Bom pra você

It seems crazy but you must believe
There's nothing calculated, nothing planned
Please forgive me if I seem naive
I would never want to force your hand
But please understand, I'd be good for you

Primeiro preciso contar o que ninguém contou após a morte do Lorde das Trevas e de Harry Potter na batalha de Hogwarts.

O que acontece quando um governo ruim cai por pressão social é, via de regra, a ascensão de uma série de outros governos ruins. Talvez não ruins exatamente, mas definitivamente governos fracos e foi justamente isso o que aconteceu. Depois de um conflito de ideais como aquele travado durante a guerra do mundo bruxo, o que sobrou foi um terreno fértil para fraudes, demagogia e autoritarismo.

Não havia mais um herói para salvar o mundo bruxo de tantos desastres administrativos. Quem era rico, ficou ainda mais rico por causa dos contatos certos, o que foi exatamente o meu caso. Quem já não tinha muita coisa, saiu com ainda menos. O Profeta Diário se via às voltas com períodos de censura, seguidos por períodos de liberdade de imprensa.

Dez anos se passaram até que alguém sugerisse que um governo de transição já não atendia aos interesses do povo e a pressão para que uma eleição fosse convocada e finalmente as coisas voltassem para a normalidade. O que todos queriam era um novo herói, alguém revestido de santidade, de glória, ou pelo menos de redenção.

Depois de tantos anos carregando nas costas a acusação de ter escolhido o lado errado da guerra, o que eu tinha pra me contentar com a vida era uma fortuna invejável que não se dilapidou com a crise, mas isso sempre foi pouco para um Malfoy. Eu queria mais, muito mais. Queria desfilar pelos corredores do Ministério de cabeça erguida e ouvir todos sussurrando meu nome com temor e admiração.

Eu queria ser o novo Ministro da Magia, queria o prestigio, a fama, o respeito e o poder político que minha família sempre se orgulhou em ter, mas para isso eu precisava me redimir diante do mundo.

Todos precisavam ser convencidos da minha mudança. Convencidos do fato de que Draco Malfoy havia aprendido com seus erros e crescido como ser humano. Então, com a ajuda de Blaise Zabini, bolei uma plataforma de campanha que, se bem executada aos olhos do público, me renderia um Oscar e um cargo eletivo.

Um Malfoy falando em direitos dos nascidos trouxa, cotas para meio sangue no Ministério e em Hogwarts, programa de integração entre a comunidade trouxa e a comunidade bruxa, era no mínimo algo digno de atenção e manchetes no Profeta Diário. Meu lema era "Somos Iguais, somos um!".

Blaise pegou o jornal que estava jogado sobre sua escrivaninha e encarou por alguns momentos com desagrado. Ele ergueu os olhos e me encarou por alguns segundos.

- Você é loiro de mais, franzino de mais, e Malfoy de mais pra que esse absurdo convença qualquer um que conheça minimamente a reputação da sua família. – Blaise disse massageando a testa – Qualquer um que tenha passado por Hogwarts sabe que o nome Malfoy está tão ligado à Sonserina e Artes das Trevas quanto a maldita serpente prateada. Vocês são parte legitima daquela casa tanta quanto as pedras das masmorras!

- Blaise, ninguém nunca esperou ouvir tais propostas da boca de um Malfoy. – eu aleguei em minha defesa – Isso será um choque, sem dúvida, mas é brilhante!

- Draco, seria brilhante se não fosse tão absurdamente óbvio! – Blaise disse de forma prática – A única chance de você conseguir convencer o mundo bruxo de sua sinceridade é se Harry Potter voltar dos mortos e declarar em entrevista exclusiva ao Profeta Diário que você é o novo escolhido!

- Potter não serve nem pra isso. – resmunguei a contra gosto – Preciso de algo que faça esse discurso funcionar.

- Em outras palavras, você precisa de um milagre. – Blaise se levantou e caminhou de forma elegante até o espelho que ficava em seu escritório para ajeitar a gravata – Independente de qualquer opinião minha, você vai a esta festa hoje e vai sorrir até suas bochechas doerem. Vai apertar a mão de todo mundo, de cada nascido trouxa e, Deus me livre, até da Granger.

