Insanidade Mútua
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Presente de aniversário ( muito atrasado) para Ms. Cookie.
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Primeiro vem a fumaça. Depois os olhos rubros. E, só então, a loucura.
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Ela desperta com o barulho alto da construção civil ao lado de seu prédio. Aparentemente, estão construindo um futuro novo escritório para alguma grande empresa da qual ela não recorda o nome. Sua mão esquerda, naturalmente, procura um conforto que não está lá. Defronta-se apenas com o travesseiro caro e confortável que, nem de longe, tem a mesma função do corpo que lhe aqueceu na noite passada.
Talvez, se não o conhecesse tão bem (mas Anna pensa que não deveria conhecer, porque ele é um completo estranho que sabe seduzir e possuir uma mulher) tivesse se surpreendido por não tê-lo ali, mas essa hipótese nem passou por sua cabeça. Sentir autopiedade não é uma das coisas que combina com Anna. Na verdade, o que a incomoda, não é o fato de ele não estar lá, mas de ter levado algo. Algo que parece importante, algo que ela não consegue identificar de imediato. E Anna sente um cheiro. Impregnado na cama, nos lençóis, nela mesma.
Hao Asakura foi embora, mas seu perfume ainda está lá.
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Talvez, pensa ele enquanto apaga o cigarro no cinzeiro, devesse ter ficado mais um pouco por lá. Mas só talvez. Ele admite que foi bom (mas como poderia ser diferente com uma mulher como ela?) e que seria ótimo possuí-la mais uma, duas, um milhão de vezes antes de ir embora, mas significaria se envolver demais isso e é tudo do que Hao Asakura não precisa agora. Ele apenas precisa se concentrar no trabalho e pegar o assassino de seu irmão.
Ultimamente, a máfia tem andado mais ativa. Ele não sabe se isso se deve ao fato de estar realmente ocupado, mas acha que não. Enquanto busca por informações no notebook, seus pensamentos migram para a noite anterior. Hao Asakura não costuma se desviar dos assuntos do trabalho, principalmente quando eles envolvem a morte de seu querido e prezado irmão. Neste momento, por exemplo, ele está ocupado pesquisando sobre os malditos mercenários que aquele pobre homem havia citado antes de morrer.
É uma mulher.
Essa frase não deixa de martelar na mente dele enquanto (você se lembra dela gemendo baixinho o seu nome, chamando Hao, Hao, Hao) busca por informações mais concretas. Mas então (ela crava as unhas nas suas costas e a marca da mordida dela ainda está no seu pescoço, você sente), ele escuta a porta do escritório se abrir e não é normal Luchist entrar ali sem bater. Por um momento, Hao o encara com os olhos castanho-rubros-e-Luchist-sente-medo-mas-não-consegue-se-mover, esperando alguma explicação para ser interrompido quando disse que ninguém deveria fazer isso hoje.
"S-senhor." Ele gagueja, porque é normal as pessoas perderem a compostura quando Hao Asakura as olha daquela maneira. Ele desvia o olhar, olha para o chão, para os sapatos de camurça, para qualquer coisa que não seja os olhos dele, pelo amor de Deus.
"Que o motivo seja muito bom para eu não ter um cadáver na minha sala agora." Ele diz e, em nenhum momento Luchist desconfia dessa afirmação.
"Parece que Tao Ren estava sendo perseguido por algum assassino contratado ou estava preso em algum lugar." Ele faz uma pausa, como se precisasse disso. As palavras saem, mas estão mal articuladas em sua mente. "Ele está no hospital agora, mas os médicos não têm boas notícias sobre seu estado."
No entanto, Hao não escuta isso. Ele deixa de escutar a partir do momento em que o nome de Tao Ren é citado junto das palavras perseguido e assassino. Ninguém sabe sua relação com a sombra da família Tao. Todos desconhecem que Hao e Ren trabalhavam juntos, porque Ren é apenas uma sombra e Hao é o chefe, o grande chefe. Ninguém sabe também que Ren era um amigo da família. Porque ninguém sabe nada.
Hao se ergue. Ele não faz perguntas, apenas passa por Luchist, pegando as chaves da moto. O homem fica parado, porque aquele olhar é mais do que assustador. É o olhar de um assassino que já matou e que matará de novo. O assassino de quem deseja matar a mesma pessoa mil vezes, porque deve ter alguma ligação nisso, não é?
