morreria. Isso Jensen não queria. Não o salvara para isso.

– Jensen, aumente o condicionamento do Jay ou eu vou tirá-lo da WA.

Jensen engoliu em seco. Seu irmão tiraria Jay dele?

– Tenha calma, Joshua. – Jeffrey Dean Morgan, o chefe da 1ª. Divisão da WA pediu. – Essa foi apenas a primeira missão de Jay.

– Com todo respeito, Sr. Morgan, – Joshua disse. – ordens foram ignoradas e o sucesso da operação foi colocado em risco. Não investimos tanto dinheiro e esforços em Jay para que ele surte em qualquer missão.

– Muito precisos esses seus argumentos, Joshua. – Morgan tirou os óculos e começou a limpar as lentes com um lenço. – Mas lembre-se que Jay só fez aquilo que foi condicionado a fazer: proteger o Jensen custe o que custar.

– Mas... – Morgan ergueu a mão para silenciar Joshua.

– O seu Chad não é muito diferente de Jay. Se ele entendesse que sua vida estava em risco, teria agido da mesma forma. A diferença é que Chad é mais experiente e sabe bem quando você corre perigo ou não. Jay vai aprender.

Joshua não disse mais nada. Ele sabia bem quando perdia uma batalha. Os irmãos se despediram do chefe e saíram de sua sala. Joshua estava em um compenetrado silêncio enquanto Jensen se perguntava se o irmão estava aborrecido com ele. Depois do fiasco que Jensen havia sido no FBI, somente a influência do irmão conseguira colocá-lo na WA. Jensen era grato, mas queria muito que Joshua não misturasse a vida profissional à pessoal. Isso era difícil. Sempre fora. Por isso mesmo Jensen nunca entrara para a CIA como seu irmão tanto insistiu. Não. O FBI, bem longe do irmão, estava bom o bastante para ele. Mas não havia dado certo. Agora Jensen estava na WA graças à influência do irmão e era seu subordinado direto, ainda que não oficialmente. Oficialmente os irmãos Ackles eram apenas dois assistentes sociais em pé de igualdade. Extra oficialmente Jensen Ackles era um agente do FBI a serviço da WA e respondia diretamente ao Coronel da CIA Joshua Ackles.

– Amanhã. – Joshua disse sem olhar para o irmão. – Nós vamos dar início a uma missão no Porto.

– Nós? – Jensen franziu as sobrancelhas.

– Eu, você, Chad e Jay.

– Certo.

Seu irmão não falou mais nada durante todo o caminho até seus quartos que ficavam lado a lado. Joshua entrou no seu sem sequer olhar para o irmão. Jensen sabia que aquela atitude tão pouco natural era por que ele ainda estava aborrecido por Jensen ter se recusado a aumentar o condicionamento de Jay. Mas como sempre acontecia, mais cedo ou mais tarde, o aborrecimento dele passaria.

Jensen se recolheu ao seu quarto pensando em Jay. Perguntava-se se ele ficaria bem após a cirurgia para substituir seus implantes mecânicos danificados durante a ação. Ainda lembrava-se da reação do médico quando atendeu Jay.

II

Havia uma parede com uma enorme janela de vidro separando a sala de cirurgia da sala de espera. Jensen assistia dali todo o procedimento médico. Jay estava inconsciente enquanto o médico Jim Beaver retirava os membros danificados e os substituía por outros.

– Vou ter que substituir toda a caixa torácica e o ombro esquerdo. Ele também precisará trocar partes dos braços e pernas. – Beaver informou pelo interfone que fazia a comunicação entre a sala de cirurgias e a sala de espera. – O que diabos aconteceu hoje, Jen?

– Bem... – Jim Beaver era um velho amigo da família. Ele trabalhara com seu pai na CIA, mas pedira baixa cedo. Voltara ao trabalho como médico da WA por insistência de Joshua. Ele tinha muito carinho pelos filhos de seu velho amigo Roger, mas tinha um carinho especial por Jensen, seu afilhado.

