Levantem seus chapéus e suas taças também, iremos dançar até a noite acabar, estamos voltando para o tempo que tanto sabemos debaixo de uma lua violeta...

"Que rotina cretina", pensava Soren... Mais dois anos se passou e nada dela saber o que estava fazendo ali com aquele velho... Nem tão caduco assim. Ela sabia que a pose de temperamental fora do comum de seu Mestre era parte do disfarce... O velho tinha um poder inigualável e dominava a força dos ventos com apenas um movimento de suas mãos, era o senhor dos ares, o mestre das brisas... Deveria respeitá-lo por isso...

- Soooooren! Cadê os meus pergaminhos de poções ativamente ativas que precisam ser ativadas? - gritou o velho Adrian lá dentro da cabana, a menina bufou de impaciência e apontou para a mesinha ao lado dele, seu rosto estava ruborizado e seus dentes estavam cerrados para não deixar escapar um palavrão. - Ah sim! Aqui estão... mas você também! Bagunça tudo e depois coloca em lugar que eu nem imagino! Esses jovens de hoje... - e saiu resmungando com os pergaminhos debaixo do braço.

- Paciência, paciência é uma virtude... Eu preciso de... - logo uma chuva fininha veio do Oceano e regou a Vila Cação por algumas horas.

Candye jogava mais outro vaso de planta fora... Quebrara quando seu pai entrou em casa e por alguma ordem estranha do destino, o vaso caíra na cabeça do seu velho pai...

- Já disse mil vezes que o senhor deve ver aquele velho caduco para ele lhe dizer quem rogou essa praga! - o bardo Tenebrarus encolheu os ombros e limpou a terra que restava em seus cabelos.

- Isso acontece, minha filha... Mera coincidência...

- Que acontece a cada 10 dias depois do dia da véspera, papai! Estou lhe dizendo! Alguém rogou uma maldição de azar no senhor e... - não conseguiu terminar a fala, pois seu pai já estava escorregando no piso molhado da cozinha e esbarrando na mesa cheia de massa de bolo e pão. Farinha, massa e ovos vieram tudo em cima dele, o deixando empapado do pescoço para cima. - Eu disse pro senhor! - disse Candye chorosa. A porta de sua casa abriu e seus irmãos trouxeram outro enfermo para dentro das Casas de Cura da Madame Aid, a mãe de Candye.

- Mas esse povo tá cismando de se machucar, não? - comentou o pai, limpando a sujeira do rosto e bebendo mais um pouco de "Elixir Sumiu", um remédio muito usado na Ilha Local, era tiro e queda, só tomar o Elixir Sumiu que a dor sumia! - Vou para a Estalagem do Boburguer... Vai querer alguma coisa, querida? - a Madame Aid levantou a cabeça com cansaço e jogou um balde e um esfregão.

- Vai limpar esse chão imundo e depois quero o pátio todo arrumado!

- Mas querida...! - ele iria dizer, mas a mulher simplesmente o mandou calar a boca com um gesto.

- Dá exemplo pros seus filhos e vai arrumar logo essa bagunça!

- Mas querida...

- AGORA!

- S-sim querida... - resmungou o famoso bardo Tenebrarus que tinha sempre a última palavra dentro de casa, só que era sempre concordando com o que a mulher mandava fazer...

Era uma manhã calma, o sol estava a pino no céu azulado e limpo de nuvens, o velho caduco, quer dizer, o Mestre deixara ela sair um pouco para buscar alguns ingredientes de poções na vila e também conversar com o ferreiro Smith no final da rua para arrumar a porta que estava emperrando. Dorotéia pastava nas encostas do Porto Norte e Madame Makinha dava um pouco de plantas medicinais à vaca... Soren ficou curiosa com a conversa da Madame com a vaquinha.

- Você precisa ficar fortinha, meu bem... Tempos difíceis estão chegando e logo não terá muito que comer aqui, sabe? Logo bárbaros irão disputar a tapa o que você tem a oferecer...

