Confusão

Meu passado era tão feliz, e só agora, neste inferno!, tenho consciência disso. Preciso fugir daqui o mais breve possível e estava considerando o balancinho do banheiro uma alternativa muito tentadora...

- Lily! Lily! - alguém me chamou da porta do banheiro, e tentava entrar girando a maçaneta.

Sim, minha tentativa de fuga e libertação (dessas amarras e torturas!) consiste no toalete, mais exatamente a janelinha dele.

Hahaha! Tantos anos morando numa casa onde um número exagerado de pessoas vivem, entram, saem, visitam, dormem, comem e aperreiam sua paciência serviria de experiência para mim. Ou seja, nunca deixe sua porta destrancada.

Apurei desconsolada a altura do andar em que estava e descartei penosamente a minha rota de fuga. Só me restava encarar o monstro fêmea perfeita e fatal para o monstro macho do meu primo.

- Que empregada é essa que Narcisa não pára de falar? - ele (o monstro macho que batia em minha porta... Explicado a força bruta utilizada com fins de coerção) me inquiriu mal eu acabara de tentar suicídio!, por mais que eu não pensasse que fosse suicídio... Que falta de respeito...

Acho que posso processá-lo...

Oh!, o monstro fêmea tinha nome... Não me deixei levar pela tentativa de humanização daquela aberração caótica e platinada aparentada com a Barbie e, me foquei em meus objetivos inadiáveis.

- Que empregada? - me fiz de rogada, embarafustando por entre os braços dele em direção ao meu quarto.

- Oras que empregada?! Ela é a empregada – confirmou a loira estonteante com o queixo, moldado pelo cirurgião plástico mais competente (e caro!), no ombro de James.

Este, me fitou horrorizado e eu me reduzi a sacudir os ombros e enfim, me trancar no meu quarto. A humilhação havia passado dos limites.

Coloquei meu som em volume máximo e me estirei na cama cantando desafinadamente junto com a música: Crying in the rain do A-ha (modificando certas partes como crying in the rain, que se tornou crying in the room, e assim por diante). Uma coisa bem emocional e chantagista, esfregando na fuça de todos (principalmente dos vizinhos) o quanto James me maltratava.

- I'll never let you see – as batidas na porta se intensificaram.

- The way my broken heart is hurting in meeeeeeeeee – prolonguei mais do que o necessário, e acredito, aquém do permitido para a saúde dos ouvidos alheios.

- I've got my pride and I know how to hide. All my sorrow and paaaaaaaain – soltei um contra alto indiferente ao tom do cantor, oposto ao meu.

- I'll do my crying in the room – berrei a última palavra me levantando e cuspindo na porta, tamanho o esforço e garganta que utilizei para mais do que me fazer ouvir.

Acho que até hoje dava pra fazer um exame de corpo de delito com a minha baba, só para verificar a quantidade de humilhação que sofri lá.

E por isso, eu não vou limpar aquilo.

Aquilo (não o aquilo, só o aquilo) deve ter enfurecido James além do normal, não pela letra, mas pela minha voz de taquara rachada e a destoação que podia alcançar (ninguém bateu meu recorde até hoje, posso garantir com orgulho). Era o básico que poderia impingir a ele pelo papelão que me fizera passar com a namorada branquela dele (ignorei estrategicamente o fato de ser branquela também, mas ao menos eu sou simpática, não tão linda e glamorosa e plastificada (?), MAS simpática).

- Lily! LILY! Abra esta porta já! - a voz dele entrecortou a próxima faixa do cd (Dark is the night, todas bem depressivas para expressar como eu me sentia por dentro) que berrava do aparelho de som.

Aguardei solenemente a letra se iniciar imaginando Narcisa (blergh!) puxando James para uma noite selvagem de amor no último quarto (decorado por ela! Blergh duas vezes), ou o convencendo a me contratar como empregada! Ou pior, gravar a cena e repeti-la enquanto eu esfregava o piso e limpava-lhes os sapatos e servia-lhes uma macarronada, que seria saboreada no estilo romântico mais fofo de "A dama e o vagabundo". Sendo que ambos eram vagabundos, a dama era eu. A mistura de contos de fada (Cinderela e a dos cachorros amantes) não significa que tive uma infância traumatizante, talvez por vivê-la grudada com James porém! não é esse o ponto, e sim a falta de paradigmas mais firmes para proclamar a minha conjuntura emocional.