- Como aquela vadia de sangue ruim conseguiu chegar até a chefia do Departamento de Execução de Leis Mágicas em dez anos? – eu questionei irritado e Blaise revirou os olhos.

- O "como" não importa. Ela é e ponto. – Blaise respirou fundo – E se Granger estiver presente nesta festa isso significa que...

- O Weasley também vai estar, assim como o engomadinho do Percy e Arthur. – coloquei meu sorriso mais sínico na cara e encarei Blaise – Ou seja, eu serei jogado aos leões de Grifinória, e enquanto sou devorado terei que fingir que estou gostando disso.

- É, você pegou o espírito da coisa. – Blaise riu – Isso é política, meu caro. A arte do possível.

- Barbara vai acompanhar você? – perguntei por educação, a mulher de Zabini evitava política e ocasiões em que o marido serviria como meu acessor de imprensa.

- Ela está fora da cidade. Percy Weasley a mandou para uma convenção na Argélia para tratar sobre a cooperação mágica no contexto pós-guerra. – Blaise disse irritado – Mais um motivo que eu tenho para odiar o Weasley engomadinho. Bem no nosso aniversário de casamento!

I don't always rush in like this
Twenty seconds after saying hello
Telling strangers I'm too good to miss
If I'm wrong I hope you'll tell me so
But you really should know, I'd be good for you
I'd be surprisingly good for you

Deixamos a sala de Blaise e seguimos para o Delacour, um salão de festas requintado que foi aberto por Gabrielle Delacour três anos após a guerra. Se você queria ser visto pela sociedade, se queria fazer parte dela, se queria, ou era conhecido no mundo bruxo, você inevitavelmente pisaria naquele mármore e beberia naquelas taças de champanhe.

Eu estava promovendo aquele evento beneficente para arrecadar fundos paras as vítimas da guerra internadas em St. Mungus e, se tudo corresse como o planejado, alguns votos para minha campanha.

Um evento sob a supervisão do serviço de cerimonial de Gabrielle tinha tudo para ser um evento a ser lembrado. Ela sabia quem convidar e como fazer isso de forma que a pessoa em questão se sentisse obrigada a comparecer, nem que fosse para satisfazer a curiosidade. Neste contesto, ela convidou todos os Weasley, não só pelas posições galgadas por eles no âmbito ministerial, mas porque eles eram a família bruxa que defendeu os direitos dos trouxas e dos meio sangue por anos. Se eu queria ganhar uma eleição usando aquele discurso, eu precisava do maior número de Weasleys possível do meu lado.

Quando entramos no salão abarrotado, eu fui ofuscado pelos flashs das máquinas fotográficas e pelos sorrisos falsos de todos aqueles sanguessugas gananciosos que me parabenizavam pela candidatura. Não importavam quem iria ganhar, todos queriam estar um passo a frente e cair nas graças do novo Ministro, ainda que ele não tivesse sido eleito ainda.

Circulei pelo salão lotado, cumprimentando velhos e novos conhecidos, fazendo elogios e debatendo minhas propostas. Falei da importância do apoio as vítimas da guerra, da necessidade de indenizar os que foram perseguidos e toda vez que alguém sugeria alguma coisa sobre meu passado eu alegava solenemente que um homem muitas vezes necessita de tempo e maturidade para reconhecer seus erros.

- Juro que se tiver de sorrir por mais cinco minutos meu rosto não vai voltar ao normal nunca mais. – eu sussurrei para Blaise em determinada altura da festa.

- Isso é só o começo. Vai precisar de sorriso permanente se for eleito! – Blaise retrucou ríspido e saiu me arrastando para cumprimentar Luna Lovegood, dona e editora do Pasquim, que se tornou o semanário mais respeitado da Inglaterra em questões de política. Nem preciso dizer que Loony estava em posição elevada na "Lista de Opositores Convictos de Draco Malfoy".

O ponto crítico da festa foi quando Hermione Granger Weasley entrou no salão escoltada pelo marido e auror troglodita, Ronald Weasley. Juro que tentou ser civilizado e até gentil perto deles, mas ainda que eu fosse um santo e a personificação da paciência eu não seria capaz de convencer aqueles dois da minha boa vontade. E acreditem, eu precisava disso de uma forma quase vital.

