Cena 2: Telefonema.

Botan saía do teatro com Yusuke e Kuwabara com uma cara entediada. Não havia achado nenhum novo talento por ali, todos os atores foram bons, mas não o bastante para chamar muita atenção. Ouvia os dois rapazes comentando sobre a peça, mas simplesmente não sentia vontade de comentar também, como sempre costumava fazer.

-Ei, Botan. –Kuwabara a chamou e só então percebera que estava andando rápido demais. Ela se virou e os esperou. –Tenho duas perguntas.

-Sim?

-O que achou do teatro? Você está bem quieta.

-Eu gostei da peça, mas não foi nada do tipo "oh, meu Deus, que coisa maravilhosa".

-E quanto ao filme? Já encaminhou o DVD para Los Angeles?

-Sim, encaminhei hoje de manhã. –Quando eles se aproximaram novamente, voltaram a caminhar juntos enquanto conversavam. –Tanto a produtora quanto os patrocinadores já têm uma resposta concreta.

-E qual seria? –Yusuke indagou antes de parar e esperar o sinal para pedestres abrir novamente. –Algo ruim ou algo bom?

-Claro que algo bom. –Ela deu um leve sorriso. –Já estão verificando se há pessoas interessadas em fazer a estréia em LA.

-Estava demorando. –Kazuma suspirou, parecendo aliviado. –Depois de seis filmes bem feitos, alguma coisa tinha que dar.

-Simples, mas bem feitos. Nosso orçamento nunca foi o bastante para fazer algo épico, mas devo admitir que, se não fossem os contatos dos meus pais, estaríamos em um escritório mofado esperando a vida começar. –Botan disse antes de suspirar, também aliviada. –Aliás, o retorno desse filme terá quase o quádruplo esperado de retorno financeiro se tiver uma estréia em LA, cheia de divulgação.

-Sabe o que isso quer dizer? –Yusuke perguntara com um sorriso enquanto o trio voltava a andar. –Mais trabalhos pra gente.

-Exato. –Botan assentiu antes de entrarem em um bar onde costumavam ir ao começo da noite. –Melhor eu já ir pensando em um roteiro novo.

-Estou vendo fumaça saindo de seus ouvidos, Botan-chan? –Kuwabara disse com um tom de voz cheio de provocação e infantilidade. Botan o olhou com cara feia e os rapazes riram.

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Shizuru balançava levemente a taça de vinho em movimentos circulares, olhando o ruivo em sua frente que olhava o cardápio. O som da banda ao fundo do salão de jantar do restaurante parecia acalmar Shuuichi, segundo o que Shizuru via em seu rosto. Então, com um meio sorriso, a moça disse em tom suave.

-Você finalmente parece feliz.

-Que bom que notou. –A resposta demorara alguns segundos, pois ele a olhara primeiro e lhe deu um sorriso. –Meu último trabalho me rendeu alguns bons telefonemas.

-Hmm... –Shizuru pensou por alguns segundos e então, riu levemente. Shuuichi a olhou com curiosidade.

-O que foi?

-Eu me lembrei de uma coisa e me sinto uma idiota por não me lembrar disso antes! –Parou de rir e bebeu um gole do vinho tinto, antes de continuar, animada. –Você sabe que meu irmão e o amigo retardado dele são editores, não é?

-Ah, sim, você me comentou algumas vezes.

-Já ouviu falar na roteirista e diretora Botan Takai?

-Para dizer a verdade, sim. Boas críticas nos jornais. Mas o que tem? –Ele resolveu seguir o exemplo da moça e também bebeu um gole de vinho.

-Meu irmão e o amigo dele são basicamente o braço e mão direitos dela.

-Mas disso eu já sabia. –Ele riu um pouco. –Você também me comentou.

-Você sabe bem que sou esquecida. De qualquer modo, eu poderia fazer um telefonema e bum! Você e Botan poderia se conhecer e trabalhar juntos no próximo filme que ela resolver fazer.

-Shi, você sabe bem que não gosto desse tipo de ajuda. Não é nenhum pouco justo.

-Você precisa mesmo parar de ser tão chato... é algo que ajudaria sua carreira. –Com um aceno de mão de Shizuru, um garçom vinha a caminho da mesa onde estavam. –Pelo menos pense na possibilidade. Veja bem, se vocês não se conhecerem por causa do meu irmão ou de Yusuke, vão acabar se conhecendo de qualquer modo porque você é ator e ela é diretora.

-Tudo bem, vendo por esse lado, eu perco a discussão contigo como sempre. –Shuuichi riu e deu de ombros. –Eu prometo que vou pensar sobre isso.

