CAPÍTULO QUATRO
EXPRESSO HOGWARTS
James passou o mês de agosto todo em eterno estado de inquietação. Corria pela casa exclamando em alto e bom som que estava indo para Hogwarts, pedia ao pai que lhe ensinasse magias divertidas, como uma que transformava a cabeça das pessoas em cabeça de bagre, perguntava a mãe sobre a escola e sobre os professores, e não passava nem um minuto sequer sem sacudir a varinha de lá para cá, extasiado com as fagulhas multicoloridas.
Na última semana antes de setembro, o Sr. Potter convidou James para jogar quadribol na parte de frente do jardim, que era muito verde e larga, a grama aparada regularmente pelas mãos habilidosas da Sra. Potter. Ramsés, o pequenino gato de James, o seguiu prontamente com seus passinhos miúdos, miando baixinho.
O sol já estava começando a desaparecer no horizonte quando eles terminaram de jogar. Fausto muito suado, apoiado na vassoura e sem fôlego, James um pouco mais animado, sentado de pernas cruzadas sobre a grama, mas igualmente encharcado.
-Você é um ótimo artilheiro, James. –observou Fausto. –Formidável. Eu por meu lado sou um desastre.
-Nem tanto. –respondeu James, alisando Ramsés que se espreguiçava no seu colo. –Pai, você era do time de quadribol?
-Não, mas não se decepcione ainda. Eu fui monitor. –informou, orgulhoso.
-Ser monitor deve ser muito chato. –retorquiu. –Não querendo diminuir seu crédito nem nada, mas eu não gostaria de ser monitor.
-Claro, porque você prefere milhões de vezes mais ser o garoto que foge e zomba deles, correto? –adivinhou o Sr. Potter, sem severidade.
-Até você tem de admitir que isso soa bem mais divertido. –admitiu.
-Vamos entrar, estou com sede. –disse Fausto, meio minuto depois, arrastando o corpo penosamente. –Esse exercício todo acaba com os meus músculos.
Reola lia um livro na sala de estar, as páginas voando sozinhas no momento certo. Seu cabelo castanho-claro estava preso num coque, e ela mordia um pedaço de cenoura distraidamente.
-Sabe, se Zanin colocasse umas figuras, esse livro seria realmente interessante. –ressaltou, a ouvi-los entrar. –Sabia que ele viveu muitos anos como trouxa? Depois de Hogwarts, digo. Vocês precisam ler o que ele fala sobre os fantasmas.
-Zanin é muito sensionalista para meu gosto. –rebateu Fausto. –Querida, ainda tem torta de abóbora?
-Acho que sim, segunda... Terceira ou quarta gaveta. –e voltou a mergulhar nas páginas amareladas.
James se serviu de um pedaço duas vezes maior que o do Sr. Potter, jogando alguns farelos para Ramsés que miou agradecido. A torta era laranja berrante, adornada com amendoins explosivos que faziam barulho de estalo ao serem abocanhados.
-James, você se lembra da minha capa de invisibilidade? –indagou Fausto, pensativo.
-Lembro, mas você nunca me deixava mexer. –acrescentou James com um olhar ressentido.
-Porque você tinha cinco anos e poderia acabar simplesmente desaparecendo. –explicou o Sr. Potter. –Bom, mas, você conhece a história?
-O conto? Sim, é o favorito da mamãe.
Fausto assentiu, pegando mais meia fatia de torta.
-Sabe que a capa está na nossa família a gerações, também, não é?
James não sabia aonde ele queria chegar, a não ser que... A não ser que ele quisesse lhe presentear com a capa. O que seria incrível, mais que isso até. O pai vivia realizando truques, ora desaparecendo e reaparecendo de repente, ora fingindo estar sem um braço ou sem a cabeça. Uma vez chegara mesmo a espiar a casa vizinha, que era de trouxas. James já podia imaginar inúmeras utilidades para a relíquia.