– Jen, ouvi dizer que o Jay perdeu a cabeça e colocou em risco a operação.

– Ele diz que fez o que fez para me proteger. – Jensen contou. – As ordens eram claras, mas ele as ignorou por achar que eu estava em perigo. Não sei o que fazer...

– Aumentar o condicionamento diminuiria as chances de algo assim se repetir. O condicionamento praticamente eliminaria os desejos e a personalidade dele o fazendo obedecer às suas ordens cegamente. Isso resolveria... – Jim comentou. – Mas as drogas necessárias para o condicionamento viciam rapidamente e causam perda de memória. Quanto mais forte o condicionamento, mais drogas e conseqüentemente a expectativa de vida dele diminuirá.

– É por isso que sou contra aumentar o condicionamento. – Jensen disse.

– Mas na verdade isso não importa muito. – Jim disse. – As drogas necessárias para que ele aja sob condicionamento mínimo e para que possa se adaptar aos implantes mecânicos e ao tecido artificial são suficientemente fortes para comprometer a saúde mental dele. Se julgarmos pelo Mike, cada um dos homens trazidos para cá não deve ter mais do que cinco anos de uso. Depois disso... –Jim apenas suspirou. Mike estava quase em seu limite e a WA ainda não sabia direito o que fazer com ele. Mike havia sido o primeiro. Fora condicionado antes mesmo da WA ter sido criada oficialmente.

Jensen baixou a cabeça. Manteria Jay em condicionamento mínimo o máximo que pudesse e o treinaria para que ele fosse capaz de realizar as missões sem se ferir para não precisar substituir seus implantes. Desse modo ele esperava manter Jay com ele por muito mais que cinco anos.

III

Jay abriu os olhos. Ainda não estava claro, mas se habituara a acordar cedo. Não que alguém lhe houvesse impingido isso, mas Jay sentia dentro de si a necessidade de se levantar com o sol e se movimentar. Jay corria na pista de Cooper da Wa todas as manhãs. Depois de várias voltas pela pista, Jay caminhava até em frente o prédio sul e dali assistia Jensen, ainda com roupas de dormir, abrir as cortinas de sua janela e se espreguiçar. Jay achava que aquela era a visão mais linda do mundo. Se pudesse, passaria cada segundo de sua vida apenas observando Jensen andar, conversar, sorrir, comer ou simplesmente respirar. Seu mundo girava em torno de Jensen.

Quando voltou para o seu quarto, Chad já estava de pé. O homem loiro se vestia em frente ao espelho. Ao percebê-lo a observá-lo, Chad se virou e sorriu para ele.

– Bom dia, Jay! Fez boa corrida?

– Sim. – Jay disse desconcertado. Ainda não podia acreditar que Chad, sempre tão alegre e gentil, só era assim por que Josh ordenava. – Quer tomar café comigo?

– Quero sim. – Chad se sentou em uma cadeira para calçar os sapatos.

– Você pode esperar um pouquinho? – Jared perguntou. – Tenho que tomar um banho rápido.

– Sem problema.

Jared entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si. Ainda não sabia como lidar com Chad agora que entendia que sua personalidade adorável era só um tipo de fachada planejada por Josh. Jay nunca gostara de Josh, mas ele era o fratello de Chad e o irmão mais velho de Jensen. Os dois pareciam ter muito carinho por Josh, mas o homem o assustava. Jay mal conseguia sustentar o olhar dele quando se encontravam no corredor. Algo no homem o fazia desconfortável. Jay preferia manter distância. Depois do banho, quando se encaminharam juntos para o refeitório, Jay resolveu dar vazão ás suas dúvidas.

– Chad, você almoça sempre com o Josh, não é mesmo?

– Sim.

– Você gosta de almoçar com ele?

– Tanto faz. – Chad deu de ombros. – É só um almoço.

