Escrita por Rhysenn
Traduzida e Revisada por Designer J
Capítulo2 - Fragmentado
O amor é algo muito fragmentado
Harry acordou tarde na manhã seguinte e se esqueceu dos acontecimentos da noite anterior, entretanto se apressava em descer para o café da manhã para ir às aulas. Só quando entrou nas masmorras para a aula dupla de Poções com os sonserinos, veio a sua memória o ocorrido, ao ver entrar Malfoy tranqüilamente e dirigir-se até o outro lado do salão.
Semicerrou os olhos enquanto o observava, mas o louro nunca se voltava para olha-lo. Era como se nada tivesse acontecido, enquanto que Harry intuía que algo havia mudado entre eles: a falta da usual e franca hostilidade, a ausência dos sorrisos carregados de desprezo, tudo o que se passava em todas as aulas de Poções.
Definitivamente algo estava diferente.
Conforme o final da aula se aproximava, Ron deu uma cutucada em Harry quando Snape deu-lhes as costas. "Quase terminou a aula e Malfoy não tentou sabotar nossas poções ou de fazer explodir o nosso caldeirão nem uma única vez". Dirigiu-lhe um olhar suspeito através do salão para Malfoy "O será que aconteceu?"
Harry estava a ponto de contar para Ron o ocorrido da noite anterior, mas suspeitou que seu amigo poderia armar um escândalo apocalíptico justo ali na sala, acho melhor não o fazer. Quem sabe depois.
Encolheu os ombros com tanta indiferença como pôde e replicou convincente, "não sei o que aconteceu".
"Melhor não falarmos antes do tempo," disse sombrio Ron "a aula não acabou".
Minutos depois soou a campainha e concluiu-se a mais estranha, a mais tranqüila aula de Poções que Harry podia recordar. Seus pensamentos se desviaram para a lembrança de Malfoy o beijando, mas rapidamente controlou-se. Isso era o que devia fazer para não lembrá-lo durante muito tempo, de preferência até depois de morto.
Mas, por que não parecia ser capaz de esquecê-lo?
No outro lado da sala, Draco se encontrava juntando seus livros e limpando seu caldeirão, mantendo os olhos à parte todo o tempo, sentindo o peso do olhar inquisitivo de Harry. Sabia que o grifinório havia estado o olhando furtivamente durante toda a aula, mas tão covarde como pudesse parecer, não havia se atrevido a levantar o olhar, simplesmente porque não estava seguro do que poderia fazer se o visse.
Descobriu que estava mais sensível às emoções de Harry e perguntou-se se era devido à poção, ou se somente era que nunca havia se dado conta do quão expressivo era o outro garoto. Podia sentir a tensão que reinava entre eles, o suave desconcerto no olhar de Harry cada vez que o via de relance, e que trazia ao seu corpo um fugaz e estranho calor.
E quando Harry deixou as masmorras, acompanhado de Weasley e Granger, Draco experimentou o mesmo sentimento outra vez, uma ânsia contida que crescia cada vez mais enquanto os passos do outro garoto de afastavam, arrancando implacavelmente seu coração...
Frustrado golpeou a mesa e uma garrafa com bílis de tatu caiu. Não se importou; apoiou a face entre as mãos, que agora estavam tremendo e banhadas de suor frio. Mas estava ali, esse – esse sentimento.
Tratou de esquece-lo. Na noite anterior quando se deu conta de qual era a poção que realmente havia bebido, havia ficado vomitando por quase uma hora, tentando tirar a maior quantidade de seu corpo possível da bebida.
Mas ali permanecia. Em seu sangue, correndo em suas veias como gelo prateado.
Agarrando com fúria sua mochila, Draco saiu da sala sem fazer caso dos gritos de Crabble e Goyle que lhe pediam que os esperasse.
Durante à tarde daquele dia, Draco finalmente se dispôs a encarar Harry, quando este se dirigia ao treino de Quadribol. Abordou-o quando chegou a um canto do caminho da sala onde se guardavam as vassouras.
A surpresa inicial de Harry deu passagem a um gesto de astuto reconhecimento. "O que quer, Malfoy?"
Draco ignorou a repentina tempestade de sangue em sua cabeça e fixou um olhar em Harry. "Eu preciso falar contigo." Olhou ansioso por sobre seu ombro ao ouvir vozes aproximarem-se e adicionou, "Em particular."
