Eu quero me libertar

Desci no aeroporto de Dublin, depois tomei um trem para Cork e de lá peguei um ônibus para Carrigaline, é onde fica o hostel da prima de mamãe. É, na verdade, uma cidade dormitório há 25 km de distância de Cork.

Um dos melhores conselhos que me deram depois do meu primeiro ataque: Não entre em pânico! Eu sei que parece idiota dito assim, mas é verdade. O único meio verdadeiramente eficaz de não se ter crises é não se deixar entrar nelas. Digo isso porque assim que coloquei os pés no aeroporto, depois de mais ou menos meia hora de viagem, foi ter um surto. Me tranquei na cabine do banheiro e fiquei sentada uns bons 15 minutos até conseguir superar a ânsia e o tremor nas pernas. Não sou muito boa seguindo conselhos.

Estar aqui é tão assustador e novo que já me sinto estranhamente fora da caixa, como um brinquedo que ficou guardado no escuro por muito tempo e pode enfim ver um pouco de luz. Sair de onde se está quando não se tem perspectiva, mesmo que seja só a meia hora de distância, já faz tudo parecer melhor e seus problemas menores e distantes.

Essa sensação de cidade pequena é esquista, é como se eu tivesse sido colocada num aquário menor, mas ao mesmo tempo mais iluminado. É uma dinâmica inusitada para mim, as pessoas que andam na rua encaram o táxi curiosas, interessadas em tentar reconhecer a estranha que adentra sua cidadezinha. Em Londres mal temos tempo de saber quem são nossos vizinhos, quanto mais reparar na presença de alguém estranho, em Londres somos todos desconhecidos.

Mostrei o endereço para o motorista do táxi e ele disse saber onde era, mas começo a duvidar, porque ou estou muito enganada, o que eu não estou, estamos passando pela mesma praça pela nonagésima nova vez. Esse senhor tá querendo me passar a perna! Isso não se faz.

-PÁRA ESSE CARRO!- Grito de forma peremptória, ao mesmo tempo em que pego meu celular para olhar o caminho no GPS.

O motorista freia tão de repente que meu celular sai voando da minha mão e se eu não estivesse de cinto teria atravessado o vidro. Recitando palavras não muito bonitas ele pergunta o que aconteceu e eu, com toda a delicadeza que me é característica, começo a acusá-lo de enganador.

-Moço, você pensa que eu sou idiota? Eu estou vendo que você está dando voltas no mesmo lugar. Me leve imediatamente pra onde eu devo ir se não eu desço neste minuto! -Ele parece ter gostado da ideia de me ver descer imediatamente.

Andando a esmo por ruas úmidas e escorregadias, com as minhas sapatilhas de estampa de onça que estão começando a me machucar e fazem um barulhinho irritante no calçamento de pedra, me amaldiçoo mentalmente pela minha falta de diplomacia com o taxista ladrão. Estou esbaforida, nas costas levo o mochilão que peguei emprestado de Mathew, me sinto como uma tartaruga pré-histórica de carapaça colossal, no braço minha bolsa e uma sacola com os chocolates que comprei no duty free para dar de presente. Não está sendo fácil realizar este percurso. Sem contar que não sei pra onde devo me dirigir, pois meu celular, na queda dentro do táxi, resolveu morrer.

A sacola está deixando meu braço marcado e a minha bolsa não para de escorregar do ombro, meu cabelo gruda no gloss por causa do vento e sinto que estou começando a entrar em pânico de novo e, o pior, é que não há viva alma nestas ruas pra quem eu possa perguntar o caminho.

Deve ser algum feriado regional porque a cidade parece estar completamente vazia. Ou, talvez, seja uma daquelas cidades abandonadas e assombradas que veio de uma quarta dimensão e...

Ouço um barulho de gritos e aliviada começo a me dirigir para eles. As vozes parecem cada vez mais altas e de repente estou numa rua apinhada de carros e as vozes vêm de um pub lotado, lotado de homens com a aparência de hooligans.

Como diz minha vó "Se quiser continuar viva e feliz coma uma maçã por dia e nunca, jamais, em hipótese alguma entre num pub lotado de hooligans." Na verdade ela nunca disse nada sobre pubs ou hooligans, não acredito que ela esteja familiarizada com o termo, e muito provavelmente ela seria a primeira a querer entrar num lugar desses. Mas a parte da maçã ela disse e realmente minha avó é uma das pessoas mais saudáveis que conheço.

Sinto minhas bochechas esquentarem de vergonha e o pânico tentar me invadir novamente, mas não há remédio. É entrar ou ficar do lado de fora com minha carapaça colossal e uma sacola cheia de doces ao relento. Obrigo-me a ficar calma, afinal, serão apenas alguns minutos, tempo suficiente para eu conseguir que me peçam um táxi e tempo suficiente para que os hooligans tentem me matar. Será que sei o hino da Irlanda? Tento desesperadamente me lembrar, mas minha cabeça parece oca como um cofre vazio.

