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Donzela Feroz
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Capítulo 2
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Sango odiava Mirok du Hashi. Com todo seu coração. Com cada fibra de seu ser. Portanto, se ela não se sentisse tão mal, teria manifestado esse ódio golpeando seu punho contra a porta de madeira e gritando a todo pulmão. Mas hoje seu rancor tinha que ser silencioso pelo excesso de vinho que tinha deixado um sabor amargo em sua boca e uma aguda dor de cabeça que ameaçava lhe partindo o crânio.
Sentada sobre a pilha de farrapos que seu captor havia arrumado em uma rudimentar cama para ela, deixou cair sua cabeça sobre seus joelhos dobrados e pressionou suas têmporas doloridas.
Por que tinha se embebedado tanto na noite anterior? E por que tinha sido tão impulsiva? Se só tivesse tomado seu tempo, poderia ter sido capaz de pensar numa melhor maneira de prevenir o casamento de Rin. Uma maneira mais inteligente. Uma que não envolvesse tratar de assassinar ao noivo enquanto dormia.
Mas agora, enquanto Sango adoecia, vencida, no maldito porão, sem dúvida a pobre Rin estaria parada tremendo ao lado do bruto de seu noivo, timidamente murmurando os votos que a converteriam em sua escrava para sempre. Sango se estremeceu. Tinha conseguido ver brevemente a Inuyasha Taysho na noite anterior quando ele se levantou nu de sua cama. O homem tinha facilmente duas vezes o tamanho de Rin, grande de ossos e cheio de músculos. Embora, ele tinha prometido não tomar a Rin contra sua vontade, mas Sango não confiava no normando. E quando imaginava a sua inocente irmã sendo manuseada por semelhante bruto, adoecia-se.
— Merda! — ela gritou em frustração, estremecendo-se enquanto o insulto enviava uma dor aguda a sua cabeça.
Se pelo menos não tivesse tomado tanto vinho. Se não tivesse tropeçado com o intrometido Mirok du Hashi. Se não tivesse falhado com sua adaga. Ela pressionou seus olhos fechados contra suas mãos. Sabia muito bem que poderia ter cometido um assassinato a sangue frio, ébria ou não. Ela podia ser uma feroz guerreira, mas não era uma assassina. Se pelo menos não tivesse tropeçado e caído sobre a cama de Inuyasha, ela teria encontrado alguma outra desculpa para não esfaqueá-lo.
Mais os normandos a tinha apanhado com a faca na mão e sede de sangue em seus olhos. Agora nunca poderia convencê-los de que ela era incapaz e inocente desse crime. Estremeceu-se enquanto recordava as palavras de Mirok: "É traição. Deveria ser enforcada por isso".
Sua mão foi involuntariamente para sua garganta. Certamente era uma ameaça vazia. Um estrangeiro não podia simplesmente cavalgar até um castelo escocês, casar-se com a filha do lorde, e em seguida executar a sua irmã. Era verdade que Inuyasha uma vez casado com Rin, converteria-se no administrador de Higurashi, uma posição de significativo poder, especialmente considerando a demência que padecia Lorde Tourhu ultimamente. Mas as três irmãs tinham dirigido a fortaleza à suficientemente bem em substituição a seu pai.
Elas não necessitavam da ajuda de Inuyasha. E ela, por certo, não necessitava dele, posto que sua primeira obrigação como administrador seria enforcá-la por traição. Mas embora ele não a tinha tivesse arrastado a tábua de enforcamento, Inuyasha a tinha deixado nas garras de seu sócio na maldade, Mirok du Hashi. O homem já a tinha ameaçado danificá-la fisicamente, já tinha mencionado indiretamente castigos de natureza cruel.
E na noite anterior, lutando nas escadas, o canalha tinha posto suas asquerosas mãos nela, apertando seus seios como se ela fosse uma puta à venda. Ela não tinha confiado nesse homem desde o momento em que o tinha visto no jantar, seus olhos azuis acinzentados brilhando com malícia, seu cabelo preto tão irreverente e rebelde como seu humor, seus lábios sutilmente curvados diante de cada coisa divertida que ouvia. Ele era arrogante, como todos os normandos, atrevido e matreiro, o tipo de homem que se sentia merecedor de algo que desejasse. Já desfrutava da comida, do vinho e da comodidade de Higurashi.