-Não importa, eu sei que você vai ceder, Kurama. –Shizuru o chamou pelo apelido silabicamente, antes de virar-se para o garçom e fazer seu pedido. Após Kurama também fazer seu pedido, ambos voltaram a se encarar com um meio sorriso nos lábios. –Você é o amigo mais "quadrado" que eu tenho.

Após aquele comentário dela, Shuuichi segurou sua risada para que a mesma não saísse alta demais. Sabia que Shizuru costumava ser uma moça mais reservada, mas não com ele ou com as pouquíssimas pessoas que a conhecem há anos. E era por isso que ele tinha certeza de que sempre poderia contar com ela e também com Kazuma.

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Botan chegava ao seu apartamento por volta das três da manhã, sentindo-se tonta por todo o vinho que tomara com Yusuke e Kuwabara. Pelo menos agora sentia seus ombros mais leves; precisava apenas de uma saída com os amigos para selar o ciclo de finalização de seu filme. Esperar por uma resposta concreta dos patrocinadores e afins não era nada difícil já que confiava muito em seu trabalho, mas sempre ficava tensa mesmo dias após a conclusão de um filme, principalmente se ela, Kuwabara e Yusuke não conseguiam um tempinho para ir a algum lugar e relaxar.

Exausta, tirou o sapatos mesmo correndo risco de levar um dos maiores tombos de sua vida no meio da sala e foi andando rapidamente até o quarto. Ao se jogar na cama, adormeceu em pouco tempo.

Horas mais tarde, Botan acordava com um telefonema. Virou-se na cama em meio aos lençóis e atendeu a extensão de seu quarto.

-Alô? –A voz saiu rouca e a moça logo tratou de limpar a garganta após encobrir o bocal do telefone com uma das mãos.

-Boa tarde! Por favor, a senhorita Takai se encontra? –Uma típica voz suave e estranhamente irritante de secretária invadiu seus tímpanos de um jeito que fez a ressaca que Botan sentia parecer mil vezes pior.

-... Sim... sou eu mesma. –Sentando-se na cama, rezava para que não fosse uma daquelas ligações horríveis de vendas.

-Olá, eu sou a secretária pessoal de um dos organizadores do Oscar, me chamo Jessica. –Antes que Botan pudesse perder inclusive a cor dos cabelos por causa do choque, a mocinha continuara. –Estou ligando para informar que o meu chefe, o senhor James Laurent, gostaria de saber se a senhorita está interessada em ter seu filme em uma premiere em Hollywood.

-Oh, mas é claro que sim. –Aos poucos, parecia que a ressaca ia embora.

-Bem, um convite especial será enviado em seu endereço, poderia confirmá-lo? Ah, sim, e o senhor Laurent gostaria de ter uma reunião com a senhorita por um possível contrato com a produtora dele e devo informar que isso com certeza aumenta muito as suas chances de a senhorita conseguir uma superprodução.

-Tudo bem, eu vou confirmar o endereço com você e agendaremos uma reunião com ele.

Após mais algumas frases trocadas, Botan desligou o telefone completamente atônita. Ouvir a secretária pessoal de James Laurent dizer que seu "chefe adorou muito o olhar da senhorita sobre o mundo a partir de um filme" curou sua ressaca em dois minutos. Botan se levantou tropeçando nos lençóis da cama e já pegava o telefone para ligar para Yusuke e Kuwabara, completamente feliz, para contar a eles o que havia acabado de acontecer.

Minutos mais tarde, Botan entrou na banheira cheia de água quente e suspirou, completamente feliz. Tinha um bom pressentimento com tudo aquilo e tudo o que precisou fazer foi enviar cópias de seu filme para seus patrocinadores e para a produtora. Provavelmente, algum patrocinador deve ter encaminhado o filme para pessoas com mais poder em alguns pontos do país até que acabou por receber aquela "ligação mágica". De um modo ou de outro, o que importava é que teria uma reunião com James Laurent em um mês, dois dias antes da premiere. Sem conseguir se conter, Botan começou a rir como uma criança enquanto começava a sonhar alto.

Continua.

Sim, é muito tenso exercitar a mente ainda um pouco enferrujada para textos para criar nomes e um enredo, mas é NÓIS que voa, bruxão. \o/ Uma pequena observação: premiere = estréia. Achei melhor colocar o nome mais "técnico" dessa vez pelo fato de ser um diálogo entre pessoas que trabalham com cinema – ok, a secretária nem tanto, mas ela trabalha para uma pessoa que trabalha com cinema, 'tendeu? 3 De qualquer modo, o terceiro capítulo será postado logo e espero que estejam gostando. E não, não será nada enorme e não abandonarei a fic pelo fato de que NÃO SERÁ algo gigantesco; pretendo fazer algo básico e curto, sem muitas enrolações porque enrolações enchem o saco.

Enfim, até a próxima. \o