"Para quê? Para que possa me fazer obscenidades outra vez?", perguntou Harry friamente, retrocedendo um passo e olhando Draco com suspeita.
Draco apertou os punhos e um tênue rubor cobriu suas faces. "Aproveitei tanto quanto tu, Potter," disse-o entre dentes, com uma nota de desgosto.
"De verdade? Nada poderia me fazer o imaginar." Disse Harry com o mesmo tom de voz.
"Cala a boca, Potter", soltou Draco e mordeu o lábio com força, tratando de concentrar seus pensamentos nos pensamentos que batiam em sua cabeça, como ondas rompendo. "Foi um maldito erro." Enfatizou cada palavra. Um terrível, terrível erro.
Harry olhou-o de soslaio. "E vieste pedir desculpas?"
"Não." Respondeu automaticamente Draco e viu como se endurecia o olhar de Harry.
"Bom, maldito seja, deverias se desculpar." Se ergueu, era quase da mesma estatura que Draco, mas seu crescente aborrecimento o fez parecer mais alto. "Não tinhas direito de fazer o que fizeste, e - "
"Oh, quanto o sinto," o interrompeu mordaz, sentindo a raiva ferver dentro de si, "deveria ter pedido permissão primeiro. Foi completamente deselegante de minha parte. O terei em mente na próxima vez."
As fossas nasais de Harry se dilataram. "Não haverá próxima vez!" Olhou incrédulo para Draco. "O que aconteceu Malfoy? Até onde recordo, tu me odeias e eu te odeio, e estou de acordo que continue assim!"
Permaneceram se olhando furiosos por um longo momento, sem dizer nada. Harry golpeava impaciente o piso com o pé. Finalmente,
"E então?"
Draco lhe devolveu o olhar feroz. "E então, o que?"
"O que foi aquilo de noite? Estava tentando me afastar? Pois recordo claramente que foi você que saiu correndo com o rabo entre as pernas."
Draco cerrou os olhos. O que menos necessitava nesse momento era uma imagem mental de qualquer coisa entre as pernas de alguém. O exasperante zumbido em sua cabeça não dava sinais de desaparecer, e estava se fazendo mais intenso, como se ao seu redor, estivesse rodeando uma esfera carregada com eletricidade, que estava perturbando seus impulsos nervosos e enviava as mais estranhas sensações por todo seu corpo.
Respirou fundo. "É uma longa história."
"Não, não é. Tu me seguraste e me beijaste. Fim da história, e não é um final feliz, devo acrescentar."
Draco abriu os olhos e de imediato enfrentou àqueles olhos verde-esmeralda profundos, escondidos atrás de um par de lentes, que faziam que o ar se prendesse em sua garganta, deixando-o momentaneamente sem fala.
De qualquer forma, para o que tinha vindo? Confessar toda a situação e ficar como um tonto? De qualquer modo, ele não entenderia. Que esperava que fizesse Potter, quando a verdade era que não havia nada que pudesse fazer nem ele nem ninguém? Para que o procurou então? Por que passou quase todo o dia tratando de encontrar um momento para estar com ele a sós?
Não sabia por quê. De fato, sim sabia e também sabia que tinha que se afastar dele o quanto antes possível.
"Ou esquece-lo." Murmurou e uma expressão de disfarçada frustração assomou-se aos seus olhos ao afastar-se, mas repentinamente uma mão firme o segurou pelo braço e o reteve, mas não pela força contida, sim pelo estremecimento que sacudiu todo seu braço.
Retrocedeu instintivamente afastando-se do contato de Harry, ferido, com um fugaz olhar selvagem nos olhos cinzas.
Harry piscou brevemente surpreendido, antes que uma expressão de determinação delineasse seus olhos. Rodeou Draco bloqueando-lhe o caminho, encurralando-o em um canto do armazém das vassouras.
"Não vai a nenhuma parte até que me dê uma explicação, Malfoy." Sua voz era suave, mas com um tom ameaçador.
Draco lhe dirigiu um olhar retalhador que quase pareceu disfarçar sua confusão interna. "O quê?" o provocou arqueando uma sobrancelha. "De verdade quere que te responda?"
"Sim, porque se não, não é uma ameaça.Ou irei diretamente ao Dumbledore com isto -" meteu a mão no bolso e tirou o frasco vazio, e terás um bom público quando explicares o que estavas fazendo fora do castelo à noite."