E ele não diz que está saindo, mas é previsível. Hao acende um cigarro e, pela primeira vez, o olhar encontra o de Luchist. "Em que hospital ele está?"
É uma pergunta simples que custa a ser respondida. Novamente, Luchist gagueja e se esquece de respirar. Hao deixa o escritório sem sorrir, levando a sanidade de Luchist na fumaça daquele cigarro. O homem ainda não respirava quando Hao bateu a porta da sala.
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Durante boa parte do expediente, ela fica encarando o papel deixado sobre a mesa pela manhã. Ela só o viu quando se levantou para tomar café e, desde então, está sendo aquecido pelo calor do casaco de pele caro que está usando. Ela passa um longo tempo lavando as mãos, esfregando-as embaixo da água corrente. Encara-se no espelho e vê aqueles olhos negros que não possuem nada especial. Eles não passam para o rubro como os olhos de Hao. Apenas continuam negros. Negros opacos, negros sem graça. Só negros.
Ligar para ele está fora de cogitação. Isso seria o mesmo que se entregar a um relacionamento e Anna jamais fez isso. Jamais fará. É ridículo, é tolo e é uma hipótese que a faz sentir-se como uma adolescente idiota que está apaixonada. E ela não está. Além disso, esse tipo de envolvimento poderia atrapalhar o seu trabalho. Ela sente que Hao Asakura não é a pessoa certa, porque ele não é manipulável. É fácil enxergar isso nos olhos castanhos (que também são rubros, mas é ridículo acreditar que olhos mudam de cor. É loucura), porque eles expressam o controle que ele tem (que poderia facilmente ter) sobre uma nação. No entanto, talvez seja isso que o torne diferente a ponto de Anna ter aberto as portas de sua casa (e de sua vida, você notou isso ou está cega demais para ver que foi muito mais do que uma noite? Mas não foi, não foi. Eu apenas queria me divertir, só isso) para ele. A ponto de ter deixado que dormisse em sua cama, aspirasse seu perfume e cravasse sua marca, levando consigo sua sanidade.
Porque, de fato, é isso o que Anna sente enquanto disca o número contido no papel agora borrado, porque as mãos frias ainda estão molhadas e a água escorre da torneira e esse barulho não se parece com a chuva daquela noite, Anna?
E ela escuta o telefone chamar uma vez, duas, três vezes. O que ele pode estar fazendo? Essa pergunta a assombra e ela não entende porquê.
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Ele entra no quarto do hospital e a primeira coisa que sente é uma sensação de já ter estado lá. Não é estranho, porque não faz tanto tempo assim que deixou um quarto exatamente igual aquele. Mas as lembranças, de certa forma, o machucam. Porque ele se lembra do sonho quando vê as cortinas voando. A janela está aberta.
Olhando para o lado de fora, Hao enxerga a vastidão negra do (olhar dela) céu. Atravessa o quarto com suas passadas largas e silenciosas sem encarar o homem deitado na cama. Ele não olha, nem mesmo por um instante, mas sabe que Ren respira através de aparelhos. É uma cena estranha para se contemplar, porque não importa o fato de ele sempre agir nas sombras, Hao jamais conseguiu imaginar que algo assim pudesse acontecer. É mesmo mais fácil causar isso do que sentir na pele.
Pensando nisso, um sorriso irônico se desenha em seus lábios. Porém, quando Hao estende as mãos para fechar a janela, enxerga, naquela escuridão (são os olhos dela, você é capaz de enxergar? Os olhos de trevas que te consomem, que levam embora a sanidade que você nunca teve, que mexem com a sua paz de espírito, mas isso é tão irônico, porque você nunca teve paz) o reflexo do sonho.
Os vitrais da igreja-sala, a escuridão, a não-respiração, o cheiro de lembranças e poeira de livros antigos, o corredor interminável, a porta, o sangue, o seu irmão. A culpa é sua, sua, sua. Você me matou, nii-san. Você.
Mas então, antes que volte os olhos na direção de Ren, antes que a sanidade que nunca teve realmente decida saltar da janela daquele prédio, sente o celular vibrar no bolso do paletó. Por talvez meio minuto, não conseguiu fazer nada além de encarar a escuridão. Só então voltou para a realidade e atendeu.
"Alô?" Sua voz é vaga, distante e ele se obriga a fechar a janela como se isso pudesse apagar de sua mente os rastros daquela lembrança. Elas não são apagadas. Elas continuam lá.
