Era uma tarde sombria. Estavam no meio do mato, no sistema de cada um por si. Era só ele e a sua arma. Mais nada. Estava exausto e o lugar marcado para o encontro era mais longe que o necessário. Estava tonto. Se sentindo mal e irritado. Não queria dar mais um passo. Só corria por estar sendo caçado. Sabia que cedo ou tarde teriam problemas. Cansou-se de avisar, mas não era ouvido. Cansou-se de falar, mas não ganhava atenção. E agora, agora era tarde demais.

Caiu. Arrebentou o joelho esquerdo. Doeu o bastante para praguejar o nome do causador de tudo aquilo. Maldito fosse, aonde quer que estivesse. Se levantou e permaneceu correndo (cambaleando) mais um longo tempo mato afora, até encontrar a droga da represa. Porque não se sentia bem ao pensar que teria que passar a nado ali? Certamente porque nadava mal pra cacete, ou talvez porque já estivesse tonto o suficiente para perder a coordenação motora.

Saltou. A temperatura da água ardeu em sua pele. Fria. Fria como ele seria quando saísse dessa. Frio e calculista. Descobriu uma nova equação: Medo + Água = Afogamento. Por pouco não se ferrava. Mergulhou e, para não passar outro mau bocado, nadou bem depressa, até o outro lado. Quando emergiu, respirou fundo. Não seria nada fácil (novidade) dali pra frente... E isso o deixava ainda mais irritado. Por que tinha que ser tão difícil? Seria tão mais simples se tivesse sido escutado!

Começou a correr. Sabia que eles já estavam na borda do outro lado, mas que não o veriam. Estava mato adentro novamente. E seu joelho ardia mais que tudo. Estava com um certo tempo de vantagem na frente deles... A polícia... Tinha que tomar sumiço assim que chegasse à rodovia. Se alguém o reconhecesse, chamaria até o FBI. Por falar nisso, que acusações eram aquelas que haviam aparecido no jornal? Assassinato? Queimar alguém previamente morto é considerado assassinato? Mas que merda! Desde quando? Se for assim, todos os médicos de faculdades que "matam" cadáveres são assassinos também...

Agora estava um pouco folgado, mas mesmo assim, não podia parar. Era arriscado demais. Nunca havia passado por nada semelhante. E o que estaria acontecendo a oeste de onde estava? Se a polícia tivesse botado as mãos... Nele... Droga! Porque estava tão preocupado? Não deveria estar. Quem era inexperiente nesse tipo de situação era ele, e não quem ele se preocupava. Continuava correndo, mesmo exausto. Estava vendo a hora que cairia apagado. Aí sim, seria um alvo muito fácil para todos (e tudo) que o caçavam...

Caiu. Caiu mas não encontrou o chão. Só algum lugar que o apoiou, não deixando que fosse ao chão. Escutou uma voz familiar dizendo para irem. E ele se esforçou.

Correram de mãos dadas pelo resto da floresta. Estavam por um triz, mas pelo que tudo indicava, sairiam mais uma vez ilesos. Mas dessa vez, ele teria que escutá-lo. Tudo reverberava em sua mente como se estivesse dentro de uma grande bolha de ar, ou um auditório. Estaria envenenado? Não. Era só a droga do produto que havia consumido horas atrás. Estava lutando para não desabar dopado. Se desse bobeira, ele descobriria e não seria nada legal. Além da famosa lição de moral, teria que aturar o falatório durante dias, até que ficasse para trás, o que com certeza demoraria bastante, se tratando dele.

― Vamos! Agüenta mais um pouco! Estamos chegando! Vamos lá! Abra os olhos!

Ele obedeceu. Abriu os olhos e pôde ver a sua salvação. O Impala 67 ali, escondido no acostamento, debaixo de uns ramos. A única coisa que lhe veio em mente foi:

― Bem típico, não?! Um disfarce mal feito desses... Isso é a sua cara! Típico!

― Cala a boca se não quiser ser deixado pra trás. Correu por quanto tempo pra estar assim, tão acabado?

― Eu não sei... Talvez horas... E quem está acabado aqui é você... Todo rasgado...

― Está assim por exaustão, não é?

"Oh não! Diga que não percebeu..."

― É óbvio... Pelo que mais seria?

― Não sei... Ultimamente, vindo de você, espero qualquer coisa.

― Vai se ferrar!

― Cala a boca e me ajuda a tirar logo isso daqui!

Tiraram todo o mato de cima do carro e finalmente fugiram. Agora era a chance de zarpar da Flórida de uma vez por todas. Também, com a polícia de todos os condados os perseguindo, como ficariam ali?

E o carro desapareceu na highway com o som tocando o mesmo de sempre que jamais desagradava alguém: Nickelback.

Estavam imundos, cansados e famintos. Precisavam render na estrada e parar urgentemente. Queriam chegar a algum lugar seguro a tempo de tomar banho, comer algo e ver o jogo do Manchester United contra o Real Madrid. Éh... Ultimamente estavam tão estranhos que até futebol internacional estavam curtindo. Ou estavam doentes ou estavam mudando, o que ambos duvidavam muito mas era a verdade.

Foram longas horas por toda aquela estrada e já estavam mortos de cansaço. Tão mortos que nem dormir conseguiam. Tirou um frasco de comprimidos de sua mochila e ofereceu ao que sempre dirigia:

― Vai um aí?

― Quê isso?

― Hah... Um comprimido à base de cafeína...

Os anos de estudo ao menos lhe valeram para trambiques. (Não era diferente com o outro) Mas os meses em Stanford fizeram bem ao seu lado de improviso.

― Se isso for droga eu vou te ferrar, literalmente.

Arregalou os olhos. Estaria dizendo no sentido de...

― Acorda! Coloca um aqui na minha boca...

Ele o fez ainda aéreo com a frase. Não sabia o que responder ao seu cérebro. A única saída plausível foi pensar: "É efeito da droga..."

Assim que viu que ele tinha engolido o comprimido, colocou o dedo no canto da boca e sorriu, só percebendo o que tinha feito depois, quando se virou para o lado da janela, corado.

Aquelas palavras o haviam deixado... virado? Inclinado a pensar coisas impossíveis e improváveis? Bom, fosse o que fosse, o outro tinha percebido. E percebido também que aquilo não era um simples energético. Não sabia o que era, mas já tinha sentido aquele gosto antes. E algumas vezes até por bastante tempo. Deixou pra lá. Tinha que se concentrar na estrada e não nas esquisitices novas do outro.