Eles eram o cérebro e o coração de todo aparato jurídico do mundo mágico na Inglaterra e se Granger estalasse os dedos ela desarquivaria o meu caso e me jogaria em Azkaban sem nem pensar duas vezes a respeito.

A festa já estava bem adiantada quando algo que eu até então tinha ignorado capturou minha atenção.

I won't go on if I'm boring you
But do you understand my point of view?
Do you like what you hear, what you see
And would you be, good for me too?

Contemplado a movimentação do salão e bebericando de uma taça de champanhe, ela parecia estar se esforçando para passar despercebida por aquela festa. É claro que isso era impossível, não só pelo fato de que ela era uma mulher atraente, mas também porque havia se tornado uma jogadora de quadribol de grande projeção.

Eu me lembrava dela como a filha mais nova dos Weasley e namoradinha do Potter, mas nunca tinha dado muita atenção a ela. Me perguntei por que eu nunca tinha reparado nela antes, mas a resposta era óbvia. O que era ainda mais óbvio era o quão bonita ela estava.

A visão teria bastado pra me levar até ela e me apresentar. Conversar um pouco e destilar meu charme numa tentativa de conseguir mais um voto até que uma campainha soou dentro da minha mente e eu tive a fatídica idéia...

- Sempre tive a impressão de que não é o tipo de pessoa que aprecia ficar sozinha. – usei meu tom mais charmoso para chamar a atenção dela e funcionou – É um prazer revê-la, senhorita Weasley.

- Malfoy. – ela me cumprimentou com um breve aceno de cabeça – Acho que não me lembro de ser tão bem tratada por você.

- Os tempos mudaram, senhorita Weasley. Infelizmente eu tive de mudar da forma mais difícil. – respirei fundo e fiz uma pequena pausa antes de encará-la nos olhos – Espero que me perdoe pelas infantilidades da época de escola.

- Não há mais sentido em falar nessas coisas. – ela disse de forma neutra – Os tempos mudaram, como o senhor bem mencionou. É melhor deixar esses assuntos no passado e seguir cada um seu caminho.

- Muito justo. – sorri um sorriso discreto para ela – Gostaria de cumprimentá-la pela bela partida que fez no ultimo fim de semana. Eu estava no estádio e fiquei maravilhado com sua performance no jogo.

- Obrigada. – ela agradeceu por educação. Aquilo não era o bastante.

- Perdoe-me a inconveniência, senhorita Weasley, mas eu vim até aqui num impulso. – disse constrangido. Ela então concentrou toda sua atenção em mim – Eu não devia importuná-la dessa maneira, me desculpe por isso.

- É natural para alguém que está em campanha. – ela disse de forma educada e indulgente – Eu vim para esta festa sabendo que seria assediada por cada candidato por causa do meu voto. Você foi apenas mais um deles.

- Talvez. – peguei duas taças da bandeja de um dos garçons que passaram ao nosso lado e ofereci uma a ela – Mas também existe a possibilidade de que eu tenha vindo assediá-la por outro motivo que não seu voto.

- Não consigo pensar em nada que valha a pena o esforço de falar comigo. – havia uma discreta nota de sarcasmo na voz dela e era disso que eu precisava para me movimentar. Terreno familiar.

- Olhe outra vez. – eu sussurrei – Talvez eu apenas tenha tido a infeliz idéia de que, com alguma sorte, aceite dançar comigo.

- Quando foi que se tornou permitido para um Malfoy dançar com uma Weasley? – ela bebeu o último gole da taça e me encarou com curiosidade. Eu sorri e estendi minha mão a ela.

- Os tempos mudaram e eu não sou cego, Weasley. – ela aceitou minha mão – Até mesmo o mais obtuso dos Malfoy tem que admitir que você se tornou uma visão e tanto. – e puxei o corpo dela de encontro ao meu.