"Hao?" Ele demora a reconhecer a voz. Ela parece mais distante do que realmente está e tudo ao seu redor está distorcido, como no mundo de Alice¹.
"Sim...sou eu." A resposta demora a vir e, por um momento, Anna chega a imaginar que a ligação possa estar com algum problema. Mas o timbre da voz dele é visivelmente mais distante. Como se estivesse longe...muito longe...
"Está tudo bem?" Não é algo que ela costuma perguntar. Na verdade, ela ainda não sabe o motivo para estar falando com ele. E a água ainda escorre da torneira.
"...Está." Cada resposta demora uma eternidade para chegar. Há algo errado, mas sequer ele saberia explicar o quê.
(É culpa sua)
O silêncio se estende em ambos os lados da linha. Não há o que ser dito entre os dois, ainda mais naquele momento. O barulho da água corrente é a única coisa entre eles. Como as ondas do mar.
Isso perdura por, talvez, mais que um minuto, mas parece uma eternidade. Até que, enfim, Anna escuta a respiração de Hao; um suspiro.
"Desculpe." Ele diz num tom um pouco mais suave do que lhe é de costume, como se estivesse retornando-de-onde-quer-que-fosse. "É que eu estou com um amigo agora. Ele sofreu um acidente."
Ela não pode ver, mas imagina que ele sorri.
"Entendo. Espero que ele fique bem, Hao." Fica em silêncio por um tempo, e finalmente fecha a torneira. "E você também." Essa última parte é inapropriada, pensa ela, porque demonstra preocupação. E ela não devia ter preocupação. Isso atrapalha.
Agora sim ele sorri.
"Obrigada, Anna." Ele diz, voltando-se, pela primeira vez, na direção de Ren. Não enxerga nada além do mar azul que banha os lençóis brancos daquele hospital. Os cabelos dele estão espalhados pelo leito e a respiração, assim como imaginava, é mantida por aparelhos. Aquela não é uma visão que o agrade. Nem um pouco. "Eu não prometo ligar mais tarde, porque não sei a hora que vou sair daqui. Mas se quiser, podemos marcar algo. Que tal...se fossemos jantar em algum lugar?"
"Parece ótimo." Um sorriso involuntário perspassa seus lábios. Ela nunca saberá dizer se de sarcasmo ou felicidade. Acredita que dos dois.
"Eu te pego na sexta às oito." Ele diz, aproximando-se lentamente da cama onde Ren está.
"Estarei esperando."
Eles não se despedem, apenas encerram a ligação, porque é melhor assim. Já há envolvimento demais. Agora Hao está próximo o suficiente para ter um vislumbre do rosto do chinês. Sua face mais pálida que o normal e, apesar dos olhos fechados, a expressão de Tao Ren não disfarça a dor que está sentindo naquele momento. Estaria tendo um pesadelo?
Hao toca a mão (fria, mas não como a mão dela. É diferente, porque você jamais poderá aquecê-la, Hao. Jamais) de Ren e sente nelas as veias saltadas. Dedilha lentamente por sua palma e vira-a para cima, a segurando entre ambas as mãos. Quem visse essa cena se assustaria, porque Hao Asakura jamais age assim com ninguém.
Mas ele não é ninguém, ele é Ren. E Ren não é a sombra que todos dizem. Ao menos não para Hao. O moreno estica uma das mãos e toca o rosto dele. Os dedos deslizam pela tez pálida e sentem aquele frio (da morte) que não é característico dele. É um frio ruim.
Suspira, apoiando o rosto sobre a cama sem soltar-lhe a mão. Ele não acordará hoje, talvez não acorde nunca mais. Esse pensamento o assombra e não é porque Ren possa ter visto o rosto de seu executor. Hao já perdeu o irmão, perder Tao Ren seria demais. E ele tem quase certeza, possui aquela intuição de que, quem pegou Yoh, pegou Ren também. Mesmo porque, a arma usada é a mesma. E a única pista que ele tem é uma bala. A bala que agora está sendo analisada pelos seus peritos, porque ele jamais confiou na polícia. Jamais confiará.