-Pai, você vai me dar a capa? –perguntou, sem rodeios. Os olhos brilhando de expectativa.
-Um dia, claro. –respondeu evasivamente, o que fez James murchar. –Acho que tenho medo do que você faria com ela.
-Nada demais, eu prometo. –rebateu, uma centelha de esperança reacendendo no olhar. –Coisas nobres até.
-Como o que, exatamente?
-Como... –ele pensou um instante. –Salvar gatinhos indefesos, e ajudar os pobres.
-James, você pode fazer isso muito bem sem a capa. –observou Fausto rindo. –Que tal levar um pedaço de torta para sua mãe? Ela parece entretida demais para lembrar que tem de comer.
Os dias passaram num piscar de olhos, e, quando James acordou certa manhã com um cafuné carinhoso da mãe, percebeu que era dia primeiro de setembro e que em poucas horas estaria em Hogwarts. Um sorriso admirável lhe aderiu ao rosto enquanto ele pulava de lá pra cá, checando os livros, a caixa de Ramsés, as roupas que iria levar, e alguns brinquedos como canetinhas coloridas impossíveis de remover por três dias, saquinhos de chocolate que ao serem mastigados faziam a pessoa emitir som de galinha por quinze minutos ininterruptos, e bexigas d'água que se enchiam sozinhas após serem arremessadas.
-Você não vai poder levar a vassoura, James. –informou Reola, que dava uma última olhada na mala do filho para se certificar de que ele estava levando tudo o que precisava.
-Sério? –James estancou, decepcionado.
-Sim, nada de vassouras. –confirmou.
-Você vai superar. –emendou Fausto, que procurava seu paletó. –Gárgulas galopantes, não consigo encontrar minhas roupas de trouxa.
-Está se referindo àquele paletó roxo com botões esmeraldas? Sinceramente, Fausto, você só fica mais chamativo com ele. Guardei no armário de James.
-Reola, meu bem, odeio quando você tenta esconder as coisas de mim. Ainda não esqueci o liquidificador enterrado no jardim.
-Pai você queria triturar um pedaço da parede lembra? Pra ver ser dava pra beber. –comentou James categoricamente, prendendo Ramsés com cuidado.
A Sra. Potter riu com gosto, fitando o relógio que era feito somente de sombras douradas em formato de dragão chinês. 10:40. Fausto colocou o paletó apressado, procurando as chaves do carro-voador, uma novidade recente para o mundo bruxo. Reola e James o seguiram para o veículo, sentando-se no estofado macio com a mala sobre as coxas.
Chegaram à estação faltando dez minutos para partida do trem. O Sr. Potter colocou a mala de James num carrinho e o empurrou até a estação, enquanto a Sra. Potter passava recomendações para o filho:
-Não pule no lago, não vá para a floresta proibida, lembre-se de que animais selvagens não querem ser alimentados, querem alimentar-se de você. Nossa, James, o que vai ser de você sem mim durante todos esses meses? –questionou, parecendo preocupada de verdade.
-Nada de alimentar animais selvagens. Certo, eu posso fazer isso. Mãe, a lula gigante é um animal selvagem?
-James! –sibilou Reola, parando, logo que tinham chegado ao meio da plataforma nove e dez.
Fausto passou o carinho para James, e ajeitou o paletó que como previra a Sra. Potter, chamava mais atenção do que despistava.
-Você pode ir primeiro. –informou o Sr. Potter.
-Para onde? –perguntou James, olhando para os lados.
-Está vendo essa coluna? –indicou Reola, apontando para a parede de tijolos que ficava entre as duas plataformas. –Basta caminhar diretamente para ela. É só não parar e não ter medo.
-OK. –assentiu.
