Sirius acordou dessa vez com o barulho do despertador. Ele quis jogar o objeto do outro lado do quarto, mas ao invés disso deu um longo suspiro e depois de cinco minutos se levantou. Essa era uma das desvantagens de ser um empresário multimilionário, isso o terno e o trabalho de escritório, mas principalmente o terno...
Sirius era dono de uma das maiores empresas de automóveis do país, a Black Motors. Ele raramente tinha que se envolver em alguma coisa, preferia deixar isso para Hestia. Mas pelo visto hoje sua presença seria mais do que necessária, aparentemente eles iam fechar uma parceria com uma grande concessionária estadunidense, um acordo que poderia levar a Black Motors a expandir seus negócios em uma escala jamais imaginada. E era por isso que ele estaria lá, por que foi assim que ele conseguiu chegar ao topo, fechando os acordos certos.
Sirius não demorou para chegar ao escritório, até ele sabia o quanto pontualidade era importante naquela ocasião, principalmente por que, segundo o que ouvira seu negociante era um osso duro de roer. Ele olhou para a mesa, Hestia havia deixado tudo arrumado e organizado como sempre, com as pastas importantes em cima junto com outros tópicos interessantes, além de um bilhete dizendo a hora e a sala da reunião.
Sirius se jogou na cadeira extremamente luxuosa, porém pouco confortável, e colocou os pés em cima da mesa. Ainda tinha meia hora antes da reunião, então começou a abrir as pastas que Hestia havia deixado para ele. Depois de mais ou menos dez minutos começou a deixar a mente vagar. Sabia exatamente o que havia dentro das pastas, mais e mais dados falando como a empresa ia bem e seus lucros cada vez maiores, isso ele já sabia de cor.
Black já estava quase roncando na cadeira quando Hestia entrou na sala. Ela estava franzindo os lábios como sempre fazia quando estava nervosa.
- Vamos? – Ela disse- Eu os vi na recepção, temos de ir rápido.
Sirius levantou uma sobrancelha. Normalmente Hestia estaria louca da vida, desesperada por que eles não estavam pelo menos dez minutos adiantados, mas ao invés disso ela estava estranhamente pensativa. Ele preferiu não comentar nada, sendo assim ambos seguiram em silêncio para a sala onde o resto da equipe já estava reunido. Quando eles se sentaram Hestia virou e disse:
- Sirius, por favor, não se esqueça, esse contrato é muito importante para nós. É uma oportunidade de ou...
- Eu sei Hestia, - Ele a interrompeu- não precisa ficar assim, eu já fiz isso milhares de vezes antes. O que poderia dar errado?
Por um momento pareceu que ela iria responder, mas a porta se abriu e todos os olhos se viraram para essa direção.
Sirius ficou boquiaberto, entrando pela porta não estava o frágil senhor de meia idade com quem ele achou que iria negociar, mas sim uma mulher pouco mais nova que ele. Ele passou os olhos por todo o seu corpo do modo mais discreto que conseguiu, observando os longos cabelos castanhos levemente encaracolados, olhos amendoados, a boca cheia e rosada, os seios não muito fartos nem muito pequenos, a cintura fina e as pernas fortes, seus olhos se demorando mais em alguns lugares que outros.
- Senhorita Mckinnon, é um prazer conhece-la. Sou Hestia Jones, secretária e assessora do Sr. Black.
A voz de Hestia conseguiu tirar Sirius do transe em que estava e ele pode finalmente assumir sua "postura séria".
-É um prazer conhece-la senhorita Mckinnon. - Disse Sirius, sem conseguir reprimir seu lado galanteador.
Sirius viu de relance Hestia lançando lhe um olhar que dizia com todas as letras: "Tire as suas patas dela". Então Sirius entendeu por que a amiga estava tão nervosa, ela estava com medo desta exata situação fazer o contrato ir por água abaixo.
Após a rodada de comprimentos, todos se sentaram e o discurso de praxe de seus funcionários começou, ele já o sabia de cor, era sempre a mesma baboseira sobre as vantagens de obter laços com a Black Motors. Sirius tentou prestar atenção como de costume, porém ele sabia que não estava tendo muito sucesso. Seus olhos pareciam não querer obedecer a seu cérebro, eles voltavam se diversas vezes para a mulher do outro lado da mesa. Ele estava tentando desviar sua atenção para a reunião quando ela falou:
- Senhor Black, – Mckinnon começou em um tom extremamente formal. - Apesar do discurso padronizado que seu funcionário fez o favor de nos oferecer, eu ainda não estou completamente convencida de que essa junção de empresas possa ser completamente favorável para o meu lado. Gostaria que o senhor pudesse nos dizer por que essa união seria benéfica e quais são os seus verdadeiros interesses na minha empresa. Sei que este assunto já foi discutido diversas vezes entre subordinados nas negociações, mas ainda assim gostaria de ouvir sua opinião direta.
