Giulio e Mario

Eu me acostumei a tê-lo do meu lado esquerdo da cama.

Eu me acostumei a ouvir os passos largos e pesados no andar de cima da casa.

Eu me acostumei a ouvir a voz masculina quando conversamos ou discutimos, mas também o timbre agudo e rouco quando chega ao auge do prazer.

Eu me acostumei às costas largas e cheias de sardas, ao peitoral liso e aos músculos.

Mas, especialmente, eu me acostumei a ser amado de uma maneira única por aquela pessoa.

Giulio pousou o convite sobre a mesa e cruzou os braços. Sua sobrancelha direita estava levantada e ele encarava o homem do outro lado da peça de madeira com uma mistura de curiosidade e uma leve petulância. Sua companhia tinha as mãos dentro do sobretudo escuro, enquanto metade de seu rosto estava escondido em um fofo cachecol branco. A metade visível era a parte do nariz, e daquele ângulo o moreno conseguia ver as sardas embaixo dos belíssimos olhos verdes. Entretanto, o que realmente lhe interessava era a pseudo-expressão omitida naquela face e infelizmente ele seria privado de tal visão naquela tarde.

"O que eu devo fazer com isso?" O Vice-Inspetor reformulou sua pergunta. Talvez agora ele conseguisse algo além do mais puro silêncio.

"O que você quiser." A voz de Mario soou abafada, quase um fio. Uma de suas mãos foi retirada do bolso, abaixando o cachecol e permitindo que o homem sentado atrás da mesa pudesse finalmente ver o belo rosto de sua companhia. "Eu disse que traria o convite. Você aceita se tiver interesse."

"Por que você não pode ser um pouco mais gentil?" Giulio foi sincero. Aquela conversa poderia ser muito mais simpática se o ruivo não fosse tão... cru. "Você fala como se a minha presença não fizesse a menor diferença."

O Braço Direito dos Cavallone apertou os olhos e suspirou como se contasse mentalmente. Quando sua voz voltou a ser ouvida, ela tinha um tom mais brando.

"Eu estarei ocupado e passarei a noite ao lado de Ivan. Honestamente, acho que você lucraria muito mais ficando em sua casa, no calor de sua lareira e degustando uma deliciosa taça de vinho."

"Eu sempre estive curioso quanto às festas dadas pelo seu Chefe, e nós nunca passamos a noite de Natal juntos. Seria uma boa oportunidade."

"Eu realmente não me importo com essas coisas." Mario deu de ombros e consultou o relógio pendurado na parte alta da sala.

"Ultimamente seus olhos estão sempre no relógio quando vem me visitar. Quando é que poderei tê-lo sem precisar me preocupar com o tempo que você pode ou não passar em minha companhia?"

A resposta, novamente, foi o silêncio. O moreno esboçou um fraco sorriso, pegando o convite de cima da mesa e o guardando em uma gaveta. Seu corpo colocou-se de pé e ele deu a volta, aproximando-se de seu amante. O ruivo não se esquivou, permitindo-se ser envolvido pela cintura. Os dois permaneceram frente a frente. As bochechas se encontraram devagar e o Vice-Inspetor sentiu a pele gelada do homem em seus braços. Seus lábios primeiramente beijaram o maxilar, antes de se dirigirem para a boca. Mario o segurou firme pelos braços antes que o beijo começasse, fechando os olhos e inclinando a cabeça para um dos lados.

Aquele seria o primeiro beijo que ambos trocavam desde a última semana. Com o baile de Natal se aproximando, o ruivo estava completamente absorto em trabalho. As visitas à casa de Giulio cessaram momentaneamente, e os dois só voltariam a se encontrar depois da noite de segunda-feira, dali a três dias. Quando viu que a porta de seu escritório fora aberta e a figura do Braço Direito dos Cavallone surgiu em seu campo de visão, uma parte do moreno ficou contente com aquele encontro, mas a outra, a parte que não gostava de ser negligenciada e deixada de lado, sabia que aqueles minutos não seriam suficientes. Eles nunca eram.

O beijo foi longo, mas não tão longo quanto o Vice-Inspetor gostaria. Seus lábios ainda tentaram retomar a carícia, mas Mario os tocou com as pontas dos dedos e deu um passo para trás.

"Eu vejo você na segunda-feira..." Giulio se esforçou para sorrir. Era difícil se despedir quando ele não tinha intenção real de fazer aquilo.

O ruivo voltou a esconder o rosto dentro do cachecol, acenando e deixando a sala com passos largos e firmes. O moreno permaneceu imóvel, encarando sua mesa e soltando um longo suspiro. Eu achei que seria mais fácil, O Vice-Inspetor passou os olhos por sua pequena sala, ele, nós, a situação. Mas em dez anos nada mudou. Duas leves batidas na porta o fizeram se virar, sentindo, por um momento, um fio de esperança. Talvez seu amante houvesse esquecido alguma coisa. Talvez ele tivesse a chance de vê-lo novamente. Todavia, quando a figura do policial do setor A surgiu diante de seu campo de visão, segurando um grosso relatório, Giulio enterrou oficialmente qualquer esperança de rever o Braço Direito naquele dia. Quando o assunto era Mario, dificilmente o convencional e rotineiro poderia ser esperado. Aquele homem simplesmente não combinava com expectativas.

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O moreno experimentou três ternos antes do escolhido. Normalmente ele era vaidoso na medida do possível, mas aquela noite exigia um nível maior de cuidado pessoal. O Vice-Inspetor de Polícia até mesmo se deu ao trabalho de gastar um pouco mais em uma famosa alfaiataria, apenas para estar apresentável quando visitasse o baile dos Cavallone. Eu nunca achei que viveria para me envolver com a Máfia. A gravata borboleta negra foi colocada com delicadeza, e por último veio o grosso casaco escuro. A temperatura havia caído muito naquele mês de dezembro, obrigando-o a levar um grosso cachecol e um par de luvas. O largo quarto que ocupava um andar inteiro estava silencioso e aquilo deixou Giulio um pouco incomodado. Nunca é quieto quando ele está aqui. Mario é barulhento e é impossível não notá-lo. Lembrar-se de seu amante o fez sorrir triste, imaginando se teriam pelo menos alguns minutos somente para eles. O moreno não se referia a sexo propriamente dito – não que ele fosse desgostar se acontecesse, claro – mas somente ter a companhia do ruivo seria suficiente. Nós mal nos vimos nas últimas semanas. A cada dia ele parece mais e mais preso ao trabalho. Quando o cachecol vermelho xadrez foi passado ao redor do pescoço, o Vice-Inspetor soube que era hora de ir.

A viagem até a mansão da Família Cavallone geralmente durava 40 minutos quando o tempo estava bom. Naquela noite as estradas estavam escorregadias, e levou quase o dobro do tempo para que Giulio chegasse ao portão principal. Meia dúzia de subordinados fazia a guarda daquela área, mas nenhum deles pareceu se importar em abrir o portão para um policial. O carro subiu a pequena estrada que levaria à casa principal, e foi no topo que o moreno pôde ver um pouco do que experimentaria naquela noite.