James ao longo de sua vida já atravessara muitas paredes que a primeira vista pareciam sólidas, portanto não se assustou muito. Ele começou a andar em direção a ela, depois apressou o passo, e no momento em que normalmente ocorreria a colisão, fechou os olhos. Quando voltou a abri-los uma locomotiva vermelha a vapor estava parada a uma plataforma apinhada de gente. Um letreiro no alto informava Expresso Hogwarts, 11 horas.
A fumaça da locomotiva se dispersava sobre as cabeças das pessoas que conversavam, enquanto gatos de todas as cores trançavam por entre as pernas delas. Corujas piavam umas para as outras, descontentes, sobrepondo-se à balbúrdia e ao barulho de malas pesadas que eram arrastadas.
-Por Merlin, mal acredito que já é o seu último ano.
-...Seu tio não suporta Dementadores... Quem suporta afinal, não é?
-Em dezembro estamos planejando uma festa no pólo sul. Vai ser um arraso.
-Eu prometo que lhe envio um LP do Bob Dylan, minha filha!
-A Rússia é um horror, Stalin é um horror...
-Suplicando? Não supliquei!
-Eu vi a resposta dele, foi muito bondosa.
Os comentários eram dos mais diversos, soltos por pessoas igualmente diversas. Havia bruxos e trouxas, jovens e velhos, roupas de todos os aspectos e cores.
-Se você não correr, não vai encontrar um vagão. –advertiu o Sr. Potter que acabara de atravessar o portal de mãos dadas a Sra. Potter.
-Detesto admitir, mas ele tem razão. –concordou Reola.
Os primeiros vagões já estavam cheios de estudantes, uns debruçados às janelas conversando com as famílias, outros brigando por causa dos lugares. Fausto empurrou o carrinho de James pela plataforma procurando um lugar vago.
-Você trouxe roupa de frio? –perguntou Reola de repente.
-Trouxe. –respondeu James para o alívio da Sra. Potter. –Quatro cachecóis e cinco agasalhos, aliás.
-É sempre bom estar preparado. –explicou-se Reola, satisfeita.
Continuaram andando pela aglomeração até que encontraram um compartimento vago no final do trem. Fausto guardou a mala de James usando magia e depois lhe passou a caixa onde Ramsés descansava, alheio a todo o barulho e agitação.
-Precisamos ir, eu acho. –observou Reola, espiando pela janela e percebendo que a maioria dos pais já estava fora do trem. –Eu amo você, James. Vou ficar contando os dias até o natal.
-Tome cuidado por lá, hein. E tente não explodir mais banheiros que o necessário. –pediu Fausto abraçando o filho com carinho. –Vou sentir sua falta.
James sorriu, mas se desvencilhou do pai o mais rápido que pôde, um pouco envergonhado. Despediu-se da mãe que lhe deu um beijo estalado na bochecha e se aproximou da janela para acenar para eles quando aparecessem na fila de pais soluçantes e lamurientos. Meio escondido pela cortina carmim, conseguiu reconhecer Sirius, o garoto da loja de roupas. Ele estava parado ao lado da mãe, sempre muito arrumada e impecavelmente penteada, do irmão, que tinha os olhos vermelhos e parecia bastante contrariado, e de uma menina alta, o cabelo loiro e liso.
-Mãe... –ouviu Regulus exclamar. –Tem certeza que não posso ir?
-Não é o momento, Regulus. –informou a mulher friamente, o que fez o menininho se calar de imediato. –Sirius, faça jus ao seu nome, não quero receber uma única coruja de reclamação sobre o seu mau comportamento.
-A não ser que a reclamação tenha algo haver com eu ter matado e torturado um nascido trouxa, não é? –disse Sirius em tom de desafio.
Por um instante a mulher só o fitou como se ele não existisse, depois uma centelha se acendeu em seus olhos e ela lhe deu um tapa. Sirius levou a mão ao rosto e a fuzilou com o olhar. A menina loira riu alto.
-Ele é uma peste, tia. –comentou. -Aposto que a senhora deve estar muito feliz de finalmente o estar despachando. Mas, não se preocupe, nós da sonserina iremos cuidar muito bem dele.
