Tal como acontecia em Metropolis, a comunidade de Smallville havia se reunido em mutirão para a reconstrução do povoado com a ajuda do Superman, que alternava seus esforços para se fazer presente sempre entre as duas cidades, e quando sua ajuda era necessária em qualquer outra parte do globo. Agora, o herói que também ostentava o título de homem de aço se fazia notar em escala mundial, e desempenhava o papel de salvador em catástrofes de média e grande proporção. Mas era na pequena e desvanecida cidade do interior do Kansas e na megalópole ao noroeste dos Estados Unidos que sua aparição era mais frequente naqueles últimos dias. Assim, embora sua revelação ao mundo ainda fosse a grande novidade, era praticamente normal vê-lo cortar os céus de um lado a outro, ajudando a reerguer prédios e a retirar os escombros das ruas, enquanto o balanço geral de mortos e feridos nas duas cidades apontava números surpreendentemente ínfimos comparados à grande destruição causada, com baixas registradas apenas nas forças especiais militares.

Paralelamente, subsídios do governo e recursos fornecidos pela LexCorp e pela Wayne Enterprises também eram facilitadores para a reestruturação das duas cidades. Portanto, não era raro ver carros militares e caminhões com o logo da mega companhia instalada em Metropolis acampados por todas as ruas, mesmo na pequena cidade cujos eventos apocalípticos lá ocorridos a colocou no mapa.

Não longe dali, nos limítrofes de Smallville, especificamente na fazenda Kent, Martha observava, protegendo os olhos dos raios do sol do meio-dia, um grupo de estudantes do Smallville High que ajudava Ben Hubbard a terminar de reconstruir a fachada de sua casa. O serviço estava completo, quando o vizinho se aproximou, e disse:

«Acho que é isso. Não ficou exatamente como era, mas ao menos não está mais em escombros»

Martha sorriu. Hubbard não fazia a mínima ideia do estado deplorável que estava sua casa antes de Clark consertar o telhado e a estrutura principal em poucos instantes.

«Obrigada, Ben» devolveu ela.

«Vamos agora para a cidade, embora não haja mais muito o que fazer por lá. O Superman deu um jeito na parte mais pesada e voluntários de Granville estão trabalhando desde cedo» comentou.

Martha novamente sorriu, porém de orgulho.

«É uma ótima notícia» disse ela.

«É, quem diria!» disse ele. «Esse tal de Superman chegou em boa hora mesmo»

Martha arqueou as sobrancelhas, como se não compreendesse, ao que o simpático e prestativo vizinho completou:

«O mundo estava mesmo precisando de um pouco esperança no momento em que se encontra»

A viúva Kent consentiu com um suspiro e um sorriso, acenando com a cabeça.

Sem mais o que dizer, Ben sorriu e acenou para o grupo que o ajudava para que entrassem em seus carros a fim de seguirem para a cidade.

Martha os observou partir e desaparecer na estrada, e depois se virou para voltar para casa, quando Dusty, próximo a ela, começou a latir em direção à entrada da fazenda. O cão então correu, e Martha se virou para ver Clark se aproximar enquanto afagava o pescoço do pastor preto e branco que vinha saltitando ao seu lado.

«Clark!» exclamou ela, sorrindo, ao que o filho se aproximou e se inclinou para dar-lhe um beijo na face.

«Tenho acompanhado as notícias. Estou muito orgulhosa, filho» disse ela, com um sorriso.

Ele também sorriu, e se aproximou da varanda para ver o trabalho de Ben e sua equipe de voluntários.

«Vim para terminar de consertar a parte da frente, mas pelo visto não é mais necessário» disse.

Martha sorriu, e pegou-o pela mão.

«Ben e um grupo de estudantes do ginásio que fazem parte do mutirão estiveram aqui há pouco» explicou ela.

Clark sorriu, porém aborrecido com o fato de não conseguir fazer mais do que gostaria, mesmo em prol de sua própria mãe.

«Mas não perca tempo com sua velha mãe» devolveu ela ao perceber seu descontentamento. «Você já fez o bastante. Além do mais, há muito mais pessoas no mundo precisando do Superman»

Clark se virou para vê-la, e sorriu. A generosidade de sua mãe era inigualável, e não sabia como havia conseguido ficar dezesseis anos longe dela. Abraçou-a pelos ombros, e prometeu a si mesmo que seria um filho mais presente naquela nova fase que se inaugurava em sua vida.

«Não tive tempo ainda lhe dizer, mas fiz uma descoberta» disse ele, então, de súbito.

«É mesmo?» perguntou Martha, intrigada. «Alguma coisa relacionada a Zod?»

Clark arqueou as sobrancelhas, e se sentou na escadaria em frente à varanda:

«Bom, na verdade é um pouco mais complicado» revelou.

Apreensiva, Martha se sentou ao seu lado, sem tirar os olhos do filho.

«Talvez eu não seja o único kryptoniano na Terra»

Martha franziu a testa, e perguntou:

«Achei que Zod e seus soldados fossem os únicos sobreviventes de Krypton além de você»

«Parece que não» respondeu Clark. «A nave que encontrei no Ártico possui uma câmara com cinco casulos de hibernação»

«Sim, você me disse» lembrou Martha da conversa que tiveram quando do primeiro dia do seu retorno.

«Acontece que encontrei os corpos mumificados de apenas três membros da tripulação»

Martha arqueou as sobrancelhas, surpresa.

«Mas há como saber se havia mesmo cinco viajantes na nave?» perguntou.

«Os dois casulos vazios parecem ter sido ocupados» explicou Clark, considerando a hipótese de que não havia como realmente saber.

