Capítulo 2

Meninas e meninos

- Ginny... Você está acordada?

- To, sim, Mione... Tá tudo bem? – falou a garota, a voz meio sonolenta. – Estou te achando meio estranha desde hoje a tarde, no piquenique.

- Está sim, não se preocupe... É que... Eu queria... Bem...

Ginny se movimentou preguiçosamente em direção à escrivaninha de frente para a janela aberta, através da qual entrava timidamente a luz da lua. Pegou a varinha e acendeu um feixe de luz, para dar de cara com uma Hermione completamente desperta, sem o menor vestígio de que estivesse com sono e realmente a fim de dormir. O único indício de que a garota havia ao menos tentado conciliar o sono era o fato de seus cabelos estarem completamente rebeldes, mais cheios do que o normal.

O rosto de Guga Jones, a capitã do Holyhead Harpies, contorceu-se numa careta diante da inesperada luz. Quando Hermione vinha passar a noite na Toca, Ginny fazia questão de lhe oferecer a cama, e ela mesma dormia na cama de armar logo abaixo. Hermione havia se cansado de insistir para que Ginny deixasse de bobagens e dormisse em sua própria cama, mas a caçula dos Weasley era muito geniosa: se tinha uma idéia na cabeça, nada a persuadia, e Hermione a conhecia suficientemente bem para saber disso.

Quando observou o rosto curioso de Ginny, Hermione se sentiu imensamente idiota. Por que, afinal, acordara a amiga? Não teria coragem de perguntar-lhe, teria? Mas estava angustiada, e não sabia mais o que fazer para acabar com aquilo. Era tudo ou nada. Teria que engolir sua vergonha. Elas eram amigas desde os primeiros anos em Hogwarts, sempre conversaram sobre garotos, sobre aqueles assuntos... Qual era o problema? O fato de ela ser irmã de Ron não queria dizer nada, não é mesmo? O fato de ela conhecer seu namorado desde que ele era um pirralho não fazia diferença e...

- VocêeoHarryjátransaram???

As palavras saíram num tom de voz absolutamente baixo, atropelando-se, e Hermione afundou a cabeça no travesseiro, escondendo-se de Ginny.

Num primeiro instante, a ruiva fez uma careta, sem entender direito o que a outra havia falado. Mas, no instante seguinte, a compreensão chegou e ela não pôde conter o riso. Saltou para cima da cama e abraçou Hermione, pulando de forma empolgada:

- Ah, Mione, Mione! Como você é bobinha! Está com vergonha de me perguntar isso por que, hein? Afinal, nós sempre fomos amigas, e não é que seja a primeira vez que falamos de sexo. Anda, Hermione Granger, tira esse rosto dos travesseiros e olha pra mim!

Os olhos castanhos da morena encontraram os da ruiva e esta sorria largamente, as covinhas nas bochechas fazendo as sardas ficarem ainda mais juntas. Ginny era bonita, seus olhos grandes e expressivos e o cabelo liso e comprido que descia em cascata sobre seus ombros. Hermione tinha certeza de que Harry era muito feliz com ela, mesmo porque, ela não tinha vergonha das coisas. Era desinibida, engraçada, brincalhona, enquanto Hermione era apenas a mesma Sabe-Tudo inteligente que fora em Hogwarts. Nada havia mudado. E ela desconfiava que cheirava a livros, pergaminho e tintas.

- Hummm... Estou pensando se devo te responder - Ginny jogou os cabelos displicentemente e assumiu uma expressão sapeca, quase infantil. – Mas acho que você merece saber, senhorita Hermione. Sim, eu e Harry já transamos!

Hermione não pôde impedir o rubor de lhe subir à face.Droga! Por que sentia vergonha de Ginny? Aquilo era normal, não eram crianças, não viviam no século XII nem em nenhum país onde fosse proibido ter relações sexuais antes de se casar ou qualquer coisa que o valha. Por que, então, suas bochechas estavam vermelhas? Droga, droga, droga!

- Mas como é que...? Onde é que...? – perguntou ela, ainda tímida.

- Ah – Ginny deu de ombros, cutucando um pedaço de tinta da parede que estava descascando logo abaixo do pôster gigante da banda Esquisitonas -, algumas vezes a gente faz aqui mesmo.

- Na Toca? – Hermione falou mais alto do que pretendia, e levou a mão à boca num gesto involuntário diante da careta de Ginny. Estava visivelmente surpresa. Como é que eles faziam isso sem que ninguém percebesse?