As luzes estavam altas e claras, o suficiente para iluminar boa parte da propriedade. O caminho até o local que servia de estacionamento estava abarrotado de pessoas, e foi um subordinado de bigode que o direcionou para um lugar vago. O Vice-Inspetor de Polícia agradeceu, recebendo um polido sorriso e uma reverência como resposta. Eu sou velho conhecido de todos; é um pouco aconchegante chegar dessa maneira. O restante do caminho foi feito a pé, mas não foi sofrido. A neve havia sido retirada daquela área, então, com exceção do natural frio do final de dezembro, não havia preocupação com pés gelados ou poças d'água inoportunas. O chafariz em forma de cavalos alados surgiu, e a primeira coisa que Giulio fez foi se servir com uma bebida quente. O vinho desceu agradável por sua garganta, despertando-o por completo e afastando o resquício de frio que sentia. O jardim estava cheio, mas nenhum daqueles rostos lhe pareceu conhecido ou familiar. O moreno caminhou um pouco, mas antes de chegar à entrada da mansão as pessoas começaram a entrar, como se algo muito interessante estivesse para acontecer. O Vice-Inspetor afastou-se, acomodando-se ao lado e deixando que os demais se apertassem.

A voz de Ivan Cavallone chegou aos seus ouvidos e então Giulio entendeu o que estava acontecendo. Ele ouviu do lado de fora o discurso, imaginando se Alaudi alguma vez já presenciara tal coisa. Duvido muito, o moreno encolheu-se um pouco mais em seu cachecol. Conhecendo seu amigo e Chefe como ele conhecia, o Vice-Inspetor sabia que o louro jamais participaria desse tipo de coisa. É difícil de acreditar que Alaudi seja tão recluso. As únicas pessoas que o veem ao natural somos eu e Ivan. Giulio pegou-se sorrindo sem perceber. Intimamente ele sabia que seu amigo estava feliz, embora os velhos hábitos não houvessem mudado, então era tudo o que realmente importava.

O moreno serviu-se de mais bebida e beliscou algumas das carnes que estavam sobre as mesas. Ele já havia feito refeições na casa, mas sempre se pegava surpreso com o nível de experiência que o Cozinheiro da Família possuía. O homem sabia muito bem como misturar temperos, e, no fim, quando a multidão se dispersou da entrada da mansão, todos basicamente foram ficar ao redor das mesas, comendo, bebendo e conversando. A música chegava baixa àquela área da casa, mas o som agradável foi suficiente para distraí-lo durante mais algum tempo. O Vice-Inspetor cogitava a ideia de entrar e se aquecer um pouco, quando seus olhos fitaram o anfitrião sair para o jardim.

Ivan saiu vestindo um grosso casaco e ao seu lado estava seu fiel Braço Direito. Aquela era a primeira vez que Giulio via seu amante trabalhando realmente, e foi impossível não sentir-se um pouco mais animado e feliz. Seu coração bateu mais rápido e ele se perguntou se aquilo era normal para um homem da sua idade. Eu tenho quase 40 anos, mas continuo agindo como um pirralho quando ele está por perto. O moreno ajeitou o cachecol, deixando que seu rosto se tornasse visível, embora soubesse que não receberia a atenção que gostaria. Ele me faz sentir como nunca me senti antes. Nem minha ex-noiva despertava o que Mario despertou e continua despertando. Esses quase dez anos passaram rápido. É um pouco difícil de acreditar em tudo o que aconteceu. As memórias daquele tempo surgiam vez ou outra em sua mente, mas o Vice-Inspetor nunca foi uma pessoa que remoia o passado. Aquele hábito fora adquirido após o fim do relacionamento com sua noiva. Quanto menos Giulio pensava no ocorrido, mais fácil era seguir em frente. Com o passar dos anos a decepção foi ganhando menos importância, a ponto de se tornar somente uma experiência ruim. Após a entrada de Mario em sua vida, a mulher se tornou totalmente esquecida. Não havia espaço para outra pessoa em sua mente e coração. Aquele homem barulhento, egoísta e sádico ocupava todo o espaço.

Por cerca de meia hora o Chefe dos Cavallone desfilou pelo jardim, cumprimentando e conversando com os convidados. A maioria eram homens mais velhos, provavelmente Chefes de importantes Famílias espalhadas pela Itália. O moreno deu pouca atenção a isso, desviando os olhos sempre que possível. Ele não estava ali a trabalho e quanto menos soubesse, melhor seria a sua vida. Além disso, era um pouco solitário observar o ruivo ao longe, sabendo que não poderia se aproximar nem ao menos para trocar meia dúzia de palavras. Isso me faz questionar porque eu realmente vim. O Vice-Inspetor encarou o chão branco de mármore, imaginando se não teria sido mais inteligente ter ficado em casa como seu amante havia sugerido. O pensamento foi afastado, pois de nada valeria estar arrependido depois de dirigir por mais de 1h e passar um longo tempo no frio. Os olhos verdes se ergueram e correram o perímetro, apenas para situar aonde Mario poderia estar. Oh!

Giulio ficou levemente surpreso ao ver Chefe e Braço Direito olhando em sua direção. Os dois haviam se aproximado da mesa que servia bebidas quentes, e Ivan tinha uma caneca de alguma coisa nas mãos. O ruivo estava ao seu lado, como uma verdadeira sombra, olhando-o de longe. Entretanto, quando os olhares se encontraram, o Braço Direito deu as costas e voltou a atenção para seu Chefe. O Vice-Inspetor apertou as mãos dentro dos bolsos e deu meia volta, seguindo na direção da entrada da mansão. O ar quente que veio de dentro o acertou em cheio, fazendo-o sentir-se aliviado e bem-recebido. Pelo resto da noite ele ficaria dentro da casa, mesmo que sozinho ou ao lado de pessoas que ele não conhecia. O lado de fora da mansão estava muito frio, e não somente por causa do inverno.

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Por quase uma hora o moreno permaneceu dentro da mansão, mas não completamente sozinho. Após sua entrada, foi preciso apenas cerca de dez minutos até alguém se aproximar. Os olhos verdes se abaixaram e Giulio sorriu ao ver a garota de cabelos ruivos parada ao seu lado. Catarina ainda não tinha dez anos, mas estava vestida como uma verdadeira moça. O vestido azul parecia dar mais ênfase aos vermelhos de seus cabelos, tornando-a um espetáculo a parte. Eu lembro quando ela cabia em meus braços. Sempre chorava, quase nunca se calava. Mario e Giuseppe eram os únicos que conseguiam domá-la e isso só parou quando ela começou a falar. Entretanto, diante de seus olhos não estava mais um bebê de colo ou uma criança que engatinhava, mas uma menina bonita e de olhos levados.

"Boa noite, Catarina." O Vice-Inspetor fez uma polida reverência.

