Doushite

Capitulo 2: Eu, um lobo solitário encurralado

By Misako Ishida

Todos nós possuímos feridas que se tornam incapazes de serem cicatrizadas ou até mesmo curadas. Elas sempre estarão ali, presente, como um alerta. Eu tenho as minhas. E talvez, por isso mesmo, eu seja tão cauteloso em relação a quem eu permito estar perto a mim.

Não entenda errado. Não sou o tipo de pessoa que machuca os outros através da indiferença. Sou mais o tipo de pessoa que se protege da dor que os outros são capazes causar. Minha infância foi marcada pela dor da separação dos meus pais. E mesmo com a reconciliação deles alguns anos depois e a união de nossa família, as coisas não foram mais as mesmas.

Tenho por regra que só é possível confiar apenas uma vez. E a confiança por ser algo tão frágil e instável somente pode ser dada a poucos. É difícil confiar nas pessoas quando a maioria delas apenas quer estar contigo por algum interesse fútil ou maldoso. Esse também é um outro ponto válido a ser apontado. Todos nós somos movidos a interesses. Qualquer relação humana é permeada por interesses. O que diferencia a qualidade dessas relações são os interesses.

Me interesso por pessoas que possam me fazer sentir bem. E quero ao meu lado uma pessoa que tenha o mesmo interesse por mim. E por ser tão exigente quanto a isso, acabo afastando pessoas. Não de uma forma errada ou má educada. Apenas não me envolvo ou aprofundo laços com pessoas que estão interessadas apenas na minha aparência, ou na minha conta bancária, e, principalmente, na minha fama.

Sair de Hikarigaoka de certa forma de aliviou. Uma nova cidade poderia me oferecer a chance de mais uma vez tentar ser uma pessoa comum e normal, sem aquele monte de garotas correndo atrás de mim. A música é a minha paixão e minha forma de expressão. Não sou bom em expressar o que eu sinto em palavras durante uma conversa normal e foi a música, aquele conjunto de notas harmônicas, que me permitiu colocar tudo para fora. Desde a nota mais simples até a letra mais profunda. Contudo, depois de toda a agitação na minha cidade natal, não me senti motivado a continuar com a música.

Odaiba pareceu um lugar calmo. Foi bom reencontrar meu amigo de infância, Taichi. Ele continua o mesmo teimoso de sempre e, por incrível que pareça, conseguimos discutir ainda mais. Temos opiniões divergentes e pontos de vista completamente diferentes. Mas continuamos amigos. Ele agora diz ser um homem apaixonado. Diz que tem a namorada mais linda e encantadora do mundo, mas curiosamente ainda não a conheci. O que pode indicar que ele esteja mentindo sobre ter uma namorada ou que ela não seja nada do que ele descreve. Em todo caso, é uma ótima situação para irritá-lo. Não reclamo de oportunidades que a vida dá.

Outra oportunidade que apareceu foi para o meu pequeno irmão. Ele e Hikari, irmã de Taichi, voltaram a ser os amigos inseparáveis que eram quando crianças. Takeru sempre falara que era um amor platônico, mas talvez apenas tenha sido o primeiro amor de verdade de sua vida.

Não saberia dizer a diferença entre esses dois tipos de amor, pois além de minha família e amigos não amei ninguém. Tive meus envolvimentos atrativos com algumas meninas. E eles não eram amorosos ou afetivos. Eram apenas físicos. Nunca senti aquele frio na barriga que todos dizem que se sente quando se está apaixonado por alguém. Nenhuma garota mexeu comigo ou com meu coração...

Até que a conheci.

Ela é de longe a menina mais bonita que conheci na minha vida. Por fora e por dentro. O que ela fez com meus sentimentos e pensamentos e com meus desejos e reações é indescritível, é surreal. Foi quando voltei a compor. Canções de amor. Canções bregas de amor. Com tamanha intensidade e violência, eu parecia ser arrancado do mundo quando ela sorria e parecia congelar na minha própria ansiedade quando ela me olhava.

Ela trabalha numa floricultura. Meu primeiro contato com ela fora simplesmente acidental. Era aniversário de minha mãe e eu havia esquecido. Ao sair da escola, entrei na floricultura que ficava no caminho de casa para comprar um presente. E então a vi. E quando ela olhou para mim com aquele sorriso caloroso e amável foi impossível me manter indiferente.

Ela me ajudou na escolha das flores e fez um belo buquê. Delicado e encantador. Assim como sua voz. Sei que sou um cara de poucas palavras, mas diante dela a capacidade da fala foge. E desde então, minha mãe tem ganhado muitas flores. E eu tenho tido mais e mais oportunidades de vê-la e conhecê-la. Não que eu saiba muita coisa a seu respeito, mas cada mínimo detalhe me faz toda diferença.

Aos poucos consigo entender porque as pessoas mudam quando estão apaixonadas. E, ao mesmo tempo, eu também descobria como é ter um amor unilateral. Sou um covarde, confesso. Achei que realmente poderia convidá-la para sair, que pelo menos pudesse fazer qualquer avanço, mas não. Meu mundo foi invadido pelo medo. E não gosto disso.

- Oi! – ela me cumprimentou com um lindo sorriso.

- Oi. – respondi suspirando.

