Cap.1 – Aquela Velha Lua de Sempre
- Andreas...
- Oi Jane. – Eu não mostrei minha imensa alegria em finalmente encontra-lo depois de tanto tempo, nem parecia a mesma pessoa que, ha poucos minutos atrás, estava rondando os corredores a procura de sua figura. Não precisava fingir agora, estávamos sozinhos, éramos apenas nós dois na imensidão do corredor mal iluminado e de suas paredes de pedras irregulares, mas mesmo assim, sozinha na presença dele, eu ainda controlava meus impulsos, talvez não controlasse tanto se não fosse a primeira vez que estivéssemos nos vendo. Além de gostar de manter nosso baile de máscaras, outra coisa ainda me incomodava. O medo da rejeição. E se jogasse meus braços ao redor de seu pescoço e meus lábios na direção dos seus, como sonhei em fazer durante todo esse tempo, e ele se afastasse? E se dissesse que as coisas mudaram? Eu era uma Volturi, não me sujeitaria a essa vergonha. Agora me sentia assim, ansiosa, nervosa, quase tremula, se é que uma vampira pode se sentir assim.
- Como foi de viagem? – Eu perguntei formalmente, precisávamos manter as aparências para as pinturas, mesmo que elas e todas as outras coisas, vivas ou não vivas do castelo, soubessem sobre nós dois.
- Cansativa como sempre. – Ele me respondeu sem emoção. – Onde estava indo?
- Caminhando apenas...
- Quer companhia? – Eu ponderei por alguns instantes e encolhi os ombros de maneira displicente.
- Como quiser... – Vi os cantos dos seus lábios se curvarem em um sorriso satisfeito e juntos começamos a caminhar, ele com as mãos juntas nas costas e eu com os passos tão monótonos quanto antes, mas com o coração certamente mais leve. Mantínhamos uma certa distancia um do outro, caminhávamos ombro a ombro, como disse antes eu não gostava de me expor e ele era discreto e inteligente a ponto de perceber isso, além do mais, gostávamos daquele jogo faz de conta, mas tive que controlar com destreza a vontade crescente de dizer que senti a sua falta bem ali no meio do corredor.
- Como estão as coisas por aqui?
- Como sempre estiveram.
- À luz de velas e silenciosas?
- Ainda se lembra? – Eu provoquei sutilmente.
- Você ficaria surpresa com o que eu me lembro. – Havíamos chegado a outro pequeno hall que dava acesso a mais uma das grandes escadarias da nossa fortaleza. Eu parei próxima do corrimão de mármore polido e me virei de frente para ele, estávamos a uma curta distancia agora. Isso me deu um pouco de coragem, pois ou ele sabia que eu o encararia agora ou havia tido a mesma idéia que eu.
- Eu duvido. – Encarei aqueles olhos escurecidos profundamente, percebi que estavam mais enegrecidos do que imaginava, eu mal conseguia distinguir sua pupila do resto, mas não era isso que eu queria descobrir. Procurei por algo a mais em seu olhar, algum vestígio de suas viagens, alguma pista do que estaria por vir, algum resquício do sentimento que um dia ele havia cultivado por mim. Eu precisava de qualquer coisa que me tirasse daquela tortura em que me encontrava, precisava de algo que me salvasse daquilo.
- Imaginei que duvidaria. – Ele deu apenas mais um passo em minha direção e eu pude me ver refletida naqueles olhos quase negros, pude sentir sua voz fazendo cada centímetro do meu corpo vibrar no mesmo timbre baixo e suave. Será que era essa a pista que eu esperava? – Mas quem sabe posso fazer com que você mude de idéia. – Eu sustentei seu olhar enquanto ele erguia uma das mãos até o meu rosto e contornava, com os dedos frios e longos, as linhas do meu queixo. Seu toque era como um fantasma, ele mantinha as pontas dos dedos próximas da minha pele, mas eu mal podia sentir o frio que emanava dele, era como se ele estivesse apenas acariciando a minha essência, e então aos poucos e bem suavemente senti a ponta de seu polegar tocar meu lábio inferior, como já havia feito tantas vezes antes, e fechei os olhos por alguns instantes aproveitando seu toque ilusório. Minha boca entreabriu-se e mordisquei sua pele gelada e pálida como a minha muito levemente antes de me afastar e subir as escadas.