– E à noite? Nem sempre você dorme no nosso quarto mesmo quando não está em missão.

– E o quê que tem?

– Onde você dorme? – Jay sentiu que estava entrando em um terreno perigoso. – Com o Josh?

– É. – Chad disse com indiferença.

– Vocês têm esse tipo de relacionamento...? – Jay baixou a cabeça. – Você gosta?

– Se eu gosto ou não é irrelevante. O que importa é o que o Josh gosta e quer.

– Se o Jensen quiser passar a noite comigo...?

– Ele não fará isso. – Chad afirmou categoricamente.

– Por que não?

– Por que ele gosta de você e quando as pessoas gostam, elas não usam as outras como se fossem apenas coisas descartáveis.

Jay pensou ter escutado uma nota de amargura na voz sempre doce de Chad. Se Jensen simplesmente o usasse como Josh fazia com Chad, como Jay se sentiria? Como Chad se sentia?

– Eu queria que Josh fosse mais parecido com o Jensen... – Jay expressou seu desejo em voz alta. Chad parou de andar e olhou para ele. Jay ficou meio sem jeito. Sempre ficava assim quando era encarado daquela forma.

– Você não tem que se preocupar com esse tipo de coisa. – Chad disse. – As coisas são como devem ser. Você com o Jensen e eu com o Josh.

– Mas é que...

– Não se preocupe. – Chad deu um tapinha em suas costas. – Vamos logo ou não vai sobrar panquecas para nós.

– Mas você nem gosta de doces no café da manhã...

– É, mas você gosta. – Chad disse andando mais rápido.

Jared balançou a cabeça sem entender direito o colega de quarto. Chad podia ter dito que era do jeito que era por que Josh queria assim, mas Jay não conseguia se impedir de pensar que ele era naturalmente uma pessoa boa. Talvez não fosse, mas Jay preferia acreditar que sim.

IV

– Eles estão chegando. – Josh disse, aparentemente sem tirar os olhos do jornal. Jensen sentado a sua frente olhou distraidamente para quatro homens que subiram no restaurante barco atracado a Marina. Os irmãos ocupavam uma mesa na lateral do barco e dali observaram enquanto os homens se sentaram na parte superior reservada para clientes Vips.

Um garçom se aproximou dos homens e lhes entregou a carta de vinhos. Os homens começaram a fazer perguntas e informar seus pedidos. O garçom sorria e respondia as perguntas, depois anotava os pedidos com eficiência e descrição. Os olhos de Jensen iam toda hora em direção ao garçom.

– Pare. – Joshua o advertiu. – Vai estragar o disfarce do Jay.

– Desculpe. Eu só não estou acostumado a tê-lo agindo tão distante de mim.

– Pelo amor de Deus, Jensen. – Joshua disse em voz baixa, mas seu tom era inconfundivelmente zangado. – Ele só está na parte superior do navio. Chad está na cozinha e nem assim eu estou preocupado.

Jensen mordeu o lábio inferior para não dizer ao irmão que ele não se preocupava com Chad por que via o homem como uma simples ferramenta de trabalho que poderia ser substituída por outra a qualquer momento. Josh e Chad não tinham o mesmo tipo de relação que Jensen e Jay. Se algo acontecesse a Jay, Jensen jamais se perdoaria.

V

Jay voltou para a cozinha onde Chad estava trabalhando como copeiro substituto. Depois de informar em voz alta qual o vinho escolhido pelos ocupantes da mesa Vip um, Jay foi atrás de Chad enquanto esse entrava na adega vazia. Os dois se fecharam ali. Chad apanhou o vinho escolhido e o abriu. Jay tirou uma ampola do bolso e despejou seu conteúdo dentro da garrafa. Chad balançou-a antes de entregá-la a Jay. Os dois trocaram olhares antes de voltarem para a cozinha. Jay voltou à mesa dos quatro clientes Vips e lhes serviu o vinho. Depois ele se afastou para buscar os pratos pedidos.

