por que junto com os Senju? (2)
Algumas semanas atrás...
O aeroporto tinha bem mais gente do que normalmente tem antes de começarem as férias escolares oficiais ou os próximos feriados. A maioria das pessoas era composta por casais solteiros e solitários homens e mulheres de negócios. O que dava um aspecto deprimente nos desembarques, nem mesmo tinham familiares com cartazes e gritando o nome dos recém-chegados.
O vôo demorou algumas horas e a mudança de tempo de Suna comparada com Konoha era alarmante, principalmente por que dava para sentir pela umidade que chovia. Depois de sair há uma hora do avião eu estava sentada em um dos cinco cafés do lugar quase dormindo. Tentei decidir se iria ou não ligar para os meus pais e pedir para passar alguns dias em casa até encontrar algum apartamento decente quando recebi uma ligação curiosa.
- Ayame? - A voz feminina perguntou meio incerta.
Quem mais poderia ser? Pensei.
- Mito Uzumaki-Senju. Qual a honra de sua ligação?
Ela deu uma risada meio abafada antes de responder:
- Você já chegou à cidade?
- Sim. Sã e salva. - Respondi meio sem emoção.
Na tv suspensa do café passava o jornal local com algumas cenas sobre a reforma de alguns centros médicos. A visão ficou meio turva e tentei não abrir a boca por causa do sono. Nem mesmo tinha pedido um café.
- Hm... A tia sabe que você chegou?
- Falei com ela ontem sobre o horário.
Não foi uma ligação muito animadora. Minha mãe parecia prestes a começar um sermão de algumas horas quando disse que resolvi passar um tempo em Konoha. Tinha ficado quase um ano em Suna sem vir a cidade torrar sua paciência ou fazê-la passar por alguma "vergonha" na frente dos familiares. Como se eu fosse algum tipo de garota rebelde, nas palavras dela: "deveria tomar consciência e ir trabalhar, ter uma família e sossegar a rebeldia". Desliguei pouco depois com a desculpa de mal tempo.
Isso por que eu nem contei sobre ter largado meu emprego depois de apenas dois meses.
Silêncio.
- Mito, tem alguma coisa que você precisa?
Escutei ela andar e mexer em algo do outro lado da linha.
- Os tios sabem que você planeja voltar para a casa deles? - A voz dela parecia neutra, mas ainda identifiquei algo.
Não me espantei que ela soubesse dos meus planos. Pior que eu tentei esconder nas conversas algum pista, mas Mito tem uma maneira de perceber o ambiente e detalhes até melhor do que eu. Também me conhecia desde pequena, o que pode ter ajudado muito. Saí da cadeira enquanto colocava a bolsa no ombro. O sono poderia ficar para depois.
- Na verdade, eu ia fazer uma surpresa e caso minha mãe me expulsasse aos chutes, iria procurar alguma pousada.
- Você realmente não se importa muito consigo não é? - Ela perguntou dando uma risadinha.
Sorri enquanto observava meu reflexo em uma ótica depois que sai do café. Meu cabelo estava amarrado em um rabo-de-cavalo para esconder que não o lavava faziam três dias e apesar das minhas olheiras, a maquiagem tinha disfarçado muito bem. Se importar comigo? Na medida do possível, nunca apareço desarrumada em público e muito menos não me esqueço de ir ao médico. Talvez não tenha muita ambição de comprar coisas, mas... Coloquei os óculos escuros (fazia muito Sol com essa chuva, eu sei) e caminhei na direção da saída do aeroporto.
- E qual a intenção da sua ligação, dear Mito? Além de saber do que vou fazer.
A resposta não veio tão rápida quanto eu queria, na verdade foi bem mais vaga do que esperado. Fiquei preocupada com sua respiração e antes que perguntasse algo novamente a resposta veio:
- Eu estou com uma pequena complicação e gostaria de uma visita sua por aqui. Tem um motorista te esperando na saída do aeroporto.
A voz dela tinha tomado um tom profissional, o que significava que não era nada relacionado a problemas financeiros ou algo do tipo. Suspirei sem muita opção, eu poderia rejeitar e ir direto para casa, mas corria o risco de ficar do lado de fora, então não fazia mal nenhum ir visitá-la.
- Tudo bem, eu estou indo.
- Obrigada. Espero você. - Ela desliga.
No caminho para a saída tento não esbarrar em ninguém. O motorista estava do outro lado da rua com um pequeno cartaz com o meu nome, ele parecia cansado de esperar e me cumprimentou assim que me aproximei. Coitado.
A distância do aeroporto para o bairro dos mais ricos de Konoha não ficava muito longe. Os Senju não moravam necessariamente no bairro em si, mas depois dele, perto de um pequeno riacho que passava depois das mansões das famílias poderosas da cidade, ao oeste ficava uma reserva florestal e do outro lado um dos centros históricos e turísticos.