-Sim, estou confiante de que o colocarão nos trilhos. –confessou a Sra. Black, com nenhum pingo de remorso e sem rebater as afirmações da sobrinha. –Vá, Sirius. O trem partirá a qualquer momento.
Sirius virou as costas para mãe imediatamente, puxando seu carrinho com a cara fechada, o lado direito do seu rosto estava com uma marca em formato de mão. A garota loira deu um beijo em cada lado do rosto da tia e foi atrás de Sirius, falando algo ao o alcançar que o deixou mais irritado ainda.
James ficou aborrecido com a cena toda, afinal era de opinião que as mães tinham de amar os filhos incondicionalmente, nunca, jamais, levantando a mão contra eles. A Sra. Black não havia nascido para ser mãe, era o que achava.
Reola e Fausto conversavam animados com um casal de bruxos conhecidos, mas, ao ouvirem o apito fino indicando que o trem estava de partida, se voltaram para a janela de James, acenando efusivamente.
-Não perca seus óculos! –lembrou a Sra. Potter.
-Não precisamos de lembranças de Hogwarts, então esqueça a idéia de nos enviar um lustre, ou um fantasma. –disse o Sr. Potter. –Vamos sentir sua falta, James.
-Eu sei. –respondeu James, debruçado na janela. -Mas, não se preocupem, estou pensando seriamente em vir passar o natal com vocês.
-Espero que nos conceda essa honra, ó grande James. –disse Reola sorrindo.
O trem começou a andar. James viu os pais acenando até o trem ganhar velocidade e eles ficarem para trás, desaparecendo quando o trem fez a curva. As casas passaram num relâmpago pela janela, a vegetação se tornando um borrão esverdeado.
-Me solta Narcissa, eu não vou sentar com você e seus amiguinhos da sonserina. –James escutou Sirius gritar.
-Amiguinhos da sonserina. Pelo amor de deus, Sirius, tem certeza que é um Black? Vá então, só estava tentando ser simpática.
A porta da cabine se abriu e Sirius entrou, sem olhar para os lados e se esparramando no assento defronte a James.
-Quer um sapo de chocolate? –perguntou James, metendo as mãos no bolso do suéter e tirando um chocolate amassado que parecia um dia ter tido formato de sapo.
Sirius levantou os olhos e sorriu, surpreso.
-James! –exclamou, feliz. –Tem certeza que isso é um sapo de chocolate? Daqui parece mais um duende com chifres.
-Bem, talvez seja um duende com chifres. –ponderou James. –Quer um pouco?
-Seria bom. –admitiu Sirius, esticando o braço para receber um pedaço do chocolate. –Você coleciona as figurinhas?
-Meu pai é um fanático; faz uns cinco anos que ele procura a figurinha do Alvo Dumbledore.
-Seu pai coleciona figurinhas? –Sirius estava incrédulo.
-Hum, é. Isso é estranho? –James pensava que muitos adultos tinham o mesmo hobby.
-Não sei... Não consigo imaginar meus pais colecionando nada. Para ser justo, talvez caveiras humanas ou objetos das trevas.
Nesse momento a porta da cabine se abriu novamente e uma menina ruiva de olhos muito verdes entrou com passos largos, se largando no banco, e encostando a cabeça na janela. Ela mal notara a presença de James e Sirius.
-Como ia dizendo, estou pensando seriamente em explodir o Beco diagonal na próxima quinta-feira. –disse Sirius, olhando de soslaio para a menina. Mas ela continuou calada, o rosto completamente escondido dos garotos.
-Deixa pra lá. –James deu de ombros. –Você gosta de quadribol?
-Mais ou menos...
-Mais ou menos? No duro, quadribol é a melhor coisa do mundo! –disse James, se exaltando tanto que ambos começaram a rir.