De longe, Josh e Jensen observavam-no. A missão era bastante simples. Os quatro homens eram mafiosos peso leve, mas estavam prestes a mudar de status. Os espiões da WA elaboraram um dossiê que afirmava que os quatro estavam prestes a fazer negócio com grupos extremistas do Oriente Médio. Eles forneceriam armas, passaportes e documentos falsos a terroristas que pretendiam entrar no país. Antes que os quatro conseguissem firmar negócio, seriam eliminados. Desse modo, uma equipe de espiões da WA que já entrara em contato com o grupo terrorista, acabaria sendo escolhida como a parceria ideal para os negócios no país.

Os mafiosos eram sócios do restaurante barco e iam ali sempre. Jensen e Josh estavam freqüentando o restaurante a cerca de um mês. Jay e Chad começaram a trabalhar ali na mesma época. Com muito cuidado eles acompanharam a rotina dos mafiosos, estudando seus gostos e seus horários. Agora tinham certeza de que o negócio seria fechado se eles não fossem impedidos, então, chegara o momento de agir.

Quando Jay voltou à mesa com os pratos, reparou que um dos homens não tomara nada de seu vinho e muito menos parecia disposto a comer.

– Deseja alguma outra bebida, senhor? – Jay perguntou, extremamente solícito.

– Não. – O homem se acomodou melhor na cadeira. – Parei de beber.

– Um suco, então? – Jay deu seu melhor sorriso.

– Não. – O homem deu de ombros. – Não quero nada.

Jay, extremamente perturbado, voltou para a cozinha, mas não demonstrou sua perturbação. Apenas aproximou-se de Chad e relatou o acontecido. Chad aproximou o pulso dos lábios e relatou o caso a Josh através da escuta em forma de abotoadora que havia no punho da camisa.

VI

– Entendo. – Josh conversava com Chad através de um pequeno microfone alocado em seu relógio de pulso. – Mande Jay ficar alerta e dar cabo da missão de outro modo. Mantenha-me informado.

– O quê houve? – Jensen, preocupado, perguntou.

– O chefe da quadrilha não tomou o vinho e nem vai beber ou comer nada. – Josh informou. – É hora de ver do que o Jay é capaz.

Jensen engoliu em seco. Jay teria que agir longe dele, sem sua orientação. E se algo acontecesse?

VII

Victor Moretti pediu licença aos seus subordinados e saiu da mesa. Enquanto caminhava em direção aos banheiros na parte inferior do navio restaurante, Victor se sentia quase no céu. Sua pequena quadrilha estava prestes a fechar negócio com uma facção terrorista cheia da grana. De uma quadrilhazinha de mafiosos de quinta, ela passaria a ser uma grande organização criminosa. O dinheiro, atualmente escasso, se multiplicaria. A ele pouco importava se as armas que venderia seriam usadas contra americanos. Ele não se considerava um autêntico americano. Não de verdade. Era da terceira geração de imigrantes e nunca fora visto pelos americanos como um dos seus. Contanto que os terroristas ficassem longe de seus negócios e de sua gente, eles poderiam explodir tudo e todos que quisessem.

Estava distraído quando entrou no banheiro e se encaminhou rumo a pia. Sua lente de contato vivia saindo. Ele a retirou e começou lavá-la. Estava inclinado com os olhos voltados para o pequeno disco transparente em sua mão, quando sentiu algo se fechar em torno de sua garganta. Tentou gritar, mas a voz não saia. Seja lá o que estivesse em torno de seu pescoço estava esmagando sua traquéia. Tentou ver quem o atacava, mas mal conseguia ver sem uma das lentes. Fechou o olho sem a lente e concentrou-se na imagem do espelho. Atrás dele estava um homem extremamente alto. Seus olhos esverdeados eram frios enquanto ele puxava a gravata que quase quebrava sua traquéia. Tentou afrouxar a gravata, mas o aperto do homem era inquebrável. Ele parecia ter a força do superman. Sua visão foi ficando cada vez mais embaçada e o ar faltou aos seus pulmões. Lentamente ele foi tombando nas trevas e sucumbindo a morte. Em sua mente havia um único pensamento: "É uma pena morrer agora. Era um negócio tão bom..."

