II
Era estranho ouvir Hilda chamá-lo pelo nome. Desde quando eram crianças ela não o fazia com freqüência. Assim também era com sua irmã Freya. Talvez por gostar das pessoas e das coisas por si próprias, e não pelo que seus nomes diziam.
Balbuciou o nome da governante com dificuldade, mas ela logo fez sinal para que silenciasse e voltasse a dormir, pois ainda estava muito fraco e debilitado. Sorrindo, ele fechou os olhos e sentiu uma satisfação que jamais sentira antes na vida dessa maneira, por ter salvo a rainha.
Logo se recuperou, pois seu organismo era bastante resistente, e ficou sabendo que os estrangeiros enfrentaram o pérfido senhor em suas próprias terras e o derrotaram. Hilda não cansava de dizer que todo aquele triunfo havia acontecido porque ele tivera a coragem de contestar uma ordem sua.
- Você pensou mais em minha vida do que em minha autoridade como rainha. É assim que agem os guerreiros de verdade.
Logo após a recuperação de Siegfried, ele e Hilda pareciam mais íntimos. Ela gostava de passear com ele a cavalo, e fazia questão de tê-lo sempre perto de si, como se precisasse prestar contas a ele do que fazia. No entanto, ela ainda tinha um cargo a cumprir, e ele ainda era seu segurança. Logo após o primeiro deslumbramento de vê-lo voltar da morte e do primeiro impacto e imensa gratidão que sentia, Hilda se recolheu dentro de si própria novamente e acabou criando novamente uma barreira entre si e o guardião.
Apesar de suas funções terem voltado ao normal, ele agora a sentia cada vez mais inatingível. Ele quase a havia perdido. E não poderia deixar de amá-la ainda mais por isso. Era difícil sentir isso tudo no mais completo silêncio, mas a queria perto de si. Queria ele mesmo cuidar dela. E no entanto não podia sequer dizer que a amava.
Não muito tempo depois, surpreendeu Hilda chorando em frente à janela. Era uma cena inusitada, pois ela era realmente muito forte e jamais sucumbia às dificuldades. Aquele choro parecia, no entanto, de alguém sem esperança alguma.
- O que houve, senhora? Se me permite, gostaria de saber o que a põe tão triste.
- Eu... vou me casar. O povo me pressiona, Siegfried. Eu sou uma rainha e preciso de herdeiros. Todavia... não é de minha vontade! O homem a quem devo escolher deve ter sangue nobre, e... eu mal conheço os nobres da região! Não sei se você entende dessas coisas, mas... eu gostaria de me caras por um motivo mais profundo que esse.
Ele a olhou com tristeza e desapontamento. Amara aquela mulher durante anos, e agora ela seria de outro. E na verdade ele sabia, durante todo aquele tempo, que aquele momento chegaria. Ele era apenas um guarda; jamais poderia ambicionar tal coisa paras si.
- Senhora, eu entendo. Mas é necessário, e se é assim, é melhor que se faça logo. Casamentos raramente são por amor, e via de regra são contratos entre famílias.
- É exatamente isso. Mas você diz essas coisas com tamanha simplicidade... como se para você fosse fácil.
Não, não era! Ele dizia aquilo para consolar mais a si próprio do que a ela.
- Já amou alguém, Siegfried?
- Hã? – a pergunta o tomou de tanta surpresa, que o embaraço foi visível.
- Ah, me desculpe. Eu não deveria tomar tanta intimidade assim com um homem, não é mesmo? Mas é que você sempre esteve aqui, nesta sala, me guardando. E eu o conheço desde a mais tenra infância. Penso que não é justo eu o tratar como algo menos que a um amigo.
Ele sorriu e foi para dentro, sem esperar pela resposta. Ele já sabia dos sentimentos de amizade de Hilda. E no entanto, ela permanecia distante, a não ser em raros momentos como aquele. Bem, o que ele poderia esperar de uma rainha?