Por uma fração de segundo, Black ficou impressionado, geralmente quem fazia o papel de empresário agressivo e exigente era ele. Aquela mulher o havia surpreendido, o que não era fácil. E ele havia gostado, muito.
- Bem, Srta. Mckinnon - Ele começou- devo dizer que meu interesse na sua empresa é exatamente o relatado por seus subordinados, expandir o mercado de consumo da Black Motors ao continente americano.
- Sim, sobre isso não há duvidas, mas o que não consigo entender é por que ao invés de o senhor comprar uma das diversas empresas presentes nos EUA o senhor optou por fazer um acordo com uma empresa grande e que produz exclusivamente veículos de quatro rodas, enquanto sua empresa é voltada completamente para motocicletas.
Sirius teve de reprimir um sorriso. Marlene Mckinnon era uma mulher inteligente e sagaz, ela havia sido capaz de enxergar toda a extensão do plano de Sirius, ela percebeu que ele não queria simplesmente expandir a empresa e expandir o mercado consumidor, ele queria expandir a forma de produção da empresa, e ela havia percebido.
- Eu acho que a senhorita já sabe, e acho que os meus motivos são bem parecidos com os seus. –Ele fez uma pequena pausa- Já está claro que nem eu nem você queremos somente expandir o mercado, mas sim embarcar em um novo ramo dele. E que maneira melhor para isso do que juntando se com outra empresa já bem sucedida nesse ramo, e que, aliás, tem uma forma de produção tão parecida quanto a sua própria?
Por um momento a sala ficou em silêncio mortal, apenas os dois empresários um sustentando o olhar do outro. Sirius podia sentir Hestia prendendo a respiração logo atrás dele involuntariamente devido à tensão do momento. Marlene observou bem as feições do homem a sua frente, analisando o que ele havia dito. Ela já percebera que Black não era nenhum tolo, muito menos um mal empresário, pensava tão rápido e sagaz quanto ela, depois de constatar isso se deu por satisfeita, não estava unindo sua empresa a de alguém que poderia colocar tudo a perder em um mau negócio.
- Senhores, - Ela disse por fim- acho que temos um contrato.
Toda tensão acumulada se aliviou de súbito, pessoas aplaudiram e apertaram às mãos, ela mesma apertou a mão de Black e disse:
- Espero não me arrepender desse dia Sr. Black.
- Só posso lhe dizer o mesmo, Srta. Mckinnon.
Eles soltaram as mãos, Sirius observou enquanto Marlene e sua equipe deixavam o recinto. Quando eles foram embora ele se virou e deu de cara com Hestia.
- O que exatamente foi aquilo que aconteceu?- Ela perguntou.
- Venha, vamos para o meu escritório, lá nos podemos conversar.
Quando eles entraram no escritório, Sirius fechou a porta atrás de si e deu um sorriso cheio de malícia para Hestia.
- Não, não, não e não. - Começou Hestia- Sirius Orion Black, eu conheço esse olhar e você não vai fazer isso, entendeu?
- Por que todo esse medo Hestia? – Sirius riu- Calma você sabe que eu sei bem como separar o trabalho da minha vida pessoal. Trabalho nunca é uma boa escolha, problemas demais, encontros demais, acesso ao meu carro demais...
Hestia revirou os olhos, o que não contribuiu para abafar o espirito de Sirius, tendo na verdade feito o rir ainda mais. Ela por fim não resistiu e começou a rir com ele.
- Ainda assim Sirius, aquela mulher é muito diferente das garçonetes e atrizes de meia boca com as quais você está acostumado. - Hestia disse agora um pouco mais séria.
- Você por um acaso está me desafiando, Srta. Jones?- Sirius estreitou os olhos com um sorriso divertido nos lábios- Está dizendo que existe uma mulher que eu, Sirius Black, não possa conquistar?
- Além de mim você está dizendo?- Disse Hestia entrando na brincadeira.
- Eu já te conquistei minha cara, ou você já se esqueceu das caricias que há tanto tempo nós compartilhamos?- Ele pegou as mãos dela.