Isso não é surpresa, porque mafiosos não confiam na polícia. Mafiosos compram a polícia. No entanto, nada daquilo importa naquele instante. Hao Asakura deita o rosto sobre a mão pálida e fria de Tao Ren e fecha os olhos. Por um momento, quando vê aquela escuridão, lembra-se dos olhos de Anna. De certa forma, isso é assustador e reconfortante, e é loucura também. Ele não diz nada, porque não se sente no direito de falar com Ren naquele instante. Não naquele instante.
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Ela ainda está se olhando no espelho quando desliga o telefone. Aquele foi um dia muito desgastante e, tudo o que deseja após sair do banho, é cair na cama e desmaiar até a manhã seguinte. De certa forma, sente-se bem por saber que Hao virá na sexta. Hoje é quarta, o que significa que não falta tanto tempo assim. Ela não quer pensar no quanto isso é idiota, mas não pode evitar porque é, mesmo.
Mas enquanto deixa as vestes alcançarem o chão e entra na banheira já cheia, quer se esquecer disso tudo. No entanto, enquanto seu corpo relaxa na água e fecha os olhos, as lembranças da noite passada retornam junto com o sorriso de Asakura Hao.
O sorriso, os lábios correndo pelo seu corpo, o olhar demoníaco com o qual ele te encarava, o perfume inebriante daquele que já conquistou tantas outras antes de você. Quantas, quantas seriam? E por que isso te importa agora?
Anna abre os olhos, cobrindo a testa com uma das mãos. A água está quente e a fragrância de rosas que Tamao escolheu naquele dia a faz lembrar, inevitavelmente, de Hao. Na verdade, tem-se lembrado dele com mais freqüência do que realmente gostaria. Suspira, deixando o corpo deslizar na banheira e submerge, olhando para o teto. Na sua mente, ainda escuta o som dos murmúrios de Hao.
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A bala foi identificada, ele diz, enquanto Hao se ocupa em preencher alguns relatórios. Não faz muito tempo desde que voltou do hospital naquela tarde chuvosa de sexta feira. Na verdade, passou a noite de quarta e o dia todo de quinta, até que Jun o convenceu de que deveria ir para casa descansar, pois ela ficaria com o irmão. Mas descanso não é bem a palavra que se ajusta a ele quando ergue os olhos cansados para Luchist.
"E então?" Hao apóia o queixo sobre uma das mãos, encarando o homem. É aquele olhar incógnito. Aquele olhar de quem não gosta de esperar, o olhar que Luchist não sabe identificar.
"A bala é um projétil de Magnum." Ele faz uma pausa pequena, mas não suficientemente grande para irritar Hao. Luchist sabe com quem está lidando. Luchist sabe e tem medo, mas não significa que vá se assustar por qualquer coisa. "E os dois projéteis são semelhantes. Não podemos concluir se foi atirado pela mesma arma, mas tudo leva a crer que sim, senhor."
Luchist tem um pouco de dúvida, porque gosta de ter certeza das coisas antes de agir. Essa é uma das coisas que fez com que se tornasse um homem confiável e é uma das características que, sem dúvidas, faz Hao admirá-lo. E é algo que ele não tem. Porque não há dúvidas em seu coração. Ele tem certeza, sente com aquele sexto sentido, de que quem tentou matar Ren – e falhou – foi o responsável pela morte de seu irmão. São peças do quebra-cabeça que começam a se encaixar devagar.
"Entendo. Então, de qualquer modo, se chegarmos a um deles – se é que são dois –, teremos certeza se estamos na pista da mesma pessoa ou não." Ergueu-se lentamente da cadeira onde estava. "Você providenciou as flores que eu pedi?"
"Sim, estão no banco da BMW, senhor." O homem responde polidamente, o encarando. "Precisa de mais algo, senhor Hao? Quer que eu o leve?"
"Não é preciso." Ele responde, ajeitando a gola do terno. "Eu ainda quero passar em casa, quero ver se o Matamune está bem."
"Se o senhor quiser..."
"Não é preciso." Hao sorri, não daquela maneira perigosa, mas ferrenha. "Eu não sei se volto essa noite, então pode cuidar das coisas pra mim?"
"Perfeitamente, senhor."
O sorriso dele se torna perigosamente dócil.
"Sei que posso contar com você. Não me decepcione, Luchist." Ele dá um tapa no ombro do homem e deixa a sala. O peso daquelas palavras paira no ar, assim como a fumaça do cigarro que ele acende antes de sair.