«Então, pode haver dois outros kryptonianos por ai?»

Clark suspirou, e desejou estar errado:

«Talvez mais»

«O que quer dizer?»

«Na nave, havia também uma câmara embrionária violada»

«Câmara embrionária?» repetiu Martha, confusa.

«Jor-El me disse que os kryptonianos não podiam mais se reproduzir de forma natural» disse, ao que Martha balançou a cabeça, lembrando do filho ter comentado a respeito em momento oportuno. "Sabendo que a civilização corria risco de extinção, acredito que a nave tinha objetivo exploratório com fins de colonização»

«Colonização? Na Terra?» perguntou Martha, horrorizada com tal possibilidade.

«Aparentemente» respondeu Clark. «Mas claro, são suposições. Eu não tenho como de fato descobrir o que aconteceu até encontrar provas mais contundentes»

«E Jor-El?» perguntou Martha. «Acha que ele pode ajudá-lo a descobrir alguma coisa?»

«A chave que me permita acesso ao sistema de inteligência artifical central foi enviada para a Zona Fantasma juntamente com a nave de Zod e seus soldados» respondeu ele. «Acredito que sem ela, não consigo mais contatar Jor-El na Fortaleza»

«Fortaleza?» inquiriu Martha, frisando a testa, confusa.

Clark sorriu e deu de ombros.

«É como penso chamar o lar do Superman»

«Mas você tem um lar. Aqui sempre será sua casa» devolveu a viúva Kent, com um sorriso.

«Refiro-me a Kal-El» corrigiu ele.

«Você sempre vai ser Clark Kent para mim» devolveu ela.

Clark sorriu e abraçou sua mãe.

«O que acha de darmos uma volta?»

Martha sorriu e assentiu. Sabia exatamente onde o filho queria ir.

«Vou pegar um casaco» respondeu.


Instantes depois, Clark caminhava com sua mãe apoiada em seu braço pelo cemitério de Smallville. Fazia mais de dezesseis anos que não o visitavam juntos. Ela sabia que o filho, vez ou outra, e nas suas andanças pelo mundo, estivera ali sem ela, mas juntos, depois de tanto tempo, era mais do que simbólico, ainda mais naquele momento. Ao aproximarem-se do túmulo de Jonathan, Martha disse:

«Ele sempre acreditou que você estava destinado a grandes feitos. Finalmense esse dia chegou, e você pode tirar dos ombros o peso que carregou por todos esses anos»

Frente ao monumento elevado à memória de Jonathan Kent, Clark cruzou os braços, e lembrou de cada momento de aflição de seu pai quando da iminência da descoberta por alguém a respeito do seu segredo, e todas as conversas que tiveram sobre seu futuro, principalmente de quando ele lhe revelou quem de fato era e o quanto deveria ser paciente até o momento em que pudesse finalmente se revelar ao mundo:

«Eu queria que ele estivesse aqui para ver»

Com as mãos cruzadas, olhando o nome do falecido marido entalhado na lápide, Martha respondeu:

«Ele viu Clark, acredite»

Tomada pela nostalgia, a viúva Kent se lembrou de um dia em específico, quando Clark era pequeno e corria pelo jardim dos fundos da fazenda com sua manta vermelha e Shelby em seu encalço. Jonathan consertava a caminhonete e ela pendurava as roupas lavadas no varal. Era um agradável início de tarde de domingo, e o aroma da carne cozida anunciava que o almoço estava quase pronto, e que ela deveria voltar para a cozinha para colocar a mesa. Passando por Jonathan em direção à casa, notou que o marido havia perdido a concentração em seus afazeres para prestar atenção em Clark. Parada agora ao seu lado, ela se virou para ver o filho com a manta amarrada ao pescoço, fingindo tratar-se de uma capa de super-herói. Ela sorriu, tocou o ombro do marido e voltou para a casa.

Martha olhou para o horizonte, e suspirou. Ela então se virou para Clark, e sabendo que ele não ficaria muito tempo por ali, ao menos até a cidade estar recuperada, perguntou:

«O que vai fazer quando não estiver salvando o mundo? Pensou em alguma coisa?»

Clark baixou os olhos, e sorriu.

«Para dizer a verdade, sim» respondeu.

Martha sorriu.

«Eu vou arrumar um trabalho» completou ele «Em um lugar onde eu possa ficar perto de onde as coisas acontecem, e onde as pessoas não prestam muito a atenção ao que acontece por perto quando eu precisar ir para longe ou enfrentar algo perigoso. Um lugar onde não me façam perguntas»

«Imagino que seja em Metropolis» devolveu Martha.

«Não estarei longe, e virei visitá-la sempre que puder»

A viúva Kent suspirou e sorriu.

«Quando não estiver ocupado com o mundo e com Lois Lane»

Clark frisou a testa, e sorriu, confuso.

Martha devolveu o gesto:

«Ora, achou que eu não percebi como fica quando ela está por perto?»

«É tão óbvio?» perguntou Clark, com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso que iluminava sua face.

«Não se preocupe, você sabe fingir muito bem»

Clark sorriu, agora um pouco constrangido com o fato de que sua mãe sabia dos sentimentos que nutria por Lois Lane, e balançou a cabeça para novamente olhar a lápide do túmulo de seu pai. Lembrou, então, de todos os momentos em que Jonathan o ensinou a conter sua raiva, por mais humilhante que fosse a situação na qual se encontrava e, mais importante ainda, a esconder seu segredo e fingir que era uma pessoa normal, usando seus poderes sem que ninguém jamais o visse, sacrificando-se a si próprio para protegê-lo. E como seu pai adotivo o ensinou a vida toda a proteger sua identidade, assim o continuaria.