- Desculpe-me Sr. Black, mas receio que não tenha sobrado nada entre nós.
- Não posso acreditar que vá me descartar dessa maneira cruel!
Sirius agora estava se fingindo de revoltado, estava se apoiando na beirada da escrivaninha.
- Mas não, não posso permitir isso, você virá comigo queira ou não, Srta. Jones!
Hestia se assustou enquanto Sirius se virava rapidamente em sua direção e a agarrava pela cintura e a levantava como se fosse um saco de batatas.
- Arrrrgh! Sirius me coloque no chããããããoooo! Agoooora!
Ela tentou parecer brava, mas não conseguia parar de rir ou espernear. O resultado foi uma bela queda. Ela e Sirius ficaram parados no chão rindo, até que ela se levantou e ajeitou o cabelo que tinha alguns fios fora do lugar.
- Vamos, levante, eu sei que hoje vai ter uma "Noite da Vitória" então é melhor você terminar tudo para que possamos comemorar.
- O que? Você está indo assim? Agride-me e vai embora? Não quero nem saber como você trata o Mike!
Hestia se limitou a levantar uma sobrancelha, retirando-se da sala logo depois.
Sirius esperou ela ir embora para se sentara em sua cadeira e recomeçar a analisar os relatórios que ainda estava em cima de sua mesa, ele havia apenas começado o primeiro quando ouviu batidas à sua porta.
- Pode entrar- Falou sem ao menos tirar os olhos do papel.
Ele ouviu a porta se abrir enquanto a ultima pessoa que ele desejaria ver entrou na sala.
- Sr. Black, ainda bem que consegui encontra-lo antes que saísse.
Sirius reconheceu a voz e teve de segurar um longo suspiro.
"Ele não" Pensou enquanto guardava os papéis.
Amós Diggory estava parado perto da porta, olhando intensamente para ele. Amós era um dos advogados da empresa. Sirius não tinha muitos problemas com advogados, desde que eles não viessem para cima dele, mas com Diggory era bastante diferente. O homem parecia ter uma fascinação por Black que ultrapassava os limites do normal, entrando até mesmo em uma esfera um tanto quanto homossexual. Black não gostava muito disso.
Ele já teria despedido seu insuportável admirador, mas ele era um dos melhores, e Hestia iria simplesmente avançar em Sirius se ele o fizesse.
- Sim, Sr. Diggory. – Começou Sirius em um tom totalmente impessoal- Ainda estou aqui, o que você quer falar comigo?
- Ah... - Diggory pareceu esquecer do motivo da visita por um segundo, mas logo continuou- Sim! Hestia me mandou entregar esses dados da gerencia.
Sirius levantou uma sobrancelha.
- Hestia te mandou?
Ele duvidava muito disso, Hestia sabia mais do que qualquer um o quanto ele se esforçava para se esquivar de Diggory.
Sirius não era homofóbico, na verdade ele já chegara a suspeitar várias vezes da sexualidade do antigo amigo Peter. Uma vez chegara a dizer - depois de duas garrafas de uma bebida bastante forte e igualmente desconhecida chamada firewisky - que o aceitava do jeito que ele era, e que se o amigo gostasse de homens estava tudo bem para ele. No dia seguinte Peter fez questão de explicar a Sirius que não era gay, coisa em que Black nunca realmente acreditou.
Diggory corou.
- B-bem na verdade ela mandou Finnigan do atendimento, mas ele parecia meio apressado e... Eu meio que o me voluntariei.
- Bem, obrigada Sr. Diggory, mas realmente acho que o Sr. Finnigan pode e deve realizar seus afazeres sozinho.
Sirius pegou os arquivos e começou a lê-los desinteressadamente, quando percebeu que Diggory não dava sinais de que iria fazer alguma outra coisa além ficar observando-o.
- Mais alguma coisa Sr. Diggory?- Perguntou.
- Hã? Ah, sim! Eu realmente gostaria de dizer que seu desempenho hoje na reunião foi incrível senhor! O modo passivo-agressivo como o senhor falou...
Sirius provavelmente teria ficado ouvindo elogios por mais ou menos meia hora se Hestia não tivesse adentrado na sala e interrompido Diggory ao fazê-lo.
- Vamos Sirius? Já liguei para o James e a Lily, eles já estão indo e... Sr. Diggory? O que está fazendo aqui?
Ela ficou bastante surpresa ao ver o homem a sua frente. Sirius lançou lhe um olhar de agradecimento e pegou o casaco.