Draco fechou a boca e semicerrou os olhos. "Não o faria, porque isso significaria que tu terias que explicar também o que estavas fazendo lá fora." Sorriu desdenhoso, permitindo que uma saudável quantidade de sarcasmo fluísse em suas palavras. "E não creio que nosso Garoto Dourado queira que sua ficha fique manchada por algo assim, não é verdade?"
"O pior que poderia me acontecer seria uma detenção e uma repreensão por andar vagando de noite." Os olhos de Harry brilharam com determinação, que recordou Draco da forma com a qual Harry olhava quando voava atrás do Pomo de Ouro; resoluto, concentrado, quase inumano. Vacilou ligeiramente.
Harry o olhou suspeito, como se pudesse ler seus pensamentos, logo continuou, "Mas tu, tu terás sorte se sair com apenas uma detenção se isto for descoberto." Levantou o frasco novamente, os restos de vermelho vibrante brilharam como raios de sangue contra a luz do sol. "Não sei o que seja isto parece sangue, mas não o é, por que se fosse, neste momento já deveria estar seco. Estou seguro de que Snape estaria interessado em fazer alguns experimentos para averiguar o que é, mesmo que seu entusiasmo caia por terra quando os resultados servirem para incriminar ao seu aluno favorito."
E pela expressão de genuíno medo que cruzou pela face de Draco, uma rara onda de emoção que se incendiou e morreu no que dura um suspiro, Harry supôs que o havia encurralado.
Draco recuperou sua habitual frieza rapidamente. Levantou o olhar desafiante, fazendo uma careta de desprezo para Harry. "Vai então, Potter. Mostra-o a Dumbledore. Talvez poderia ser uma simples brincadeira. Desfrutarei muito te vendo ficar como um idiota."
"Me arriscarei." Disse Harry regressando-lhe o olhar. "Se eu cair, me assegurarei que tu caias comigo." Encarou Draco abertamente, vendo que abaixo da aparente calma, fervia uma grande confusão em seu rosto. "Tu decides, Malfoy."
"Esqueça apenas, Potter." falou Draco com um tom de urgência na voz. "Não queres saber, acredita-me."
"Claro que quero." Harry deu um passo adiante, fogo ardente em jade puro, Draco cerrou os olhos quase com dor. "Tenta-o, por que não?"
"Vai para o diabo Potter -" cuspiu Draco vendo como Harry estava tenso, "posso cuidar disso eu mesmo."
"Como cuidas bem disso! Correndo no meio da noite seminu, beijando as pessoas como um lunático degenerado. Não me interpretes mal, Malfoy, se queres ser um psicopata delirante, por mim não há nem um problema, só não me envolvas nisso."
"Então, não te envolvas." Replicou articulando claramente cada palavra, em seus olhos ardia um estranho brilho. "Gira 180 graus, começa a caminhar e não te detenhas até que chegues a Hogsmeade, o jogue-se no lago, o primeiro que ocorrer. Meu ponto é, apenas vai-te."
"Não até que me digas que diabos está acontecendo." Disse Harry negando-se a ir embora.
Uma pausa, então muito suave, "Não queres saber."
Harry explodiu. "Não me digas o que quero ou não quero saber! Nem sequer -"
"Obviamente não podes ver por ti mesmo, não é verdade?"
"Olha," disse Harry violentamente, empurrando Draco contra a parede. "Se tu me tivesses dado um golpezinho no ombro ou tirado sarro de mim, poderia deixar tudo por isso mesmo. Mas quando unes tua boca a minha, totalmente sem meu consentimento, devo adicionar, se converte em um assunto completamente diferente."
"Que? nunca te haviam beijado assim antes, Potter?" Draco viu um quase imperceptível piscar furioso nos olhos verdes de Harry e seus lábios se curvaram em um sorriso zombador. "Então te fiz um favor, não é?"
Harry se via um pouco nauseado. "Se consideras que me beijar é um favor Malfoy, então não quero estar em dívida contigo nunca."
Draco sorriu astuto e a crescente tensão entre eles se aliviou um pouco. "Se estivesses em dívida comigo Potter, acredita-me, te faria muito mais que isso."
Harry agora se via enraivecido. "Oh, cala-te e deixa de rodeios Malfoy. Estou esperando."
O sorriso de Draco se inflou. "Que? Outro...?"