- Madame Makinha não assusta a coitada da Dorô... Ela é inocente demais para essas coisas... - disse Soren discretamente para a Curandeira vegetariana, vidente e super zen da Ilha Local.

- Essa sua vaquinha está com uma dieta disforme, querida! Precisa regular as horas de pasto e as horas de ruminação... - Dorotéia nem se importava com as dicas de alimentação e continuou mascando a grama ali perto.

- Vou falar com a Candye... Essa semana é dela para cuidar da Dorô...

- Cuidado com os açucares... Cuidado com os doces... - predizia fantasmagoricamente a vidente Makinha. Soren arrepiou-se por alguma razão e entrou no ferreiro Smith & Cia. O ferreiro trabalhava sozinho e era difícil se comunicar com ele quando estava trabalhando na bigorna e na caldeira.

- Senhor Smith! - a menina gritou para ser escutada além dos sons surdos de martelo em ferro em brasa. - O meu Mestre Adrian pediu...!

- Ahn? O quê? - respondeu o ferreiro com o físico de uma tora de madeira de pinheiro de tão queimado do sol e da fornalha, era estranho de se ver um homenzarrão daqueles com pequeninos óculos de aro dourado enganchados no nariz adunco e um pouco torto de tanto brigar com outros fanfarrões. Ele colocava a mão suja de carvão como concha na orelha. - Não escutei!

- O meu Mestre... Oh porcaria sô... - a menina deu a volta no balcão e deu de cara com o enorme cachorro do ferreiro, Mandrada, que não ia com a cara de ninguém, a não ser a do dono, rosnando para ela. - Oh, oh... Oi cachorrim bunitim... Calminha tá...?

- Mandrada! Nada de morder! Aiaiai menino mal! Menino mal! - e o carinho que o ferreiro deu na orelha do cachorro fez Soren se sentir impelida contrair o rosto numa careta visível, se fosse nela, o ferreiro já teria arrancado a orelha de Soren... - O que uma jovenzinha linda como você veio fazer nesse lugar sujo, haha? - o sotaque do ferreiro era das Ilhas do Sul e tinha muito do jeitão dos piratas.

- A porta dos fundos lá de casa tá emperrando o ferrolho... O velho Adrian queria que você passasse por lá para conversar sobre umas coisas e arrumar a porta... - o homem grande limpou o rosto com um lenço encardido e amarelado e botou a mão no balcão, pegou sua malinha de ferramentas e tirou o avental de funileiro.

- Vamos lá então... Não tenho muito trabalho por hoje, quero ver o que o velho caduco tem a me dizer...

- Ele não é caduco...! - protestou Soren com veemência.

- Mas ele é beeeem velho, não? - completou o ferreiro Smith.

Os piratas do Corvo Prateado já haviam dominado duas Ilhas ao Norte, enterrado muitos tesouros no continente perdido após o Aurareira e capturaram mais escravos do que qualquer outro barco na história dos piratas... Mas agora estavam todos de saco cheio, sentados na Prainha, braços cruzados e os vigias da Vila de olho neles...

- Que preguiça... - disse um mais alto e desengonçado...

- É mesmo... - respondeu outro mais moreno e com um chapéu furado na aba.

- Bem que a gente poderia pilhar o Monte Tereco...

- Pra quê? Já pilhamos aquele lugar umas quinhentas vezes! - disse o imediato Jãozim. - E o capitão não iria gostar disso...

- Aliás... Pra onde ele foi hein? - um outro baixinho que ficava no posto da gávea, aquele poste lá em cima do navio, falou.

- Deve estar falando com o velho caduco...

- Ah... - foi o uníssono do grupo de 13 marinheiros do Corvo Prateado, agora a tripulação mais azarada dos 3 Mares do Sul...

- Então... Que preguiça, hein? - começou o desengonçado...

- É mesmo...

A pálida marinheira preferida do capitão do Corvo Prateado ameaçava o velho Adrian com uma pistola de dois canos muito pesada.