- Heidi quer se despedir de você. – Eu disse enquanto começava a subir os primeiros degraus da escadaria e fiquei grata por ele não poder ver o modo satisfeito com que eu agora sorria e mordiscava meu próprio lábio. Não olhei para trás, continuei meu trajeto sem rumo, não sabia para onde ir, na verdade nem queria ir a lugar nenhum, queria ficar ali com ele em nosso esconde-esconde, aproveitando seu toque e o timbre da sua voz, mas fazia parte do jogo eu tinha que seguir as regras.
- É sempre bom te ver, Jane. – Ouvi sua voz ecoar pelas paredes, mas mesmo assim não me virei e nem respondi, continuei austera e silenciosa como uma estatua, deslizando sobre o mármore da escadaria, mas com a certeza de que, pelo menos, alguma coisa havia sobrevivido nele. Agora eu só precisava descobrir, exatamente, o que.
No resto do dia não vi nem mais a sombra de Andreas pelo castelo, ele devia estar vagando sem rumo como eu, perdido entre as prateleiras da biblioteca ou então descansando em seu quarto, mas eu queria saber onde exatamente. Tive que frear um impulso de verificar se ele realmente estava nesses lugares que me traziam tantas lembranças, principalmente em seu quarto, mas fui forte e ao final da tarde já estava de volta em meus aposentos na companhia de meus livros e do eco de meus sapatos. Agora eu não parecia mais um animal enjaulado, não estava mais andando de um lado para o outro quarto, nem esticava o pescoço pela janela a cada minuto. Pelo contrário, eu estava deitada em minha cama inútil, sentia o toque macio dos lençóis sob a pele de minhas mãos e encarava o teto esbranquiçado enquanto me lembrava do encontro com Andreas no hall e tentava descobrir se aquilo realmente havia significado que algo ainda estava vivo dentro dele. Aquilo foi alguma coisa, certamente, mas o que? Uma provocação? Um jogo? Uma verdade? Uma dúvida havia dado lugar a outra e eu não me via em melhor posição do que estava quando deixei Heidi e Alec.
Ouvi uma batida muito sutil e quando inaudível em minha porta, me sentei em um movimento e esperei alguns instantes até que a adrenalina me deixasse em paz. Dessa vez não tentei adivinhar quem era, talvez porque desejava que fosse ele. – Quem é?
- Sou eu. – Deixei os ombros caírem, decepcionada. Caminhei sem pressa até a pesada porta da mogno e girei a maçaneta silenciosamente.
- O que foi, Alec?
- Aro quer todos reunidos no salão.
- Agora?
- Sim.
- Está bem. – Ele abriu espaço para que eu saísse do quarto e logo estávamos os dois caminhando lado a lado pelos corredores novamente. Eu não havia esquecido de seu comentário infantil enquanto conversava com Heidi, só ainda não tinha escolhido uma vingança a altura ainda, mas eu não tinha pressa, Alec não iria a lugar nenhum.
- Encontrou Andreas? – Ele iria começar outra vez. Acho que não importa quantas décadas vivamos juntos sem envelhecer, irmãos sempre seriam irmãos. Eu não respondi de fato, apenas murmurei um sim. – Como foi? – Me senti tentada a causar-lhe algum tipo de dor, quem sabe usar meu dom, mas me contive, não iria perder esse jogo. – Está fazendo força para não me ouvir?
- Sim, estou.
- Por que?
A grande e maciça porta de ébano já estava próxima agora e logo Alec seria obrigado a parar com suas perguntas irritantes, então eu me permiti uma simples e honesta reposta. - Porque você não está dizendo nada de útil, Alec. – Precipitei a mão para a maçaneta antes que Alec pudesse dizer outra coisa, mas antes que pudesse realmente tocar o metal prateado a porta se abriu e eu reconheci Demetri do outro lado.
- Estamos atrasados? – Perguntei enquanto passava pelo espaço que ele havia deixado.
- Ainda não começamos. – Quando entramos, Alec e eu, a sala estava exatamente como eu havia imaginado. Silenciosa, quase congelada no tempo, ninguém falava, ninguém respirava e a única coisa que se movia eram as chamas que dançavam na lareira, que ficava acesa praticamente vinte e quatro horas por dia para fins exclusivamente decorativos e as vezes para iluminação. É claro que em minha imaginação Andreas estava lá, sentado em uma das poltronas ou próximo da janela, no lugar que agora Alec tomava para si, mas ele não estava lá, nem ele e nem Heidi. Me lembrei de como seus olhos estavam hoje quando o encontrei, talvez ele tivesse se juntado a Heidi na caçada, afinal de contas ele precisava se alimentar antes que virasse uma besta faminta e sedenta atacando humanos a torto e a direito e ela precisava nos alimentar.