Nos dias que se sucederam, ele tentou conciliar as idéias com aquele novo acontecimento, mas não conseguiu se conformar direito. O que lhe dava algum consolo era ver Hilda triste com o futuro noivado. Se bem que não entendia tal reação. Ela era fria no tratar com negócios e casar seria apenas mais um deles.
E de repente lhe ocorria aquilo. Ele, em meio a seu amor impossível, pensando que jamais poderia sequer declará-lo a rainha, era convocado no meio da noite para amá-la. Não poderia sentir algo além de surpresa. Após o primeiro choque, tentou falar?
- Minha... minha senhora, eu... por que me pede isso?
- Siegfried, você sabe e eu sei: eu te amo! Já chega, já chega de esconder isso! Não posso me casar sem prestar contas a você.
- Senhora, eu...
- Me chame pelo nome! Agora que não estamos na frente de ninguém, eu sou apenas Hilda, a mulher. Entende?
Aquilo tudo, aquele turbilhão, aquelas revelações repentinas, era confuso. Como aceitar aquilo tão bem? E no entanto era tudo que ele sempre quis, apesar de não se achar merecedor.
- Está bem... Hilda. Mas por que prestar contas justo a mim? A senhora... digo, você não precisa disso.
- Você cuidou de mim desde quando éramos crianças! Desde então eu via, você era o mais dedicado de todos! Deu a sua vida por mim, e ao eu pensar que tinha morrido, me senti não menos do que viúva! Reprimir isso por mais tempo seria crueldade demais!
- Hilda...
- Para comigo e para com você. Deve ser difícil ver a mulher a quem protegeu por anos a fio ir para outro, não é? É como preparar uma casa durante muito tempo, sem ganhar nada, e depois ter de entregá-la a outras pessoas para morar.
- Minha senhora, eu... não fiz por interesse. Ademais, sempre recebi minha recompensa bem...
- Não falo disso! Falo de amor, de sentimento! Você me ama, Siegfried. Não ama?
- Eu... não ousaria tanto!
- Como não? Você é o único aqui neste reino que merece isto. Por tudo que fez por mim. A não ser que... que eu esteja me supervalorizando por ser a rainha.
- Não, senhora! Não há... não há mulher que possa superá-la nestas paragens. E não é pelo seu cargo que lhe falo isso.
- Responda-me com sinceridade se me ama. Tem a liberdade de amar outra se quiser. Também não posso requerer seu amor.
- Eu... eu a amo sim. Nem posso acreditar que finalmente lhe disse isso, Hilda.
Ela sorriu.
- Infelizmente os próximos meses vão ser muito difíceis. Eu vou ter que me casar com outro. Mas... a minha primeira noite vai ser sua, se você assim desejar.
Ele, que há apenas meia hora atrás sequer ousava admitir que amava aquela mulher, agora tinha a primeira noite dela em suas mãos. A primeira noite daquela semideusa, sempre tão distante? Era muito; não era possível!
- Tenho medo, minha rainha.
- Medo? Você, que jamais teve medo do que quer que fosse...
- É muita responsabilidade. E se a senhora se arrepender depois? Ouço histórias de mulheres que foram desgraçadas após se entregarem para outros homens que não seus maridos.
- Porque não tinhas certeza do que faziam. Sempre confiei minha vida a você. Não tenho receio, pois a seu lado estou segura. E além disso, marido de papel não é nada... você é meu verdadeiro esposo.
Ela aproximou seus lábios dos dele e ele, não se contendo mais, a abraçou e liberou toda a energia que guardara por todo aquele tempo. Ela mesma lhe pedia aquilo. Ele não tinha como negar, nem a ela, nem a si próprio.
Aquela noite mudou a vida de ambos para sempre. A partir daquele momento, deixaram de existir a rainha e o guardião, ou mesmo Siegfried e Hilda. Eram apenas um homem e uma mulher, cujas almas estavam unidas por um sentimento que todos anseiam, mas que poucos obtêm: o verdadeiro amor.