Não era a maior casa da redondeza, mas certamente era a maior propriedade. Os portões feitos de uma madeira nobre (e de reflorestamento, como gostava de frisar a antiga de falecida matriarca da família) dava acesso a uma pequena rua que passava por algumas pequenas casas dos antigos criados e tinha os postes acesos por que era fim da tarde. Até mesmo as árvores tinham sido estrategicamente plantadas e a mansão em todo o seu estilo que mesclava alguns detalhes ocidentais com orientais ficava a poucos metros perto de um jardim. Não existia uma fonte, mas uma grande árvore antiga que ficava pouco antes da entrada rodeada de flores que duravam até mesmo no inverno, segundo boatos.
Foram poucas às vezes em que eu pude ir a mansão principal e não tinha sido diferente a reação. Ainda podia ficar maravilhada.
Mito estava na porta me esperando com um sorriso em seu rosto lindo. Nós duas tínhamos a mesma altura e apesar dela ser alguns anos mais velha do que eu, parecíamos ter a mesma idade. Não éramos as primas mais próximas na infância, nossas mães eram tão rígidas conosco que quase nunca brincamos juntas realmente. Exceto que eu quase nunca ligava para as ameaças da minha, enquanto Mito sempre fora uma menina comportada. Apenas na adolescência entre umas festas aqui e outros pedidos de pizza em noites deprimentes que nos aproximamos.
- É tão bom ver você! - Ela disse animada me abraçando.
Sorri sincera e empolgada de encontrá-la novamente depois de um ano.
- Digo o mesmo.
Nós duas nos encaramos por algum momento até ela desviar o olhar. Não perguntei nada e deixei que ela me guiasse pela casa.
Era esplêndida, quase nada tinha mudado desde o jantar de casamento. Exceto talvez por alguns detalhes, quadros, tapetes menos escuros e menos tradicionais. Talvez mudado um pouco.
Quando dei por mim estávamos na suíte principal. Um lugar que basicamente era o tamanho do apartamento dos meus pais. Tinha uma sala muito bonita com um quadro de flores de lado e grandes janelas do outro. Sem contar as poltronas cor de creme ou marrons claras, que seja. Não era o meu forte decoração, mas eu sabia quando alguns móveis eram muito melhores do que os seus.
Mito me apontou para uma das poltronas e sentei. Depois ofereceu chá, mas acabei recusando. Observei minha prima caminhar de um lado para o outro, o cabelo liso ruivo solto ia até a cintura, as roupas eram bem casuais e o rosto estava preocupado.
- Você deve imaginar por que te chamei aqui... - Ela comentou parando e apertando as mãos.
- Eu imagino o que seja. Duas hipóteses na verdade e uma delas com poucas chances de acontecer. - Disse afundando no sofá e levantando o queixo.
Minha prima não disse nada, mas suspirou.
- Quantos meses? - Perguntei com um sorrisinho e ela fez uma careta, antes de sentar.
Para minha surpresa o céu nublado começou a se movimentar lá fora e eu pude observar o início de uma segunda chuva.
- Qual era a outra hipótese? Um amante?
- Nah, algum tipo de coisa ilegal. Talvez um plano de fuga com parte do dinheiro dos Senju.
Observei ela arregalar os olhos por um momento, mas depois pareceu considerar e balançar a cabeça rindo.
- Mas custaria sua reputação e dos Uzumaki, o que significa que teria que ser muito discreta e por isso minha ajuda...
Mito deu uma risada sem muita graça agora e tentou relaxar no sofá em meio às almofadas.
- Não conta o fato de eu estar completamente apaixonada por Hashirama?
Dei de ombros sorrindo e ela continuou:
- Você pode ficar aqui comigo por uns meses? Eu não me sinto muito... Confiante. - A voz dela saiu muito baixa, aquilo me assustou um pouco. Mito era uma pessoa decidida e descobrimos que a parte comum da nossa criação era sempre aceitar as consequências disso. Digo, das nossas decisões.
Levantei da poltrona e sentei na sua frente, no chão, para segurar suas mãos.
- Ayame ambas conhecemos o histórico de saúde da nossa família e ter filhos não é exatamente algo muito fácil. - Ela começou. - Eu sei que é pedir demais para você ficar por aqui, mas apesar do meu marido ser atencioso e amável, ele passa muito tempo fora desde que assumiu o cargo de Hokage. Não ter a mamãe aqui também é tão difícil. E a maior parte das minhas amigas precisa cuidar das suas próprias famílias ou negócios e...
- Eu sou basicamente a mais desocupada. - Falei sorrindo sem me sentir ofendida.
- E a mais próxima. - Ela disse com os olhos brilhantes. - Essa casa é grande e longe demais, mas se você puder, pelo menos, me visitar no final de semana, eu sei que precisa trabalhar e...
Lá fora um trovão a calou. Não parecia um sinal de que eu deveria sair dali naquele momento, então dei de ombros e continuei com um sorriso.
- Bem, eu não tenho um lugar mesmo para morar e nem emprego fixo...
Não disse mais nada por que fui esmagada por um abraço. Apesar de achar que aquilo era o tipo de decisão que provavelmente ia me acrescentar no número de broncas que iria levar dos meus pais por não ter ido atrás de resolver minha vida. Não era como se eu fosse ficar ali para sempre.