- Ah sim, que bom. – Eu respondi enquanto tomava meu lugar, ao lado de Felix, no semi circulo formado ao redor da lareira. Olhei de um rosto fantasmagórico para o outro, todos mais pálidos do que de costume e com sombras bruxuleantes dançando em seus rostos. Olhei para Aro sentado em uma das poltronas de estofado vermelho com o grandalhão Felix de pé ao seu lado. Caius estava de pé ao lado da lareira e Marcus a seu lado na outra extremidade, ambos em seus ternos pretos impecáveis. Senti um desanimo baixar sobre o meu peito e, de repente, nada do que ia ser colocado em pauta ali naquela sala fazia importância, mas me forcei a prestar atenção, afinal de contas eu era um membro da guarda e qualquer coisa dita ali me dizia respeito.
Todos voltaram seus olhos para Aro, eu inclusive. Ele tinha os dedos das mãos entrelaçados e tocava a ponta do nariz fino e longo com os polegares. Todos em silencio esperando que algo mais fosse ouvido além do crepitar do fogo. Todos nós, a nata dos Volturi, reunidos em volta do líder, esperando que ele resolvesse começar a falar. Ninguém o encorajou, ninguém se atreveu. Sabíamos que Aro sempre tinha a primeira e única palavra nessas reuniões, se alguém podia dizer algo a mais, esses eram Caius e Marcus, mas nós da guarda, nunca. Todos esperando. Seis estátuas de mármore vestindo de Armani a Gucci. Seis estátuas que sobreviveram intactas ao tempo.
E então, finalmente, Aro abriu a boca lentamente e falou naquele tom de voz quase sussurrado que lhe era peculiar. – Como já devem saber Heidi e Andreas voltaram vitoriosos. – E ficou em silencio novamente, nós todos continuamos imóveis. – Mas não foi esse o motivo pelo qual os chamei aqui. – Ele fez mais uma pausa e encarou as chamas alaranjadas da lareira demoradamente antes de voltar a falar. - São cada vez mais freqüentes esses casos de vampiros aparecendo na luz do dia e quebrando claramente nossas regras. Isso é inadmissível. Não podemos arriscar colocar nossa existência em risco.
- E o que sugere além do que já fazemos? – Caius perguntou.
- Intolerância. – E eu percebi seus olhos brilharem ainda mais do que as labaredas alaranjadas. – Exibiremos os que ousarem violar nossas leis, os usaremos de exemplo.
- Já fazemos isso, Aro.
- Então seremos mais extremos, até que todos os vampiros temam o destino que virá até eles se não seguirem as leis.
- Você propõe uma ditadura?
Aro soltou uma risada rouca e incrédula. – Não, meu caro Caius, todos nós já vivemos tempo o suficiente para aprender que ditaduras nunca duram para sempre. O que eu proponho é que controlemos qualquer tentativa de aparição, voluntária ou não.
- Controlemos?
- Aniquilemos, o que se encaixar melhor na frase. Não podemos mais ser tolerantes, pois o que está em jogo aqui e nossa existência e de todos os outros vampiros e os transgressores serão punidos e servirão de exemplo.
- Como devemos prosseguir então?
- Aumentem a guarda. Cubram mais territórios. Matem todos que nos desrespeitarem. – Caius, Aro e Marcus continuavam sua conversa, mas nós da guarda nos mantínhamos calados. Não deveríamos dar nossas opiniões quanto aquilo, éramos apenas soldados, seguiríamos qualquer regra que nos fosse dada, mas quais seriam essas regras não era de nossa escolha. Aquilo era um assunto de líderes, um assunto dos três.
- Não perguntem, não investiguem, não pensem. Apenas matem quem, querendo ou não, der o passo errado? – Caius perguntou e Aro apenas sorriu suavemente e afirmou com a cabeça. Caius e Marcus se olharam, deviam ter trocado algumas palavras mentalmente, mas nada foi dito durante alguns longos minutos. Então finalmente Caius disse. – Está bem. O que temos em mente aqui é o futuro de nossa espécie.