"Tua explicação," Harry se apressou a interrompê-lo, retrocedendo um passo, observou Draco com algo mais que uma suspeita. "Que diabos te acontece? Por que anda tão beijoqueiro de repente?"
Desmanchou-se o sorriso do rosto de Draco e a hostilidade reapareceu instantaneamente. "Não sou um beijoqueiro." Disse mordaz.
"Está bem, então creio que a descrição 'tarado' basta." Harry sorriu vitorioso quando viu os olhos de Draco escurecerem-se e continuou, "É assim como consegues agir Malfoy? Perambulando meio vestido por aí e caindo sobre vítimas desprevenidas?"
"Isso é brilhante, vindo de alguém que nem sequer havia beijado antes." Nos olhos de Draco se assomou uma ira crescente. "E que dizes de ti Potter? Que estavas fazendo tu na Floresta?"
Justo então Draco se deu conta que o aborrecente zumbido de sua cabeça se havia acalmado e não o havia notado porque estava absorto falando com Harry. Então, outra vez, uma parte de sua mente lhe disse que se havia acalmado, porque havia estado falando com Harry durante os últimos cinco minutos, a menos de dois passos de distância dele.
"Esse não é o ponto neste momento, ou é?" os olhos de Harry emitiram um brilho cor de jade, refletindo a luz do crepúsculo. "Desabafa, Malfoy, quero saber."
Draco o olhou nos olhos, relutante e desesperado ao mesmo tempo. "É complicado."
"Já disseste isso antes e é uma desculpa pobre. Estás insultando à minha inteligência."
"De certo te tomou muito tempo ter essa conclusão." Replicou Draco placidamente. "Isso confirma meu ponto."
Mas podia sentir que sua determinação fraquejava, que seus mordazes comentários perdiam força, se tornavam obsoletos, e tudo isto entretanto gerava evasivas, buscando uma forma de explicá-lo e não encontrava nem uma. De repente se sentiu cansado, como se estivesse agüentando um espirro difícil de soltar, sentia uma torrente de lágrimas ameaçando cair de seus olhos, e tudo isso o estava desgastando.
A boca de Harry se tornou uma delgada linha de astuta determinação. "Falar contigo é como tentar tirar sangue de uma pedra." Retrocedeu um passo mais, movendo a cabeça aborrecido. "Esquece, quem sabe Dumbledore seja capaz de obter respostas mais claras de ti."
Harry tentou sair, mas Draco o impediu agarrando-o pelo pulso esquerdo. Harry se deteve e o fitou com um olhar frio e calmo desta vez, sem dizer nada, em uma muda pergunta.
Draco sentiu o eletrizante formigamento vindo do pulso de Harry e respirou fundo. "Realmente queres saber?"
"Sim." Respondeu Harry com exasperada impaciência em sua resposta.
"Quando digo que é longa e complicada, falo sério." Havia em sua voz uma nota de urgência e olhou ao redor ansioso, preocupado de que os outros jogadores da Grifinória pudessem vir buscar Harry. Perguntava-se quanto tempo haviam estado falando, a verdade é que não tinha idéia, porque estando com ele, os minutos pareciam voar, enquanto que sentia que lhe faltavam horas para terminar.
Assim é como (recordou-se amargamente) se sente a gente quando está - apaixonada.
Lançando outro olhar furtivo ao seu redor, Draco falou em um sussurro. "Encontra-me no salão dos Troféus, à meia-noite, te explicarei então." Levantou os olhos fitando direto aos de Harry com uma emoção incerta em suas íris de cinza místico. "E desde agora até l�, pensa em tudo o que quiseres perguntar, e não digas que não te preveni, Potter. Dez galeões que vais te arrepender de haver perguntado, assim que recuperares o bom senso, faz-te um favor e não venhas."
"Boa tentativa, Malfoy." Harry retrocedeu, vigiando a expressão de Draco com um olhar crítico. "Muito assustador e tudo, exceto porque é o truque mais velho e nada convincente em teu caso. Desde quando te preocupas com o que é bom para mim?" Harry lhe dedicou um sorriso depreciativo, então sem prévio aviso, levantou sua varinha, apontando para a mão de Malfoy que estava no momento suspendendo seu pulso, e murmurou um feitiço:
"Manicam inice."
Um jorro de luz prateada saiu da varinha de Harry; Draco gemeu assustado e retirou a mão que lhe tocava. Olhou para baixo - e com horror encontrou ao redor de seu pulso uma algema.