- It's time... – o vocalista muito lindo da banda cantou e, esperou que eu completasse a canção, de forma incomparável, como o amor de sua vida (que era eu, só ratificando), isso na minha mente perturbada e aniquilada por um furacão loiro impiedoso - …yeah – falei tentando achar o ritmo e demorando tempo demais para cantar que, minha voz irritante se sobrepôs a melodiosa dele.

- It's time to pull away – ele continuou, não ligando para o fato de ter uma louca arrasando a sua famosa e bela canção, e num sorriso galanteador e imensurável estendeu-me sua mão - For you and me.

- It's time … yeah, to break free – ele prosseguiu enquanto permanecíamos de mãos unidas e nos fitávamos apaixonadamente sem perceber a multidão que nos rodeava - We need to celebrate the mystery...!

Fazia tempo que não me sentia tão amada e querida. Solucei convulsivamente apertando minha Lulinha que se passara pelo vocalista do A-ha (cujo nome ainda não aprendi, entrementes isso é um detalhe fútil perto de nosso infinito amor).

- Hunting high and low!!!!!! – vociferei, já recuperada e com a voz mais rouca e desafinada ainda, junto com outra música que começara e dançando com meu travesseiro sofregamente, como se fosse meu último dia entre os vivos.

E poderia apostar que seria. Entre os vivos britânicos, se víssemos por um lado otimista. Já que James iria me mandar de volta para a Itália por enganar a valiosa e magnífica namorada dele.

Não entendi por quê lágrimas iniciaram a despontar em meus olhos e molhavam meus braços ao redor do travesseiro, além do próprio estofadinho em formato de Lula-gigante rosa pink (a coisa mais sexy que dancei colada, até agora) enquanto "I've been losing you" tocava melodiosamente no quarto.

Desliguei arrancando embravecida da tomada a alimentação do som e escancarei a porta do quarto quase chutando James, que estava sentado, escorado na madeira com as mãos no rosto e que passaram a escorregar para os cabelos, os arrepiando mais ainda, se possível.

Ele estava em um estado deplorável e passível de compaixão. Não Lily! Você está num estado deplorável e necessita de compaixão. Vá se consolar com a Lulinha ou com seu companheiro irresistivelmente sedutor: o chocolate.

- Lily, me perdoe. Ela não tinha o direito de fazer isso com você – ele me abraçou não me dando opção a não ser me deixar abraçar.

- Se eu não estiver, você não terá que recebê-la – ele continuou afagando meus cabelos e beijando o rastro marcante das lágrimas em minhas bochechas – Nunca – ele sussurrou rouco próximo a minha orelha.

Nessas horas não se tem o que responder e como havia decorado a seqüência das músicas no cd, a próxima música seria Lifelines, a qual não saía da minha cabeça com uma insistência impertinente e não apropriada ao momento. Música auto executada na mente de fracas e vulneráveis ruivas consoladas pelo primo de abraços aconchegantes. Quando a estava extirpando, a vontade de chorar adentrou meu coração sem pedir licença.

E por mais absurdo que possa soar, eu não gostaria de chorar de novo, devido estar na frente dele...

One time to know that it's real (Uma vez para saber que é real)
One time to know how it feels
(Uma vez para saber como se sente)
that's all
(Isso é tudo)


What do you see, what do you know?
(O que você vê, o que você sabe?)
One sign: what do I do?
(Um sinal: o que faço?)
Just follow your lifeline through
(Só siga a linha de sua vida)


What if it hurts, what then?
(E se isso machucar, o que fazer então?)
What do we do, What do you say?
(O que fazemos, o que você sugere?)
Don't throw your lifelines away
(Não jogue fora suas metas de vida)

One time (Uma vez)
just once in my life
(Somente uma vez em minha vida)
yeah One time (...)
(Yeah... Uma vez)

Então me sobrou a opção de me apegar a música como salvação. Para evitar realidades destruidoras. Sentindo meu corpo dormente e fatigado pelo cansaço, me apoiei involuntariamente em James, e permiti que ele me carregasse de volta para o quarto.

Não me lembro de mais de nada, só de ter apagado com ele velando meu sono docemente.


