A escuridão nos cerca
Somos como uma lágrima no oceano.
De onde virá a luz
Para nos mostrar que somos fortes...?

Passarinhos piando...Nascia o primeiro dia de aula, novamente. Ichigo bocejou, sem vontade de sair da cama. Entre um suspiro e outro, o rapaz de cabelos laranja foi acordando, vagarosamente se espreguiçando e levantando da cama, como que em câmera lenta.
Seus olhos, antes encolhidos, então se abriram. Foi só o tempo de ver a sola do sapato de seu pai vindo em sua direção para poder esquivar-se. Seu pai agora estava na cama, enquanto a poeira subia.

-Velho idiota! Já disse pra parar com isso!

-Ichigo! Good morning! – Gritou o pai, com uma expressão cínica no rosto. – Vai tratar assim seu velho pai?

-... – Ichigo nada respondeu e saiu do quarto.

-Ichi-nii! Bom dia! – Sorriu-lhe uma menina de seus nove anos.

-Bom dia, Yuzu.

-Bom dia, Ichi-nii. – Cumprimentou, com menos entusiasmo, uma outra garota um pouco mais velha.

-Bom dia também, Karin.

Ichigo sentou-se à mesa e tomou seu café da manhã calmamente. Era um dia comum. E previsível.
A escola passou como um raio, as aulas, apesar de chatas, acabaram logo. O rapaz agora voltava para casa, pela beira de um riacho que conhecia muito bem. Ele ficou observando por um momento aquela paisagem. Lembranças do passado vieram como um raio à sua mente, e...Sentiu que era melhor ir.
Chegando em casa, tudo parecia a mesma coisa. Seu pai o recebia com um pontapé, suas irmãs o repreendiam, ele chorava e abraçava o pôster da falecida esposa... Enfim...Tudo estava indo conforme previsto, de uma forma com a qual Ichigo já estava conformado, apesar de estar inconsolável por dentro. Um banho quente e lá estava ele, no seu quarto, prestes a ouvir seu tão amado mp4, quando um estrondo o espantou.
Seus orbes cor-de-mel encararam a janela, de onde parecia ter vindo o som. Ele continuou fixado naquela região, enquanto aos poucos, os barulhos se aproximavam.
A janela se abriu. Um vento cortante gelou os ossos de Ichigo, fazendo-o se desligar por um segundo. De repente, algo ou alguém caiu em cima dele, fazendo-o cair no chão.

-Está perto... – Sussurrou a garota que estava por cima dele, sem nem ao menos ter percebido sua presença.

-"Está perto" o quê, sua coisada! – Berrou o rapaz mal-humorado, dando-lhe um pontapé.

-O-o que você pensa que está fazendo?? – Disse ela, no mesmo tom, visivelmente assustada. – Não era pra você estar dormindo?

-Dormindo? São nove da noite! – Continuou ele com a gritaria.

-Então...Vocês não dormem cedo por aqui...?– Respondeu a garota, séria. – Parece que não tem jeito, vou ter que quebrar o sigilo, mas...Tudo bem.

-Do que é que você está falando...? Quem é vo--

-Cale a boca! – Cortou ela agressivamente. – Fique em silêncio e preste atenção!

Ora, sua... – Ichigo não entendia muita coisa, mas se fosse um ladrão, já o teria roubado, e, de qualquer forma, ela usava roupas aparentemente caras, então não teria mal em escutá-la, mesmo querendo expulsá-la de casa. Ela era baixinha, com o cabelo curto e negro contrastando com a pele branca e os olhos azuis.

Bem, eu sou nova na cidade. Vim de muito longe com a minha família, mas não posso ir pra canto nenhum, porque eles não me deixam...Por isso, à noite, eu saio de casa pra passear. – Ela então mostrou um caderno com um desenho feito por ela, com um coelhinho com as roupas dela fugindo de um castelo.

- * gota * Então você é acostumada a entrar forçadamente nas casas dos outros? – Retrucou Ichigo, contrariado.

A garota pegou sua caneta e sem dó desenhou um bigode no rosto de Ichigo, após imobilizá-lo. Apesar de pequena, sua força era invejável.

- Se você estivesse dormindo não teria esse problema, Senhor Barão. – Resmungou ela. – Eu só estava procurando um riacho que tem aqui, ouvi falar que é muito bonito à noite, e por isso estava usando isso aqui – ela mostrou um gps.

- Ri...Riacho...? – Gaguejou Ichigo, lembrando-se daquele lugar que lhe trazia tantas lembranças.

- Pois é. Me desculpe por ter entrado na sua casa assim, mas é que, eu não posso ficar na rua. Há muitas pessoas que me querem morta. – Ela suspirou levemente, com um sorriso no canto dos lábios. – Em todo o caso, por favor, não conte nada disso a ninguém, certo?

- Morta? Como assim? Oe, pra onde voc—

- Adeus. – A misteriosa moça pulou pela mesma janela de onde veio. Obviamente, Ichigo teve que ir em direção à janela, não poderia simplesmente despedir-se assim de uma garota tão esquisita, sem ao menos saber o seu nome. Tomou por resolução fazer o mesmo e segui-la.