A olhou fixamente, incrédulo. Só havia uma algema, devidamente fechada, o delgado metal rodeava seu pulso esquerdo e uns quantos estalões surdos ocorreram depois.
Harry se via decepcionado. "Demônios, funcionou pela metade."
"Que...?" Draco fitou novamente Harry com abandono. "Para que diabos é isso? Tira-me isto!"
Harry sorriu angelical. "Claro. Esta noite. É a forma de assegurar-me de que tu vais." Levantou o pulso de Draco, inspecionando seu trabalho, Draco em estado de choque o deixou o fazer. "Bom, só uma algema se formou, mas parece bastante segura. Deixe-me te advertir que qualquer tentativa de tirá-la, física ou magicamente, só fará com que se ajuste mais e mais."
"E esperas que ande pela escola com isto?" Draco se via horrorizado. "Que pervertido Potter, não sabia que era sádico."
Harry ignorou esse último comentário. "Alegra-te que o outro extremo não está atado a..., oh, não sei... aos postes do campo de Quadribol, por exemplo. Definitivamente isso é muito mais chamativo, devo dizer."
"Vai pro diabo, Potter," cuspiu Draco, a coragem substituiu o assombro. "Pagarás por isto."
"Te falta certa perversidade, já que és tu quem tem a algema posta." Harry pôs-se a um lado agilmente, um sorriso de triunfo curvou seus lábios de uma forma bastante atrativa pensou Draco. "E tu pensavas que os grifinórios não tinham idéias criativas."
"Oh, os sonserinos tem idéias criativas também." Disse entre dentes, com a voz apenas controlada. "Só que mais violentas e expressivas, que geralmente incluem facas, chicotes, tortura e usualmente muita dor." A boca de Draco se curvou em um sorriso cínico e sem humor. "Mas vejo que definitivamente te agrada a técnica da humilhação, que também é muito efetiva. Parabéns."
Algo cruzou pela cara de Harry, uma muda surpresa, mesclada com pesar, e Draco observou que estava envergonhado. "Não faço isto só para te humilhar, Malfoy." Buscou o olhar de Draco, os olhos de Harry eram sinceros, desoladamente sinceros. "Só me asseguro de que tu não desistas de ir."
"Creio que o ponto em questão era se tu irias."
Os olhos de Harry se endureceram, os restos de emoção se fundiram em sólidas pedras de esmeralda. "Não confio em ti, Malfoy. Não creio que não se lembre do que tentastes nos (N.T.: esse "nos" faz referência ao Ron e a Mione, ok?) fazer no primeiro ano. E desde então, os dedos de minhas mãos e pés, somados aos teus não são suficientes para contar as vezes que tens tentado nos meter em problemas." Sorriu astuto, e ao mesmo tempo arrogante. "E tens falhado em cada ocasião, devo dizer."
Draco franziu o cenho e inclinou ligeiramente a cabeça, dirigiu um olhar crítico para Harry. Havia estado fazendo isso durante a conversa, como se notasse pela primeira vez certas coisas de Harry; a forma como parava, seu pé esquerdo sempre uns centímetros mais adiante que o direito. A forma como mantinha os ombros retos, erguidos, com a confiança e o prumo de alguém que tem o mundo a sua disposição, alguém que não quer mais do que tem.
"E acreditas que uma algema ao redor do pulso assegurará que eu esteja aqui esta noite?" se recompôs para que sua voz soasse tranqüila, enquanto que estava se derrubando por dentro. "Creio que não Potter. O único que pode garantir minha presença seria que me atasse a ti mesmo, e isso não é bom para o treino de Quadribol, não é?"
Para sua surpresa, na cara de Harry apareceu um sorriso, um sorriso sábio. "Olha mais para a volta de teu novo acessório quando tiveres tempo." Sinalizou com a cabeça para a algema, parecia friamente incongruente no pulso de Draco, enquanto que o metal prateado combinava bem com seu cabelo louro platinado.
Antes que Draco tivesse a oportunidade de inspecionar a algema detalhadamente, Harry continuou, "Não creio que a algema te faça vir, não creio em tua palavra tão pouco, mas" e aqui Harry se permitiu um pequeno sorriso de triunfo, "talvez levar uma algema com meu nome te faça pensar duas vezes antes de tentar faltar ao nosso encontro esta noite."