- Quaisquer meios necessários. – Aro disse.
- Quaisquer meios necessários... – Caius repetiu como se quisesse dar mais força a afirmação de Aro. – Traçaremos o plano. Estão dispensados por hora. – E com um movimento de sua mão translúcida nós fomos liberados de nossas amarras invisíves, nos despedimos com reverencias e, um a um, passamos pela porta que Felix mantinha aberta. Não sei porque insistiam em nos chamar para essas reuniões, nunca dizíamos nada, é claro que nunca queríamos dizer algo, as decisões, os porquês e os comos não eram de nossa conta, nós apenas executávamos o plano e protegíamos nossa fortaleza, e era exatamente por isso que nossa presença ali era totalmente inútil. Aro, Caius e Marcus podiam perfeitamente bem tomarem suas decisões e nos comunicarem depois, mas talvez fizessem isso para que nos sentimos parte de algo, como se já não fossemos...
Felix foi o último a sair e fechou a porta atrás de si, juntos caminhamos tranqüilamente pelos corredores. Não tínhamos destino, também não tínhamos combinado nada, mas íamos juntos até o local onde cada um poderia tomar seu próprio caminho. Eu ainda não tinha notícias de Andreas, devia estar caçando, com Heidi, sozinho, depois de uma longa viagem de dois anos a seu lado. Sacudi a cabeça afastando esses pensamentos incômodos da minha cabeça e me concentrei no murmúrio de vozes que se iniciava a minha frente.
- Parece que vamos ter mais ação. – Demetri disse enquanto nos aproximávamos da escadaria.
- Vai ser um bom exercício no mínimo. Estamos precisando de algum movimento por aqui. – Felix respondeu. Alec também fez alguns comentários, todos inúteis como era digno de sua pessoa, mas eu me mantive calada. Nada do que foi dito por Aro e Caius, e pensado por Marcus, devia ser comentado ou discutido, foi uma ordem direta dos líderes e iria ser acatada como tal. Eu poderia ter feito algum comentário, verbalizado meus pensamentos, ou até mesmo aproveitado suas companhias me silencio, mas eu não queria, não fazia diferença para mim. Então subi para meu quarto tão lentamente quanto quando havia descido com Alec, não tinha pressa, não mais, pelo menos. Meu plano para a noite estava traçado, eu iria para o meu quarto, leria alguns livros, deitaria na cama e encararia o teto, esperaria até que o dia nascesse para recomeçar a minha rotina infinita. Os outros logo deveriam fazer o mesmo e então ficariamos cada um em nossos respectivos quartos, uns lendo, outros jogando baralho, outros fazendo tricô, eu não fazia idéia, mas também não me importava. Suas ocupações, para mim, eram tão sem irrelevantes quanto suas presenças e não me diziam respeito, assim como as minhas não diziam a eles. Mas havia uma pessoa por quem eu daria tudo para descobrir onde estava e o que estava fazendo.
Fechei a pesada porta de madeira de meu quarto e encarei os móveis escuros, pareciam comigo durante a reunião de antes, silenciosos, mas confiantes. Confiantes... bem, talvez não fossemos tão parecidos assim. Retirei a túnica e a deixei pendurada no encosto de uma das cadeiras, soltei meus cabelos do elegante coque em que estavam presos os deixando cair sobre meus ombros e pescoço, e voltei a me debruçar sobre a janela, agora tinha mais liberdade, não precisava temer a luz do Sol e pude colocar meio corpo para fora enquanto apoiava os braços no para peito, mas mesmo assim não havia nem sombra dele pelo pátio. Aquilo era ridículo, eu sabia, mas não conseguia evitar, foram dois anos e eu havia sentido tanto a sua falta.