Pela segunda vez ouviram a porta do compartimento ser aberta, agora era um menino pálido, de pele macilenta e cabelo oleoso. Ele ignorou completamente a existência dos dois meninos, indo se sentar em frente à garota ruiva.
-Sirius, estou começando a achar que estamos mortos. –comentou James.
-A culpa é toda do seu chocolate! –disse Sirius. –Eu sabia que aquele formato de duende não poderia significar boa coisa.
-Você o provou por sua conta e risco, nunca prometi que você iria continuar vivo depois da primeira mordida. –defendeu-se James, rindo.
-Me lembre de nunca mais aceitar um chocolate vindo de você. –rebateu Sirius, rindo também.
Quando as risadas cessaram, por cerca de quinze segundos, ninguém falou nada. O silêncio foi quebrado pelo garoto de pele macilenta:
-É melhor você entrar na Sonserina. –disse ele à menina ruiva.
-Sonserina? –indagou James, olhando meio surpreso para eles. –Quem quer ir para a Sonserina? Acho que eu desistiria da escola, você não? –James perguntou a Sirius, mas, dessa vez, Sirius não riu.
-Toda a minha família foi da Sonserina.
-Caramba. –replicou James – e eu pensando que você fosse legal!
Sirius riu.
-Talvez eu quebre a tradição. Para qual você iria se pudesse escolher?
James ergueu uma espada invisível.
-"Grifinória, a morada dos destemidos!" Como meu pai.
O garoto de cabelo oleoso deu um muxoxo de descaso. James se virou para ele.
-Algum problema? –perguntou.
-Não. –retrucou o garoto, com um sorrisinho de deboche que indicava o contrário. –Se você prefere ter mais músculos do que cérebro...
-E para onde está esperando ir, uma vez que não tem nenhum dos dois? –interpôs Sirius.
James deu gostosas gargalhadas. A menina ruiva se empertigou, ruborizada, e olhou de James para Sirius com ar de desagrado.
-Vamos, Severo, vamos procurar outro compartimento. –disse ela, se levantando.
-Oooooo...
James e Sirius imitaram o seu tom de superioridade; James tentou fazer o menino tropeçar quando ele passou.
-A gente se vê, Ranhoso! –gritou Sirius quando a porta do compartimento bateu.
-Ranhoso é o apelido perfeito para ele. –observou James, meio minuto depois. –Você precisa vir pra Grifinória, para jogarmos umas bombas de bosta juntos nos alunos da Sonserina.
-Minha mãe provavelmente me deserdaria. –objetou Sirius.
-Não tem problema, você pode morar lá em casa. –retrucou James, sorrindo de orelha a orelha.
O resto da viagem correu tranqüila, sem mais ninguém irrompendo as pressas na cabine. Sirius contou sobre a sua família para James, sobre como sua mãe o fez decorar toda a árvore genealógica dos Black quando ele tinha seis anos de idade, e como ela o ensinou as artes da etiqueta antes de ensiná-lo a escrever. Regulus, o irmão mais novo, correspondia muito melhor as expectativas da mãe, e por isso sempre recebia elogios, chocolates e brinquedos novos.
-Mas eu sou o primogênito, para o azar dela. Mamãe não pode simplesmente desistir de mim, por isso é dez vezes mais severa comigo. –explicou Sirius. –Se o Regulus derrama uma gota de suco de abóbora no tapete, ela briga com ele. Agora, se sou eu que derramo, ela me deixa sem jantar por uns quatro meses seguidos.
"A gente tem uma tapeçaria imensa lá em casa, com o nome de todos os Black. Quando alguém da nossa família faz algo de errado, como por exemplo, se casa com um trouxa, o nome é queimado da tapeçaria e todo mundo começa a agir como se essa pessoa não existisse mais."