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Hao não demora a chegar em casa e também não demora a sair de lá. Durante os trinta e sete minutos que passou debaixo do chuveiro, ficou pensando a respeito daquelas peças que não se encaixavam, como o fato de esse assassino ter falhado na morte de Ren. É algo que ele gostaria de compreender, mas que parece difícil, porque não pode perguntar diretamente ao chinês. Ele pensa um pouco nisso enquanto seca os cabelos e não consegue chegar à uma conclusão que poderia ter levado o assassino a matar seu irmão. Entenderia se fosse somente Ren, mas Yoh não tinha inimigos. Não tinha quem o odiasse.
Pensar nisso era um pouco incômodo e, de certa forma, trazia a Hao uma sensação estranha de (culpa? Não, ele achava que não era isso.) incerteza, como se alguma peça ainda não se encaixasse ou não tivesse a cor certa para completar aquela seqüência do quebra-cabeça. Seus pensamentos são interrompidos quando escuta o miado baixo de Matamune na porta do banheiro e Hao sorri, deixando o pente de lado para pegar o felino nos braços.
"Eu não tenho ficado muito em casa ultimamente, não é?" Lentamente, passa os dedos pela cabeça do gato, ouvindo-o ronronar baixinho. "Logo você não terá que se preocupar com isso. Eu vou ficar mais em casa, prometo." Hao beija o topo da cabeça do felino e o deixa sobre a cama para se vestir. "O que você acha? Preto ou branco?" Estende as duas camisas na frente do corpo e escolhe a preta quando vê Matamune erguer a patinha correspondente à roupa. Sorri.
"Você é melhor que o Yoh para isso."Diz, abotoando a camisa devagar e prende os cabelos na frente do espelho. "Eu passo a noite amanhã com você, está bem?" Hao deixa o quarto e é seguido pelo gato até a entrada do apartamento. "Até logo... Mata-chan." Chama carinhosamente, assim como Yoh costumava fazer. O gato o observa até que feche a porta e mia. Ainda sente saudades de Yoh.
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Apesar do tráfego lento daquela sexta-feira, Hao consegue chegar pouco depois do horário previsto. Não era preciso subir até a porta do apartamento, mas fez questão de pedir ao porteiro que deixasse, porque tinha uma surpresa para a senhoria. Ryu rapidamente entendeu ao ver o ramo de flores que ele segurava nas mãos e sorriu, fazendo qualquer comentário que Hao correspondeu com um sorriso e um aceno de cabeça.
Quando estendeu uma das mãos para tocar a campainha, deparou-se com o olhar incógnito de Anna, como quem pergunta: "o que você está fazendo aqui?". Mas aquele traço rude foi rapidamente substituído por uma expressão mais suave ao ver as rosas vermelhas.
"Rosas, Hao?" Perguntou, segurando o buquê nas mãos. "Achei que você fosse mais original." Um sorriso de canto, os olhos negros o encarando profundamente e o perfume dela se espalhando no ar.
"Eu costumava ser." As mãos tatearam o bolso da calça até que segurou um cigarro entre os dedos. Já estava aceso quando Anna tirou-o de seus lábios.
"Se você não sabe, não é permitido fumar nos corredores." Apagou-o na pia da cozinha e jogou o cigarro no lixo. "Vamos logo, antes que eu dê um sermão em você."
Passou por ele e, só então, Hao notou a elegância da loira. O vestido negro lhe delineando o corpo, o casaco de peles (obviamente caro) e os cabelos presos num coque. Ele sorriu, segurando-lhe uma das mãos. "Você está linda." Sussurrou-lhe ao pé do ouvido.
E aquela noite valeu à pena, apenas por vê-la corar.
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Ele era um cavalheiro, mesmo que a ordem dos fatores estivesse trocada: primeiro levá-la para a cama e depois para jantar. Ela riria se não fosse Anna, porque era engraçado mesmo. Apesar de ter sido uma noite agradável, Anna não consegue se lembrar de muitas coisas durante aquele jantar. Apenas de um sorriso irritante, dos atos de cavalheirismo, a fumaça de um cigarro e ele pegando sua mão e a conduzindo para a
(loucura)
pista de dança. E Anna pensa que isso é idiota, que é loucura e que pessoas como ela e Hao jamais fazem isso. Tenta argumentar a respeito, mas o olhar dele está acima de qualquer coisa que a sua sanidade (mas que sanidade? Você ainda não sabe que ela já se foi a partir do momento em que se entregou para ele, Anna?) seja capaz de suportar. E então ela aceita. E dança. Porque não pode ser tão ruim assim, ainda mais por saber que ele a levará para casa.