- Sim, você está certa, Hestia! Você sabe como o James fica quando nos atrasamos, coisa de louco! Com licença Sr. Diggory, mas agora eu tenho que ir, até outro dia.
Sirius resistiu ao impulso de dizer "até nunca mais" e saiu apressadamente segurando Hestia pelo braço, só parando quando estavam no elevador, para garantir que Diggory não os seguisse.
Quando chegaram ao elevador, ele largou Hestia finalmente. Ela segurou o braço que ele estava segurando um pouco forte, e olhou para Sirius com a expressão meio intrigada, meio divertida.
- Então, conversa interessante com Diggory?
- Bastante. - Disse Black e bufou. - Sinceramente, da próxima vez mande algo mais interessante, como uma melancia, ou um poste de iluminação.
Hestia riu.
- Ei eu mandei o Finnigan! A culpa não é minha se a melancia o encontrou no meio do caminho!
- Eu sei. Queria que tivesse sido o Finnigan, pelo menos ele sabe contar uma boa piada, ao invés de ficar plantado no meu escritório me encarando.
Sirius franziu a testa e Hestia riu mais uma vez. Eles continuaram fazendo piadas sobre melancias e interesses gays relacionados à bunda sexy de Sirius.
Eles ainda estavam brincando quando chegaram ao térreo. Quando chegaram lá encontraram Finnigan sentado jogando Ninja Fruit com Dorcas Meadowes. Sirius cumprimentou ambos e olhou para Hestia, que tinha um leve sorriso e a sobrancelha levantada.
- Sabe você não devia distrair uma pessoa que está tão ocupada como Simas, se isso acontecer outros vão ter que começar a fazer o trabalho dele...
Sirius deu uma risada latida e seguiu para o estacionamento junto com ela. Os dois se separaram para poderem se arrumar em suas respectivas casas. Hestia não levaria Mike, Sirius já deixara bem claro que as noites da vitória não eram uma vitória com Mike ao lado. Hestia havia aceitado a decisão de Sirius, com a condição de que festas da vitória, do mesmo modo que não aconteciam com Mike, não aconteciam com "acompanhantes" de Sirius, eram somente os dois, James, Lily e Remus.
Sirius ficou pronto em meia hora, pegou sua moto e se dirigiu ao bar aonde sempre ocorriam às festas da vitória. Quando chegou encontrou James, Lily e Hestia na mesa. Ele se juntou ao grupo.
- Olhem só! O homem do momento, Sirius Black!- James começou quando Sirius se juntou a eles.
- Pontas!- Sirius o chamou pelo apelido de escola- Como vai seu veado?
- Cervo, é cervo!- James começou.
- Não me digam que vocês vão começar isso de novo?- Disse uma voz atrás dos dois.
Todos se viraram e viram Remus que estava tirando o casaco se aproximando.
- Remus! Como vai?- Hestia se adiantou e o cumprimentou.
Remus a abraçou e foi se sentar com os amigos. Sirius se perguntou por que o amigo teria chegado tão tarde, e então percebeu que ele estava mais pálido que o normal e com olhos ligeiramente avermelhados. James também olhava preocupado para o amigo. Nenhum dos dois falou nada, mas Hestia não foi tão discreta, perguntando a Remus se ele estava bem, ressaltando sua aparência meio doentia. Ele afirmou que aquilo era apenas uma adaptação ao fuso-horário da França, e disse que estava bem.
A noite passou bastante agradável, todos beberam e conversaram bastante. Eles só saíram do bar por volta das 3 da manhã, Sirius acompanhado de uma "amiga" que havia conhecido no bar. Remus teve de levar uma Hestia bastante embriagada e sem nenhuma condição de dirigir para casa. James e Lily se despediram de todos e foram também para casa, Lily que havia bebido menos no volante.
Sirius foi para casa com sua companheira pensando em como as coisas sempre foram assim, Remus e Lily sempre foram os únicos que realmente tiveram a cabeça no lugar, ele e James sempre gostaram de aproveitar ao máximo tudo, e Hestia era outra, outra com um verdadeiro espirito maroto.
Black só dormiu uma hora depois, com uma loira apoiada em seu peito, ele não fazia ideia do nome da mulher, só sabia que o nome começava com a letra R, ou quem sabe P... No fim ele decidiu que pouco importava, não era essa que estava junto a ele que ocupava seus pensamentos, mas sim alguém muito mais interessante e cativante.