- É, Mione! – falou ela em voz baixa, tentando se justificar. – Quando Ron pega no sono, ele é bem difícil de acordar, sabe? Então, Harry vem pra cá e ficamos juntos. É só lançar um Abaffiato na porta e tudo se resolve.

Foi obrigada a concordar que era verdade: Ron realmente tinha o sono pesado, e o feitiço resolvia o problema do barulho para o restante da casa. Mas eles não tinham medo de serem flagrados? Como se pudesse ler seus pensamentos, Ginny balançou a cabeça em sinal afirmativo:

- É pura adrenalina! Nós sempre temos medo de sermos surpreendidos, mas isso torna as coisas ainda mais divertidas! Teve um dia bem engraçado, Teddy ficou à tarde conosco e brincamos com o pequeno o tempo inteiro. Então, resolvemos ficar juntos à noite e acabamos pegando no sono depois, sem sequer perceber. Estávamos muito cansados, perfeitamente compreensível. Desconfiado, Ron veio bater na porta pela manhã, mas Harry entrou debaixo da cama para se esconder e foi hilário! Depois ele disse ao meu irmão que esteve a noite toda no quarto, mas que acordou primeiro e havia ido ao banheiro!

Hermione riu também, divertindo-se diante da falta de tato de seu próprio namorado. Ron não conseguia mesmo prestar atenção naquilo que estava debaixo de seu nariz, e ela sentiu um carinho quase doloroso por seu jeito meio distraído no que dizia respeito a sentimentos. A sensibilidade dele para esse tipo de coisa não era lá muito apurada, mas precisava admitir que ele vinha se esforçando para fazê-la feliz. E conseguiria fazer isso melhor que ninguém, mesmo que não se esforçasse. Gostava de Ron exatamente como ele era. A perfeição morava no imperfeito.

Ginny continuava falando, empolgada com o assunto:

- Mas nem sempre fazemos aqui. Às vezes vamos ao apartamento que foi de Sirius, e que Harry está reformando. Lá está meio bagunçado ainda, mas tem um colchão, e isso é tudo o que precisamos, quando precisamos. Na verdade, o colchão chegou faz pouco tempo e... Mione! Eu estou aqui falando de mim, mas... E você? Você e meu irmão, como estão?

Hermione se deixou deitar novamente na cama, apoiando a cabeça no travesseiro e suspirando. Não estavam. Esse era o problema. Nunca estavam sozinhos, como poderiam estar alguma coisa? O máximo que Ron havia feito fora descer um pouco a mão enquanto beijava seu pescoço no corredor que levava ao banheiro do Cabeça de Javali. O bar havia sido inteiramente reformado, apesar do cheiro característico de bode ainda predominar por sobre o aroma das bebidas e comidas, e eles costumavam freqüentá-lo quando iam a Hogsmead, principalmente por conta de Aberforth Dumbledore.

- Acho que eu e Ron não somos tão corajosos quanto você e Harry. Ao menos, não para essas coisas...

- Como assim? – Ginny parecia alarmada.

- É, assim mesmo, Ginny. E isso está começando a me preocupar. Hoje à tarde, no piquenique, eu tentei enumerar os momentos que passei com Ron. Nós nunca conseguimos ficar sozinhos de verdade. Sempre estamos com meus pais, ou com os seus, ou mesmo rodeados de amigos. Não me entenda mal, por favor, eu adoro a companhia de vocês, mas parece que... Parece que...

- Falta algo no relacionamento de vocês – ela completou, assumindo uma expressão que Hermione reconhecia de si própria quando encontrava a chave para um enigma. – Eu sei como é...

Hermione fechou os olhos e suspirou mais uma vez. Sabia que não teria coragem de entrar no quarto de Ron na calada da noite e seduzi-lo, e acreditava que, mesmo que ele o fizesse, não conseguiria relaxar. Não ali, na Toca entupida de gente. Tinha que ser em outro lugar.

- Eu acho que tenho uma idéia... – Ginny falou, como se subitamente uma lâmpada se tivesse acendido em meio à escuridão. - Uma idéia fantástica, Mione! Fantástica!


- Vocêeminhairmãjátransaram?

Harry quase engasgou com a própria saliva, e imediatamente tateou a cabeceira da cama em busca de seus óculos. Derrubou meia dúzia de cartas de um snap explosivo e algumas meias de Ron antes de achá-los. Após colocá-los no rosto, levantou-se para encarar Ron, que enxergava apenas parcialmente por causa da escuridão do quarto. Pegou a varinha, então.