Jay ainda continuou puxando a gravata mesmo depois que o corpo de Victor ficou mole. Ele queria ter certeza de que o trabalho havia sido concluído. Como o homem parecia sem vida, Jay o soltou e ele caiu esparramado no chão.

– Pronto? – Chad perguntou entrando no banheiro.

– Pronto. – Jay disse colocando de volta a gravata em torno de seu próprio pescoço.

– Ótimo! – Chad sorriu. – Vamos indo, então.

Os dois voltaram para a cozinha e continuaram a trabalhar normalmente. Os homens que restaram na mesa vip ficaram impacientes. Um se levantou e foi em busca do chefe. Jensen e Josh observavam-nos de longe. Quando o homem voltou pálido feito papel e se inclinou para conversar com os outros, os dois agentes da WA ficaram alertas. Os mafiosos olharam para os lados em busca dos possíveis responsáveis, mas todos os clientes a bordo pareciam não notar o desconforto deles. Por fim, o subchefe foi até a cozinha.

Chad colocava os pratos na bandeja que Jared levaria para outra mesa vip quando um homem alto e carrancudo entrou na cozinha. Todos pararam o serviço e olharam para ele.

– Qual de vocês... – O homem disse com voz baixa e rouca. – Qual de vocês matou o Victor?

– Senhor... – Disse o chef. – Nós não sabemos do que está falando...

– Não sabem é? – O homem sacou uma arma e apontou-a esmo para um e para outro. – Vocês vão me falar agora qual de vocês fez isso.

– Mas ninguém fez nada, senhor. – O chef, com os braços erguidos em sinal de rendição, falou. – Estávamos todos aqui trabalhando.

– Todos, é? E os garçons? – Ele passou a apontar a arma para os garçons.

– Eles só saíram para entregar os pedidos. Nenhum deles saiu sem uma bandeja cheia de comida na mão. Juro. – O chef afirmou. De fato, ele não havia visto Chad e Jay se ausentarem da cozinha de mãos vazias. Chad fingira ir a adega pegar um vinho para Jay que o seguia, mas como o restaurante era um barco adaptado para tal fim, a adega era na verdade uma pequena cabine com uma pequena janela pela qual os dois assassinos saíram para dar fim a vida de Victor. Jay o havia observado com atenção e viu quando ele se dirigiu ao banheiro. Mais que depressa ele informou seu plano de emergência a Chad e os dois o colocaram em prática. Depois voltaram pelo mesmo lugar e agiram como se nada houvesse acontecido.

– Então alguém aqui viu algo suspeito? Um cliente novo rondando demais, talvez... – O homem insistiu.

– Não, senhor. – O chef afirmou. – Ninguém. Aqui hoje só estão os clientes regulares.

– Alguém matou o Victor e eu quero saber quem foi?! – O homem gritou. – Você. – Apontou para o chefe. Quero que liste todos os garçons novos do restaurante e...

O homem se curvou e colocou a mão no estômago. Antes que ele conseguisse dizer qualquer outra coisa ele caiu morto no chão. Algumas ajudantes de cozinha e garçonetes gritaram. Os homens ficaram horrorizados. O chef correu para ligar para a polícia sem suspeitar que os outros ocupantes da mesa vip 1 também haviam morrido. Chad e Jay não trocaram um único olhar. Pareciam tão abalados quanto todos os outros.

Quando Jensen e Josh, de suas mesas, viram os mafiosos tombarem e ouviram o barulho da sirene de polícia, eles trocaram um olhar. A missão estava concluída.