"Boa noite, Giulio." A garota sorriu, mas balançou a mão antes que ele pudesse continuar. "Diga que eu fico bem nisso e eu irei embora!" Havia um real desprezo naquelas palavras.

"Então eu não direi nada..." Giulio segurou a vontade de rir. "Mas o que você deseja? Onde estão seus amigos? Você estava brincando no jardim."

"Eu não sei e não me importo." Catarina sentou-se na cadeira ao lado, cansada. "Esses bailes são horríveis. Eu quero ficar quieta, mas as pessoas continuam me chamando e falando comigo e é tudo ruim."

Naquele momento o moreno precisou rir. Sua risada saiu baixa, mas pareceu contagiar a ruiva, que fez o mesmo. Os dois se olharam e o Vice-Inspetor tocou os cabelos da garota. Eles eram muito mais finos do que os de seu amante, mas possuíam a mesma tonalidade. Ouvi dizer que já perguntaram se Mario não seria o verdadeiro pai de Catarina. Eles chegaram ao cúmulo de questionar se ele e Ivan não tinham um caso. Giulio lembrava-se bem do dia que escutara aquilo de Alaudi. A sensação ruim em seu peito foi quase insuportável e aquilo rendeu uma briga feia entre os dois amantes. Nós discutimos na noite em que ela passou mal. Eu nunca vi Mario tão irritado quanto naquele dia. A discussão foi interrompida por um afoito subordinado que batia incansavelmente na porta. Quando as novas sobre a saúde da pequena chegaram até eles, ambos esqueceram totalmente a briga e seguiram para a mansão. Todavia, uma conversa séria só aconteceria dois dias depois, quando o próprio ruivo foi visitá-lo em sua casa. Naquela manhã eu realmente achei que seria o fim. A maneira como ele chegou, os olhos, a expressão... No fim, o ruivo se desculpou e Giulio sentiu-se tolo por ter achado que eles não sobreviveriam a uma briga séria.

O Vice-Inspetor e Catarina caminharam juntos até uma das mesas e passaram um longo tempo degustando as delícias que estavam servidas. Em determinado momento a garota pediu que ele contasse alguma coisa, alguma história ainda não contada, e, sabendo muito bem que a menina ruiva adorava ouvir aquele tipo de coisa, o moreno encontrou duas cadeiras vagas, trazendo-as para o lado da mesa e começando a relatar sobre o dia que conhecera Alaudi. Os olhos castanhos de Catarina brilharam com o prospecto de ouvir sobre isso e Giulio sentiu seu humor melhorar quase no mesmo instante. Aquela pessoinha tinha aquele efeito em basicamente todos. Era humanamente impossível ficar triste ou mal humorado quando a garota estava por perto.

A história começou na época em que ele e o louro frequentavam o mesmo local de ensino. O estabelecimento era pequeno e comportava poucos alunos, apenas aqueles que foram indicados por alguém ou cuja família possuía dinheiro, terras ou conexões suficientes para mantê-lo ali. O Inspetor de Polícia se encaixava nesses últimos exemplos. Alaudi vinha de família rica, provavelmente um dos poucos alunos. Por esse motivo o garoto era frequentemente deixado de lado ou até mesmo vítima de brincadeiras maldosas. O moreno só foi saber de sua existência quando o viu ser empurrado em uma poça d'água por vários garotos. Eles eram de anos diferentes, mas algo naquela cena enfureceu o Vice-Inspetor que pulou a mureta em que estava, aproximando-se dos garotos e dando uma bela surra em todos eles. Alaudi, porém, não agradeceu a ajuda, sumindo antes que o moreno notasse sua ausência. Por dias Giulio tentou entrar em contato com o calado garoto, mas tudo o que recebia era indiferença. Foram necessários dias da mais pura insistência até o louro permitir-se um pouco de conversa, porém, quando isso aconteceu, uma amizade entre eles seria o caminho mais óbvio. O moreno não precisou protegê-lo novamente, pois nenhum dos garotos voltou a importuná-lo. Ambos cresceram e seguiram o mesmo caminho e, quando Alaudi foi designado Inspetor, no mesmo dia Giulio recebeu o convite para ser seu Braço Direito. "Não há como eu fazer isso sozinho", foram as exatas palavras do louro.

Catarina ouviu a tudo com uma atenção surpreendente. Seus olhos se encheram de lágrimas na parte em que o Inspetor de Polícia foi derrubado pelos garotos, mas ela comemorou quando o moreno falou sobre a surra. Durante quase uma hora eles permaneceram ali, sentados, comendo e dividindo um precioso tempo juntos. A garota que não queria companhia e o homem que havia sido deixado de lado. Quando a história terminou, a ruiva sorriu e bateu palminhas, dizendo que o respeitava muito mais.

"Muito obrigada por me fazer companhia, Giulio. Eu nunca esquecerei o que você me disse." A pequena disse decidida.

"Fico feliz por ter te entretido por algum tempo, mas porque não vai se divertir um pouco mais?" O Vice-Inspetor apontou para frente.

A filha de Ivan virou o rosto, ficando surpresa por ver a figura de Giuseppe aproximar-se. O jovem louro fez uma educada reverência ao parar lado a lado com a pequena, sorrindo para o moreno.

"Como vai, Giulio?" O rapaz louro sempre era agradável quando eles se encontravam. Para ele, o Braço Direito de Francesco era como um irmão mais novo.

"Bem e você? Espero que esteja aproveitando o baile."

"Estou bem". Giuseppe virou o rosto e esticou a mão direita. "O que me diz de uma dança, Catarina?"

"Eu não sei dançar." A resposta saiu rápida. Havia pânico naquele rosto.

"Nem eu!"

O louro piscou e a garota ruiva riu, aceitando a mão e puxando sua companhia para o meio do salão. O Vice-Inspetor só teve tempo de acenar e estava novamente sozinho. Seus olhos verdes fitaram o hall, observando as pessoas e imaginando se ele não poderia tentar se animar um pouco. As taças de vinho começaram a fazer efeito, e Giulio afastou-se, seguindo para uma das extremidades e escolhendo o banheiro mais vazio. O caminho de volta foi feito sem pressa, e seu cachecol foi afrouxado de seu pescoço. Dentro da mansão a temperatura estava incrivelmente agradável. O final do corredor estava bem diante de seus olhos, mas foi difícil não diminuir o passo ao ver a pessoa que havia virado aquele espaço e seguia em sua direção. Ele parece elegante. O moreno continuou seu caminho, sabendo que teria de passar inevitavelmente ao lado de seu amante. Mario vinha do outro lado, vestindo um belo conjunto negro. Seus cabelos estavam presos por um delicado rabo de cavalo, criando um ar de elegância e responsabilidade.