- Lumus! – murmurou ele, apenas para constatar o que já tinha certeza: as orelhas de Ron estavam quase tão vermelhas quanto os próprios cabelos, uma característica quase única dos Weasley. Era a cor que Harry conhecia tão bem, em todas as nuances, de perto e de longe, por todos os ângulos. Era óbvio que ele e Ginny já haviam transado, o que Ron esperava afinal? Mas será que ele... Será que Hermione...? Harry assumiu a defensiva:Por que você está me perguntando isso?

Ron se endireitou no colchão e passou a mão pelos cabelos, que quase lhe caíam sobre os olhos. Precisava cortá-los, mas Hermione gostava deles assim, mais compridos, meio bagunçados, e ele acabava deixando que ficassem maiores para satisfazê-la. Tinha muito medo de perdê-la, de ir rápido demais, devagar demais, de acordar um dia pela manhã e descobrir que ela não o queria, que tinha ido embora e preferido um trouxa e dentista qualquer, mais bonito, mais esperto, mais sensível que ele, que soubesse dirigir e usar um celular, e do qual os pais dela se orgulhassem. Hermione era a razão de sua existência, e se perdesse a garota, então não saberia mais onde colocar os pés no chão.

- Não pense que eu exatamente vou gostar de ouvir a resposta – começou o ruivo, totalmente hesitante. – Afinal, ela é minha irmã, cara, e saber que você está... hã... fazendoAquela-Coisa-Que-Você-Sabe-o-que-é com a minha irmã definitivamente não é algo legal.

- Se você realmente pretende ter essa conversa comigo, saiba que não está ajudando em nada, Ron – falou Harry, cruzando os braços diante do corpo. – Cheguei a pensar que você falaria alguma coisa de Voldemort! Pensa pelo lado bom, pelo menos sou eu, seu amigo de infância. Poderia ser muito pior, podia ser o Malfoy, por exemplo.

Ron socou o travesseiro e Harry deu um pulo na cama. Os óculos escorregaram de seu rosto e caíram diretamente no chão, partindo-se ao meio.

- Accio! Reparo!– falou o moreno, examinando o resultado do feitiço. – Acho que logo vou ter que comprar um par de óculos novos. Estes já estão ficando desgastados de tanto eu consertar.

- Não mude de assunto! – vociferou Ron, encarando o amigo.

- Ei! Calma lá – Harry começou, ainda na defensiva. – Quem quis conversar sobre isso foi você, e eu ainda não entendi o motivo.

Harry o encarava, esperando que Ron dissesse alguma coisa. Não era mestre em falar de sentimentos, pelo contrário. Porém, o ruivo apenas enfiou o rosto entre os travesseiros e murmurou, com a voz abafada:

- Eu sou um perdedor, Harry! Mate-me e acabe logo com isso!

- Você está maluco? Comeu bosta de dragão no jantar, foi? – Harry levantou da cama de armar e se jogou sobre o colchão de Ron, arrancando o amigo do meio dos travesseiros para encará-lo. – Vai me dizer o que está acontecendo ou vai preferir que eu leia a sua mente?

- Sorte a minha que você nunca aprendeu nem Oclumência, quanto mais Legilimência – falou Ron, por fim, a voz desanimada e os ombros ligeiramente caídos, enquanto pousava os olhos muitos azuis sobre os verdes de Harry. – Eu não sei, Harry. A Mione anda meio esquisita, sabe?

- Esquisita como? – perguntou o moreno, procurando encorajar o amigo.

- Esquisita – repetiu Ron, como se a palavra não necessitasse de explicações ou complementos. No entanto, era óbvio que Harry não havia entendido e ficou esperando o que viria a seguir em silêncio, sem querer – nem saber como - forçar o constrangido amigo. Por fim, Ron baixou a cabeça e disse: - Acho que ela não quer mais me beijar, cara.

Harry ficou boquiaberto. Não estava entendendo mais nada. Como assim, Hermione não queria beijar Ron? Desde que entendeu o que era amor e essas coisas, Harry tinha certeza de que os dois acabariam juntos. Chegara a sonhar, certa vez, com Hermione vestida de noiva, e um Ron absolutamente nervoso e desastrado esperando-a no altar. Controlou-se para não rir porque, no sonho, Ron derrubava a toalha da mesa do mestre-de-cerimônias ao se ajoelhar e causava uma grande confusão. Fingindo um bocejo para disfarçar a expressão, Harry continuou:

- Olha, eu acho que você está enganado. A Hermione gosta de você, Ron, eu sei disso melhor que ninguém. Bom, talvez só não melhor que ela mesma, talvez a Ginny, e...