Acordei com um estrépito de risadas. Uma escandalosa se sobrepondo a outra aguda e curta, ambas mais do que inoportunas e responsáveis por me desarraigar do sonho maravilhoso que estava tendo.

Apertando as pálpebras para me agarrar ao fio do sonho que presenciava, pude perceber um choro feminino e revoltado dominar o ambiente calando as risadas anteriores.

Muito puta e disposta a expulsar com vassouradas os idiotas que me impediam de ter uma dormida digna, me ergui e me arrependi no mesmo instante de fazê-lo.

A mulher que gritara era a lambisgóia piranhenta da namorada de James, que estava rodeada por outros três rapazes. Segui o olhar dos quatro que se detinha a algo abaixo de mim, no presente segundo sentada e anteriormente quando deitada, esse ponto de convergência da atenção de todos estaria ao meu lado (não poderia ser que eles descobriram minha Lulinha secreta, poderia?).

Para meu espanto, era James!

Busquei desesperada pela memória qualquer indício de que havíamos dormido juntos. Dormido-dormido, e não só dormido.

O vibrei com as minhas mãos trêmulas e temerosas. Agradecendo por ao menos ter esquecido o que havia feito noite (ou madrugada?) passada. A última coisa que almejaria era ter lembranças fogosas minhas com ele, numa situação tão íntima e vergonhosa. Nunca mais o encararia.

- Hum... - James resmungou também não gostando de ser acordado e penteando-despenteando os cabelos espetados, só quando a risada escandalosa de um dos rapazes ressoou pelo quarto que meu primo resolveu abrir os olhos e me fitar preocupadamente – Você está bem? Parece que ouvi a risada do...

Ele não completou o que diria porque o cara espalhafatoso repetiu sua risada de forma mais discreta e contida, e acertou um soco no meio das costas de James.

Meu primo buscou por ar exasperadamente e se firmou no meu ombro para não cair de nariz no colchão.

- Que merda de invasão é essa?? - ele ficou de pé e impôs certo respeito.

Ele possuía altura semelhante ao do agressor bombástico (o cara da risada de uma hiena ou de um cachorro, estou indecisa sobre qual se assemelha mais).

- Calma Prongs – o mais alto não se abalou pela fúria de James e ainda contornou este, sentando-se ao meu lado e me abraçando.

Ruborizei sem pestanejar.

- Convenhamos, ela faz bem o meu tipo – ele abriu um sorriso maroto para James.

- Que seu tipo o que!? - James me puxou indelicadamente para perto de si e longe do outro.

Apesar de rogando aos céus para que furassem uma cratera no chão para que eu me escondesse. Me senti meio que disputada por dois homens muito bonitos... Ô Lily burra! Te manda logo daí, sua demente!

Eu tentei sair de finhinho, mas o aperto de Jay no meu braço era mais do que possessivo. Era doloroso! E por mais que eu murmurasse, fizesse sons de explícito desconforto, meu primo era só atenções para o rapaz charmoso que estava sobre a MINHA cama. Creio, apesar de não possuir profundos e embasados conhecimentos médicos, que adquirirei um belo e artístico hematoma no braço...

- Você tem duas namoradas Prongs? - provocou o outro e James estreitou o punho livre e a mão sobre o inocente do meu braço.

- Não se meta Padfoot! Vá cuidar da sua vida, seu sarnento! - meu primo parecia se controlar para não soltar o verbo na minha presença.

Apelidos meio estranhos para jovens não? Prongs... Padfoot... Os próximos devem ser Hole e Pillow... Ou Batman e Robin. Ou Zezinho, Luizinho e... Era Huguinho, o terceiro?

- Não consigo a-a-creditarrrr – fungou o espécime loiro chamando a atenção para si e interrompendo a discussão tensa entre os dois rapazes – Jimierruxo me trocou por e-e-laaaaa! - e desatou a chorar depois de apontar para mim com sua unha feita impecavelmente na manicure.

É. Jimierruxo lhe preteriu a mim. E todos somos bruxos! (¬¬)

Alguém faz essa mulher se recompor, por favor?! Esse choro falso está mais do que inconveniente.

James me olhou petrificado e temi que ele tivesse lido meus pensamentos. Devolvi um olhar mais petrificado ainda e o cara da balbúrdia, nos abraçou.