Me afastei da janela e comecei a abrir meu vestido lentamente, me perdendo em pensamentos mais e mais a cada botão que saía de sua casa. Mas não eram as novas ordens de Aro, Marcus e Caius ou a nova posição inflexível que assumiríamos dali em diante, que dominava meus pensamentos, essa posição ainda pertencia a Andreas. Talvez amanha conseguisse ponderar sobre a possível chacina que estaria por vir ou sobre a possível mudança de alguns de nós, eu inclusive, para as novas aldeias, mas aquela noite era dele. Senti a camurça do vestido roçar em meus tornozelos quando soltei o último botão, me deitaria de lingerie mesmo, claro que não dormiria, vampiros não precisavam disso, nem sei porque tínhamos camas no mínimo gigantescas em cada um dos quarto, mas precisava pensar talvez até mais do que costumava fazer nas outras noites. Mesmo assim, antes de encarar o teto acinzentado e me perder em um mundo só meu, resolvi dar uma ultima olhada pela janela, voltei a apoiar as mãos no parapeito e inclinar o corpo, agora semi nú, para fora. Nada havia mudado, a brisa suave ainda empurrava meus cabelos para fora do rosto e o pátio ainda estava tão silencioso quanto antes, mas naquele momento eu não podia mais dizer o mesmo do interior do quarto.
Enquanto estava apoiada na janela tentando distinguir algum movimento na massa de sombras e escuridão, falhei em perceber que a forma que eu esperava ver cruzando pátio estava ali mesmo, nas sombras do meu quarto esperando o momento de atacar a sua presa. Não percebi a sua aproximação fosse por estar muito concentrada em olhar pela janela ou porque ele era silencioso demais até mesmo para um vampiro, mas quando senti a ponta de seus dedos encostarem na pele do meu abdome não me assustei, conhecia o seu toque e conseguiria distingui-lo de qualquer outro. Ele deu apenas mais um passo em direção ao meu corpo, eu pude sentir o tecido de seu paletó encostava suavemente em minhas costas e a sua essência de inverno me intoxicava os sentidos de tal maneira que eu precisei me apoiar em seu corpo para recobrar a consciência do que estava acontecendo e a força em meus joelhos. É provável que ele tivesse percebido essa minha alteração peculiar e, apesar de não conseguir vê-lo naquele momento, poderia apostar minha vida imortal que estava sorrindo satisfeito.
Senti a ponta de seu nariz encostar em meus cabelos e seus lábios tocarem, ocasionalmente, minha orelha enquanto tentava conter o sutil tremor que ameaçou me subir pelos joelhos e se espalhar por todo o meu corpo quando escutei sua voz macia assim próxima de mim. - Estava procurando alguém?
- Ninguém importante. – Respondi indiferente ao turbilhão de sensações e de sentimentos que ele estava me causando naquela hora. A verdade era que eu ainda estava em uma fase de reconhecimento, não tinha certeza se ele ainda nutria sentimentos por mim ou se havia outra pessoa em sua vida, é certo que vampiros não são seres poligâmicos, mas também é certo que surpresas podem acontecer todos os dias, inclusive e ainda mais, em uma vida imortal e suas ações naquele momento não me revelavam nada de suas intenções além de uma única e simples verdade: sexo.
- Não estou interrompendo nada então... – Seus lábios não estavam mais tão próximos de minha orelha como antes, ele havia erguido um pouco a cabeça e agora, com as pontas dos dedos, punha delicadamente meus cabelos para o lado, em seguida senti seu polegar tocar minha nuca enquanto seus outros longos dedos deslizavam pelo meu queixo e forçavam gentilmente meu rosto para o lado expondo totalmente a pele extremamente pálida de meu pescoço. – ...nenhum compromisso noturno? – Semi-nua, mal conseguindo manter meus joelhos firmes e totalmente entregue àquele vulto, eu nunca estive assim tão indefesa em toda minha imortalidade. De um jeito ou de outro Andreas sempre seria mais forte do que eu, mas o que me impelia a continuar não era sua força, o modo como corria os dedos pela minha barriga ou seus lábios que agora roçavam e mordiscavam meu pescoço lentamente, era eu mesma e toda a falta que havia sentido de sua presença durante o tempo em que estivemos separados.
Eu fechei os olhos e me concentrei na sensação de sua boca contra a minha pele e nos arrepios que agora subiam e desciam pela minha coluna livremente, estava ciente de que não passava de uma boneca de pano em seus braços tamanho era o meu torpor e é claro que isso apenas dificultou minha missão de continuar com seu jogo de perguntas e respostas. – Talvez esteja. – E então suas mãos afrouxaram seu abraço em volta de meu corpo e eu senti um frio inexplicável me dominar mais rapidamente do que qualquer coisa, o que era um tanto ridículo para uma vampira.