Nenhum dos dois fez qualquer sinal que demonstrasse que se conheciam. O corredor estava vazio, mas o Vice-Inspetor estava decidido a não sair de seu caminho. Todavia, quando o ruivo passou por ele, ombro com ombro, foi impossível não oferecer um rápido olhar. Os dois se encararam ao mesmo tempo, de soslaio, e os passos de Giulio simplesmente pararam. Seu corpo virou-se devagar, não ficando surpreso por ver que Mario havia feito o mesmo. Nós somos dois idiotas. Omoreno esticou a mão, tocando o braço do homem que, pela primeira vez na noite, estava literalmente ao alcance de seus dedos. O ruivo virou metade do rosto, esboçando um sorriso cansado.

"Você está gelado."

O Vice-Inspetor disse baixo, aproximando-se. Suas mãos tocaram as orelhas frias do Braço Direito e sua testa encostou-se a de seu amante. Mario não respondeu. Seus pés caminharam um passo e seu rosto escondeu-se no pescoço de Giulio. O moreno desceu as mãos, envolvendo a cintura do ruivo e tornando inexistente a distância entre eles. O Braço Direito de Ivan ergueu levemente o rosto e seus lábios encontraram os do Vice-Inspetor, beijando-o profundamente.

Beijar aquele homem sempre exigiu uma quantidade absurda de força de vontade. Mario era perigosamente experiente, sabendo muito bem como provocar as mais ousadas reações apenas com um gesto tão trivial. Todavia, da mesma maneira como ele conseguia despertar luxúria e erotismo, alguns de seus beijos, como aquele que eles trocavam em um esquecido corredor da mansão, não continha somente desejo, mas também saudade e necessidade por contato. O Vice-Inspetor retribuiu o gesto, subindo a mão direita até a nuca de seu amante e a massageando durante o beijo.

"Hm... é melhor pararmos por aqui." O ruivo interrompeu a carícia após alguns minutos, dando um passo para trás. "Antes que eu fique animado demais."

Giulio riu, puxando o Braço Direito para outro abraço. Mario voltou a afundar o rosto em seu pescoço, permanecendo em silêncio e completamente quieto, como um gato que gostaria de aproveitar a presença do dono.

"Você precisa voltar ao seu trabalho." Dessa vez partiu do moreno a iniciativa por quebrar o momento.

O ruivo deu de ombros, ajeitando as vestes. Os olhos verdes fitaram seu amante e ele levou uma das mãos até o queixo do Vice-Inspetor, segurando-o firme.

"Fique até o final. Prometo que irei recompensá-lo por me esperar."

"É mesmo?" Giulio sorriu de canto. "É bom que seja algo realmente interessante."

"Oh, será!"

O Braço Direito piscou charmosamente. Seus olhos fitaram ambos os lados do corredor antes que ele se aproximasse pela última vez, encostando os lábios ao ouvido esquerdo do moreno e sussurrando algo completamente mundano e sujo. O Vice-Inspetor corou automaticamente, mas riu, umedecendo os lábios. Aquele homem era definitivamente além de qualquer expectativa. Mario abriu um sorriso transbordando maldade, acenando e se afastando com passos curtos. Giulio permaneceu no mesmo lugar por alguns minutos, encarando nada além do tapete xadrez que forrava aquele corredor e tentando acalmar seu corpo. Um simples beijo e meia dúzia de palavras... o moreno suspirou, voltando a afundar o rosto dentro do cachecol, é tudo o que preciso para me lembrar porque eu o amo.

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O baile durou mais algumas horas, e pouco a pouco os convidados começaram a deixar a mansão. Após o encontro com seu amante, o Vice-Inspetor se instalou em um canto da casa e ali permaneceu. Havia comida, bebida e boa companhia. Ele conversou com Giotto e um de seus subordinados, um homem japonês e de excelente humor. Francesco apareceu em determinado momento, querendo fugir das garotas e tentando finalmente ter alguma coisa para comer sem ser importunado. Esse momento, porém, durou muito pouco e uma mocinha de cabelos louros o arrastou para o centro do salão, forçando-o a acompanhá-la por uma valsa. Catarina desapareceu da festa, e provavelmente foi a primeira a se dirigir para o quarto, exausta com toda aquela agitação.

O moreno observou a mansão se tornar mais e mais vazia, até que não havia ninguém além do anfitrião e sua sombra. Naquele momento o Vice-Inspetor soube que poderia sair do anonimato.

"Boa noite." Giulio aproximou-se, cortês, mas sorrindo. "Sua festa estava excelente, Cavallone."

"Obrigado." Ivan sorriu, mas era visível que ele estava exausto.

O Chefe dos Cavallone fez sinal para Mario e os dois se afastaram, cada um para um lado. Os subordinados se aglomeraram, esperando as ordens para iniciar a arrumação da casa. O moreno coçou a nuca, aproximando-se de seu amante e pedindo para ajudar. O ruivo disse que não seria necessário, porém, o Vice-Inspetor insistiu. O trabalho não era complicado, já que os empregados faziam quase tudo. O Vice-Inspetor ficou responsável por cuidar da área próxima ao escritório e trinta minutos depois de ter iniciado não havia mais nada que precisasse ser colocado no lugar. O hall necessitava de uma boa limpeza, mas aquele trabalho estava além de suas mãos. Giulio deixou a mansão e desceu os degraus da escadaria de mármore, ganhando o jardim e seguindo até onde seu carro estava estacionado. O veículo estava deliciosamente aquecido quando ele entrou e foi incrivelmente agradável saber que ele passaria pelo menos 20 minutos dentro de um local que não receberia o frio do inverno.

O Braço Direito o esperava no fim da escadaria, acenando para seu Chefe antes de entrar no carro. O moreno ofereceu um menear de cabeça e suas mãos deslizaram pelo volante. Mario espreguiçou-se e suspirou, acomodando-se ao banco e fechando os olhos. O Vice-Inspetor sorriu de canto, sentindo-se bem por aquela noite ter parcialmente terminado. O caminho até a casa de seu amante não era longo, e ele o conhecia tão bem que até mesmo a pouca iluminação não o incomodava.

"Seu irmão passará a noite na mansão, não?" Giulio resolveu iniciar uma conversa após cerca de dez minutos em silêncio. Intimamente ele já sabia a resposta. Quando o moreno passava a noite com seu amante, Giuseppe os deixava a sós na casa.

"Sim. Ele estava bem feliz por ficar por lá, o que não é boa coisa."

"Você precisa parar de desconfiar de Giuseppe. Ele é um exemplo de homem e jamais faria qualquer coisa contra Francesco." O Vice-Inspetor sentiu-se na obrigação de defender o louro. Mario é muito restrito quando o assunto é o irmão, e não existe motivo. Nunca vi uma pessoa tão correta, respeitosa e educada quanto Giuseppe.

"Eu não estou preocupado com ele. Quem me preocupa é o garoto." O ruivo tornou-se sério. Eram raros aqueles momentos. O Braço Direito era uma pessoa naturalmente livre, e poucas coisas realmente conseguiam conquistar sua atenção. Entender seu amante foi uma das tarefas mais difíceis e Giulio levou anos até compreender que, a maneira desapegada com que Mario levava a vida, era simplesmente uma característica inerente à sua personalidade, e não maldade ou sadismo. Todavia, para os assuntos que chamavam sua atenção o ruivo dedicava todo o seu coração. "Francesco me assusta. Não sei quando foi que aconteceu, mas aquele rapaz está longe de ser o garoto gentil e bom que vi crescer."