- Foi você, seu velho inútil, babaca e pervertido! Rogou essa maledeta maldição de azar para todos nós!

- Calma, meu docinho... - disse Adrian muito afável, não sabia se respondia cordialmente ou se soltava uma de suas cantadas baratas. - És o tesouro que o mar trouxe de volta para o barco inquieto que veleja no mar do meu coração... - O capitão girou os olhos com impaciência e resmungou alguma coisa... Bebia a garrafa de vinho do velho.

- Sai pra lá velho babão! Vai levar um tiro no meio das fuças de não der um jeito de reverter essa porcaria de encantamento! - a porta da frente bateu e Soren e Smith chegaram. O ferreiro se alertou e pegou a primeira ferramenta que viu na sua malinha, uma chave curvada para abrir fechaduras, Soren já estava acostumada com pessoas que chegavam de surpresa e ameaçavam o velho de morte... Passou pela moça pálida como uma caveira, com uma roupa colante preta e um coldre cheio de bolsos e um espaço para uma sabre curta do lado esquerdo.

- Oi tia Lina, oi mano Danny... - o capitão Deckard do Corvo Prateado meneou a cabeça cumprimentando a irmã mais nova e encostou-se na cadeira confortável do velho Adrian, bebeu outro gole do vinho na garrafa e botou os pés na mesa.

- Temos um trato, velho caduco...

- Ele não é caduco! - gritou Soren do outro cômodo.

- Mas é beeeem velho! - respondeu o irmão resoluto, o velho Adrian mandou língua para o jovem insolente. - Como eu dizia... Temos um trato... Meu velho pai quase morreu te protegendo, Adrian e não tem como reverter o passado... Vamos! Me diga como se tira essa maldição e eu te agradecerei por manter minha irmãzinha aqui contigo do que servindo de marionete para as peripécias da megera da Sulliman...

- É um bom trabalho, se quer saber... - respondeu Adrian calmamente.

- Não para Soren! - irritou-se Deckard, a pirata Michaela engatilhou a pistola na testa do velho. - Ela nasceu para algo maior, velho... Você sabe... Você sabe muito bem que a Maga Nevasca tinha planos para ela... E me diga? Adiantou alguma coisa aquela expedição ao Rochedo Triste? Estamos condenados ao azar por mais de 12 anos! - Soren deu um pulo na cozinha ao ouvir o nome da Maga Nevasca, fazia tempo que eles não tocavam no assunto. - Se você não nos livrar dessa magia cretina, eu tiro Soren daqui imediatamente...

- E vai levar para onde? Para o Reino ou para ser uma pirata vil e mentirosa?

- Eu não sou mentirosa! - protestou Michaela para Deckard, ele concordou.

- Mas é a mais doce miragem que meus olhos cansados do tempo já viram nesse mundo... - disse o velho afável novamente, a pirata xingou algo em piratês que Soren não entendeu, mas pela cara do ferreiro Smith, é porque havia sido um palavrão bem feio.

- Meu, vou bater nesse cara... - disse a pirata sem paciência.

- Era uma vez...

- Ah fessoraaa... Outra vez aquela história entediante da Maga Sorvete?

- Nevasca, menino! Respeita a lenda! Ela salvou esse lugar milhares de vezes...

- Mas se salvou, por quê não fica com a gente quando a gente precisa? - a bagunça na aula fora da sala de aula era turbulenta. Soren tentava tirar um cochilo escondida do velho Adrian do lado de fora do pátio, perto da Estrebaria, mas a criançada insistia em perguntar à pequena professorinha sobre as razões da Maga Nevasca ter desaparecido... Bocejou um pouco e se aproximou da turminha de meninos e meninas de quase 9 anos.

- Ela não vem para cá, pois já cansou de salvar o dia... - comentou ela para a professora que já conhecia bem.

- Mas se ela cansou de salvar o dia, bem que poderia salvar a noite... - a risada foi geral para o aluno que fez a indagação, ele ficou tímido no lugar.

