Capítulo I - Algumas mudanças da minha vida

"E onde menos pensei encontrar uma mão amiga, alguém me cedeu seu ombro e me ajudou a ficar de pé... Ele apareceu."


Rachel estava tentando deixar o seu dia mais normal o possível, tratando de não recordar das duas listras rosa que haviam marcadas no seu teste, o sinal inconfundível de que sua vida havia mudado para sempre. Durante as duas primeiras horas conseguiu, mas ao caminhar rumo à classe de espanhol seu estômago se revoltou e teve que correr para o banheiro, batendo em alguém no caminho, mas não podia parar para ver quem era e oferecer uma desculpa decente, como deveria.

Ela agradeceu aos céus que não havia ninguém, não queria ter que explicar. Mal conseguiu chegar ao banheiro antes de esvaziar o estômago sem contemplação... Os enjoos se intensificaram e o gosto azedo atingiu sua garganta, gemendo. O estômago ardia, não sabia se era a bile agora, ou por não ter tomado café da manhã.

"Assim que começa, né?" – Pensa, enquanto coloca, quase inconscientemente, uma mão em sua barriga lisa.

Os enjoos param por alguns minutos, mas quando pensa que já acabou eles voltam tendo que se inclinar de novo para não sujar o chão.

Não era a primeira vez que vomitava (lhe dava vergonha de admitir, mas já fez antes provocando ela mesma), mas esta é a primeira que faz por causa daquele pequeno ser, que até ontem não sabia que existia, e não suportar pensar que aquela não será a ultima vez que visitará o banheiro naquele dia.

–Berry? – Rachel queria que a terra se abrisse e lhe engolisse no mesmo instante. Puck tinha entrado no banheiro das mulheres (para o que, não tinha a menor ideia) e a havia encontrado vomitando... E sim, ai está de novo o maldito enjoo.

Quando enfim termino, para sua desgraça e surpresa, Puck ainda estava ali. Mas ainda mais surpreendida quando, ao tentar levantar-se, inclinou-se a ajudou, tomando-lhe o braço e levando quase todo seu peso, enquanto a água do vaso descia. A encosto contra a pia e abriu a torneira. Rachel lavou a boca, recusando-se a vê-lo através do espelho. Tudo isso foi feito em completo silêncio de ambos.

–Toma – virou-se e viu o menino lhe oferecendo uma pastilha de hortelã.

–Obrigado – suspirou, pegando com as mãos trêmulas, colocou na boca e suspirou.

Ambos ficaram em silêncio, simplesmente se olhando, um esperando o outro falar; mas Puck vendo que nenhum dava o passo se adiantou.

–Que diabos te passou, Berry? – a garota abriu a boca, mas ele a corto ante que nem meia palavra saísse dela – E não diga que não foi por nada, por que ninguém vomita por nada.

–Por que você se importa? Nós nunca fomos amigos.

–Não somos – concordou – mas você bateu em mim enquanto corria, e não posso deixar que alguém como você faça.

–Comi algo que me fez mal, é tudo – a olhou, como se não acreditasse em nenhuma palavra, mas não disse nada. Saiu sem ao menos lhe olhar uma última vez, deixando-a sozinha... Com medo dos primeiros sinais e com dúvida de que assistiria à aula do Sr. Schue hoje.


O resto do dia passou com mais duas viagens ao banheiro.

Quase esteve a ponto de não ir para o Glee naquele dia, mas desistiu da ideia, principalmente por não querer ficar sozinha em casa, ou pior, ter que lidar com seus pais.

Entrou na sala, garantindo que como todo o dia fosse a primeira a chegar. Deixou suas coisas no chão e aproximou-se do piano, para ver algumas partituras.

Ouviu passos, e olhou para a porta para ver Puck entrar, com o violão nas costas e as mãos nos bolsos da calça. Como todo dia a ignoro e sentou em outra extremidade da sala; por um momento Rachel suspiro aliviada, acreditando que o incidente da manhã havia sido esquecido.

–Ainda está doente? – disse depois de um tempo. Não definitivamente não esqueceu nada. – Está pálida e cansada. Deveria ir para casa...