- Quando fizerem a orgia de vocês, se certifiquem de trancarem a porta – ele não parava de sorrir, se divertindo abertamente com a realidade e me perguntei que tipo de pessoa ele era – Se estiver interessada ruiva, sou melhor que ele – e piscou para mim deixando James bufando e com uma sobrancelha única, tal era a sua revolta e ódio.

- Narcisa... - ele passou as mãos pelos ombros da mulher – Não desperdice o pouco de água que bebe em lágrimas vãs – Gostei desta palavra... Me lembra a minha família, a gente só cabia se fosse numa vã - Lucius está lhe esperando em casa – ele acrescentou sem vergonha ou rodeios e a guiou para fora do apê.

Ooookay, eu não entendi nada. James não era o namorado dela? E quem era esse homem que numa hora nos ridicularizava, e na outra conduzia a loira manequim anencéfala para fora do apartamento, evitando maiores confusões?

Meu primo me encarou seriamente e pediu para que eu permanecesse ali sem questionar, e obedeci silenciosamente.

Ouvi berros indistinguíveis e tive medo que James estivesse apanhando. Pois ele era um contra três e resolvi espiar só para garantir a integridade física dele.

Ele gesticulava muito (herança italiana) e esperneava com o trio.

- Então ela é minha prima também? - o homem que enfrentava Jay por simples divertimento interrompeu o dono do lar sem pudores, com algo parecido a um sorriso coibido nos lábios.

- Nossa – corrigiu Jay imediatamente e deu um tapa na testa por escolher a palavra errada, e antes de retificar novamente alguém fez isso por ele, o outro homem de cabelos mais claros e um pouco mais baixo que James.

- Tua – a voz dele era mais do que calma.

Ela transmitia calma. Naquele mar de confusão e brigas, aquele ser se mantinha imperturbável?! Eu definitivamente deveria descobrir o segredo dele.

Potter (ainda irei conseguir usar o Gaiardoni. Ah se irei!), meu-parente-afogueado, agitou as mãos com impaciência e retomou sua linha de pensamento. Entretanto, nenhum de seus ouvintes prestavam atenção. Todos já haviam notado a minha presença, que planejava ser secreta e escondida, a espreitá-los.

No próximo minuto, me vi rodeada pelo grupo e James me fitando entre repreensivo e perdido.

Ele repetiu o gesto em que estapeava sua própria testa e pedia aos céus: paciência, sorte, piedade, saúde, uma prima decente e que a atual prima desmiolada saísse de sua vida com emergência (a última opção, creio ser a prioritária dentre todos os desejos de James, mas eu também quero um gênio da lâmpada e James, as damas primeiro).

O encarei ensaiando meu olhar de não culpada e o sorriso amarelo mais anêmico que poderia esboçar. Porém, acho que James não pode ver isso devido ao muro que aqueles garotos eram, de tão altos que pareciam perto de uma menina descalça e baixinha como eu.


Não fui acostumada a ser o centro de atenções. O que fundamentou a minha atitude de praticamente não descerrar os lábios para conversar com os amigos (suponho...) de James.

Um instante estava rodeada por eles. No próximo já não estava mais.

Vendo-se livre de todas as visitas impróprias, meu primo não me olhou e seguiu direto para a pia da cozinha. Sem eu prever, enfiou diretamente a cabeça debaixo da torneira e a acionou, permitindo a água gelada escorrer da nuca para o cabelo.

- Podemos conversar – ele me encarou com as gotas escorrendo sensual e tortuosamente dos cabelos para o pescoço e peitoral, marcando a camisa branca.

- Não, não podemos. Quem precisa de um banho sou eu – neguei e corri para o banheiro o mais ágil que minhas curtas pernas me permitiam.

Claro que precisava de uma ducha. Acabei de reconhecer (por mais que em pensamentos) que meu primo é sexy. Que absurdo! É o mesmo que elogiar seu irmão. Me sinto uma herege na seca apelando para o incesto, afim de extravasar a minha sexualidade aprisionada por tantos anos. Quase como uma freira dando em cima de um padre. Ooooookay, nem tanto.

- Vamos Lily, largue de ser criança. Depois você toma um banho, não fuja do assunto – ele me impediu de fechar a porta ao colocar o pé no vão entre a mesma e a parede.

- Não estou fugindo! - persisti tentando selar o banheiro e dando golpes no pé de James.