"Minha ta tara ta tara ta tara avó, ou algo parecido, foi riscada da tapeçaria porque casou com um nascido trouxa. A irmã dela, Eladora ou era Eleonora, começou a tradição familiar de decapitar elfos domésticos e pendurar a cabeça deles na parede quando ficavam velhos demais pra carregar a bandeja de chá. O tio da minha mãe também foi apagado da tapeçaria. Ele era um aborto. Ninguém sabe o que aconteceu com ele depois disso, minha prima acha que ele foi abandonado sem memória nenhuma no meio de Nova Iorque."
As horas passaram voando à medida que conversavam; James ficou surpreso com a história dos Black e sentiu pena de Sirius, imaginando como seria crescer numa família tão rígida e tradicional. Quando o carrinho de doces passou, James e Sirius compraram um grande pote de mousse de amora com framboesas e suco de erva – doce. Quando o céu começou a escurecer, e as primeiras estrelas cintilaram distantes, eles decidiram vestir os uniformes. Um pouco depois uma voz ecoou pelo trem:
-Vamos chegar a Hogwarts dentro de cinco minutos. Por favor, deixem a bagagem no trem, ela será levada para a escola.
-Até logo Ramsés. –despediu-se James.
O trem foi diminuindo a velocidade e finalmente parou. As pessoas se empurraram para chegar à porta e descer na pequena plataforma escura. Lá fora o cheiro era de árvores e orvalho, a brisa era úmida e fria em comparação ao ambiente morno do trem. Apareceu, então, uma lâmpada balançando sobre as cabeças dos estudantes e James ouviu uma voz grossa, mas gentil exclamar:
-Por Merlim, quantos alunos... Alunos do primeiro ano! Primeiro ano aqui!
Era um homem alto, pelo menos duas vezes maior que um homem comum. O rosto era grande e peludo.
-Vamos, venham comigo. Mais alguém do primeiro ano? –indagou ele, fitando o mar de alunos à sua frente. –A propósito, eu sou Hagrid, o guarda-caça do colégio.
Aos escorregões e tropeços, eles seguiram Hagrid por um caminho de aparência íngreme e estreita. Estava tão escuro em volta que James achou que devia haver grandes árvores ali. Ninguém falou muito. Um menino gordinho de cabelo muito liso e loiro fungou duas vezes.
-Vocês vão ter a primeira visão de Hogwarts em um segundo. –Hagrid gritou por cima do ombro. –logo depois dessa curva.
James decorava todo o percurso por pura diversão. Talvez, mais tarde, fosse útil como uma passagem secreta, não tão secreta afinal.
O caminho estreito se abrira de repente até a margem de um grande lago escuro. Encarrapitado no alto de um penhasco na margem oposta, as janelas cintilando no céu estrelado, havia um imenso castelo com muitas torres e torrinhas.
-Se ajeitem em quatro em cada barco. –pediu Hagrid, apontando para uma flotilha de barquinhos parados na água junto à margem.
Sirius se adiantou à frente, molhando do pé até o calcanhar na água escura. James o seguiu, mas tomou cuidado para não encharcar os sapatos. Os dois se agarraram na borda do barco, empertigando o corpo para dar uma boa olhada no lago.
-Acho que vi um peixe-arranca-dedos. –disse Sirius, muito animado.
-O nome certo é ictiopotamo. –ouviram uma voz enjoada informar. Era o garoto do trem. Ele e a menina de cabelo ruivo ficaram sem barco e, como não tinham outra saída, estavam embarcando no de James e Sirius.
-Ictiopotamo está tão certo quanto peixe-arranca-dedos. –informou James, ajeitando-se no barco. –Não tente fingir que é inteligente, Ranhoso, nós não somos enganados com facilidade.
-Severo, não liga. –disse a menina, virando o rosto para a direção oposta a Sirius e James. –Hogwarts é bem bonita.
-É e eu não tenho porque me importar com esse tipo de gente.
-Todos acomodados? –gritou Hagrid, que tinha um barco só para si. –Então... VAMOS!