Que Deus a condenasse se permitisse que ele desfrutasse dela. Ela estreitou seus olhos olhando para a porta, como se ela pudesse perfurar um buraco nela e matar a ele do outro lado. É obvio, ele não estaria ali. A esta altura todos estariam reunidos na capela ou no pátio para assistir ao casamento.
Murmurando um insulto, ela se levantou lentamente para examinar o escuro porão, procurando algo, que pudesse usar para escapar dali. O quarto ao qual ele a havia trazido naturalmente era um que armazenava coisas completamente inúteis: baús com dobradiças quebradas, bancos com pés quebrados, garrafas poeirentas e baixelas imprestáveis, pergaminhos rasgados, e pedaços de tecidos muito pequenos e muito velhos para serem usados para algo mais que limpar sua adaga ou seu traseiro.
Seu estômago grunhiu se queixando. Uma porta mais além no corredor estava o depósito cheio de queijos, presunto, cereais e pescado conservado em sal. Mais além estava o depósito cheio de açúcar, espécies, e coisas doces. Mas, é obvio, o normando a tinha encerrado em um lugar sem comida.
Talvez, ela pensou sombriamente, ele planejava matá-la de fome. Ela viu o amplo espaço vazio na parte debaixo da porta, por onde uma luz débil se filtrava, provocando-a. Em seguida franziu o cenho. Se pudesse deslizar seu braço através dessa abertura e de algum jeito tirar a tranca...
Necessitaria de sua espada ou de um pau comprido... Mais parecia possível. Animada por essa esperança, atirou-se ao chão para espiar por debaixo da porta, tentou colocar sua mão através da abertura. Mas embora ela empurrou e lutou, não pôde passar mais do que até seu cotovelo.
— Merda! — Tirou seu braço da abertura e tentou por outro ponto. O piso era irregular. Talvez a abertura fosse mais larga em outro lugar. Mais outra vez seu braço se travou.
Duas vezes mais ela tentou, ganhando nada mais que um braço avermelhado e raspado por seus esforços. Em seguida enquanto tentava espiar pela abertura da porta, viu um pequeno objeto sobre o piso. Estava muito escuro para definir o que era ou se estava ao alcance de seu braço. Mas a possibilidade de que poderia ser comestível a convenceu de fazer a tentativa.
Usando seu braço direito desta vez e pressionando sua bochecha ao piso frio do porão, estirou-se o mais longe possível, apalpando o chão com os dedos, tratando de localizar o objeto. Com um gemido de dor e esforço, conseguiu estirar uns centímetros mais, e seu dedo do meio contatou algo frio e duro. Ofegante e triunfal, arrastou a coisa até que conseguiu trazê-la mais perto. E quando finalmente sua mão se fechou no objeto de contornos familiares, ela sorriu, esquecendo da dor de cabeça.
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Mirok sacudiu sua cabeça enquanto caminhava para o porão. Esse dia tinha sido estranho por certo. Despertando cedo, tinha revisado a tranca no depósito, e em seguida tinha ido ajudar Inuyasha a preparar-se para seu casamento. E que casamento tinha sido! Com trovões e relâmpagos cruzando o céu e chuva golpeando a terra com vingança. A criada de Rin, uma estranha mulher oriental, o pai da noiva semidelirante e com a aparência de um Viking e a noiva...
Essa foi a maior surpresa de tudo. E para o assombro de Mirok, Inuyasha não pareceu se importar o mínimo de haver-se casado com a irmã equivocada. Como se tudo isso não fosse suficiente excitação para uma manhã, os guardas de Higurashi tinha divisado um exército aproximando-se no horizonte, um exército o qual Kagome estava convencida que era inglês. É obvio, Mirok e InuYasha sabiam que não era assim. Não eram senão os Cavalheiros de Taysho. Mas Inuyasha tinha escolhido não revelar esse fato aos escoceses.
Ele tinha decidido usar sua chegada como uma prova para ver como estavam as defesas de Higurashi. E agora Mirok tinha sido enviado para convocar Sango, quem, segundo Kagome lhe tinha informado, era a segunda no comando da guarda.