Enquanto pensa nisso tudo, sente o cheiro embriagante daquele perfume (impregnado no seu travesseiro, nos seus lençóis. Em você, Anna) e aperta as mãos com força contra as costas dele. Há algo que a incomoda, algo que é importante, mas que não consegue recordar. Um detalhe mínimo, incômodo, talvez como a fumaça do cigarro dele, talvez um detalhe tão pesado quanto o sorriso minguante que ele dá enquanto a conduz de volta para o carro. Para sua perdição.
Mas aquele sim é um detalhe mínimo e sem importância alguma, porque não faz mais diferença depois que você se torna insano. E, por mais que ela force a memória, tudo o que lhe vem à mente é Hao. Tudo o que ela sente é Hao. E tudo que ela escuta é a voz dele sussurrando em seu ouvido:
Eu te desejo, Anna.
E, então, ela não se lembra de mais nada além dos olhos (agora rubros, longe de serem castanhos) dele e do desejo de tê-lo também. Se ele era um brinquedo, por que ainda não havia quebrado? Por que estava se envolvendo tanto? A resposta para essa pergunta jamais veio. Nem mesmo no sonho louco que teve naquela noite.
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Primeiro, ela enxerga os sons e ouve as cores. No momento, não consegue imaginar o quão ridículo é ver as notas musicais dançando no ar ou escutar o vermelho sussurrando ao pé de seu ouvido. Mas depois, quando passa a enxergar com mais clareza, nota que está cercada por criaturas estranhas e bizarras (mas isso não são sinônimos?) manchadas com piche negro e sangue.
Elas cheiram a desespero.
Mas, mais bizarro do que isso são as árvores pintadas de roxo. Árvores que secam e definham a cada vez que aquelas criaturas se aproximam. O som do vento em seu ouvido, murmura palavras ininteligíveis, mas, de alguma forma que Anna desconhece, é capaz de compreender algumas delas:
"É você...é você...olhe o que...fez..."
Nenhuma daquelas palavras faz sentido para ela. Aquele lugar não faz. E a última coisa que ela vê está no céu. Um sorriso sem gato (ou um gato sem sorriso?) e uma chuva de estrelas. Há duas silhuetas que ela não consegue identificar na escuridão. Os olhos são rubros e a realidade uma loucura. Sua sanidade já se foi há muito tempo, mas ela ainda não notou.
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E, novamente, quando desperta, ele não está lá. Ela já deveria saber. É óbvio, é simples e fácil de compreender que Hao Asakura não é o tipo de homem que esperará ela acordar. Também não é o tipo de homem que vai sorrir para ela e dizer que a ama, isso seria fantasiar demais. E não é o que Anna deseja.
Suspira, deixando-se cair novamente deitada na cama e apóia um dos braços sobre os olhos, fechando-os em seguida. Gostaria de voltar a dormir, mas o sonho ainda lhe atormenta um pouco por toda a loucura condizente no que quer que tenha acontecido. Era óbvio que não era real. Sonhos nada mais são do que a manifestação do nosso subconsciente. Um desejo ou uma culpa, pensa Anna. Mas ela não possui nenhum dos dois. É disso que se convence, enquanto tenta criar alguma vontade para sair da cama.
Mas o perfume dele está lá, jamais saiu e Anna tem ciência de que, mesmo que lave mil vezes aqueles lençóis, mesmo que troque eles por outros, o cheiro daquele perfume jamais sairá de lá. Está impregnado em cada poro de seu corpo, em cada partícula de ar que respira. Ela abraça o travesseiro e fecha os olhos (mas do que era aquela tatuagem mesmo? Por que eu não consigo me lembrar?), aspirando o ar lentamente.
Ela já está quase adormecendo novamente quando sente um corpo sobre o seu.
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É quente, ela pensa, enquanto sente dois braços envolverem sua cintura. Ele repousa o queixo sobre seu ombro e os cabelos longos lhe fazem cócegas no pescoço quando Hao se inclina para beijar sua bochecha. O perfume dele fica mais forte, mas o cheiro do cigarro a incomoda – e a embriaga ainda mais – um pouco.