-Porque Você me odeia?-Murmuro olhando pro céu, tentando abrir a porta silenciosamente. A minha sorte é que estão todos concentrados, assistindo algo.

Tento caminhar entre as mesas amontoadas, desejando ser invisível, quando quase derrubo o extintor de incêndio pendurado na parede com meu mochilão. Raios e trovões! Os olhos pouco a pouco começam a me encontrar e a me encarar com curiosidade.

As piadinhas começam a pipocar e eu sinto meu rosto ficando vermelho, a feminista dentro de mim furiosa pela minha inércia perante a atitude machista. Odeio esse tipo de coisa.

Por sorte algo acontece na TV e todos voltam suas atenções para a tela, enquanto falam uns palavrões que, eu tenho certeza, nunca ouvi antes.

Uma mulher ruiva, bem alta e gordinha, vem em minha direção e, com um sorriso bondoso, pergunta se preciso de algo. Gaguejo que procuro o hostel "Druida verde" ela sorri e diz:

-Meu bem, você está nele, mas não somos um hostel.

Preciso dizer que quase entro em pânico de novo? Começo a respirar fundo, tentando controlar firmemente a náusea e a tontura que ameaçam tomar conta de mim. Não vou fazer uma cena. Não vou!

-Minha mãe deve ter se enganado então. Ela disse que a prima possuía um hostel com esse nome, era onde eu ia ficar. Você não conhece por acaso Mary Evans? - Eu sei que o mais provável é que ele não conheça, mas não custa tentar, não é mesmo?

Seus olhos verdes se abrem em compreensão e ela diz:

- Marlene Mackinon, certo?

-Sim, eu sou essa aí. -Respondo com uma voz minúscula.

Enroscada num abraço repentino me sinto ser arrastada pro fundo do bar.

-Eu sou Mary, prima de sua mãe. Ela me falou de você no último e-mail. Ela está bastante preocupada, sabe?

-Está?! - Minha voz denota claramente minha dúvida quanto a isso. Bom, pela óbvia inventiva de me mandar para mais ou menos 400 km de distância eu realmente não poderia dizer.

-Lógico menina, que mãe não se preocupa quando a filha tem uns parafusos a menos? Mas não me admira que você não soubesse, Caitlin sempre foi muito forte, sempre guardou os próprios sentimentos.

Não preciso dizer que não concordo nem um pouco quando ela diz que tenho um parafuso a menos, alias, uns parafusos a menos. Eu sou muito normal, na medida do possível. E quem é essa mulher a qual ela se refere? Minha mãe guardando os próprios sentimentos? Se ela tivesse um programa diário no rádio em que esbravejasse aos quatro cantos suas intimidades seria a mulher mais feliz do mundo. Juro por Deus, mamãe já chegou ao ponto de me pedir conselhos sexuais desde que começou a namorar Henri. A mim! Que sou virgem. Achando que minha irmã era muito jovem, apesar de Marie já ser mãe e ter saído por aí muito lépida e fagueira num fogaréu hormonal aos 15 anos de idade.

Forço-me a voltar a prestar atenção, pois Mary continuou falando e eu não ouvi uma única palavra.

-Você vai se distrair bastante por aqui, embora não existam muitas, como é que vocês jovens chamam? Bolada? Tem lindas paisagens pra se visitar e o solstício de verão está próximo e as comemorações são bem bonitas. Lily vai te apresentar aos amigos dela e também tem muito trabalho a ser feito aqui no pub, ainda mais que estamos em época de jogos e os homens sempre vêm assistir os jogos aqui, embora o time da cidade não esteja indo muito bem. Alias, você não conhece Lily não é? Lily, Lily! Venha aqui!

Uma garota alta e esguia surge dos fundos com uma batata numa das mãos e uma faca na outra, seus longos cabelos ruivos presos numa trança desfeita. Tem olhos absurdamente verdes, como os de sua mãe. Mary e Lily Evans são iguaizinhas. Eu não me pareço nada com minha mãe ou meus irmãos, mas sou muito semelhante a minha vó.

Quando ela era jovem, tá?

-Lily essa é Marlene Mackinon, filha daquela minha prima, Caitlin. Marlene, minha filha Lily!

Lily tem uma voz doce e levemente rouca, bem diferente da voz fina com que respondo as boas vindas que ela me dá.

Mary Evans manda sua filha largar as batatas e me ajudar com a bagagem.

Finalmente!

Acho que minhas mãos devem parar de formigar dentro de uma hora ou duas. Pegando a sacola de minhas mãos e minha bolsa do ombro, Lily me leva até os fundos passando pela cozinha. Ouço gritos, imprecações contra o juiz, homens são realmente patéticos ás vezes.

O fundo do pub dá pra um quintal com um grande gramado onde existem alguns canteiros de flores e temperos, no fundo do gramado tem uma casa branca com janelas verdes.

-Está com fome Marlene? Posso trazer umas batatas fritas pra você, se quiser.