Uma mulher no comando da guarda. Ele se estremeceu. O que fariam os escoceses depois disto? É obvio, ele não tinha intenção de liberar Sango. Não ia deixar o exército de Higurashi nas mãos de uma moça que tinha tentado matar a seu capitão. Provavelmente ordenaria a seus arqueiros que abrissem fogo sobre os Cavalheiros de Taysho.
Mas embora ele não tinha planos de liberar à donzela assassina ainda, não podia deixá-la nesse calabouço. Acima de tudo ela era uma donzela, jovem e tola, sem mais detalhe. Além disso, indubitavelmente ela estaria sofrendo remorso e fome nessa manhã. Sorriu enquanto desembrulhava a ainda quente fogaça de pão que tinha furtado da cozinha. Poderia ao menos aliviar um de seus sofrimentos. Perguntando-se se ganharia compaixão como modo de agradecimento, ele golpeou a porta do porão.
— Bom dia, Diabinha. Está acordada? — Não houve resposta. Ele pressionou seu ouvido contra a porta. — Lady Sango? — Ela de repente se lançou contra a porta com grande impulso. Atônito, ele retrocedeu.
— Ajuda — ela gritou através da fresta na porta. — Ajuda! Por favor! Não posso resp... respirar...
Alarmado, ele deixou cair o pão no piso, e em seguida avançou, correndo a tranca e abrindo a porta. Com seu coração invadido de um temor mortal, rapidamente revisou o recinto mau iluminado. Ela tinha se pressionado contra a parede, e quando ele entrou, ainda antes que tivesse tempo de lamentar sua falta de cautela, ela avançou contra ele, empurrando-o contra a parede com uma faca posta em sua garganta.
— Faz um ruído, e te corto — ela murmurou entre dentes. — Move um músculo, e te corto. Se pensar em resistir, juro-te que derramarei seu asqueroso sangue normando no piso deste porão.
Ainda em choque, ele murmurou:
— De onde tirou...
Ele sentiu uma espetada em sua carne. Ele se estremeceu. Jesus! A moça era assunto sério, tão sério como sua irmã, que tinha marcado a Inuyasha com sua espada no dia anterior.
— É sua própria adaga, idiota — ela se burlou. A adaga que tinha caído nas escadas na noite anterior... De algum jeito ela a tinha encontrado.
Com sua mão livre, ela irreverentemente o apalpou na zona da cintura e as coxas, encontrando e descartando sua faca de comer, lhe deixando a moeda que tinha ganhado do pai dela na noite anterior. Sob circunstâncias diferentes, Mirok poderia ter desfrutado de semelhante tratamento agressivo por parte de uma mulher. Mas não havia nada sedutor ou afetivo a respeito de seu contato, e para sua irritação, ele começou a sentir que estava à mercê da moça.
Os homens podiam ser tão tolos, Sango pensou, colocando rapidamente uma missiva em sua camisa e em seguida empurrou ao normando lhe pondo a faca contra suas costelas. Eles sempre assumiam que as mulheres eram criaturas indefesas, desprovidas de músculos e lentas de raciocínio. Sango não era nada disso. Sim, como muitas mulheres, era impulsiva, mas desta vez essa impulsividade traria resultados muito suculentos.
— Lentamente — lhe disse enquanto ele subia as escadas. Ela necessitava tempo para avaliar a situação no grande salão antes de aparecer por ali.
Para sua surpresa, enquanto espiava da escada, ela viu que as pessoas do castelo estavam muito ativas. Os homens com suas armas. Rin rodeada de mulheres e meninos. Serventes que se apressavam indo e vindo carregados com velas, comidas e mantas.
Eram preparativos para algo muito mais sérios que uma simples festa de noivado. Parecia como se o castelo se preparasse para o assédio de um inimigo. Antes que o normando pudesse fazer notar sua presença, o puxou pela parte detrás de sua túnica e o pressionou contra a parede da escada, colocando a ponta de sua adaga contra seu pescoço. Ela se aproximou o suficiente para murmurar em sua cara.
— O que passou?
Apesar do fato que ela tinha sua vida em suas mãos, seus olhos brilharam com certa diversão secreta, e um lado de sua boca se curvou para cima, como se estivesse desfrutando de cada segundo. Isso a zangou.
— Fala! — ela ordenou.
Ele obedeceu.
— Um exército está aproximando-se.
Seu coração se acelerou.