- E por que continua no banheiro com o intento de bater a porta na minha cara? Por sinal, você adora fazer isso – ele massageou o nariz, como se seu corpo relembrasse a nossa última briga.

Não é meu hobbie dar com a porta no nariz alheio. Ele só me admite essa escolha ao persistir em me colocar na posição de estar sempre errada e ser a infantil nessa casa. E como reconheci antes, o vexame somente pode ser superado quando você põe de lado a pessoa que lhe trata assim, se isolando, em seu quarto trancado impenetravelmente, desse indivíduo das trevas e assentimental.

- Porque quero tomar banho! - retruquei exasperada e pisoteando o pé dele para conseguir tirá-lo do meu caminho, na verdade do caminho da porta em ser cerrada.

- Você não está cheirando mal, não se preocupe. Lhe garanto que existem seres bem fedorentos com os quais me vi obrigado a conviver – ele ajuntou com uma careta de contragosto e nem reclamando por eu estar sapateando e pisando sobre seu pé como quem deseja esmagar uma barata ou obter farelo de algum inseto nojento.

- Não pretendo tomar banho para poupar seu nariz! Quero tomar banho para mim mesma! - argumentei não dando margem para ele acreditar que estava querendo agradá-lo ou algo do tipo.

- Resolvido então – ele admitiu a derrota, pensei (erroneamente) e relaxei, o que foi a chance dele de por toda sua força e peso contra a porta e escancará-la.

O movimento forte me fez voar para o lado oposto da entrada e cair de bunda no vaso sanitário que estava com a tampa aberta.

Podem imaginar a cena agora: Lilían Evans Gaiardoni presa com o traseiro na privada, molhando a bunda na água muito higiênica. Posição mais confortável e embaraçosa que esta, impossível.

James no início me fitou criticamente e piscou, buscando compreender como eu fora acabar ali. Nem te conto Potter!

E em seguida ele desatou a rir com muito gosto. Só porque não era o traseiro dele.

Querido primo...

- Olha o que você fez! - reclamei bufando tentando inutilmente sair e o bocó do meu primo aumentou a intensidade da risada, se curvando para frente – Não vai me ajudar não?!

Ele sacudiu a cabeça e o dedo indicador em negativa. E eu quase acertei o rosto dele com as minhas garras, quase! Que raiva!

- Não vou lhe tirar. Vai ficar aí de castigo pelo péssimo comportamento. Mais tarde volto para conversarmos – ele me deu as costas e realmente foi embora.

- Ei Potter! Potter! Me tire daqui AGORA! Ou então irei... irei... - gaguejei – Contar para tia Iza!! - decidi apelar para a mãe dele e James deu de ombros me deixando sozinha no toalete.

- Então eu conto pra mamãe! – ahm... As mães sempre ajudam, sabe?

Ele retornou minutos após meu berro não muito digno, com a camiseta encharcada mais desabotoada, para meu desespero. Me olhou como se nunca tivesse visto coisa mais engraçada e interessante.

- Vamos conversar – disse terminando de tirar a camisa ensopada e desviei o olhar ruborizada – Não quer falar ainda? - interpretou equivocadamente minha ação e tirou os sapatos ao sentar de frente para mim (N/A: maldade Jay, maldade...).

Se eu tivesse em circunstâncias menos comprometedoras poderia até achar a realidade carregada de conotação sexual. Porém, PORÉM, eu estava com a bunda presa na privada! E qualquer conotação sexual se transformou em autêntica vergonha estorvante.

Ele permaneceu me encarando e toda aquela atenção estava me impugnando gradativamente, sem mencionar as câimbras que estava sentindo nas minhas pernas e a insensibilidade no meu traseiro.

Depositou os calçados no corredor, sem se levantar, junto com as meias (ainda sem camisa, Oh Deus!...), com uma das pernas flexionadas junto ao peito e em cujo joelho estava apoiado o cotovelo.

- Posso deixar você a noite toda aí – ele falou me extraindo de reflexões e observações sobre seus... tipo... meio que, atributos – Já que não quer falar, lhe darei um tempo para pensar melhor.

Ele se ergueu e rumou para o box. Minha mandíbula se desprendeu do maxilar. Droga! Além de ficar sem pernas e traseiro por necrose hipoxêmica, perdi minha capacidade de comunicação oral.