"Você fala como um velho, Mario." O moreno riu baixo, mordendo a língua ao sentir um beliscão em seu braço. "E eu não vejo as coisas desse modo. Aos meus olhos Francesco simplesmente age como alguém da sua idade. Diga que você não era um pouco genioso e temperamental aos 15 anos."

O Braço Direito deu de ombros e aparentemente a conversa sobre Giuseppe havia terminado. Aquele assunto retornaria, o Vice-Inspetor sabia. Há algum tempo ele notou que sua companhia parecia ainda mais preocupada com o irmão, mais especificamente a situação em que ele se encontrava. Eu não sei ao certo o que ele teme. Eu nunca vi Giuseppe demonstrar nada além do mais puro respeito pelo Chefe. E Francesco é um pouco genioso demais para sua idade, reconheço, mas isso somente o tempo irá mudar. Pensar nisso só acarretará dor de cabeça. A estrada estava escura, com exceção da iluminação do próprio carro. Giulio permaneceu alguns minutos com os olhos no caminho, até desviá-los na direção de seu amante. Mario o olhava, a cabeça apoiada na parte alta do banco e uma expressão admirada, mas o mesmo sorriso sarcástico de sempre.

"O que foi?" O moreno sorriu.

"Como é que você não sente frio?" O ruivo começou. "Eu deixei meus cabelos crescerem naquela época porque não aguentava o frio no pescoço, mas você permaneceu horas naquele maldito jardim, imóvel, sem sentir nada. E seus cabelos são curtos..." Longos e pálidos dedos tocaram os cabelos negros.

"Eu estava com frio." O Vice-Inspetor franziu a sobrancelha. "Mas a festa estava agradável, a comida era boa, a bebida aqueceu meu corpo e saber que poderia tê-lo somente para mim no fim da noite esquentou meu espírito."

"Você acha que eu vou cair nessas declarações tolas, não?" O Braço Direito riu baixo, mas uma rápida olhada e Giulio viu que ele estava levemente corado.

"Eu estava sendo sincero. Não nos vemos direito há dias, e qualquer momento que eu possa passar ao seu lado é válido. Eu entendo que somos pessoas ocupadas, mas não abro mão de qualquer oportunidade de vê-lo."

O silêncio que seguiu aquele comentário chamou a atenção de Giulio. Seu rosto virou-se, recebendo dois olhos verdes semicerrados e um sorriso maldoso. O moreno sentiu um arrepio na espinha, sensação que sempre aparecia quando ele sabia que seu amante estava prestes a fazer algo que não deveria. Mario inclinou-se para o lado, fazendo menção de beijar o Vice-Inspetor, porém, os lábios nunca se encontraram. Giulio apertou o volante com mais força, trincando os dentes e erguendo uma sobrancelha.

"Eu estou dirigindo."

"Eu estou vendo." A voz do ruivo soou rouca.

"Mario... eu estou dirigindo." O tom do moreno saiu baixo. Era difícil pensar, dirigir e tentar não se concentrar na maneira como a mão direita de seu amante apalpava seu membro por cima da calça.

O Braço Direito apenas aumentou o sorriso, no mesmo instante em que seus dedos colocaram um pouco mais de empenho no gesto. O Vice-Inspetor respirou fundo, retirando uma das mãos do volante e segurando o pulso de Mario.

"Certo, certo." O ruivo ergueu as mãos, mostrando que se rendia.

"Eu não quero suas mãos." Giulio esticou o braço, acariciando o rosto de sua companhia. A ponta de seus dedos tocou os lábios vermelhos de Mario e ele sorriu.

O ruivo abriu um sorriso incrivelmente largo e satisfeito. O moreno voltou a olhar para frente, mas isso durou muito pouco tempo. Seria impossível não observar o que estava para acontecer em seu baixo ventre. O Braço Direito de Ivan abaixou metade do corpo, abrindo os botões da calça e levando o membro diretamente para os lábios, sem nenhum tipo de resguardo. Sexo entre eles não era novidade ou tratado com pudor. Mario era uma pessoa extremamente sexual e experiente. Os primeiros meses de relacionamento entre eles foram passados basicamente sobre camas. Depois da primeira noite, foi impossível não repetir o ato até ambos estarem exaustos. O Vice-Inspetor, em especial, só percebeu que não sabia nada sobre sexo após dormir com o ruivo. Suas experiências anteriores não o ensinaram a sentir aquele nível de prazer ou permitir se perder totalmente na outra pessoa a ponto de sentir como se fossem literalmente um único ser. O Braço Direito o ensinou o que significava amar outro homem, a tocar, a acariciar e a sentir alguém do mesmo sexo como parceiro. Giulio aprendeu rápido e mesmo depois de quase dez anos sua libido continuava a mesma. O desejo e luxúria por aquele homem não haviam diminuído, e qualquer oportunidade que ele tivesse seria usada para estar dentro de seu amante, possuindo-o e ouvindo os gemidos roucos e eufóricos que somente Mario poderia oferecer.

A voz do moreno soava baixa e contida dentro do carro. Suas mãos seguravam o volante de maneira incerta e seus olhos viam a estrada e a casa ao longe, e, embora a distância não fosse grande, naquele momento ele sentia como se estivesse há quilômetros. Ele é bom... o Vice-Inspetor gemeu mais alto quando seu amante passou a utilizar as ponta dos dedos como estímulo. Eu nunca me canso de admirar o quão bom ele é em oferecer prazer. Giulionão sentiu que diminuía a velocidade conforme seu clímax de aproximava. Os sons do ato em si o excitavam e ele avisou quando o orgasmo chegou. O Braço Direito continuou o que fazia, como se nada tivesse acontecido. Quando seu rosto se levantou, ele limpou o canto da boca e piscou, agradecendo como se saboreasse um delicioso prato.

"Eu senti falta disso." Mario acomodou-se melhor no banco e sua voz soou contente.

"Eu que o diga." O moreno sentia-se leve, satisfeito. Seus olhos voltaram à estrada e ele calculou que em menos de três minutos chegaria ao seu destino. "O que ach–"

O Vice-Inspetor virou o rosto, mas não concluiu seu pensamento. Sua boca ficou entreaberta e suas sobrancelhas se juntaram, tentando processar o que acontecia. Os olhos verdes encararam seu amante, incrédulos quanto à cena em si. O ruivo havia recostado a cabeça ao banco e seus olhos estavam fechados. Os lábios entreabertos gemiam baixo e automaticamente o olhar de Giulio desceu, e foi impossível não ficar surpreso ao ver que sua companhia se tocava, como se ele não estivesse ali.

"O que você está fazendo?" O moreno tinha a voz séria. Ele sabia que seu amante era totalmente além da realidade, mas aquilo era simplesmente... Eu nem sei o que é isso!