— Um exército. Que exército?
Ele vacilou.
— Que exército? — Ela demandou.
— Os Cavalheiros de Taysho.
Ela franziu o cenho. Podia ser verdade? Verdadeiramente Inuyasha comandava uma companhia de cavalheiros?
Kagome e ela tinha especulado que seu título era falso, que InuYasha era um mero cavalheiro errante que não possuía terras nem dinheiro, que de algum jeito tinha convencido ao rei de fazê-lo casar com uma mulher escocesa que possuísse terras e riqueza.
— Os cavalheiros de InuYasha?
— Mm.
Mas Higurashi estava preparando para uma batalha. Por que os Cavalheiros de Taysho tomariam por assalto a fortaleza onde seu comandante residia... A menos que... Possivelmente Inuyasha não estava de acordo com a mera custódia e administração de Higurashi. Possivelmente esse demônio tinha intenção de reclamar o castelo como próprio.
Ela amaldiçoou entre dentes enquanto se dava conta da verdade.
— Estão sitiando a fortaleza.
Mirok estava em silêncio, mas seus olhos brilharam. Isso criava uma mudança em seus planos. Ela tinha planejado levar Mirok e o ter como refém na cabana do bosque até que Inuyasha concordasse em anular seu matrimônio com Rin. Mas se os homens de Taysho estavam atacando Higurashi, ela era necessária aqui para comandar os soldados.
Por outro lado, ela poderia usar seu refém para um propósito mais importante. Quão valioso era Mirok du Hashi para as pessoas de Taysho? Lançou-lhe um rápido olhar, avaliando-o. Inegavelmente ele era rude e forte, comprido de ossos e largo de ombros, provavelmente um guerreiro competente. Mas ele era também bonito, arrogante e com ares de poeta, o tipo de tenente que os escoceses desprezavam. Talvez os normandos medissem o valor de um homem em términos diferentes. Se for assim, Mirok du Hashi seria um refém cujo resgate seria o controle de Higurashi...
Era uma aposta arriscada, mas uma que ela se sentia compelida a fazer.
— Vamos em viagem — ela decidiu.
Ele levantou suas sobrancelhas.
— Agora? Mas...
— Silêncio! — Ela levantou sua espada, forçando-o a levantar seu queixo. — Não falará novamente até que eu lhe permita. Atravessaremos o grande salão, cruzaremos o pátio, e sairemos pelos portões da frente. Tome cuidado de não chamar a atenção de maneira nenhuma, porque te cravarei a adaga nas costelas, e advirto-lhe isso, se desobedecer, não será o primeiro homem em sentir minha espada perfurar sua carne.
No meio de todo o caos, foi relativamente fácil atravessar o grande salão sem serem detectados. Mirok não lhe causou problemas, além de fazer pequenos gemidos de dor quando sua espada se cravou um pouco em seu flanco. Nem sequer cruzar o pátio foi difícil, embora ela se sentiu desanimada ao descobrir que o clima não era favorável para viajar. A chuva tinha feito que o solo barrento, e nuvens escuras ameaçavam com mais água.
Nenhum dos dois tinha uma capa, e ela desejou haver-se lembrado de agarrar a manta de pele do porão. O desafio era atravessar os portões da frente. Como os guardas de Higurashi tinham sido treinados para um assédio ao castelo, uma vez que as vacas e as ovelhas fossem reunidas dentro das muralhas do castelo, os portões eram fechados. Pensando rapidamente, ela chamou o guarda encarregado do portão de grades.
— Abre o portão! Três das vacas de Kuranosuki escaparam. As traremos para as encerrar.
O guarda assentiu. Kuranosuki era o vizinho mais próximo de Higurashi, e a relação entre os dois clãs era em parte aliança, e em parte rivalidade. A única coisa pela qual brigavam com um zelo quase infantil era o gado. Embora o guarda estaria contente de levantar o portão de grades com a esperança de apropriar-se de umas vacas de Higurashi.
Uma vez para fora dos portões, Sango guiou a seu cativo rapidamente para o bosque. Nesse momento um impressionante número de Normandos subia a colina. Ela não atreveu a arriscar-se a ser descoberta. Um engano de sua parte na vigilância, e poderia facilmente ela converter-se em refém dos normandos.