James iria tomar banho comigo ali?! Meu Deus!! O que esse homem tem na cabeça?!

- Eu falo! Eu falo! Eu falo! - me desesperei e ele entreabriu os lábios num esgar malicioso o que me fez, affes de novo, ficar vermelha.

- Sabe Liliette, é constantemente um prazer chegar a um acordo com você, sempre tão sensata, madura e adulta – ele ironizou tirando uma com a minha lata de ruiva aprisionada no vaso sanitário.

- Desembucha logo – resmunguei cruzando os braços e o enfrentando aversivamente e revirando os olhos.

- Primeiro: não aconteceu nada conosco ontem à noite – ele falou com tanta facilidade e naturalidade que magoou, ele me acha tão um nada que essa possibilidade é nula de acontecer? Okay, senti a inferiorização aqui – Lhe coloquei para dormir e enquanto a observava descansar, peguei no sono também.

- Ótimo. Já que acabou, me retire daqui!!- exigi oferecendo meus braços a ele, já impaciente.

James acenou um não com o dedo indicador esquerdo e estalou a língua contra os dentes, perfeitamente brancos e alinhados, em discordância.

- Ainda não senhorita. Não acabei – ele adicionou, para multiplicar a minha cólera – Quando eu lhe disser para ficar no quarto é para ficar no quarto – enfatizou com o rosto a milímetros do meu autoritariamente.

- Você não é meu pai! - contra argumentei enfurecida e querendo torcer-lhe o pescoço – Só por que estou sob seu teto não significa que tenho de obedecer a seus caprichos e regras estúpidas, afim de que você possa se exibir para a família como o primo bondoso e sábio.

Eu sempre tive problemas com autoridades...

- Coitado do tio Lui, eu sinto inveja dele por ter uma mulher como tia Dona, mas tenho pena por ter uma filha como você. Nem a Pety é assim – ele falou com pesar e aquilo me feriu mais do que imaginei que um dia James poderia me ferir, mais do que quando me deixou na Itália.

Ele mais do que ninguém sabia do que minha irmã era capaz. E foi testemunha das injustiças e desgraças que passei por causa dela. Quando ninguém me dava crédito, era no ombro dele que buscava consolo. Como ele pode esquecer? Como ele pode dizer aquilo de mim?!

- Então me mande de volta para a Itália logo! Não fique me ameaçando e se deleitando com isso! Me abandone de novo! Acabe de vez com a minha convicção de que um dia fomos amigos de verdade! - berrei apertando os olhos enquanto chorava, e comprimia minhas coxas com as mãos, cujos nós dos dedos estavam esbranquiçados.

Como uma fraca na frente dele. Esqueci integralmente a meta de não chorar diante do Potter.

Havia algo mais que se quebrava ali e eu não sabia nem o que era. Hum... Nada legal.

- Lily... - a voz dele estava com um tom diferente, não tinha certeza sobre como soava, exatamente.

Ultimamente eu não estava discernindo muito bem as coisas, a privada já estava me parecendo uma piscina, ou tobo-água...

- Me larga Potter! - o empurrei quando ele fez menção de me abraçar – Não me abrace!

Abraçar a garota ligada a privada, de forma irreversível, também não me agrada muito.

- Hm... – ele murmurou meio confuso – Eu só queria lhe tirar da privada – confessou.

Uhhh... Tá, esquece Lily.

- Ah... Merda Potter, não importa! Me deixa! – juntei o vácuo que era a minha dignidade para construir uma falsa, o que era melhor que nada.

Estava me sentindo uma merdinha. Boiando n'água... Por que Potter não dava a descarga e ficávamos felizes e repletos, cada um sem nunca mais ver a cara do outro? Eu procuraria outra cidade para estudar e pronto!

Meu colo estava também molhado, por lágrimas densas que não cessavam por mais que me praguejasse e repetisse para me recompor. Minha vontade de não ser vista chorando pelo insensível e ogro do meu primo, não era nada se comparada com a vontade do meu corpo de lacrimar. Me enfureci com isso.

Talvez a minha conexão com a privada seja mais profunda do que aparenta... Talvez seja água do vaso que flui pelos olhos... Ahhhh!

- Lily – ele pronunciou meu nome com compaixão e pena, o que era a última coisa que eu gostaria de perceber – Eu nunca lhe abandonei...