A resposta do Braço Direito foi um olhar de soslaio. Os olhos verdes se fecharam e os gemidos voltaram a ecoar baixos pelo veículo. Nunca meros segundos pareceram tão longos quanto horas. O Vice-Inspetor não saberia dizer como manteve sua concentração, como não errou o caminho e, principalmente, como conseguiu se controlar ao ver sua companhia fazer algo tão íntimo, mas tão visivelmente satisfatório. Mario chegou ao clímax no exato momento em que o carro foi estacionado em frente à porta de sua casa. Seu corpo projetou-se um pouco à frente e o gemido foi tão deliciosamente erótico, que a ereção dentro da calça de Giulio chegou a doer, tamanha sua excitação. Ele vai pagar caro por isso.

A porta foi carro foi aberta e o moreno saiu, puxando seu amante. O ruivo foi praticamente retirado do veículo pelo lado do motorista, não tendo tempo para questionar nada. O Vice-Inspetor o beijo no instante em que estavam fora, e nem a neve gelada e nem os pés molhados o impediram de envolver aquela pessoa em seus braços e beijá-la com todas as suas forças. O Braço Direito de Ivan correspondeu à carícia e os dois seguiram de maneira desajeitada pelo curto caminho que levava à entrada. As chaves foram retiradas do sobretudo, Mario abriu a porta e os dois entraram praticamente ao mesmo tempo. A casa estava escura, mas anos de experiência haviam feito com que Giulio conhecesse cada canto daquele local como se fosse (e era) sua segunda casa. As roupas começaram a ser retiradas, formando um caminho de cachecóis, sobretudos, camisas e calças por onde passavam. Subir as escadas foi a parte realmente desafiante, mas nenhum deles pareceu inclinado a perder tempo com algo tão irrelevante. O beijo não parou em momento algum, tornando-se mais intenso ao chegarem ao segundo andar. Do corredor até o quarto do ruivo foi preciso poucos passos e, ao finalmente fechar a porta, os dois amantes estavam completamente nus e excitados novamente.

A cortina estava aberta, permitindo que a luz da noite entrasse e iluminasse o quarto. Não haveria tempo para acender a lareira, então aquela seria a única fonte de iluminação que eles teriam. O moreno abriu a gaveta da escrivaninha, pegando meia dúzia de frascos de óleo lubrificante. Os vidrinhos foram colocados sobre a cama, e o ruivo segurou seu rosto com possessividade, beijando-o intensamente.

"Sem enrolação." A voz do Braço Direito soou trêmula. Ele estava no auge da excitação. Um dos frascos foi aberto e Mario despejou a quantidade inteira sobre a ereção de seu amante, masturbando-a.

"Eu não vou machucá-lo." O Vice-Inspetor respondeu entre gemidos. Sua única vontade era virar aquele homem e possuí-lo de uma vez, mas ele sabia – e muito bem – que as coisas não eram daquela forma. Nós trocamos de posição, uma vez... As sobrancelhas de Giulio se juntaram. Não era bom lembrar-se daquela noite. Não naquele momento.

"Não se preocupe, você não irá." Os lábios do ruivo tocaram a orelha esquerda do moreno, mordendo-a. Uma risada travessa seguiu aquela carícia. "Depois que eu o beijei no corredor eu precisei ir ao banheiro... e eu chamei o seu nome o tempo todo, mas não foi a mesma coisa."

"Você fala sério?" A mão do Vice-Inspetor segurou com força os cabelos de seu amante, puxando-os para trás. Eles batiam na altura do ombro, mas já foram maiores em algumas épocas. O Braço Direito de Ivan resolveu cortar metade do cabelo devido ao trabalho que passava desembaraçando os fios.

"Merda, Giulio! Você fala demais. Faça logo!"

Aquele educado convite era o que o moreno precisava para simplesmente e literalmente perder a cabeça. Suas mãos viraram seu amante com pressa, fazendo-o afundar o rosto no travesseiro, enquanto sua ereção o penetrava com toda força e desejo que alguém pudesse ter. O membro entrou com certa facilidade, como Mario havia dito e o Vice-Inspetor soltou um baixo palavrão ao sentir todo seu corpo tremer com a incrível sensação. As mãos se Giulio seguraram com firmeza o quadril do homem que estava por baixo, retirando seu membro e voltando a penetrá-lo em seguida. A voz rouca do ruivo ecoou pelo cômodo, alta e transbordando erotismo, como sempre acontecia. O Braço Direito não era contido ou tímido para sexo. Sua voz soava alta, seguida por alguns palavrões e comentários excitantes sobre como ele gostava de ser possuído e o quão bom aquilo o fazia sentir. A primeira vez que ouviu um comentário sobre o quão bem dotado ele era, Giulio chegou ao orgasmo no mesmo instante. Desde então se tornou uma constante ouvir frases sórdidas vindas de lábios que sabiam perfeitamente como excitar o parceiro.

A claridade do quarto não permitia que o ato todo fosse assistido, mas de sua posição o moreno conseguia ver o necessário. O Braço Direito era pálido, e suas costas brancas pareciam brilhar naquela pouca luz. A pele havia se tornado úmida com suor e suas mãos escorregavam ao tentar segurá-la. O ritmo fora imposto nos primeiros segundos, e após alguns minutos era difícil dizer qual deles gemia mais alto ou dizia as coisas mais sujas e absurdas. O anúncio do clímax fez o corpo do Vice-Inspetor tremer, puxando o quadril de seu amante para trás e penetrando-o com tanta força que Mario arqueou as costas, segurando-se à beirada da cama e compartilhando daquele orgasmo.

As respirações tornaram-se altas e o ruivo caiu com barulho sobre a cama quando Giulio retirou-se de dentro dele. O moreno fechou os olhos, ouvindo as batidas de seu próprio coração. O corpo do Vice-Inspetor se abaixou após alguns segundos, beijando os ombros úmidos de seu amante e posicionando-se ao lado. O Braço Direito mexeu-se sobre a cama, devagar, virando-se e ficando por cima. Sua mão direita passou sobre os próprios cabelos, colocando-os para trás. Alguns fios grudavam em seus ombros e pescoço por causa do suor, criando uma visão excepcionalmente tentadora.

"Eu quero ficar por cima agora." Mario tinha a voz ainda mais rouca. "Eu quero ver seu rosto enquanto você está dentro de mim."

"Você ficará por baixo, porque vamos dormir." Giulio riu, puxando seu amante para baixo e invertendo as posições. O convite era tentador, ele precisaria reconhecer. Aquela posição muito lhe agradava, pois admirar aquele homem mover-se freneticamente sobre seu membro era simplesmente de dar água na boca. O ruivo o olhou com uma pitada de ofensa naqueles belos olhos verdes, mas o moreno não se deixou intimidar. "A noite foi longa e você está cansado."

"E...?" O Braço Direito revirou os olhos. "Eu posso muito bem continuar por mais algum tempo. Você sabe disso!"