Finalmente, cobrindo-se com as densas árvores do bosque de Higurashi, ela se sentiu segura. Era tentador permanecer na beira do bosque para espiar o Exército de Taysho, e observar o que ocorria. Mas ela tinha que entrar no bosque, até um lugar que só suas irmãs conheciam. Ela o empurrou para frente.
— Te mova.
Com um sorriso matreiro em sua cara.
— Ah, Já vejo. — ele estalou sua língua. — Mas se desejava me violar na escuridão do bosque, tudo o que teria que ter feito era...
— Silêncio!
A última coisa que Sango precisava era a distração de um arrogante normando que acreditava que ele era o presente de Deus para as mulheres sobre a Terra. Possivelmente os olhos brilhantes e o sorriso sedutor de Mirok du Hashi seduzia a outras damas, mas Sango não era uma mulher a que se enrolava facilmente com essas armas tão óbvias.
Ela o empurrou para frente. Um caminho entrava no bosque, um que as irmãs guardaram cuidadosamente escondido. As folhas caídas dissimulavam o caminho, e em alguns lugares, ramos crescidos tapavam a passagem. Mas às irmãs de Higurashi o tinha usado desde sempre pelo que Sango podia recordar.
A cabana abandonada do granjeiro tinha servido através os anos como refúgio. Eles tinham percorrido possivelmente duzentas jardas quando ela fez deter a seu cativo. Ela precisava tomar uma cautela a mais.
— Te deite.
Os olhos do tenente brilharam com malícia enquanto fazia uma reverência ante sua ordem. Para mérito dela, ela resistiu o impulso de esbofetear o sorriso zombador de seu rosto.
— Sobre seu estômago, com suas mãos nas costas.
Ele a olhou com luxúria.
— Como queira.
Enquanto ele jazia indefeso no chão, ela procurou em seu saco e usou a faca para cortar duas tiras de tecido da parte debaixo de sua anágua de linho. Atou seus pulsos com uma delas, suficientemente forte para fazê-lo fazer uma careta.
— Tranqüila moça. Não há necessidade de brutalidade. — ele a desafiou, adicionando suavemente — Estou disposto a te dar prazer.
— Não é questão de prazer, senhor.
Desta vez havia um traço de sarcasmo em sua voz.
— Em tão doce companhia, quem não encontraria prazer?
Não lhe importava o especulativo brilho em seus olhos. Usou a segunda tira de tecido para lhe tapar os olhos. No caso de que ele escapasse, não queria que ele soubesse o caminho de volta à fortaleza.
Ele estalou sua língua.
— Agora me privaste da vista de você. Terá que me dirigir se quiser...
— Para cima! — Ela não tinha tempo para esse florido sem sentido. O que ela tinha ouvido a respeito dos Normandos era verdade. Eram tão suaves como bebês, com seus simpáticos cachos e suas bochechas perfumadas.
Ela lutou para pô-lo de pé, logo o cheirou dissimuladamente. Cheirava diferente dos homens de seu país, mas seu aroma não era nem feminino nem desagradável. De fato, um agradável aroma se sentia em sua pele, como a canela que Rin punha nos bolos de maçã.
— Se só me deixasse saber qual é seu desejo? — ele murmurou. Esse homem era incorrigível.
— Se contínuas com este delírio, meu desejo será te amordaçar também.
— Bem... — ele disse com um suspiro. — Deixarei descansar minha língua. — O que fez, embora seu sorriso sugestivo nunca se apagou completamente de seu rosto.
Mirok estava assombrado. As mulheres normandas nunca lhe pediam que se calasse. Elas amavam que ele conversasse. E sempre ficavam encantadas com seus galanteios. Cada donzela que ele conhecia, desde velhas solteironas até meninas recém saídas do berço, riam e festejavam as palavras de Mirok. O que estava mal com essa moça?
Ela cravou seus dedos em seu braço, guiando-o para frente, e ele arrastou os pés sobre as folhas, seu passo era torpe. São os escoceses, ele decidiu. Todos eles devem ser loucos. Os homens usavam saias, e as mulheres levavam espadas. E essa moça aparentemente tinha um coração tão impenetrável como uma armadura.