- Você parece triste.

- Bom, eu preciso de flores para... Uma confissão. – como eu era idiota.

- Então há uma garota. – comentou ela brincalhona enquanto começava a caminhar por entre as flores. E eu, como um imã, a segui.

- Sim. – disse com voz derrotada. Não conseguiria fazer isso.

- Parece uma tarefa difícil.

- Você não faz ideia. – não sei o que fiz, mas ela se virou de repente para me ver. E, então, toda aquela coragem desapareceu e, mais uma vez, eu precisava de uma desculpa. – Eu quebrei uma das porcelanas favoritas da minha mãe. – disse envergonhado.

O rosto de surpresa dela foi substituído por um doce riso. – Bom, nesse caso... Tenho as flores perfeitas para sua confissão.

Quando cheguei em casa estava tão bravo comigo mesmo. Apenas precisava falar para ela o que sentia. Apenas precisava chamá-la para sair. Mas e se ela não aceitasse? Provavelmente seria muito pior. Eu estava perdido em meio a tantos pensamentos que não notei que Takeru e Hikari estavam na cozinha.

- Flores? De novo? – ironizou Takeru. – Você deve gastar todo seu dinheiro com flores.

- É o meu dinheiro espertinho. Não estou te pedindo nada. – respondi com desdém . – Konninchiwa, Hikari-chan.

- Konninchiwa.

Percebi como ela ficava vermelha e tentava não olhar para mim. Estava acostumado que outras meninas fizessem isso, mas quando ela se comportava desse jeito era desconfortável. Afinal de contas, nós passamos boa parte de nossa infância juntos e eu a tinha como uma pequena irmã também.

- Das duas, uma. Ou você está querendo algo realmente grande da mamãe e está comprando-a antecipadamente... Ou por trás dessas flores existe uma garota. – falou Takeru com deboche. – Uau! Então existe mesmo uma garota. – e começou a rir.

Não estava com paciência para as brincadeiras dele no momento. Apenas me retirei, não antes que Takeru me falasse sobre o passeio que havia sido programado para o final de semana.

Estava totalmente desinteressado por este passeio, mas Taichi levaria sua namorada fantasma. E, por isso, lá estava eu. Juntamente com as pessoas que agora podia chamar de amigos. Cada um tinha uma personalidade bem oposta, mas quando estávamos juntos parecíamos conectados de uma forma amigável.

Foi então que todo aquele pesadelo começou. A ruiva. A namorada de Taichi. Era ela. Quando eu vi a Sora ali sorrindo para ele meu coração pareceu se fragmentar. Se não existiam palavras para descrever o que ela me fazia sentir, também não existiam palavras no mundo capazes de descrever o que sentia ao descobrir que ela era namorada do meu melhor amigo.

Me mantive afastado o máximo que pude, não apenas dela, mas de Taichi e dos outros. Ninguém poderia sequer desconfiar sobre isso. E quando aquele dia estava terminando foi a melhor coisa que aconteceu. Eu poderia respirar aliviado sem a presença dela e poderia começar a reconstruir aquele muro defensivo novamente.

Estúpido coração! Estúpidos sentimentos! Maldito amor não correspondido!

Enquanto tentava me recuperar de tudo aquilo, algo aconteceu. Inesperado. Inacreditável. Hikari aparecerá um dia em casa, mas não estava procurando por meu irmão. Pelo contrário, queria falar comigo. E então ela se declarou.

Só poderia ser uma brincadeira. E de muito mau gosto. Mas ali estava ela, com os olhos cheios de determinação (aquela que eu não tive) me implorando uma chance. Ela era corajosa (coisa que não fui). Só que era insano. Meu irmão era apaixonado por ela desde que tinha três anos de idade. Como eu poderia fazer isso com ele?

Além do mais, havia Taichi. Era o meu melhor amigo e eu sabia o quanto ele era ciumento e possessivo com sua irmã. Estar com ela seria o mesmo que traí-lo. E, num ato de pura ousadia, aquela menina estava me beijando. Não posso negar, foi uma sensação boa. Não foi uma explosão, nem mesmo algo carregado de luxuria (como estava acostumado com as outras garotas). Foi como uma carícia, algo delicado e doce. Meu coração se sentiu mais aliviado, pareceu que um pouco daquela dor sumia.

E pensar naquela dor me fez lembrar da Sora. De como ela é linda e de como eu adoraria beijá-la da mesma forma carinhosa, doce e demonstrar todos os meus sentimentos mais puros e honestos. Mas não podia. E quando eu olhei nos olhos daquela menina eu me vi ali. Da mesma forma. Aterrorizado. Ela me deu toda sua sinceridade.

Mais do que nunca sei como é não ter seus sentimentos mais sinceros e profundos não correspondidos. Dói. Machuca. Fere. Magoa. Entristece. Não queria que ela sentisse aquilo que eu estava sentindo, por isso, quando dei por mim havia aceitado toda aquela loucura e dito que lhe daria uma chance.

Não sabia exatamente o que estava fazendo. Apenas que eu tinha comprado uma bela encrenca. Só que Yamato Ishida é um homem de palavra. Nunca volto atrás em minhas decisões. Eu precisava esquecê-la e não podia machucar Hikari.

Continua...