"Você vai dormir no meio da coisa e eu ficarei literalmente na mão." O Vice-Inspetor riu, arrancando a mesma reação do homem em seus braços. "Eu também gostaria de continuar, mas não vim aqui somente para isso. Eu quero passar meu tempo com você. Estar com ou sem roupas não é relevante. Não que eu não goste quando estamos sem elas..."

Mario abriu um largo sorriso e suspirou longamente. Seu corpo aproximou-se um pouco mais e ele utilizou o restante de forças que possuía para virar-se e ficar por cima, enquanto sua mão descia automaticamente para o baixo ventre de Giulio. O moreno tentou pará-lo, mas o ruivo o impediu com um profundo beijo. Lutar contra alguém como o Braço Direito dos Cavallone seria impossível. Aquele homem sabia todas as artimanhas imagináveis quando o assunto era sexo, e o Vice-Inspetor sempre estava em desvantagem. A carícia tornou-se mais intensa, porém, os lábios se afastaram quando os gemidos de Giulio se tornaram mais altos. A mão que o masturbava movia-se com força e rapidez, e sua ereção havia reaparecido.

"Só mais uma vez e prometo dormir como um anjo." Mario sussurrou baixo, lambendo a orelha esquerda do moreno. "Eu preciso de você em mim de novo."

"Você estava realmente solitário nesses dias."

O moreno moveu os lábios devagar, procurando a boca de seu amante. Eu tentei. Eu tentei ser compreensivo, mas eu não sou páreo para esse homem. A mão direita do Vice-Inspetor desceu pelas costas de sua companhia, desenhando os contornos com as pontas dos dedos e chegando até onde queria. O ruivo gemeu baixo, encolhendo-se um pouco sobre ele. Giulio respirou fundo, juntando o resto de autocontrole que ainda existia dentro dele e virando-se na cama. O Braço Direito afastou as pernas, guiando os dedos do moreno novamente para sua entrada. O Vice Inspetor engoliu seco, movendo seus três dedos com força. O homem deitado sobre a cama gemeu alto, contorcendo-se e pedindo que ele fosse mais fundo. O pedido foi concedido e Mario abriu os olhos, passando a língua sobre os lábios e fazendo um gesto com a cabeça, demonstrando que desejava outra coisa.

"O que eu farei com você?" O Vice-Inspetor pegou um dos travesseiros, colocando-o sob o quadril de seu amante.

"Você pode fazer o que quiser desde que seja rápido, forte e que me faça gritar." O ruivo respondeu com a voz rouca. Seu peito subia e descia entre espasmos, ansiando pelo que estava por vir. "E não saia. Eu gosto de senti-lo dentro de mim."

Ele detesta quando eu me retiro de dentro dele na hora do orgasmo. A ereção deslizou com facilidade e o Braço Direito de Ivan gemeu tão deliciosamente necessitado que Giulio quase chegou ao clímax. O corpo de sua companhia moveu-se e Mario entreabriu um pouco as pernas, mostrando que queria muito mais. A segunda estocada foi com o dobro de força e fez o ruivo arquear as costas, puxando a colcha da cama a ponto de seus dedos estalar. O moreno fechou os olhos, tentando se concentrar para simplesmente não colocar tudo a perder. Ele me faz esquecer tudo. Orgulho, moral e bom senso. A única coisa que consigo pensar é em fazê-lo chorar de prazer enquanto grita meu nome. O Vice-Inspetor puxou a cintura de seu amante com firmeza e a terceira estocada iniciou um ritmo tão intenso que em determinado momento os únicos sons do cômodo eram os gemidos chorosos de Mario, as fortes estocadas e o ranger dos pés da cama. Aquela era uma constante entre eles: a segunda vez sempre era mais intensa, e a partir dali a conversa se tornava inexistente. Depois da terceira vez nós nem ao menos pensamos...

Giulio não era mais a mesma pessoa. Sua vida poderia ser dividida entre antes e o dia em que encontrou o estranho homem de cabelos ruivos em frente à sede de Polícia. Depois daquele encontro nada mais fez sentido. Suas crenças, suas opiniões e seus gostos pessoais foram totalmente moldados por aquele homem. Até o Braço Direito dos Cavallone aparecer, o moreno só havia tido contato com mulheres. Sua ex-noiva fora a luz dos seus dias até encontrá-la em sua própria cama com outro homem. Os dias se tornaram menos iluminados e o Vice-Inspetor precisou aprender a viver com meia-luz. Sua casa foi remodelada e sua vida ganhou outra cor e sabor. Entretanto, após conhecer Mario, Giulio percebeu que o que sentia por aquela mulher não foi nada se comparado aos sentimentos que tinha pelo ruivo. O moreno nunca fora ciumento. Ele nunca teve necessidades para isso. Eu sempre fui considerado um bom partido. Durante a vida inteira eu tive companhias para frequentar bailes e jantares. Mas tudo mudava quando o assunto era seu amante.

O Braço Direito de Ivan Cavallone era simplesmente outra coisa.

Foi no corpo daquele homem que o moreno conheceu o que era realmente prazer, fazendo com que as noites com sua ex-noiva não passassem de brincadeira de criança em comparação ao que eles eram capazes de fazer quando estavam sobre uma cama, ou dentro do carro, ou simplesmente em qualquer lugar que o desejo chamasse. Mario respirava sensualidade. A voz rouca, a maneira como as palavras cantavam nos belos e bem preenchidos lábios rosados. Os olhos verdes, claros e límpidos, refletiam-no como um espelho. Os cabelos vermelhos, as sardas e o fogo natural que aquele homem emanava haviam conquistado o Vice-Inspetor por completo. Giulio descobriu-se possessivo, ciumento e com uma estranha e quase doentia necessidade por monopólio. Seu amante não parecia se importar, pelo contrário. O ruivo divertia-se com os momentos do moreno, achando sempre um jeito de tornar a situação perigosa, sufocante e prazerosa.

Entretanto, a relação entre eles não era somente sexual. Nos primeiros meses, talvez, ela possuísse essa definição, mas os anos transformaram aqueles dois homens, criando um estreito e íntimo laço que o Vice-Inspetor sabia que jamais teria com qualquer outra pessoa. Quando não estavam perdidos em suor e gemidos, muitas vezes ambos passavam o tempo simplesmente próximos, fosse deitados um sobre o outro, lendo o jornal ou um livro; ou fosse cozinhando, um dos hobbies favoritos de Giulio, e que infelizmente seu amante só compartilhava a parte de sentar e comer, mas que adorava observar. Então, se sua ex-noiva era a luz do seu passado, provavelmente se limitava a uma pequena chama, como um riscar de fósforo. Agora, o homem que gemia embaixo de seu corpo, masturbando-se com pressa e implorando que fosse penetrado com mais força, era definitivamente o Sol. Uma força gigantesca de luz e calor. Longe dele o moreno perdia o brilho e o foco. Longe do Braço Direito de Ivan era como se todas as estações fossem inverno.