Não só não estava arrependida da violência exibida na noite anterior, mas também parecia determinada a continuá-la. Ele grunhiu quando ela o empurrou com a adaga em suas costelas. Por Deus! A donzela lhe daria uma morte lenta com milhares de golpes?
Enquanto entravam no bosque, Mirok descobriu que seus outros sentidos se faziam mais agudos. Agora ele podia ouvir a respiração agitada de Sango, suas pegadas, o suave sussurro de suas saias. Ele respirou o ar frio. Misturado com o intenso aroma de pinheiro estava o débil aroma de sua captora, uma indefinível essência que era simplesmente feminina, tão pouco pretensiosa como a donzela.
Viajaram pelo que pareceu uma eternidade sem falar, até que Mirok começou a imaginar se não estava partindo de volta para Normandia.
O seqüestro dele por parte de Sango tinha sido desconcertante no princípio, logo divertido. Mas agora a moça estava levando as coisas muito longe. Se si afastassem muito mais, as pessoas de Higurashi e de Taysho começariam a preocupar-se com eles, e com boa razão. Depois de tudo, preso e sem vista, Mirok não seria capaz de proteger à donzela de qualquer bandido que podia espreitar nos selvagens bosques escoceses.
Decidindo que já tinha tido suficiente, soltou-se de repente do aperto dela, detendo-se abruptamente, ganhando um acidental ponto da faca dela.
— Jesus!
— O que? — ela demandou.
— Vou falar.
Ela suspirou profundamente.
— Fale.
O encanto não funcionava com ela. Possivelmente a candura o faria.
— O que é exatamente o que pretende, minha lady?
— Não é teu assunto.
— Pelo contrário, estou sendo levado contra minha vontade sob a ponta de uma adaga. Minha adaga.
— Verdade.
— Então?
O prazer dela era quase evidente.
— Vais ser meu refém.
Se essas palavras tivessem chegado em outro momento, fariam ferver seu sangue. Seqüestrador e refém. Soava como um desses jogos de sedução que ele tinha desfrutado no passado... Como o jogo da vaca e do leiteiro, o pirata e o tesouro escondido, o viking e a escrava virgem... Mas suspeitava que este não era um jogo.
— Seu refém?
— Sim — ela afirmou. — Se os Cavalheiros de Taysho tomam posse de Higurashi, planejo manter sua vida como garantia para que a fortaleza seja liberada.
Por um momento, ele ficou perplexo e mudo enquanto digeria suas palavras. Logo ele se deu conta de seu engano.
— Pensa que os Cavalheiros vieram para tomar posse do castelo?
— O que quer dizer com o "se eu penso?" — ela replicou. — Você mesmo me disse que eles estavam atacando.
— Não o fiz.
— Fez-o!
Ele sacudiu a cabeça.
— Eu disse que estavam aproximando-se. Você presumiu que eles estavam atacando.
— O que? — ela murmurou. Ele podia ouvir seu sangue escocês começando a ferver.
— Curioso. Sua irmã, também, cometeu o mesmo engano. Foi ela quem deu a ordem de prepararem-se para um assédio.
A ponta da adaga de repente se cravou debaixo seu queixo, e ele se estremeceu em surpresa. Possivelmente, ele pensou enquanto sua veia pulsava debaixo do frio aço, ele não devia ter dito à guerreira a verdade. A cabeça de Sango pulsava novamente.
— Não nos estão atacando. — ela reiterou.
— Sim. — ele disse com desdém. — Por que atacariam? Devemos formar uma aliança.
Ela apertou seus dentes. Os normandos tinham estado aqui só por um dia, e já tinham posto seu mundo de pernas pro ar. Ela estreitou seus olhos enquanto seu cérebro trabalhava furiosamente. Se os normandos não estavam atacando, ela não necessitava de Mirok du Hashi para resgatar Higurashi depois de tudo. Mas isso não significava que não podia continuar com seu plano original de salvar Rin. A nota de resgate que ela tinha escrito às apuradas no depósito estava ainda guardada entre seus seios. Tudo o que precisava era um mensageiro.
— Vêem. — ela baixou a adaga e puxou seu braço. — Tenho outro uso para você.
Mirok curvou seus lábios em um sorriso especulativo, mas antes que ele pudesse abrir a boca para fazer uma sugestão libidinosa, ela o empurrou para frente.
— Nenhuma palavra!
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Continua...
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