Pela primeira vez olhei por cima do ombro e encontrei seus olhos avermelhados brilhando estranhamente em minha direção. Não era um brilho de fome, era algo mais selvagem, mais profundo do que a sede por humanos. Seria a sede por mim? Seria o que eu estava procurando desde que ouvi que ele estava de volta? Ficamos daquele jeito por mais alguns segundos que pareciam intermináveis, eu o estudava e ele me encarava de uma maneira tão inexpressiva quanto seria possível e então, finalmente, ele sussurrou tão próximo de minha boca que eu quase pude sentir seus lábios tocarem os meus. – Quer que eu vá embora? – Tive que piscar os olhos lentamente para disfarçar meu torpor e recobrar a linha de pensamentos, e quando voltei a abri-los novamente encontrei uma expressão de seriedade misturada com insegurança sobre os traços bem delineados que formavam o rosto de Andreas. Eu mesma fiquei confusa, será que ele realmente havia acreditado no que eu acabara de dizer? Era ridículo, era obvio que ele era quem eu estava esperando, mas acredito que aquilo fazia parte de seu jogo mesmo que sua dúvida fosse muito convincente.
Seus braços em volta do meu corpo me deram espaço para que eu me movimentasse até ficar de frente para ele. Andreas não era o mais alto da guarda, essa posição eu imagino que ficasse para Felix, ele devia ser da mesma altura que Aro, mas ainda assim era alguns bons centímetros mais alto do que eu de modo que o topo de minha cabeça alcançasse a linha de seu maxilar. Nos encaramos por mais um breve momento, eu com os olhos levemente erguidos e ele com o rosto inclinado em minha direção. Eu estava hipnotizada de um modo que poucos vampiros podiam afirmar que haviam sido e eu sabia que aquela sensação não vinha de seus poderes. No meio do meu turbilhão de sensações minhas mãos começaram a trilharem seus caminhos por seu tórax, deslizando pelo tecido elegante de seu terno preto. Meus olhos finalmente deixaram os seus e se fixaram no contraste gritante que minhas mãos pálidas causavam contra o tecido de suas roupas, nada era dito e eu sabia que seus olhos apenas me fitavam como estava a fazer antes. Eu não sentia sua pele fria por baixo das roupas, acredito que tínhamos a mesma temperatura, claro, mas conseguia sentir a solidez de seu corpo e tive a certeza que a falta que eu imaginei ter sentido dele era, na realidade, muito maior.
Cuidadosamente, mas enorme destreza, minhas mãos começaram a abrir os botões de sua camisa um a um, não havia motivos para embaraço, já havia feito aquilo milhares de vezes antes, já conhecia a tonalidade de sua pele de mármore e as linhas de tórax bem desenhado. Não havia nada de novo, fisicamente, quando terminei com o último botão e encostei minhas mãos em seu abdome nu, a pele dura e lisa ainda era a mesma enquanto eu corria as pontas de meus dedos até seus ombros e o livrava daquela quantidade desnecessária de roupa para o momento, mas havia algo novo, emocionalmente, se é que um vampiro pode se dar ao luxo de ter emoções como essas. Havia a saudade que sentia daquele toque e a satisfação de te-lo outra vez, e a certeza de que ela era muito maior do que eu poderia ter imaginado. Ele ainda me encarava esperando pela minha resposta obvia, mas eu estava distraída demais em sentir todo peso daqueles dois anos amontoados no chão ao lado de suas roupas e contente demais por minha memória não ter esquecido nem ao menos um detalhe de seu corpo.
Ficamos daquele modo em silencio por alguns instantes apenas apreciando a presença um do outro, ele não se moveu, não tentou apressar algo que já era obviamente iminente, parecia querer prolongar o momento tanto quanto eu e isso me deu algum conforto. Isso me lembrou o motivo pelo qual Andreas me encantava. Ele me conhecia, sabia que as vezes meu orgulho conseguia ser maior do que qualquer coisa e que nos momentos mais inoportunos eu nunca daria meu braço a torcer. Eu lhe devia uma resposta naquele momento, mas não sentia que ela estivesse chegando a qualquer momento e ele sabia disso então não disse mais nenhuma palavra, apenas segurou meu rosto em suas mãos duras e puxou meu rosto até o seu até que nossas bocas se encontrassem.