E a flotilha de barquinhos largou toda ao mesmo tempo, deslizando pelo lago que era liso feito vidro.
-O lago parece um grande espelho. –observou a menina ruiva. –Olha como ele reflete a lua!
Severo sorriu para ela, se segurando na borda do barquinho para olhar melhor a lua sendo refletida na água escura. James e Sirius trocaram um olhar de cumplicidade, e no momento seguinte Ranhoso estava no lago. Ele tremia de frio e fuzilava os dois meninos com o olhar. Como o barco deles era o mais atrasado e todos estavam ocupados demais conversando ou observando o castelo, ninguém pareceu notar o menino flutuando na água. A garota o ajudou a subir de imediato e ofereceu o casaco cor-de-rosa que vestia para enxugá-lo.
-VOCÊS DOIS SÃO OS GAROTOS MAIS IMATUROS E IMBECIS QUE EU JÁ CONHECI. –berrou a menina, o rosto vermelho de tanta raiva. –SEVERO PODIA TER SE AFOGADO, SABIAM?
Sirius sorriu maldosamente e James deu de ombros.
-Líli-an-an, nã-o gas-s-te-te seu fô-fô-lego. –murmurou Severo entre os dentes, o queixo batendo de tanto frio. Seus lábios estavam roxos e o seu cabelo pingava.
-Vo-vo-cê o-o-o-ou-vi-vi-vi-u Lí-lí-lí-li-an. –zombou Sirius. –Nada de gastar sua voz gritando com garotos tão imaturos e... Qual era mesmo a outra palavra? Imaturos e imbecis quanto nós.
-QUAL É O PROBLEMA DE VOCÊS?! –gritou Lílian, atraindo alguns olhares dos barcos vizinhos. –UM PEDIDO DE DESCULPA CAIRIA BEM!
-O nosso problema é o Ranhoso aqui não ter sido engolido por um peixe-arranca-dedos. –Sirius informou, olhando para o lago. –Me desculpe lago, prometo nunca mais jogar coisas em você de novo. –ele voltou a encarar a menina. - Feliz?
Lílian grunhiu mas não respondeu mais nada. James e Sirius riram com gosto. O castelo se agigantava à medida que se aproximavam do penhasco em que estava situado.
-Abaixem as cabeças! –berrou Hagrid quando os primeiros barcos chegaram ao penhasco.
-Severo, rápido, abaixe o nariz ou vai perdê-lo! –exclamou Sirius se referindo ao grande nariz do menino. –Ah, me desculpe, esqueci que esse é o tamanho natural dele...
-Cale a boca. –disse Lílian procurando um defeito em Sirius, mas, para o seu azar, o menino era muito bonito e ela não encontrou nenhuma falha importante na sua aparência.
Todos abaixaram as cabeças e os barquinhos atravessaram uma cortina de hera que ocultava uma larga abertura na face do penhasco. Foram impelidos por um túnel escuro, que parecia levá-los para debaixo do castelo, até uma espécie de cais subterrâneo, onde desembarcaram subindo e pisando em pedras e seixos. Lílian e Severo, que já estava consideravelmente mais seco, se distanciaram de James e Sirius de imediato. Hagrid verificou os barcos à medida que as pessoas desembarcavam.
-Ranhoso saiu com os rabos entre as pernas. –disse James, pondo os pés no chão. -Você tem a minha eterna admiração a partir de hoje.
-Acredite, foi incrivelmente fácil.
Então eles subiram por uma passagem aberta na rocha, acompanhando a lanterna de Hagrid, e desembocaram finalmente em um gramado fofo e úmido à sombra do castelo.
Galgaram uma escada uma escada de pedra e se aglomeraram em torno da enorme porta de carvalho.
-Ninguém se perdeu? Ótimo.
Hagrid ergueu o punho gigantesco e bateu quatro vezes na porta do castelo.
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Obrigada pelos comentários :)
Continua...