–Estou bem – respondeu.

–Como seja Berry... Mas se vomitar perto de mim, pagará – se apressou a adverti-la – Além do mais, se seguir vomitando poderão pensar que está grávida – riu, mas o riso foi cortado ao ver sua reação. A menina se congelou no lugar, sentindo a náusea voltar, enquanto apertava as partituras nas mãos – Berry?

Ela olhou para ele e soube. Não sabia como, simplesmente soube.

Puck conhecia aquele olhar. Aquele olhar de angústia, a tensão nos ombros, os olhos cansados e vermelhos... Tinha visto antes... Em Quinn.

–Oh não... Não está...

–Não diga – o cortou, com sua voz embargada, como se estivesse a chorar a qualquer momento. E maldição, Puck não podia suportar ver uma garota chorar.

–Sim, está.

Ninguém poderia dizer mais nada porque naquele momento Kurt e Mercedes entraram, e logo depois Artie e Tina...

A medida que os outros membros do New Directions chegavam, Puck ia se afundando mais em seus pensamentos, incapaz de evitar de olhar para ela.

Quando a prática começou Rachel atuou – ou ao menos tentou – deu opiniões, cantou com Finn, mas sua mente continuava girando a mil por hora.

A prática terminou e cada um foi para seu lado. Finn se topou com ela, mas Quinn o puxou, e não puderam nem dizer meia palavra. "É melhor" pensou Rachel, não sabia como falar com ele sem a voz trêmula.

Ao chegar a seu carro viu Puck encostado, como que a espera.

–Você está grávida – disse ele, quando finalmente ficaram frente a frente.

As palavras acertaram como pedra no estômago. Dizendo o que tornou mais real, mais ainda do que o teste dando positivo ou o tempo em que estava no banheiro, inclinada contra o vaso.

Rachel assentiu, olhando para baixo.

–É do Finn – disse novamente, e a cabeça de Rachel de disparou na sua direção – Me contou o que passou entre vocês – deu de ombros – Vai dizer?

–Eu não posso... É muito com o bebê da Quinn... Eu não posso fazer isso... Além disso, ela precisa mais do que eu.

–O que você vai fazer então?

–Eu não sei! Não sei o que fazer com ele ou comigo! – não sabia se "com ele" se referia a Finn ao bebê – Eu não tenho a menor ideia... – começou a chorar, algo que estava querendo fazer desde que o teste marca a sua existência.

E ali está, essa sensação no peito de Puck; a mesma que sentia quando era pequeno e sua mãe chorava por que seu maldito pai os havia abandonado, a mesma que sentiu quando sua irmã caiu da escada e berrou o caminho inteiro para o hospital... E como sempre não sabia o que fazer. Não era bom com os sentimentos femininos e todas essas coisas de mulher.

Desajeitadamente se aproximou dela e a abraçou um pouco, dando uns tapinhas nas costas. Logo Rachel agarrou-se a seu peito, balançando o corpo contra a dele com soluços.

–Eu vou te levar para casa – disse ele, sem dar a ela a chance de recusar, a colocou em seu carro, e mesmo que ela negasse, o resultado seria o mesmo. Não é preciso ser muito inteligente para perceber que, no estado em que ela estava era impossível dirigir sem causar acidentes graves.


A viagem foi silenciosa – bem depois que os soluços da menina cessaram – ambos perdidos em seus pensamentos, sem se atreverem a se olhar.

Quando Rachel desceu do carro, enfrente a sua casa, seus olhos se encontraram e ele sabia o que ela queria dizer.

–Não direi nada, Berry - Ela assentiu com a cabeça e entrou na casa, sem voltar a vê-lo novamente.

A caminho de casa, o menino não pode deixar de perceber o quão improvável situação que encontrava (encontravam), como se o destino lhe pregasse uma peça pesada.

"Quinn está tendo o meu bebê, mas diz que é do Finn. E Rachel, que sim terá um bebê de Finn não dirá nada."

Quem pensaria que a escola poderia ter tanto drama?