Ao contrário da sutileza que carregava seu toque de antes, o beijo de agora era um tanto firme e quase faminto, mas eu não me importava. Joguei meus braços ao redor de seu pescoço e retribui o beijo da mesma maneira, talvez estivesse sendo até mesmo mais sedenta por aquele toque do que ele próprio. Algo dentro de mim parecia finalmente estar começando a se saciar, uma sede que humano nenhum poderia acalmar, que sangue nenhum silenciaria, uma sede por ele, pelo gosto que agora tomava minha boca e que eu ansiava a tempos. Seu corpo me pressionava contra a parede de pedras e minhas mãos se segurava em sua nuca como se minha vida dependesse disso, e eu diria que talvez até dependesse se não soasse tão piegas.
Nada havia mudado muito desde ele aparecera em meu quarto naquela noite, ele ainda sempre seria mais forte do que eu e eu ainda parecia uma boneca de pano extremamente maleável e obediente em suas mãos, tanto que não era mais dona de meus próprios movimentos. Andreas já havia me levantado pelos quadris e me pressionava com tanta força contra a parede que eu tinha a nítida impressão que as pedras irregulares iriam perfurar minhas costas a qualquer momento, mas eu não me importava, não estava reclamando, é lógico que não. Eu não tinha mais controle sobre os espasmos que a sensação dele lançava pelo meu corpo e nem sobre minhas ações, a única coisa que eu conseguia ainda ter algum controle era a ardência que tomava conta de mim, ardência por ele e essa eu fazia questão que crescesse a cada segundo que tinha o seu corpo gélido no meu. Eu estava completamente entregue a ele, completamente dominada pela sensação dele e aos poucos meu quarto foi perdendo as formas. Era como se o mundo tivesse começado a girar freneticamente e de repente fossemos as únicas pessoas que houvessem restado na face do planeta, não havia mais castelo de pedras irregulares, não havia mais Ordem ou líderes, éramos apenas Andreas e eu escorados um no outro, pressionados contra um muro sólido e invisível.
E então, aos poucos, o quarto foi retomando seu lugar de direito, os móveis voltaram a se posicionar contra as paredes e o mundo se repovoou novamente. Meus olhos ainda estavam fechados, mas eu conseguia sentir a leveza dos movimentos de Andreas enquanto ele me levava, ainda suspensa em seus braços, até a cama. O colchão macio me recebeu de bom grado se moldando às formas de meu corpo completamente nu. Meus olhos ainda estavam fechados enquanto eu me recuperava da exaustão que me dominava, era uma sensação tão diferente de quando era humana. Era algo parecido como a sede que nos visitava de tempos em tempos, era um tremor quase de necessidade, mas que após algum tempo sumia, diferente das vezes em que era realmente fome e diferente também da sensação que era para os humanos. O colchão ao meu lado cedeu sob o peso de Andreas, mas eu só foi encara-lo novamente quando senti seus dedos deslizarem pela minha coluna no local onde a pedra estivera quase perfurando seu caminho. Seus lábios se aproximaram de meu rosto me dando um beijo carinhoso perto de meu ouvido. – Isso poderia ter deixado uma marca.
Abri os olhos finalmente encarando aquele olhar que fazia até meus ossos derreterem e mencionei a marca pálida que meus dentes haviam deixado em seu ombro direito. – Isso também. – Ele olhou para a marca e depois para mim outra vez.
- E seriamos obrigados a lembrar um do outro para sempre. Já imaginou como isso seria terrível?
- Não gosto nem de pensar. – Pisquei vagarosamente sentindo a sensação de fome abandonando meu corpo aos poucos. Ele riu baixo fazendo cada célula de meu corpo vibrar no mesmo timbre e eu me encolhi como se quisesse impedir que aquela vibração me deixasse. O silencio reinou em meu quarto novamente, estava demasiado escuro, mas eu ainda conseguia distinguir perfeitamente seus traços perfeitos sob a luz da Lua que entrava pela minha janela. Sua mão havia parado de acariciar minhas costas e agora só estava pousada ali, tomando uma estância protetora para deixar bem claro aos meus móveis e livros que ele era o meu dono, mas eu gostava daquilo. Afinal de contas, ele realmente era.
- Senti sua falta, Jane. – Eu o encarei com medo de que aquilo tivesse sido invenção de minha mente, com medo de que depois daquilo se seguissem outras palavras que eu não queria ouvir. Mas mesmo assim não segurei meu impulso de perguntar.
- Mas...? – O encorajei a continuar.
Ele deu de ombros rapidamente. – Mas, nada. – Ele inclinou a cabeça me observando mais atentamente. – Está esperando por uma notícia ruim?