Mario chegou ao orgasmo primeiro, gritando alto o nome do moreno. O Vice-Inspetor o acompanhou no segundo seguinte, preenchendo-o totalmente pela segunda vez naquela noite. Os gemidos cessaram e a cama parou de ranger. O ruivo cobriu o rosto com um dos braços, o peito ofegante e os lábios entreabertos a procura de qualquer quantidade de ar. Giulio fechou os olhos, pendendo a nuca para trás e tentando manter seu corpo controlado. Ele sentiu uma gota de suor descer por sua nuca e costas, arrepiando-o. Seu membro deslizou de dentro de seu amante e ele deixou-se deitar sobre a cama, na beirada, e ao lado de sua companhia. O Braço Direito permaneceu alguns segundos na mesma posição, até virar-se e encarar o homem ao seu lado. Os dois dividiam o mesmo travesseiro e Mario tinha uma expressão de completo contentamento. Missão cumprida.

"Agora eu posso dormir." O ruivo disse com gracejo. "Mas deixo claro que estaria disposto a continuar indefinidamente."

"Você precisa estar bem desperto amanhã. É o grande dia de Francesco, não se esqueça." O moreno aproximou-se um pouco mais, juntando os corpos. Suas mãos deslizaram pelas costas de seu amante, sentindo a pele úmida e firme, e seus dedos então subiram devagar, tocando os cabelos vermelhos.

"Ele não se importa comigo. O único cuja opinião realmente importa é Giuseppe. Francesco deixaria o restante da casa comendo grama se isso significasse agradar meu irmão." O Braço Direito suspirou. "Não vamos falar sobre isso. A noite está agradável demais."

"Do que você tem medo, Mario?" O Vice-Inspetor levou a mão até o rosto de sua companhia, tocando-o de leve e retirando uma teimosa mecha de cabelo. Às vezes era difícil saber o que lhe agradava mais: se os olhos verdes ou as delicadas sardas que salpicavam seu nariz e bochechas.

O ruivo abaixou os olhos e por um momento Giulio se arrependeu de ter perguntado. Porém, aquele assunto o havia deixado curioso, pois seu amante sempre arranjava uma maneira de burlar a situação, mudando de assunto descaradamente. Eu achei que Mario tivesse medo que os sentimentos de Giuseppe não fossem correspondidos, mas, se existir a mínima chance de serem recíprocos, qual seria o problema? Trabalho? Um Braço Direito não pode se envolver com seu Chefe? Existe essa regra no mundo da Máfia? Aquelas perguntas já haviam cruzado a mente do moreno, porém, ele não conseguiria sossegar sem ouvir a verdade. Sem ouvir diretamente dos lábios daquele homem.

"Giuseppe sempre foi uma alma gentil, sempre. Quando éramos crianças, se alguém se machucava durante as brincadeiras ele sempre era aquele que cuidava do ferido. Ele é uma pessoa boa demais para esse mundo, e há muito tempo eu percebi sua admiração com relação a Francesco. Eu sei que no início era apenas o respeito cego pela figura do Chefe. Eu mesmo passei por isso, por um tempo..." O Vice-Inspetor franziu a testa e o ruivo deu de ombros. "Mas eu sei que as coisas mudaram. O garoto olha para ele diferente, eu sei. Eu conheço aquele olhar. Francesco tem um coração enorme, mas é egoísta e imaturo demais para entender seus próprios sentimentos. Se chegar um dia em que eu tenha que enfiar alguma razão na cabeça de meu irmão eu não pensarei duas vezes, nem que isso signifique tirá-lo da Família e enviá-lo para longe. Eu não tenho medo de Giuseppe, eu temo pelo que o garoto possa fazer com ele."

O Vice-Inspetor ouviu a tudo no mais puro silêncio. Sua mão tocava o rosto do Braço Direito, e ele viu o brilho mudar naqueles belos olhos verdes conforme a narrativa se intensificava. Giulio aproximou-se, depositando um casto beijo na testa de seu amante. Ele finalmente entendeu o que estava acontecendo.

"Quando o momento chegar eu estarei esperando." O moreno disse baixo. "Você pode ir para minha casa e quebrar as coisas. Prometo não me importar." Mario sorriu e riu, mordendo o lábio inferior e movendo a cabeça em positivo. "O que acha de um banho?"

"Eu estou cansado demais para cozinhar na banheira." O ruivo sentou-se devagar na cama, aprovando a ideia. "Mas eu aceito um banheiro de chuveiro. Eu realmente preciso de um."

O Braço Direito de Ivan ficou em pé, mas o Vice-Inspetor fez questão de estar ao seu lado. Mario o olhou feio, como sempre olhava quando recebia aquele tipo de atenção. Ele irá dizer que não precisa ser tratado como mulher, e eu irei responder que estou apenas preocupado com a pessoa que amo. Ele irá rir, corar e ignorar a ajuda de qualquer forma. Giulio decidiu não ouvir as reclamações, passando o braço ao redor da cintura de seu amante e guiando-o através do corredor frio. O banheiro ficava ao final, uma porta do lado direito. O box era pequeno para dois homens encorpados, mas o moreno estava acostumado a dividir aquele espaço, então a falta de mobilidade não o incomodou. A água estava quente, e o Vice-Inspetor deu prioridade para o ruivo, deixando-o embaixo do jato d'água. O Braço Direito dos Cavallone passou as mãos por seu peito, evolvendo seu pescoço e o trazendo-o para um longo beijo.

Nenhum deles mencionou a conversa que tiveram na cama, aqueles simples segundos em que Mario abaixou, momentaneamente, suas altas barreiras e permitiu-se compartilhar um pouco de seus medos. O banho foi rápido, mas durou o tempo suficiente para fazer o cansaço levá-los novamente até o quarto. O ruivo deitou em seu lado da cama, junto à parede, mas arrastou-se para os braços do moreno. O Vice-Inspetor os cobriu, abraçando sua companhia e piscando. Suas mãos tocavam os cabelos vermelhos e molhados, afagando-os com carinho.

O Braço Direito de Ivan dormiu primeiro, poucos segundos após deitar-se na cama, completamente exausto. Giulio ainda permaneceu algum tempo acordado, digerindo aquela noite e sentindo-se extremamente sortudo. Talvez chegue o dia em que ele realmente tenha de escolher uma posição. Honestamente, eu gostaria que esse dia nunca chegasse. Eu entendi a situação, mas ainda acredito que, se Francesco realmente nutre algo por Giuseppe, seus sentimentos são sinceros. O moreno apertou um pouco mais seu amante em seus braços, fechando os olhos e decidindo que era hora de juntar-se a Mario no mundo dos sonhos. Independente de como terminaria a história de Giuseppe, a única certeza que o Vice-Inspetor tinha era que, não importasse o quão nublado se tornasse o céu do homem em seus braços, não haveria nada que ele não fizesse para colocar um sorriso nos lábios da pessoa que ele amava. Era o mínimo que ele poderia fazer pela pessoa que havia mudado sua vida.

- FIM.