I'm not talking of a hurried night
A frantic tumble then a shy goodbye
Creeping home before it gets too light
That's not the reason that I caught your eye
Which has to imply, I'd be good for you
I'd be surprisingly good for you

A música lenta embalava a meia dúzia de pares que se atrevia no salão de dança de uma festa quase vazia. Eu não menti quando disse que ela havia se tornado uma visão e tanto. Uma parte de mim estava deslumbrada com a aparência delicada e ao mesmo tempo sofisticada dela. A maquiagem, o vestido longo, o cabelo preso, o batom. Não havia nada que pudesse competir pela minha atenção como aquele conjunto que compunha a Weasley.

Ela dançava bem e aquilo permitia que eu me movimentasse com confiança e leveza. Os olhos distraídos dentro do salão agora tinham um alvo de interesse e a nossa foto no meio de uma valsa estaria estampada no Profeta Diário no dia seguinte, mas eu só pensei nisso bem mais tarde.

- Você sempre foi bonita nos tempos de escola. – eu disse capturando a atenção dela mais uma vez – Mas estes últimos anos serviram para lapidar isso. Eu mal a reconheci.

- Não dá pra carregar luto eternamente, não é mesmo? – ela deixou escapar num tom melancólico – Quando a guerra acaba, notamos que a vida segue em frente.

- Muito sensato. – respondi enquanto girava levemente com ela em meus braços – Potter teve sorte em ter uma garota como você.

- E o mundo inteiro sempre se lembrará de mim desta maneira. – ela disse de um jeito aborrecido – É a marca que vou deixar. Ter sido a namorada de Harry Potter.

- Não se você não quiser. – eu respondi – Você é uma jogadora talentosa, uma bruxa notável pelo que me lembro. – a musica parou e eu levei a mão dela até meus lábios – O mundo é seu Weasley, faça-o se lembrar disso. – e depositei um beijo sobre a luva de uma forma elegante. Posso jurar que ela prendeu a respiração – Está sozinha aqui, ou veio acompanhada?

- Sozinha. – ela respondeu num tom pálido – Acho que meus irmãos já foram.

Please go on, you enthrall me
I can understand you perfectly
And I like what I hear, what I see, and knowing me
I would be good for you too

Eu me aproximei do ouvindo dela. Senti o cheiro do perfume que ela usava e aquilo provocou um arrepio involuntário em meu corpo. Ela estremeceu ao sentir meu hálito bater contra a pele exposta.

- A festa está no fim. – eu disse rouco – Me acompanharia em um drink?

- Não sou um dos seus casos de uma noite, Malfoy. – ela argumentou. Eu sorri de forma indulgente.

- Eu não estou interessado nesse tipo de coisa. – eu respondi – Uma Weasley, alguém que lutou na Armada Dumbledore e cresceu no meio da Ordem da Fênix, só pode ser uma garota inteligente. Eu estou interessado em um drink e no prazer de sua companhia.

- Não vai envenenar meu drink, vai? – ela perguntou num tom divertido.

- E privar o mundo de sua dona? Não, minha cara. – respondi oferecendo o braço a ela. Ela aceitou.

- Estou dando um voto de confiança a você. – ela disse de um jeito elegante – Seja bom pra mim, senhor Malfoy.

- É tudo o que eu estou pedindo, senhorita Weasley. – respondi tirando a varinha do bolso interno da do paletó – E eu serei surpreendentemente bom para você. – naquela noite aparatamos da festa juntos em direção à Mansão Malfoy.

I'm not talking of a hurried night
A frantic tumble then a shy goodbye
Creeping home before it gets too light
That's not the reason that I caught your eye
Which has to imply, I'd be good for you
I'd be surprisingly good for you

Nota da autora: Fic nova e eu decidi voltar ao fandom onde fiz minha estréia como ficwriter. Se alguém já viu o filme Evita (é, o musical com a Madonna) vai reconhecer um pouco da trama e muitas das músicas dessa história. Ginny está um tanto quanto delicada? Calma, isso tem uma razão de ser. Malfoy está todo loiro, todo sexy e todo dispostos? Essa é a idéia. Malfoy quer o seu voto também.

Espero que gostem e comentem. Música do capítulo é I'd be surpreisingly good for you, do musical Evita.

Bjux