Eu fixei meus olhos em algum local das cobertas que cobriam o colchão macio e que, agora, se enrugavam sob o nosso peso. – Talvez... – murmurei quase sem mover meus lábios.
- Que tipo de notícia?
- Qualquer tipo de notícia.
- Me de um exemplo. – Eu fiquei em silencio, não queria tocar nesse assunto, não sei se meu orgulho permitiria. Então percebi seu rosto se aproximando novamente e espalhando alguns beijos muito suaves pelo meu rosto, seus lábios eram mais macios do que seria esperado de um vampiro e eu fiz o possível para aproveitar cada um deles. – Não consigo ler sua mente, Jane. – Ele disse me encorajando a continuar como eu havia feito alguns segundos antes.
- Uma notícia ruim, Andreas. – Eu disse ríspida e dando ênfase em seu nome. Uma outra pessoa poderia ter ficado ressentida com meu tom, mas ele não, aquilo parecia diverti-lo e ele apenas me exibiu o sorriso que eu havia esperado tanto para ver.
- Eu não consigo ler a sua mente, Jane. – Ele me lembrou.
- Coisa pela qual eu agradeço muito. – Ele riu mais uma vez.
- Pelo menos saberia do que você está falando agora. Me pouparia muitas perguntas.
- Eu não disse que você poderia fazer perguntas. – Era a minha vez de lembra-lo de algo.
- Mas não disse que eu não poderia tentar adivinhar.
- Estou dizendo agora.
- Mas você sabe que eu vou tentar mesmo assim. – Eu sabia e meu maior receio era que a chance de ele acertar eram gigantescas. Eu estava preocupada agora, e se acertasse? E se descobrisse que eu estava com medo que ele tivesse me trocado por alguém, por outra vampira, por Heidi, ou então, por uma humana e que fosse me deixar novamente? E se o que tínhamos acabado de fazer ali fosse apenas uma despedida amistosa? Eu desmoronaria por dentro tenho certeza. – Tem haver comigo isso é claro. – Ele disse pensando em voz alta. – E deve ter haver com você também. Tem haver com alguém mais? – Eu não respondi, estava decidia a dificultar ao máximo as coisas. – A cada vez que você não me der uma resposta vou encarar como um sim. – Ele anunciou.
- Por que você não pode simplesmente esquecer isso? – Eu disse, cansada.
- Porque algo está te incomodando e eu quero saber o que é.
- Por que? Não é da sua conta.
- Porque eu me importo com você e não gosto quando algo te perturba. – Ele devia estar esperando alguma reposta birrenta da minha parte, mas eu apenas o encarei em silencio, eu estava sem defesas. – Gosto de cuidar de você, Jane. E tenho que cuidar porque você é minha e porque encontrar você foi a melhor coisa que a Ordem me trouxe. – E lá estava eu completamente derretida e sem reação diante daqueles traços perfeitos e daqueles olhos serenos que me tiravam o equilíbrio todas as vezes. Ele me estudou cautelosamente enquanto deslizava os dedos pelo meu rosto. Eu não disse uma única palavras, apenas aproximei-me dele e plantei um beijo em seu ombro nu enquanto me aninhava em seu peito de pedra, por um momento desejei poder adormecer só pela sensação de acordar embalada por ele, mas era só um desejo sem sentido, nunca trocaria minha imortalidade. – Ainda tem algo te incomodando?
- Não... – Sussurrei de volta contra a pele de seu pescoço.
Senti seus lábios tocando meus cabelos e finalmente ouvi a única coisa que realmente fazia meu mundo girar mais devagar. – Eu te amo, Jane. – Eu não respondi, não precisava. Apenas fechei meus olhos e fiquei em silencio aproveitando sua presença e seu afago em meu corpo. Agora sentia vergonha da minha própria insegurança e ele certamente já sabia o que era a notícia ruim da qual eu tinha tanto medo, mas não me importava. Como eu havia dito, o que eu mais adorava em Andreas era o modo como ele me conhecia e entendia que palavras nem sempre traduziam tudo o que eu sentia. O que eu mais amava nele era o modo como ele me permitia permanecer em silencio quando os outros exigiam uma resposta. Ele pertencia a mim assim como eu a ele, nós sabíamos disso e nada mais precisava ser dito sob aquela velha Lua de sempre. Afinal de contas, ela também sabia.