- OE!! Pra onde está indo assim, do nada? – Gritou ele, correndo em direção a ela, que já estava alguns metros mais longe.

- Idiota, volte para casa, é perigoso ficar por aq— - Antes que pudesse terminar a frase, algo a atingiu em cheio, jogando-a longe.

- Ah...! Oe..Garota! – Berrou ele, espantado. Felizmente ela conseguiu agüentar o impacto e fincou seus pés no chão sem dificuldades.

-Eu estou bem! Vá embora! – Gritou ela.

Surgiram, então, por entre as sombras, três homens sinistros, com tacos de beisebol nas mãos e horrendas cicatrizes por todo o corpo.

- Hum...Então você que é a tal princesinha que veio de Tóquio? – Riu o maior deles. – Tiramos a sorte grande...

- Mas o que...Princesinha? Do que eles estão falando...? – Perguntou Ichigo.

-O que querem de mim? – Perguntou ela, friamente, para os três homens.

-Hahaha! – Riu freneticamente um outro, com cicatrizes no rosto. – Quem disse que viemos por você? Na verdade, foi só uma feliz coincidência...

A morena arregalou os olhos. Se não estavam atrás dela, de quem estavam, então?

-Garoto – Os três homens começaram a se aproximar. – Nossa conversa aqui é com você.

-O...O quê? – Sentenciou ele, franzindo a testa.

Estamos lhe fazendo uma proposta, rapaz. Venha com a gente e ninguém sai machucado. O que achou?

-Quem são vocês? – Perguntou ele, com um olhar compenetrado.

-Idiota! Fuja, eles são perigosos! – Gritou a pequena novamente, levando um soco no rosto.

-Oe! Você está bem?!

-Garoto, estamos lhe dando uma chance. Venha com a gente que ninguém tem a perder... – Disse o mais baixo dos três.- Temos algo precioso com a gente, e acredito que não queira perder ainda...

O homem então trouxe para perto de si, com brutalidade, uma das irmãs de Ichigo.

-Ichi-nii!

-Yuzu! – Alarmou-se ele.

-Miserável... – Sussurrou a garota, limpando o canto da boca, sujo de sangue. – Você...Qual é o seu nome?

-Eu sou...Ichigo. Kurosaki Ichigo.

-Ichigo...São apenas três...Acho que...Eu posso dar conta deles.

-Como? Você tá louca? Olha o tamanho deles!

-Escute. – Continuou ela, ignorando-o - Eu distraio eles e você salva sua irmã.

-Eu não posso deixá-la lutar sozinha!

A garota porém não o escutou e logo foi em direção aos três inimigos. Ichigo não conseguiu pará-la a tempo e se viu obrigado a ir junto. Ela agilmente deu um chute em um deles e aplicou um golpe que desmaiou o outro, mas quando ia em direção ao mais forte, se desconcentrou ao ouvir a voz de Ichigo e foi atingida pelo punho deste.

-Droga, como pude me distrair assim? – Disse ela, levantando-se meio cambaleante.

-Isso já está me irritando! – Berrou o assustador homem, tomando Yuzu pelo pescoço com sua mão gigantesca.

-PARE!! – Gritou Ichigo. – Pare! Eu vou com você! Mas, não machuque mais ninguém!

-NÃO! Ichigo!

-Hahaha... – O homem soltou o pescoço de Yuzu, que caiu desacordada no chão.- Muito bem, então.

Ichigo foi em direção a ele. O homem sorriu cinicamente.

-Parabéns, rapazinho. – O homem pegou uma espada. – Acabou de tomar a melhor decisão de sua vida.

O homem se preparou para atingi-lo com sua lâmina, mas antes que pudesse fazê-lo, foi atingido por um corte no pescoço. Ele se encheu de cólera quando viu que vinha da mesma garota que o atacara outrora.

-Ora, você de novo, nanica! – Ele, então, desferiu-lhe um golpe na sua barriga, logo depois, caindo exausto no chão. Ele parecia estar morrendo.

-Idiota...!- Sussurrou ela, apoiando-se com a espada. – Achou que ele iria poupar sua família após ter o que queria...? Eu os conheço, sei do que eles são capazes...

- Você precisa de ajuda! – Respondeu ele, pegando sua irmã nos braços e indo em direção a ela.

-Não...! Não se preocupe comigo! Eu me cuido sozinha...! – Ela não agüentou e sentou-se. – Leve sua irmã ao médico o quanto antes!

Ichigo a olhou com visível preocupação no rosto. Ela olhou-o nos olhos e gritou:

-Logo!!

Ichigo não se sentia bem em deixá-la naquele estado, mas foi. Alguns passos depois ela o chamou.

– Ichigo!

Ele se virou.

- Meu nome é Rukia. Kuchiki Rukia.- Disse ela. Ele sorriu.

- Arigatou. Espero que não seja a última vez que nos encontramos.

E por fim, correu o mais rápido o que pôde, para poder salvar sua irmã. Pelo jeito, tudo o que ele havia previsto para aquele dia tinha ido por água a baixo.