-Não, obrigada Lily. Eu gostaria de descansar um pouco antes de qualquer coisa. - Me sinto exausta emocionalmente. Tento sorrir, mas sinto que meu rosto se distorce numa careta. Lily me encara com um olhar que denuncia Mary Evans, aposto que ela contou pra filha que tenho uns parafusos a menos. O que eu acho um absurdo sem tamanho, pois, na verdade, acredito que tenha até uns parafusos a mais, okay?

-Seu quarto é o primeiro à direita subindo a escada, eu já te ajudo com as malas. É que antes tenho que tirar uns trecos do forno, tá? Já volto! Fique a vontade. - E sai correndo me deixando sozinha. Aposto que não quer ficar a sós com a menina maluca de voz esganiçada. Eu, caso tenha sobrado alguma dúvida.

Quero chorar de alivio quando me sento no primeiro degrau da escada e tiro as sapatilhas. Meus dedos do pé e calcanhar estão cheios de bolhas.

-Ai!-Mecho os dedos do pé esquerdo-. Ai, ai, ai, ai. -Mecho os do pé direito.

Estou estatelada na escada, parecendo uma estrela do mar, meus braços e pernas espalhados por toda parte e uma expressão de puro deleite por estar, em fim, segura.

-Lil me disse para fazer você se sentir em casa, mas acho que não é preciso, não?- Me aprumo imediatamente e encaro assustada o rapaz alto que entrou na sala e, numa voz minúscula, consigo balbuciar meu nome e dizer que sou parente das Evans. Ele é bem alto, seus cabelos são pretos como as asas do corvo e emolduram seu rosto bonito de forma sedutora, tem olhos cinzentos e um sorriso debochado. Não consigo deixar de ficar espantada com sua beleza. Lá de onde eu venho não tem caras bonitos assim. Não mesmo. Não senhora.

Ainda estou nessa trilha de pensamento quando Lily reaparece. Conversa com o moço, mas não consigo me forçar a prestar muita atenção, pois estou com o coração palpitando pelo susto, pela vergonha e pela beleza insana desse rapaz. Ouço algo sobre trecos queimados no forno e diz que mandou ele me ajudar e não me fazer o que quer que ele esteja fazendo, sorri pra mim e sai correndo de novo.

Estou tão envergonhada que mal consigo me manter em pé, ou talvez, eu mal consiga me manter em pé por causa das bolhas.

Sento na escada de novo e começo a calçar as sapatilhas.

Sinto seu olhar pesar sobre mim.

-Foram essas sapatilhas, as malditas sapatilhas de onça! Bem que minha avó disse que eu tinha de viajar confortavelmente. Sabe, nunca viaje com sapatilhas de onça se for pra você ser abandonado pelo taxista no meio do caminho.

-Hum, obrigado pelo conselho, sapatilhas de onça estão riscadas da minha lista. - Sua voz soa irônica.

Que pessoa mais antipática, não? Seria de se imaginar um pouco mais de empatia com a minha situação, mas não tem problema. Levanto-me e começo a pegar minhas coisas.

-Quer ajuda?

-Heim?

-Ajuda. -Ele parece divertido com a situação-. Com a mala. - Aponta para a carapaça de tamanho colossal.

-Ah, sim. Sim, por favor!- Bom, penso, ao menos ele é cavalheiro. - O primeiro quarto à direita...

-Subindo a escada, eu sei. -Ele completa antes de eu terminar.

Ah sim, senhor eu conheço a casa, bem, perdão se eu tenho alguns parafusos a menos, bolhas do tamanho de azeitonas nos pés e acabei de chegar.

Colocando minha carapaça de tamanho colossal nas costas começa a subir as escadas comigo atrás. Ouço resmungos sobre eu carregar pedras dentro da mala, não consigo evitar um revirar de olhos e uma risada, ele é tão arrogante.

-Obrigada por me ajudar!Mas se você não se importa eu gostaria de descansar um pouco. - Jogo-me na cama enquanto ele deposita meu mochilão perto da porta. Deuses, como é maravilhoso deitar!

Sua boca se retorce num meio sorriso.

-Sim senhora! Foi um prazer servi-la. -Responde irônico fazendo uma mesura debochada.

Hunf, Esse cara está começando a me irritar.

-Qual o seu nome? - Pergunto rispidamente, ansiando para que ele despenque escada abaixo quando for embora.

-Sirius Black.

-Bom, obrigada novamente pela grande, maravilhosa e excelente ajuda. Adeus, Black.- Agradeço desdenhosa enquanto levanto e o conduzo para fora do quarto fechando a porta em sua cara. Deuses, se todos os amigos de Lily forem assim pode ser que eu morra.

Ele sai do quarto e consigo ouvi-lo rindo. Ele não perguntou o meu nome. Arrogante!

Mas não importa, não vim aqui para fazer amigos. Vim para...para...ham...trabalhar e...me descobrir. Isso. Esta é uma viagem de auto imersão. Não preciso de ninguém, estou aqui para me livrar das amarras sociais. Isso, vou me libertar. Eu quero me libertar.


Bolhas do tamanho de azeitonas doem muito, sério. Experiência própria.