"Achei que tivesse ido embora outra vez." Ela diz, porque não quer parecer feliz com isso. Não pode parecer feliz.
"Eu ia, mesmo." Há uma breve pausa, um momento de silêncio que sempre existe entre os dois, porque é o único momento em que suas sanidades parecem ficar preservadas. "Mas achei melhor voltar."
"Por...?" Não era o seu intuito perguntar e ela se reprime mentalmente por isso, virando o rosto para o lado. Não precisa se envolver mais com ele. Não mais.
"Por nenhum motivo especial."
Ele sorri, mas ela não vê. Não vê mais nada depois que os lábios dele tocam seu pescoço. Anna Kyoyama ainda não notou, mas já está envolvida demais.
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Hao pondera sobre passar no hospital antes de ir para o local onde trabalha, mas pensa que é melhor não. Já é quase hora do almoço quando deixa a casa de Anna e não pretende deixar que o trabalho se acumule ainda mais. Talvez por causa de sua teimosia, acabe passando em casa para apanhar Matamune.
Você tem passado muito tempo sozinho, ele diz colocando o felino no banco da frente da BMW. Traz consigo apenas um cestinho onde agora ele descansa e uma pelúcia que permanece intacta ao seu lado.
É estranho ver um homem que mata a sangue frio chegar com um gato no esconderijo da máfia. Ele não se justifica para ninguém, mas, quando Luchist olha, apenas sorri ternamente para o seu patrão.
"Meu irmão quem achou ele." Hao diz, ajeitando o cestinho do gato em um canto da sala. No entanto, o filhote se entrelaça nas pernas do moreno e pula no seu colo. Hao apenas sorri, lhe acariciando o topo da cabeça cuidadosamente com uma mão, enquanto abre o notebook com a outra.
"Acho que me lembro vagamente do senhor Yoh comentando alguma coisa a respeito." O homem sorri igualmente, notando o cuidado que Hao tem com o gato.
"É, ele realmente gostava do Matamune." Deu de ombros. "O que tem para me dizer, Luchist?" Pergunta, voltando os olhos para ele.
Luchist jamais deixará de se surpreender com a bipolaridade de seu patrão. A capacidade que ele possui para mudar de personalidade tão rapidamente é única, quase invejável. Ele tem mil faces e nenhuma delas parece amigável.
"Parece que os detetives que refizeram os passos do senhor Yoh descobriram algo." O homem estende uma pasta a Hao. "Aqui diz que, algumas horas antes dele ser encontrado morto naquele galpão, ele estava acompanhado."
Hao afina os orbes e novamente Luchist viu o brilho rubro (a morte vindo lhe visitar) bem no fundo deles. "E o que mais?"
"Eles não sabem ao certo, mas parece que, enquanto vasculhavam as roupas que ainda não haviam sido queimadas, encontraram um par de ingressos para um filme do cinema. Pelo horário, parece que ele perdeu a sessão."
"Isso não é o suficiente para mim, Luchist." O rapaz abre a pasta, prendendo-se a cada detalhe da explicação que não passava de uma cópia do que Luchist estava lhe reportando. "Diga a eles que não os pago para fazer nada. Preciso que descubram com quem estamos lidando." Há uma pausa, daquelas que o homem tanto detesta, porque sempre vêm acompanhadas daquele olhar e daquele sorriso doentio. Hao acende um cigarro e a fumaça vem até Luchist, como se buscasse sua companhia.
(Como se quisesse enlouquecê-lo também, porque é isso que Hao Asakura faz: transmite sua insanidade com um sopro de fumaça)
"Diga a eles que estamos procurando por uma mulher. Eu quero uma busca sobre todas as mulheres desta cidade que possuam uma arma com a descrição do calibre que usaram em Yoh. E faça a balística dar um jeito de confirmar se as balas pertencem ao mesmo cartucho. Eu não tenho mais tempo a perder."
A fumaça, o olhar dele e o sorriso felino. Luchist achou que estivesse preso no País das Maravilhas. Mas cercado pelo horror.
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N/A:
Como não dá pra postar tudo numa tacada só, resolvi colocar a segunda parte aqui. Já dá pra ter uma noção melhor de quem o Hao é e apostar as fichas nos assassinos. Espero que estejam gostando e que continuem acompanhando por livre - e completamente forçada - e espontânea vontade 8D
Reviews ou seu coração na minha escrivaninha /Stephen King