- Não quero saber! Não estou lhe ouvindo! Me esqueça, quero voltar para a Itália e me deixe só! - bradei o afastando quando ele se aproximou novamente.

Ele suportou meus chutes e tapas até ter êxito em me tirar da privada. É, ele conseguiu, mas não é por causa disso que irei perdoá-lo. Ele me enfiou ali, era sua obrigação ter me salvado de lá.

- Lily eu... - ele insistiu e lhe dei as costas ainda cambaleante e com as pernas formigando.

- O que foi? Quer rir da mancha no meu traseiro? Pode dizer! Tá parecendo que me mijei ou sei lá o quê! - exclamei ao notar o ar risonho dominar suas feições pela segunda vez.

Ele percebeu que aquele não era o momento e me amparou quando despenquei.

- Me solte! Tenho nojo só de tocar em você! Me solte!!

Detalhe: quem chorava água da privada era eu.

- Não está em condições de fazer exigências. Durma e depois conversaremos – ele contemporizou.

- Não quero mais ficar um segundo debaixo do mesmo teto que você. Ainda não entendeu? Eu te odeio Potter! Te odeio!

Eu devia fazer uma musiquinha com isso...

- Você não me odeia, tenho certeza que não – retorquiu confiante e me olhando com dó.

- Vá pro inferno – resmunguei mais arisca e me desvencilhei dele com uma mistura de sensações e sentimentos fortes como: náusea, traição e ódio no centro do meu peito, além de ter um traseiro molhado, vergonhoso.

Comecei a atirar as roupas de volta para a mala, enquanto xingava os piores palavrões em todas as línguas que sabia. Quem precisa de musiquinha? E sinceramente, é totalmente excelente não ser criança, você pode falar os palavrões que quiser!

Sim, é o paraíso.

- Lily, sugiro que reconsidere. Não tome decisões de cabeça quente. Você pode se arrepender depois... - ele teve a coragem de sugerir, ignóbil.

- Do que me arrependo é ter vindo para cá! - ressaltei empurrando as vestes para caberem na bagagem.

- E tome essa porcaria – joguei o boné que ele tanto gostava e havia esquecido ao partir de Toscana.

A campainha soou e como ele não esboçou reação em ir atender, eu fui, por mais que ele tentasse me parar.

- Estamos numa discussão crucial aqui e você quer abrir a porta?! - ele questionou descrente enquanto andávamos pelo corredor.

- Não existe nada a ser discutido. Minha decisão é MINHA decisão! Fique fora da minha vida como sempre se manteve na maior parte dela! - clamei não estancando um só segundo.

Por que eu estava indo atender à porta? Não sei... Eu só... Fui.

- Oras, você sempre foi presunçosa e cabeça dura. Pensei que tivesse crescido, mas continua a mesma menininha boba de sempre! - ele estava voltando a me agredir.

- Ótimo. Mais um motivo para eu não permanecer aqui! É questão de honra abrigar a parente caipira, né?! Você não precisa manter as aparências, mais cedo ou mais tarde as pessoas descobrem, você, o senhor exemplo!, deveria ter conhecimento disso! - paramos na entrada do apartamento e a campainha tilintou pela terceira (ou quarta?) vez.

- Você é a pessoa mais difícil e intragável de se conviver e... - ele iniciou enquanto eu, sem refletir muito, desaferrolhava a porta.

Nos tornamos estáticos diante da figura que nos encarava sorridente e totalmente alheia a briga.

- Olá meus fofinhos! Mamãe veio visitá-los – era a mãe de James, a senhora Izabel Potter Gaiardoni.

- Tia Iza... - balbuciei enquanto James engolia em seco ao meu lado ruidosamente.

Desde esse dia, nossos queixos nunca mais foram os mesmos...


N/A: Obg pelas reviews, obg msm, me motivam a escrever (dejà vú?)... Mas v6 jah sabem disso.

N sou mt fã da Lily q criei, ela eh dramática e histérica demais, soh q em certos momentos ela me faiz rir... Tp a situação da privada... Então, vo me esforçar p melhorar certas coisas, soh n dah p garantir q vai sair a contento... Mas tentarei ;)

E sorry por usar a Narcisa, eh q eo n qria criar uma perua, qria usar algm (da titia JK) c alto potencial p ser uma x3

Bjin'