VIII

Jay estava no quarto que dividia com Chad apenas deitado na cama quando ouviu uma batida na porta.

– Eu atendo! – Chad gritou enquanto pulava de sua beliche e corria para a porta. – Ah! É para você, Jay.

Chad se afastou da porta e Jay pôde ver Jensen parado ali. Seus olhos verdes brilhavam satisfeitos enquanto seu sorriso límpido iluminava todo o quarto. Mais que depressa, Jay correu a se levantar. Já estava vestido para dormir quando Jensen bateu.

– Jensen... Não esperava por você. – Jay disse timidamente.

– Desculpe vir tão tarde. – Jensen disse entrando no quarto. Josh e eu acompanhamos toda a ação da polícia para ter certeza de que você e Chad não fossem citados no inquérito.

– Ah!

– Você está com muito sono? – Jensen perguntou num tom gentil. Jay balançou a cabeça de forma negativa. Jensen sorriu ainda mais. – Então vista algo quente e venha me encontrar no terraço do prédio da ala sul.

Jensen saiu imediatamente e Jay correu a se trocar. Chad o ajudou a se vestir rapidamente e logo Jay corria em direção ao local marcado. Quando chegou lá, encontrou Jensen terminando de montar um telescópio. Jay se aproximou dele timidamente.

– Chegou rápido. – Jensen comentou sem olhar para trás, mas gesticulando para ele se aproximar. Jay se aproximou com cautela. Apesar de Jensen sempre tê-lo tratado bem, não tinha certeza se podia ficar assim tão perto dele. Quando chegou perto o bastante do telescópio, Jensen se afastou e o convidou a olhar através do aparelho. Jay mirou uma estrela brilhante que se destacava no céu escuro e estrelado. – Essa estrela tem um nome complicado, mas minha mãe a chamava de estrela Kenzie.

– Kenzie? – Jay perguntou sem tirar os olhos dela.

– Quando minha irmã mais nova morreu, minha mãe contou para mim e para o Josh que ela havia se transformado nessa estrela. – Jensen contou. – Durante muitos anos eu olhava para ela todas as noites e lhe perguntava por que tinha decidido ir morar tão longe de nós. – Jensen olhou para o céu. – Ainda hoje... Às vezes eu faço a mesma pergunta.

– Jensen... – Jay parou de olhar para a estrela. – Quando você morrer também irá se transformar numa estrela?

– An?! – Jensen olhou surpreso para Jay, depois riu alto. – Talvez. É uma possibilidade. Aí você poderá olhar para o céu à noite e conversar comigo.

– Isso não irá acontecer. – Jared balançou a cabeça. – Por que quando você morrer, eu irei junto. – Jay disse num tom sério.

Jensen ficou calado olhando cautelosamente para Jay. Depois ele olhou para o céu.

– Então formaremos uma constelação: mamãe, papai, Kenzie, eu e você.

Os dois ficaram olhando para o céu. Pouco atrás deles, sem ser notado, Josh se perguntava por que não estava incluído na constelação. Chad estava ao seu lado. Josh suspirou e voltou para o prédio, Chad o seguiu. Passaria a noite com ele. No terraço, Jensen apontava as constelações à Jay e lhes dizia seus nomes.

– Jensen, você sabe tudo, não é? – Jay perguntou.

– Nem tudo. – Jensen sorriu.

Imediatamente Jay ouviu as próprias palavras, mas ditas numa voz infantil e divertida: "Papai, você sabe tudo, não é?" Havia aquela voz em sua cabeça e um rosto embaçado que lutava para ganhar nitidez. De repente, Jay ouvia seu nome sendo chamado em voz alta e seu corpo se balançava de forma quase convulsiva.

– Jay! Jay! – Jay abriu os olhos. Estava nos braços de Jensen. O homem o olhava cheio de medo. – Jay, o que aconteceu? –Jensen perguntou preocupado.

– Jensen, eu tenho um filho?