- Tudo bem, eu entendi – Ron interrompeu, angustiado. – Mas é que eu andei percebendo que, todas as vezes que tento beijá-la de um jeito mais intenso, ou mesmo fazer um carinho mais ousado, ela simplesmente se retrai. Isso aconteceu hoje de manhã, no piquenique, Harry! Eu tentei beijá-la e ela não retribuiu, ficou tentando me empurrar com as mãos. E depois não despregava os olhos de você e da Ginny enquanto... enquanto você ficava beijando o pescoço da minha irmã, com essas mãos nas pernas dela como se fosse um grindylow cheio de tentáculos!

As últimas palavras foram ditas entre dentes, mostrando que, independentemente de qualquer conversa e da amizade eterna que nutria por Harry, Ron ainda considerava Ginny a sua pequena irmãzinha caçula e precisava protegê-la. Por outro lado, era quase inadmissível que, novamente, a irmã mais nova estivesse vivendo as experiências antes dele. Foi assim com o primeiro beijo, o primeiro namoro e, pelo visto, seria com todo o resto, o que deixava Ron à beira de um ataque de nervos, sentindo-se um completo inútil, e quase dando razão a Hermione sobre sua amplitude emocional de colherinha de chá.

Enquanto Ron travava uma batalha interna com suas dúvidas e a forma como colocá-las para fora sem ter que saber detalhes íntimos da vida de sua irmã, Harry tentava articular as palavras que diria a seguir. Seu cérebro trabalhava fervorosamente. Ron era seu melhor amigo, sim, mas precisava tomar cuidado com tudo o que dissesse respeito a Ginny. Antes de serem amigos, eram cunhados, e isso definitivamente não lhe dava coragem para contar como realmente andavam as coisas entre eles. Afinal, quente seria pouco para definir o namoro.

- Talvez seja legal você tentar ficar um pouco sozinho com ela – falou Harry, por fim, depois de uma pausa em que apenas observou o olhar tristonho do amigo. – Quem sabe não seja apenas vergonha?

- Você andou lendo que eu sei, Harry, eu dei um exemplar de presente para você – exclamou Ron, subitamente se levantando e caminhando até a escrivaninha apinhada de papéis, livros de Hogwarts com as capas caindo e penas velhas. Começou a fuçar por cima do móvel, acordando Pitchitinho, que piou empolgado como se já fosse manhã. Por fim, Ron encontrou o que procurava: o pequeno exemplar de 12 maneiras seguras de encantar bruxas, a capa roxa com um bruxo sorridente que lembrava a Harry o professor Lockhart.

- Sim, eu li algumas partes do livro – respondeu ele, que na verdade havia apenas folheado o seu exemplar. Porém, Ron parecia ter decorado cada página, e pelo estado em que o livro se encontrava, talvez o manuseasse várias vezes ao dia. Havia marcas de dedos pelo verniz da capa e as pontas de algumas páginas estavam dobradas, como se ele pretendesse marcar determinados trechos. Harry não foi capaz de se conter: – Ron, se Hermione vir o que você fez com esse livro ela é bem capaz de te matar.

- Cara, a Mione nunca vai ver esse livro na vida! – ele falou, de repente, ligeiramente assustado. – Eu o esconderei para sempre, nem que precise enfeitiçá-lo ou levá-lo para outro país, já que não posso mais escondê-lo na Sala Precisa desde que ela foi consumida pelo incêndio. Bom, o que eu quero mesmo dizer é que, por mais que eu leia os conselhos de 12 maneiras seguras de encantar bruxas, e eu te digo que há conselhos valiosos sobre este assunto que estamos falando aqui, ainda não encontrei uma maneira de me livrar de cinco irmãos, duas cunhadas, duas corujas, dois pares de pais, uma turma de amigos e um gato laranja chamado Bichento. Harry, é impossível ficar sozinho com ela!

Harry franziu a testa. Talvez não fosse tão impossível assim. Talvez ele tivesse um plano. Só talvez...


N/A: Ahá! Harry e Ginny têm um plano? Oh, God! O que será que vem por aí?

Eu sou uma ficwritter má, muito má!

Mas eu prometi que não demorava, e não demorou. E o terceiro também vem logo, logo. Então, se você leu e gostou, deixe-me saber disso. As reviews são muito importantes para o autor e, como diz meu papis Rufus, podem causar dependência!

Beijos!