- Porque ela não se chama Maga Sorvete e abre uma sorveteria aqui na Ilha? Faria mó sucesso! - as crianças concordaram empolgadas, Soren botou a mão na testa, mal acreditando que a lenda mais vívida daquela Ilha estava sendo questionada de maneira estranha por criancinhas devoradoras de sorvete!

- Olha gente! A Maga Nevasca salvou essa Ilha dos Piratas do Sul, do Monstro Dourado de Ganancy e fez muitas coisas também! - insistiu a professora.

- Mas ela não abriu nenhuma sorveteria, poxa! Responsabilidade social, fessora! Responsabilidade social! - exclamou com seriedade um menininho menor que um toquinho de árvore.

- Meu, vou sair daqui, senão fico louca... - suspirou Soren para si, uma garotinha puxou a saia da professora.

- Mas a tia aí não é aquela garota que mora com o velho caduco? - a resposta foi automática.

- Ele NÃO É caduco!!! - todos os aluninhos da professora Esmirra viraram para ela em coro.

- Mas ele é beeem velho...

Tarde quente, Dorotéia estava no estábulo, Candye tomava água de seu cantil e observava as Ilhas Torturuga com sua lupa. O sótão da Hospedaria do Otto dava de cara para a Praieira e era o melhor ponto de se ver alguma coisa no Oceano vasto que se seguia à Nordeste...

- Ho, ho! Olha só aquilo lá! - dando a lupa para Soren curiosa para saber o que a amiga havia visto. - Acho que é um golfinho... Pode ser uma baleia talvez... Mas está vindo muito depressa... Nossa...

- Era só um peixe espada...

- Como é que você sabe?

- O focinho longo e a rapidez...

- Poderia ser um golfinho...

- Não vou discutir...

- Não vai porque seu velho caduco Mestre te ensinou desse jeito?

- Olha, será que poderia ser menos rude ao tratar do Mestre Adrian?

- Mas ele é um velho caduco sim... - olhando o Oceano de novo com a lupa.

- Por que todo mundo tem algum problema com ele...?

- É uma questão social, Soren... Todos nós estigmatizamos o membro mais velho do bando para mantê-lo no estado letárgico e inutilizatório do ser humano, assim teremos como impulsão, o exemplo dele para as gerações seguintes... - disse calmamente, enquanto Soren caía do telhado da Hospedaria e se agarrava na calha. - Entendeu?

- Como você pode falar isso? E "inutilizatório" não existe!

- Existe sim!

- Existe não!

- Prova então!

- Vai no dicionário, ignóbil!

- E você, sua obtusa de meia tigela!

- Vamu pará com essa bagunça??? - gritou o dono da Hospedaria com um rolo de macarrão na mão e avental.

- Tá, tio Otto... - responderam juntas, silêncio imperou entre elas.

- Por que ninguém mais acredita nos heróis...? - Candye parou com a lupa e se acomodou no telhado. Sentou-se e recolheu a barra da saia que descosturava.

- O mundo não precisa mais de heróis... Não quando você tem todo o poder de escolha nas mãos... Soren... - a outra garota olhava triste para o Rochedo Triste (Eita redundância!) - Ela não vai voltar... Se lembra do que seu pai disse antes de te deixar aqui? "A Maga Nevasca acabou com seus dias nesse mundo e agora só você poderá seguir seu destino."

- Mas eu gostava de acreditar que ela algum dia iria chegar lá em casa... Mas o Mestre Adrian disse que ela está velha e doente e não vem mais para outras Ilhas...

- Candyce Cleomance!!! Saia desse telhado agora!!! - gritou a mãe de Candye com autoridade, a menina fez uma careta de assombro e desceu rapidinho, deixou a lupa com Soren.

- Te vejo depois...

- Não esquece da comida da Dorô...

- Tá... - respondeu mecanicamente, mas Soren sabia que a amiga IRIA esquecer a comida da vaquinha de estimação. Apontou a lupa para o Rochedo Triste e observou por longos minutos, até suspirar descontente.

- Mas seria legal vê-la de novo...