O coração de Draco se deteve momentaneamente e seu olhar se dirigiu ao cruel bracelete que cerrava seu pulso, seus olhos se abriram em completa incredulidade. "Que -"
O sorriso de Harry se fez mais amplo, um brilhante sorriso no pôr-do-sol. "Não creio que te agrade andar amanhã pela escola etiquetado como propriedade de Harry Potter, ou sim?"
E nesse momento algo se fez em cacos na face de Draco, algo fundamental, algo tão natural e inato que se filtrou através de qualquer máscara de emoção, uma base que se fragmentou ao impacto das palavras de Harry. Uma punhalada de angustia cruzou como um raio por seus olhos, tornado-o frágil numa impossível dor, uma sombra de terrível desespero, enquanto que em um piscar de olhos, esta desapareceu, como se apagam as marcas na praia abaixo às ondas do mar implacável.
Harry se surpreendeu quando viu passar a crua emoção pelo impassível rosto de Draco, piscou e olhou outra vez, mas havia ido-se. Como uma ferida curando-se sozinha; um engano de seus olhos, um jogo da luz inclinada que se refletia no cabelo louro de Draco.
Ou quem sabe, pensou Harry, um engano de sua mente.
Quando Draco levantou o olhar, seus olhos eram cinzas, sombras vazias. Harry notou que tinham tão fortemente apertadas as mãos que seus nós dos dedos estavam brancos.
Draco não disse nada, só olhou fixamente para Harry durante um longo momento, gradualmente a fria chama de emoções fluiu de novo a seus olhos, frieza ardente e distante, e dor vulnerável ao mesmo tempo.
"Como queiras Potter." Disse suavemente, enquanto que sua voz se ouvia ressentida; seus olhos destilavam ódio, amargura e um traço de dor.
Com isto, deu meia volta e se foi.
Harry o olhou fixamente por um momento, porém suspeito e completamente confuso. O olhar que Draco lhe dirigiu ao final no entanto o fazia sentir-se particularmente transtornado - foi algo que havia dito?
Moveu a cabeça, desconcertado e foi pegar a vassoura, o que, segundo recordava era sua intenção original. Graças a Malfoy, agora estava atrasadíssimo para o treino de Quadribol e esse pensamento o fez deixar todas as suas perguntas para esta noite.
Só quando chegou ao santuário de seu dormitório, Draco se permitiu cair sobra a cama, respirando dolorosamente, a torpe frieza da algema contra seu pulso atravessava sua pele como mercúrio envenenando seu sangue, frio e calor separados pela imperfeição da carne.
Era justo como os limites entre os que se encontrava encurralado agora, a fronteira onde o ódio e o amor se tocavam, a fina linha agora borrosa, pela alteração química que a convertia em praticamente nada. Não sentia nada mais que a cansada tensão em seu corpo, destilava desejo, desejo puro, e se estava convertendo em algo totalmente fora de controle, pelo menos, não do seu.
Girou a algema e a observou, o metal destilava chispas de luz de uma fonte desconhecida, lhe machucou os olhos e piscou. Levantando o pulso para poder inspecionar a algema, veio a intrincada inscrição não feita por mãos humanas, um fino e atrevido gravado cor fume prateado dizia - H. J. Potter
Uma marca de possessão. Marcado com ferro. Propriedade de alguém.
Cerrou os olhos, calado até os ossos pela silenciosa vergonha.
"Não creio que te agrade andar amanhã pela escola etiquetado como propriedade de Harry Potter, ou sim?"
As palavras de Harry se repetiam uma e outra vez em sua mente e sua própria mortificação o corroia por dentro.
"Não faço isto só para te humilhar, Malfoy."
Completamente humilhado, Draco se encostou de bruços sobre as almofadas, o frio metal da algema ao redor de seu pulso o calava até os ossos. Medo e um deslumbrante terror se desataram dentro dele, uma dura memória de algo que era demasiado real para ser crível: o que havia infringido a si mesmo, o que Harry lhe havia feito, e do que talvez jamais pudesse se libertar.
Continua...
Próximo capítulo:
Capítulo3 - Sem arrependimentos
O amor vive em frascos selados de arrependimentos
Fim do cap 02
Essa é mais uma fic do grupo Os Tradutores. Se você gostou dessa fic, procure pelas nossas outras traduções.
Os tradutores
